quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Roda de Leitura de São Cristóvão: retrospectiva

Era uma vez um grupo de educadores que amavam a leitura, os livros, e queria formar leitores, incentivar leitura, divulgar e mostrar a obra de autores consagrados e também a sua produção – Assim começou a estória da Roda de Leitura de São Cristóvão que realizou seis edições em 2011. Basicamente, participaram como contadores: Rose Mary de Jesus Barros Barbosa, Diretora da Biblioteca Pública Municipal de São Cristóvão; Maria Gloria Santos, poetisa e Diretora da Casa do Folclore Zeca de Noberto; Eliene Marcelo Santos da Silva, pedagoga e Diretora do Posto de Informação Turística; Thiago Fragata, poeta, historiador e Diretor do Museu Histórico de Sergipe; Maria Rita Santos, poetisa e Diretora do Colégio Estadual Deputado Elísio Carmelo. Aglaé Fontes, Secretária Municipal de Cultura de São Cristóvão; Irineu, Secretário Municipal de Cultura de Laranjeiras; Irani, professora de Literatura e Português do Colégio Estadual Padre Gaspar Lourenço, Silene Lazarito, Diretora de Turismo de São Cristóvão, e Celestino Barros marcaram presença em algumas edições.

Segue cronologia, temas, textos da VI edição, além de imagens do projeto Roda de Leitura de São Cristóvão 2011.


18/4/2011 - I Roda de Leitura de São Cristóvão: Monteiro LobatoAconteceu na Biblioteca Pública Municipal Senador Lourival Baptista no dia do livro Infantil. Textos de Monteiro Lobato foram divulgados pelos contadores. A Secretária Municipal de Cultura de São Cristóvão, Aglaé Fontes, pesquisadora e escritora de renome na seara do folclore e da literatura infantil, coordenou os trabalhos.


24/8/2011 - II Roda de Leitura de São Cristóvão: José Calasans e a cachaça do folclore

Aconteceu no Museu Histórico de Sergipe e teve como convidado especial, Irineu Fontes, que é sobrinho de José Calasans e Secretário Municipal de Cultura de Laranjeiras. Textos de folcloristas Sílvio Romero, Manuel dos Passos, Clodomir Silva, foram trabalhados pelos contadores.

22/9/2011 - III Roda de Leitura de São Cristóvão:Mulheres de poesia

Foram selecionadas duas poesias de Carmelita Fontes, Núbia Marques, Cora Coralina, Roseane Murrat, Giselda Morais, Vesta Viana e Cecília Meireles, que foram interpretadas pelos contadores, na Biblioteca Pública Municipal Senador Lourival Baptista.

24/10/2011 - IV Roda de Leitura de São Cristóvão: Beco Pai Thomé

Aconteceu na Biblioteca Pública Municipal Senador Lourival Baptista. Os contadores selecionaram textos de livros e contos infantis e fizeram interpretações.

21/11/2011 - V Roda de Leitura de São Cristóvão: Zumbi dos Palmares

Desvelou trabalhos de Machado de Assis, Cruz e Souza, Severo D’Acelino, dentre outros. A roda que aconteceu na Biblioteca Pública Municipal Senador Lourival Baptista foi repetida no Museu Histórico de Sergipe.

27/12/2011 - VI Roda de Leitura de São Cristóvão: novos escritores

Aconteceu na Biblioteca Pública Municipal Senador Lourival Baptista e reuniu trabalhos inéditos de alunos do Colégio Estadual Padre Gaspar Lourenço (Wesla Rocha Leal, José Adriano dos Santos, David Santos D. de Carvalho, José Jamisson dos Santos, etc) e Colégio Estadual Deputado Elísio Carmelo (Monise Gabrielly) ainda textos de Carlos Augusto Brás (A Maldição de Obaluaiê) e de Eliene Marcelo da Silva (A rainha Sol e o beija-flor). Segue os textos:


O AMOR



José Jamisson dos Santos



Quantas pessoas vivem com amor ou procuram vivenciar este sentimento chamado amor; simples duplo, complicado ou vice-versa. As vezes é fácil falar sobre o amor, o mais difícil é corresponder a ele ou a pessoa que passamos a gostar. Amor palavra meiga e tão bela que diz tanto em tão pouco instante.


