segunda-feira, 26 de agosto de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (última parte)*

Augusto Leal Garcez, São Cristóvão/SE . Foto: Samuel Albuquerque, 2013


Samuel Albuquerque**

À medida que a periferia de São Cristóvão vai ficando para trás e, deixando a longa Avenida Irineu Neris, seguimos pela Estrada de Rita Cacete, a paisagem se torna mais agradável, graças, sobretudo, a natureza que se reestabelece na vasta planície.

Coqueirais do lado direito, brejos e mangues do lado esquerdo da estrada “desanuviam” o nosso olhar, que se surpreende com a mansidão e a estreiteza do Rio Miranda. Seu curso encontra e passa sob o asfalto no quilômetro 1,4 da rodovia e em nada lembra o majestoso tributário do Vaza-Barris que se avista do alto da Ladeira do Porto da Banca, em São Cristóvão. Felizmente, suas águas parecem estar livres da poluição que encontrará mais adiante, quando alcançam a Barra da Cidade.

Em seguida passamos pelo povoado Colônia Miranda, lugar de pessoas simples e muito receptivas. O que notabiliza a paisagem do lugar é o “falso histórico” da igreja e casa da Paróquia Menino Deus, localizadas no largo que é acessado através da via que encontra a SE-466 em seu quilômetro 2,1 (lado direito).

A paróquia foi desmembrada da de Nossa Senhora da Vitória há poucos anos e as edificações que constituem sua sede também são recentes. Contudo, quem as projetou teve como referência a arquitetura religiosa de estilo colonial. O projeto foi executado com certo capricho, botando abaixo o secular nicho que ali existia. Nesse sentido, Serafim Santiago informa que, em fins do século XIX, nos meses de maio, eram realizadas missas solenes nos “nichos dos lugares seguintes: Miranda, Rita Cacete ou Pedrinhas, Pedreiras, Ilha Grande e outros.” (Santiago, 2009, p. 233).

Da Colônia Miranda à Fazenda Rio Comprido chegamos, como se diz, “em um pulo”. Na verdade, um pulo relativamente amplo, de aproximadamente 1,5 quilômetros. Nesse meio tempo, o que mais chama nossa atenção é a extensa planície do Rio Comprido, tomada por verdes pastos e coqueirais.

Na sede da fazenda, somos muito bem recebidos pelo casal Augusto Leal Garcez e Antonieta Cardoso Fontes Garcez, seus atuais proprietários. Uma recepção calorosa e convidativa ao retorno.

Em 1910, quando a fazenda foi adquirida por Álvaro Sobral Garcez, pai do atual proprietário, as atividades açucareiras já haviam dado espaço à pecuária.  Do antigo engenho restou parte da antiga fábrica de açúcar e das senzalas, que hoje servem, respectivamente, de curral e residências de trabalhadores. A “casa de vivenda” passou por sucessivas reformas e foi completamente desfigurada.

A suinocultura é a principal atividade econômica da propriedade, mas por lá também se produz coco e cana de açúcar. As águas do Rio Comprido mantiveram sua boa qualidade e contribuem para o abastecimento da cidade de São Cristóvão. No geral, restou uma pálida lembrança do faustoso engenho de outrora. Mas, ainda assim, somos surpreendidos pelos vestígios do passado sergipano que ali jazem.

A mata densa, no cume de um outeiro ao norte da sede da fazenda, esconde as ruínas do que foi, segundo os relatos, um majestoso templo jesuítico. Trata-se da lendária Capela Nossa Senhora do Desterro.

O senhor Augusto está sempre disposto a conduzir os visitantes ao local, de onde se tem uma vista impagável e os olhos alcançam a cidade de São Cristóvão, o estuário do Vaza-Barris e, na outra margem desse rio, a sede da Fazenda Colégio (Itaporanga d’Ajuda), que abriga o antigo colégio jesuíta e a vistosa capela que, no século XIX, era consagrada à Nossa Senhora da Graça.

Inspirado, o cicerone dá voz às lendas que envolvem boa parte dos templos jesuíticos. Túneis subterrâneos que seguiam até as bordas do Rio Comprido, tesouros escondidos e outras estórias preservadas em um dos recantos do Brasil por onde os inacianos passaram e deixaram seu legado.