Ele é um algo inesperado do momento que não pede para entrar; entra e faz da nossa vida um elo de felicidade ou de complicação. Este algo inexplicável sensibiliza todos os seres por mais durões que ambos sejam. O amor correspondido completa o íntimo da alma e quando não, por si mesmo ou por outro(a) pessoa que na mente,fazendo chorar não só os olhos, mas também o coração.


O amor atinge a todo sentido, por isso devemos acreditar no amor pela primeira vez mesmo ainda não vivido, assim devemos abraçar aquele(es) que nos acalenta ou mesmo nos devora consumindo-nos por completo.


Quem não procura viver ou sentir o amor não, não o valor que tem, e quem procura (as vezes) sente sua falta por ainda não ter encontrado. O amor é um algo do destino, de repente alguém (pode) aparecer e faz você ou eu gostar deste(a) pessoa que quer entrar na sua ou na minha vida, e só cabe a vós a mim quem entra ou não, mas para o amor é diferente; eu já decidi: É você????


Há momentos na vida em que desejamos fechar ou esconder nossos sentimentos para o ótimo terrorista (que entra sem pedir por favor ou dá licença. (etc) ...invade. Eta! algo danado, queremos ou pensamos em deixá-lo quieto ou de fora, mas ele quando vem atinge toda mente sem sabermos como e o porquê. Ele tem força intensa que jamais ser algum pode detê-lo. Amor palavra (linda) sublime que diz tanto de uma vez só, algo que acredito que nenhum ser jamais poderá comprá-lo; mas sim faz e obriga a(nós) a(cada qual, cada um) senti-lo. É apenas um lembrete: O recado do amor é este; a felicidade do outro(a) pessoa depende primeiro da sua (pois) é deixe livre quem você gosta ou passou a amar, pois se esta ou este pessoa, alguém voltar é porque você o ou a conquistou...


Dizem que são fracos aqueles que escrevem sobre o amor ou aqueles(as) que se humilham por amor... mas talvez sejam valentes, porque se arriscam a escrever sobre ele em minutos de humilhação por vida de felicidade; a dois ou sozinho fisicamente...













SEM TÍTULO



José Adriano dos Santos



A sociedade adotou um conceito de que tudo que é bom está relacionado ao branco, e tudo que é ruim está relacionado ao negro.


O negro foi pouco aceito antigamente, e continua pouco aceito nos dias de hoje, onde o normal são os brancos na igreja e os negros no candomblé, branco na sala e o negro na cozinha, o povo branco não pode se misturar com o povo negro, atitude racista que o tempo ainda não levou.


O negro é tido comum bicho doente e contagioso que não pode se misturar com as pessoas de outra classe racial (o pior é que existem envergonhados pela sua cor, alisam e pintam os cabelos e até discriminam outros negros e se autodenominam quase brancos, morenos, pardos).


Atualmente as portas estão se abrindo para os negros, o negro quer ser igual a qualquer um nesse Brasil colorido, o negro quer passar de empregado a patrão,que o normal seja brancos e negros na igreja e no candomblé juntos, mas infelizmente ainda existem negros que não lutam pelos seus direitos, que não correm atrás de seus sonhos à fim de realizá-los, e se deixarem ser humilhados pelos brancos, na verdade o que importa não é a cor e sim o caráter da pessoa, o povo negro quer cultura negra.









ROLETA



David Santos D. Carvalho



Quero-te muito


Tanto que nem sei o quanto


Amo-te muito


Amor que só me trás pranto


e se o pranto é em vão derramado


e o amor não é correspondido


sobram um olhar molhado


e as dores de um coração partido











MAMA ÁFRICA


Wesla Rocha Leal




Arrancados de sua terra, negro sofria, negro apanhava, negro morria. Trazidos da África, obrigados a trabalhar debaixo da chibata não podiam reclamar. Em navios negreiros eram transportados, em fedidas senzalas trancafiados. Sentiram suas almas serem extraídas e aprisionadas em sua terra adorada. E o grito de liberdade ficou cativo na garganta. Sofreram calados, muitos morreram lutando. Negro nem dormindo descansava, acordado sonhava em um dia retornar á África.


Desde então o grito que estava preso na garganta tornou-se livre:


- Viva a liberdade! Abaixo a escravidão! Resultado, mais sangue negro derramado no chão. Negro não podia falar, não podia opinar, era obrigado a trabalhar. Mas de 120 anos após a tal da abolição.


Basta! Chega de humilhação.


Temos de respeitar a memória de nossos antepassados, cobrar indenização por 400 anos de serviços prestados, 400 anos de mortandade negra, 4 séculos de negro drama.


Então mama África chora por seus filhos perdidos. Por sua cultura perdida. Pelo caráter de um ser humano ser julgado pela cor de sua pele. E hoje negro pode falar, opinar, decidir e interagir porque somos uma mistura de povos unidos em um só povo que constitui esse país.


Temos que valorizar o sotaque negro que quando derramado encharcou o nosso solo e tornou fértil. Terra adorada Brasil.






UM AMOR ETERNO



Monise Gabrielly




Em quanto Fabrícia descansava depois de um dia cansativo, Jacob ficava olhando-a. Deitado ao teu lado diz coisas lindas em seu ouvido. Fabrícia não resistiu, então o beijou.


- Já te disse que te amo? – Pergunta Jacob, passando a mão por sua face.


- Hum... Um milhão de vezes!


- Te amo, te amo e sempre vou te amar. Sou capaz de morrer por você.


- Não fale isso. Não quero que você faça isso!


De repente Fabrícia mudou de humor. Não queria que Jacob morresse. Não queria viver sem ele. Saíram os dois para trabalhar. Fabrícia não queria se separar, mas precisava. Algo estava a incomodando. Será o medo de perdê-lo? Ao meio dia Jacob ligou para Fabrícia. Rapidamente Fabrícia atendeu:


- Oi, meu amor!


- Oi! Como você está?


- Só não estou melhor porque você não está ao meu lado. – Os dois sorriram.


- Está disponível no almoço? Quero te levar a um lugar.


- Pra você sempre estou disponível.


Dez minutos depois Jacob chegou ao escritório de Fabrícia para buscá-la. Almoçaram juntos e ainda pretendiam passar o fim do dia juntos. Jacob a levou ao parque. Fabrícia adorava esse ambiente. Gostava do verde, das árvores, dos casais românicos que passavam por ali. Sentaram em baixo de uma árvore. Ficaram olhando fixamente nos olhos.


- Você não tem que trabalhar hoje? Tem uma reunião muito importante. – Pergunta Fabrícia.


- Nada que eu possa resolver depois. Hoje só quero saber de você. – Jacob a beija.


Mais uma vez olhavam-se fixamente. As mãos tocavam-se. Fabrícia sentiu uma caixinha no bolso de Jacob. Imaginou se seria uma jóia para ela. Um anel. E quem sabe um anel de noivado? Jacob pegou a caixinha do bolso, abriu e perguntou:


- Quer casar comigo?


Fabrícia ficou quieta, mas não hesitou em dizer sim. Era tudo que ela queria. Casar-se com o Jacob. Queria ter filhos e netos. Mas ela queria mesmo era um amor eterno.


- Claro que quero! É tudo que eu mais quero.


Jacob gritou “te amo” bem alto no meio do parque, depois a beijou. Todos ficaram olhando. Era lindo ver um casal desses no parque. Ficaram falando do casamento futuro: Quando vai ser, onde vão passar a lua de mel. Jacob já havia marcado a data e já sabia onde iam passar a lua de mel.


- Vamos nos casar na próxima semana. Quero casar com você o mais rápido possível.


- Na próxima semana?


- Tem algum problema? Se tiver podemos nos casar... – Fabrícia o interrompeu.


- Não! Claro que não. Só achei que está muito cedo. Como vamos preparar tudo até a próxima semana?


- Já está tudo pronto. Deixa comigo! Vou te fazer a mulher mais feliz do mundo.


- Não precisa. Sabe por quê? Eu já sou a mulher mais feliz do mundo.