Ao observar o que restou da capela, difícil é não recordar a descrição feita por Serafim Santiago de outro memorável templo jesuítico daquele município. A capela erguida no “retiro majestoso e poético” que era a colina de São Gonçalo, bem próximo à cidade de São Cristóvão, foi assim descrita: “(...) uma ruína única, onde as aroeiras crescendo vorazes por entre as fendas da sólida argamassa dividem as paredes e arcadas em ímpios lascoes (...). Vagarosamente suas amarrações se vão afrouxando à força vegetativa mais poderosa, pois por entre suas urdiduras esponta, alastrando-se e dilatando, esgalhos nutridos e fortes, o mato inclemente e vicioso” (Santiago, 2009, p. 75). Registrando suas memórias na década de 1920, Santiago arrematou a questão ao registrar que, “no alto do Desterro”, estavam as ruínas de outra capela jesuítica “nas mesmas condições de S. Gonçalo em São Cristóvão” (Santiago, 2009, p. 135).

O caso do Rio Comprido explica uma questão que intriga alguns estudiosos da arquitetura do açúcar no Brasil. Refiro-me a longa distância entre a capela e a casa-grande em alguns engenhos. Ocorre que, quando as propriedades rurais que haviam pertencido a ordens religiosas eram adquiridas pelos “empreendedores do açúcar”, esses optavam por “descer” para os terraços próximos às margens dos rios, onde erguiam novas sedes para suas propriedades.

Vizinho próximo ao Rio Comprido, o Itaperoá também contava com uma capela erguida, imponente, sobre uma colina, enquanto a sede do engenho ficava no terraço próximo a uma agigantada várzea tomada pelos canaviais e cortada por ribeiros que seguiam ao encontro do Vaza-Barris. A regra era: mira-se, ao longe, a casa de Deus e guarda-se, bem de perto, o ouro branco dos engenhos.

De São Cristóvão ao Rio Comprido, mantive contato com um bem de valor imensurável. Por isso não poderia encerrar essa série de artigos sem registrar os meus agradecimentos aos cristovenses (naturais ou adotivos) que encontrei pelo caminho e que, generosamente, partilharam comigo suas memórias e saberes, enriquecendo-me enquanto historiador e ser humano. Dessa forma, sou grato aos funcionários do Museu de Arte Sacra de São Cristóvão, na pessoa da pedagoga Denize Santiago da Silva; aos colegas da Casa do IPHAN em São Cristóvão, na pessoa da professora Kleckstane Farias e Silva Lucena; aos colaboradores da Paróquia Nossa Senhora da Vitória, nas pessoas de Luiz Alexsandro de Assis e Alexnaldo dos Santos Nere; aos moradores do povoado Colônia Miranda, na família do estudante de engenharia Samuel dos Santos Silveira; aos moradores da fazenda Rio Comprido, na pessoa do proprietário Augusto Leal Garcez; ao historiador Thiago Fragata, diretor do Museu Histórico de Sergipe, amigo e interlocutor; e ao tecnólogo em Gestão de Turismo Cleverton Costa Silva. Finalmente, agradeço aos professores Marilene Araújo de Barros (minha mãe), Magno Francisco de Jesus Santos e Ane Luise da Silva Mecenas Santos. Eles estiveram comigo nas idas e vindas a São Cristóvão e, além de agradáveis, foram pacientes companheiros de viagem.

Aos leitores do JORNAL DA CIDADE, agradeço e registro uma pausa em nossa viagem, antes de retomá-la e seguir rumo a outros engenhos, povoados, vilas e cidades do Sergipe oitocentista.

***

Foi com pesar que, no último dia 10 de agosto, recebi a notícia do falecimento do senhor Augusto Leal Garcez, proprietário da Fazenda Rio Comprido. Ao longo dos últimos meses havíamos estreitado contato e nossas conversas (mesmo por telefone) se tornaram frequentes. Pretendia encaminhar ao meu interlocutor um volume encadernado reunindo todos os artigos desta série, o que não será mais possível. Legarei, então, a oferta aos seus herdeiros, pessoas que saberão zelar pela memória de um homem de bem, um digno sergipano e cristovense do Rio Comprido.



*Publicado do JORNAL DA CIDADE, Aracaju, 25 e 26 ago. 2013, caderno B, p. 7.
**Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br

BIBLIOGRAFIA:
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 135 e 233.
GARCEZ, Augusto Leal. Depoimento concedido ao autor. Fazenda Rio Comprido, São Cristóvão-SE, 4 maio 2013.
BASE CARTOGRÁFICA dos Municípios Litorâneos de Sergipe. [Aracaju]: PRODETUR-NE II/Ministério do Turismo, 2004 [ortofotocartas 691-778, 691-783, 684-778, 684-783];
ATLAS DIGITAL sobre recursos hídricos de Sergipe. Versão 2012-9. Aracaju: SRH/SEMARH/Governo de Sergipe, 2012. 1 DVD (camada Infraestrutura e subcamadas Rodovia Estadual e Rodovia Federal, dentre outras);
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].


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