Mais uma vez beijaram-se. As pessoas continuavam a olhar. O tempo passou muito rápido. Já eram 18 horas. Antes de voltarem para casa, Jacob a levou para dar uma volta na praia. Era mais um lugar que ela adorava. Ficaram correndo um atrás do outro. Jogando água. Pareciam dois adolescentes. De repente Fabrícia desmaia na areia da praia. Jacob vê seu mundo cair. No hospital fica sem saber o que fazer para ajudá-la. Não tinha noticias. Só sabia que sua vida não seria a mesma sem ela. Faltaria uma parte do seu coração. Um médico saiu da sala de cirurgia. Imediatamente Jacob perguntou:


- Doutor, Como ela está? Ela vai ficar bem? O que está acontecendo?


- Calma! Você não pode ficar assim. Do jeito que está não poderá ajudá-la em nada.


- Desculpa! Prometo me acalma. Ela vai ficar bem?


- Olha, ela está correndo sérios riscos de vida. Sinto lhe informar, mas ela tem poucos dias de vida.


Jacob cai de joelhos. Não conseguiu levantar-se. Ficou pensando no dia lindo que tiveram, e agora só tem angustia e dor. Dois dias passaram-se. Jacob estava a sua espera, pronto para levá-la para casa. Quando a viu sorrindo para ele, percebeu que o universo se abriu. Que tudo iria voltar ao normal. Com cuidado a beijou e deu um abraço bem apertado.


- Pensei que você não viria me buscar.


- Claro que não. Nunca iria te deixar sozinha.


- Sei que tenho poucos dias de vida. Eu aceito se você me deixar. Você não será feliz comigo.


- Fala enquanto afasta-se dele.


- Meu amor, eu te amo. Quero casar com você.


- Casar comigo? Eu vou morrer! Você precisa seguir a sua vida.


- Minha vida é você. O que adianta o amor sem você?


Jacob remarcou o dia do casamento. Iam se casar imediatamente. Fabrícia escolhia o vestido de casamento. Era longo, branco. Fabrícia estava linda. A música que tocava em quanto entrava na igreja era sua preferida. Jacob olhava fixamente para ela. Seu vestido chamou muita atenção. Era o mais bonito que já tinham visto. O padre deu início ao casamento. Faltava apenas uma frase para estarem casados.


- Sim! Eu aceito, até que... A morte nos separe. – Responde Fabrícia.


Assim que terminou de dizer “sim”, Fabrícia caiu no chão. Seu corpo estava sobre o de Jacob. Jacob gritava seu nome como se fosse uma criança! A fez feliz até que a morte pudesse separá-los.








A MALDIÇÃO DE OBALUAIÊ





Carlos Augusto Brás



Anoitecia em Laranjeiras, e logo o badalar do sino anunciaria a hora da Ave Maria, quando então o frescor daquela tarde primaveril daria lugar ao sereno acolhedor, um convite à oração e ao sono tranquilo, que sempre chegava após o café com bolachas e cuscuz. Nessa terra de gente pacata ordeira e religiosa, habituada a dormir com as galinhas e acordar com os galos, o cheiro doce de cabaú pairava no ar impregnando como uma marca a tudo e a todos.


Eis que um raio repentino, seguido do roncar de trovões a todos assusta, e as nuvens rosadas que fugiam aos poucos no horizonte, cedem lugar a poderosos blocos de chumbo carregados de chuva, ameaçando cair violentamente a qualquer instante. Algo de incomum acontecia, já que não era tempo de trovoadas, o que levou as mães esbaforidas e aflitas a correrem aqui e acolá em busca dos seus rebentos, recolhendo-os aos berros para dentro dos seus lares, enquanto os feirantes desarmavam suas barracas e as lojas cerravam as portas.


Aos poucos a luz natural deu lugar às trevas e redemoinhos de ventos precederam grossos pingos d’água, todavia, surpreendentemente, o dilúvio esperado não aconteceu. Em seu lugar, um silencio medonho e angustiante o bastante, para levarem as beatas à matriz do Sagrado Coração de Jesus, em busca de proteção divina.


Enquanto isso, em uma casa de pau a pique da Comandoroba, mãe Aninha, a lôxa da nação Nagô, exalava seu último suspiro de vida, e a mãe natureza, domínio absoluto dos orixás, revelava o ocorrido através dos seus incontáveis poderes.


A funesta notícia logo se espalhou por todos os cantos, e aqueles que haviam procurado abrigo no interior da igreja, iniciaram um sem fim de Padres-Nossos e Salve Rainhas, tendo à frente o Padre Francesco Donatelli, pároco local, cuidadoso ao extremo com as ovelhas do seu rebanho.


Italiano de nascença, inimigo declarado do povo de santo, Donatelli transportava uma aura de mistério em seu entorno. Homem, extremamente culto e de padrões morais rígidos, idolatrado pela população pobre e defenestrado pelos barões da cana de açúcar, prepotentes e pecadores habituais. Seu perfil de líder nato, a retórica e admirável eloquência no púlpito atraía católicos de outras paróquias, e durante os sermões, cada ouvinte sentia-se como se fosse o alvo daquelas palavras, e o peso da mão de Deus onipotente sobre suas cabeças tornava-se real, enquanto miravam estáticos aquele semblante austero, imagem fiel da verdade e sabedoria.


Sendo assim, horas e horas entregues às incontáveis ladainhas, antes de serem licenciados para voltarem às suas casas, onde continuariam a cumprir tarefas religiosas, proibidos de saírem ás ruas até o final do enterro da velha macumbeira, sendo o fogo do inferno o caminho sem retorno para os desobedientes.


O funeral da mãe de santo foi algo que os moradores daquele pedaço de mundo jamais esquecerão. À frente do cortejo, o corpo da anciã repousava sobre um carro de bois, acompanhado por pessoas vindas de toda a redondeza, iniciadas ou não, todas vestidas imaculadamente de branco, pés descalços trilhando por entre as ruelas cobertas de lama, entoando cânticos em dialetos iorubás.


Aos poucos, suas vestes eram lambuzadas pelo pretume vindo do chão, fazendo o séquito ainda mais impressionante, deixando emudecidos os que espreitavam por entre combrogós encortinados e orifícios de fechaduras, que depositaram em suas memórias aquelas imagens convertidas em lendas, que foram passadas de boca em boca durante muitos anos, nas casas de farinha, nos canaviais e nos mercados.


Ao enterro, seguiram-se sete dias de rituais, com os ogãs arrancando gemidos dos seus atabaques pela noite adentro, despertando a ira dos desafetos, alimentando ódios e vinganças e deixando o reverendo insone e transtornado, no cubículo que lhe servia de quarto.


Enfim o domingo chegou com ar de serenidade, com o dobrar solene dos sinos intimando os cidadãos a comparecerem à missa. A fila em frente ao confessionário prometia ser extensa, e o assunto, murmurado à meia boca, ainda era os fatos ocorridos na fatídica semana. Logo eles saberiam que o pesadelo não acabara.


Um grito estridente vindo da entrada lateral do oitão do santuário fez com que todos corressem naquela direção e dessem de cara com a beata Maria do Céu desfalecida frente a um ebó descomunal, composto de cabeças de bode, charutos, farofa de dendê, galinha preta e garrafas de cachaça. As faces crispadas atestavam nojo e medo, e o alarido logo trouxe à cena o padre Donatelli, que de imediato se tornou senhor da situação, dominando os aflitos com sua autoridade.


Louvando o nome de Deus que derrotava todos os seus inimigos, aspergiu água benta sobre o feitiço, e surpreendentemente com as próprias mãos, sob o olhar aterrado de todos, colocou tudo em um caixote que surgiu não se sabe de onde, atravessou a praça, deixando a carga sinistra num monte de entulho que ali aguardava coleta.


De volta ao burburinho, convocou de imediato prefeito e delegado, dos quais solicitou que as medidas cabíveis ao caso fossem tomadas de imediato, após o que, vociferou ordenando que todos adentrassem ao templo, onde, acalmados ânimos, deu inicio ao culto dominical.


As autoridades cumpriram à risca seus papéis, e mesmo com todos que se encontravam no terreiro negando a autoria do despacho, a casa de Abuluaiê foi invadida, seus objetos litúrgicos destruídos e ridicularizados, xanxerês queimados, iaôs surradas, atabaques destruídos junto com coroas, aguidares, agogôs e imagens, tudo foi deixado em pedaços. Tonho de Omulú e seus seguidores, foram convidados a deixar a cidade apenas com as roupas do corpo e á pé, o que fizeram sem hesitar, diante de iminente risco de vida, sob o olhar vigilante de meganhas armados que os acompanharam até os limites municipais. Enquanto isso, lá na matriz, o pároco sorvia o sangue de Cristo e repartia o pão, pregando o perdão e o amor entre os homens de boa vontade. A fumaça advinda do fogaréu aceso na mata sagrada dos nagôs misturava-se com o incenso dos turíbulos e o odor de cera queimada. Os raios de sol, adentrando pelos vitrais coloridos, atravessavam a nave central do templo, dando a certeza de que Deus estava presente naquele momento.


Dessa forma os ritos africanos foram banidos de Laranjeiras, e o Terreiro Filhos de Omulú transformou-se em mito, com seus adeptos mudando-se para outras plagas onde resistiram culturalmente nas periferias e guetos.


Aproximava-se a época do olubajé, o banquete ritual oferecido a Obaluaiê, o senhor da terra, orixá temido e misterioso em suas vestes feitas com palha da costa, que esconde quase todo o seu corpo, soberano dos males e das curas. Pelas ruas de Aracaju os devotos carregavam cestos repletos de pipocas, que ofereciam aos passantes em troca de donativos que seriam usados na organização da festa.


Tonho de Omulú era um deles, e com seus noventa e tantos anos era respeitado por todos da casa do Babalorixá Genaro do Porto D’Antas. Cumpria sua obrigação sentado num banquinho forrado com camurça, no pescoço um vistoso colar de fios compostos de contas pretas e brancas, e preparava-se para ir embora, quando uma voz trêmula e vacilante perguntou-lhe como chegar à Igreja São Pedro Pescador, que era ali próximo, para os lados do Bairro Industrial.


Omulú reconheceu o sotaque italiano do algoz do seu povo, mas não se alterou, e levantando a cabeça defrontou-se com uma figura esquelética e carcomida, envolta numa batina cujo capuz realçava aqueles gélidos olhos azuis, que tantos calafrios causara aos fiéis laranjeirenses. Agora eles apenas transmitiam tristeza e uma fragilidade interior imensa, encovados no rosto excessivamente enrugado e com marcas de varíola. Apontou-lhe a direção do mosteiro e em seguida ofereceu-lhe o ultimo saco de pipoca que lhe restava. Francesco virou-lhe as costas sem nada dizer e ambos seguiram seus caminhos em direções opostas.


Laranjeiras, apesar de possuir um invejável patrimônio arquitetônico barroco e belezas naturais, não atrai turistas, sendo considerada uma cidade em decadência, e o seu solo depauperado por centenas de anos de monocultura intensa, continua a sugar o suor dos pobres e a encher os bolsos dos ricos. Décadas atrás, surtos de cólera ceifaram centenas de vidas sem distinção de classe social.


Sua população é majoritariamente afrodescendente e o culto aos orixás é amplamente aceito.


A Rainha Sol e o Beija-Flor

Eliene Marcelo Santos da Silva

Era uma vez um beija-flor que queria ser um homem. Tal desejo foi despertado nele porque todas as manhãs ia beber água de uma flor muito especial, localizada no Jardim dos Sonhos. Lá havia uma cascata que servia de chuveiro para uma linda deusa africana chamada Sol.

Diariamente o beija-flor ia lá beber água e contemplar a beleza de Sol. “Ah, como Sol era linda”! Sol era o que Deus havia colocado como a mais graciosa das criaturas e todos os beija-flores queriam vê-la.

Então, em um belo dia, o beija-flor apaixonado pediu ao gnomo dos beija-flores que o transformasse em homem para que ele pudesse conquistar a deusa Sol. E o seu pedido foi concedido! Gustavo, como ficou batizado, era um homem belo e simpático, mais tinha um defeito: era mentiroso. Mas o rei dos gnomos lhe avisou: “se mentires Gustavo, retornará a condição de beija-flor”. Gustavo, muito preocupado em satisfazer o desejo de conhecer Sol, foi ao encontro dela, aparecendo sorrateiramente em seu jardim, enquanto ela se banhava. E a rainha Sol, pressentindo a presença do beija-flor, vestiu-se e retirou-se do local. Gustavo se entristeceu e pensou: “como irei aproximar-me dessa deusa”?

Gustavo bolou um plano. Inventaria que era um pretendente para Sol e a desposaria. Plano elaborado, execução à porta. A rainha Sol iria dar um baile em seu palácio e mandou que convidassem todos os rapazes da vizinhança, para que ela pudesse escolher o seu rei, e assim foi feito.

Chegado o dia do baile, Sol estava mais radiante que nunca e inevitavelmente, assim que ela adentrou no salão do baile, todos ficaram maravilhados. E ela então disse: “ficarei com aquele que for capaz de me amar incondicionalmente, aquele que seja incapaz de me trair, pois traição é algo que não tolero”.

E assim decorreu o baile, Sol diante de tantos pretendentes escolheu quem? Exatamente o beija-flor, criatura viciada em flores, não tendo paradeiro definido e, assim, Sol se apaixonou e se tornou a Rainha Sol, esposa do beija-flor, mas de vez em quando ela se aborrecia com ele e dizia: “tu não és digno da minha companhia, porque passa tanto tempo ausente que terei de substituí-lo por outro rei”. E assim foi feito! Sol abandonou o beija-flor e este desgostoso foi se queixar ao gnomo e o mesmo lhe disse: “tá vendo Gustavo, você não foi leal à tua rainha e foi destronado. Bem feito, eu lhe avisei que deverias ter cuidado com esse teu jeito sedutor e desordeiro, porque agora vais pagar com a vida o mal causado”- esta seria a sentença dada a Gustavo, mas a rainha Sol arrependeu-se do que havia dito e... Mandou que trouxessem Gustavo a sua presença e indagou-lhe: “por que fizestes isso? E ele respondeu: “por que tenho natureza de beija-flor e não sei viver em uma só parada”. Então, falou a rainha Sol: “vais embora e não volte nunca mais, porque em meu reino, pessoas como você são indignas de está em minha presença”. E assim foi feito!

Beija-flor retirou-se e foi viver excluído dos outros beija-flores. Foi quando apareceu o gnomo e lhe disse: “está doido? Vai curtir tuas flores! E ele respondeu: “nada, a única flor que quero me despreza e já não tenho ânimo para nada”. O gnomo respondeu: “então vai e reconquista a tua flor, porque ela nasceu para ti”. E lá foi ele! Começou a estar presente no jardim sempre pousado a contemplar a rainha no momento em que esta se banhava. Há quão grande era a beleza de Sol... A rainha começou a notar a presença daquele beija-flor sempre nos momentos em que se banhava. E desejou querer vê-lo sempre, pois a presença dele em seu jardim muito lhe agradava. E então mandou que trouxessem água açucarada em uma terrina e dispusessem entre as flores para que o beija-flor dessas flores experimentando, ficasse ali. E foi o que aconteceu. O beija- flor não deixou de ser beija-flor. A rainha não deixou de ser feliz, com o seu novo rei. E a vida foi seguindo o seu rumo. Com cada um cumprindo seu papel.

Moral da história: não devemos querer ser o que não somos e muito menos transformar o outro em algo que ele não pode ser.


David Santos, aluno do C.E. Padre Gaspar Lourenço, lê sua poesia "Roleta", na VI Roda


Instantâneo da VI Roda de Leitura: Novos Escritores


Caso Machado de Assis e a CEF foi explorado na V Roda de Leitura


Irineu Fontes, sobrinho de José Calasans, lembra causos do tio


Maria Rita Santos interpreta na III Roda de Leitura: mulheres de poesia


Instantâneo da II Roda de Leitura: Mestre Calasans e a cachaça do folclore


Contadoras: Rose Bonfim, Eliene Marcelo, Irani e Maria Glória, na III Roda



Thiago Fragata apresenta o folclore da cachaça, de José Calasans, na II Roda

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário sobre essa matéria.