segunda-feira, 14 de abril de 2014

OS OFÍCIOS DO SENHOR DOS PASSOS EM SÃO CRISTÓVÃO*

Mulher conversa com o santo.
Magno Francisco de Jesus Santos*


Sexta-feira, vinte e um de fevereiro de 2014. Cidade de São Cristóvão, antiga capital de Sergipe. Ao crepúsculo, mulheres de diferentes pontos da cidade se deslocam lentamente em direção a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, no centro histórico. A partir das 17 horas a Praça Senhor dos Passos começava a receber as devotas, que se aglomeravam diante das portas cerradas do templo tricentenário. De repente, as portas se abrem, ao dobrar do grande sino. Em poucos instantes, a Igreja encontrava-se lotada, com fieis a espera do primeiro Ofício da Paixão, em louvor ao Senhor dos Passos.
 
Esses ofícios integram as celebrações da grande romaria que tradicionalmente ocorre sempre no segundo final de semana da Quaresma, com as majestosas procissões de penitência, no sábado à noite e do Encontro, no domingo à tarde. O que poucos sabem, é que as celebrações em torno do Senhor dos Passos ocorrem ao longo de sete semanas, em que são rememorados os momentos de sofrimento de Cristo a caminho do Calvário. Desse modo, a principal solenidade religiosa de Sergipe tem início quatro semanas antes da grande celebração de dor e martírio e perdura por mais três semanas subsequentes.



Os ofícios da Paixão são celebrados sempre às sextas-feiras. Apesar de ser um ritual marcadamente paroquial, a Igreja da Ordem Terceira do Carmo se encontra lotada, com uma elevada presença de mulheres que fervorosamente entoam cânticos tristes que descrevem os sofrimentos de Cristo. É o momento em que os moradores da cidade expressam com vivacidade a gratidão e carinho para o Cristo ajoelhado com a cruz sobre os ombros, cuja imagem foi achada por pescadores às margens do rio Paramopama no século XVIII. Na visão das classes populares, foi o Senhor dos Passos que escolheu São Cristóvão para viver e abençoar.



A celebração dos ofícios revela uma beleza singular, unindo no mesmo espaço o fervor da devoção popular e a plástica dramática do ritual sob as diretrizes do catolicismo romano. Assim, ao anoitecer o grande sino da Igreja do Carmo Pequeno volta a dobrar melancolicamente, concomitante com a entrada dos ministros que irão celebrar o sacramento da Eucaristia. Trata-se de uma cena de grande comoção, com a passagem da imagem do Crucificado sendo deslocada para o altar entre dois círios, com o incenso se propagando pelo templo e o cortejo do pároco e dos frades carmelitas. Ao longo de toda a celebração se torna visível o clamor religioso das senhoras que louvam o santo protetor e permanecem ajoelhadas, suplicando bênçãos, agradecendo as graças recebidas. Desse modo, os ofícios se tornam a ocasião em que os cristovenses expressam o sentimento de pertença, de devoção, de contato com a imagem que é tida como milagrosa, tendo em vista que nos dias de romarias muitos moradores acabam não participando ativamente das celebrações em decorrência da recepção de familiares, amigos e até mesmo romeiros desconhecidos.



A celebração dos ofícios ocorre a muitas décadas. O registro mais antigo sobre os ofícios foi realizado pelo memorialista Serafim Santiago, que em 1920 informou em seu livro Anuário Cristovense que mulheres devotas cantavam o ofício após a chegada da procissão do Depósito. Essa referência revela dois aspectos importantes sobre os mesmos: primeiro é o fato de naquela época o ritual já contar com maior participação feminina. O segundo, é ausência do clero, situação que perdurou até o início do século XXI.



Os ofícios da Paixão passaram longos decênios como prática quase que exclusiva dos leigos, dos devotos do Senhor dos Passos. Com a saída dos carmelitas de São Cristóvão, o ritual era realizado pelas devotas da cidade e sem a presença dos párocos. A ausência do clero nos ofícios muitas vezes provocou situações constrangedoras, pois era comum que após a celebração a maior parte dos fieis saísse da igreja, enquanto o pároco adentrava para celebrar a missa.



Essa situação melhorou consideravelmente com o retorno dos carmelitas, fazendo com que a celebração do ofício fosse integrada ao sacrifício da Eucaristia. Desde então, tanto o clero participa dos ofícios, como a maior parte dos devotos permanece nas missas. Com isso, ao longo de sete semanas as cenas se repetem, com mulheres de passos lentos e descalços se deslocando pelas ruas da vetusta cidade de São Cristóvão em direção ao santuário, ao templo do Carmo Menor, à casa do Senhor dos Passos. É mais uma expressão significativa da romaria do Senhor dos Passos, patrimônio imaterial do povo sergipano.

*Artigo publicado no Jornal da Cidade. Aracaju, p. B-5 , 6 e 7/4/2014.
**Magno Francisco de Jesus Santos é Historiador e Editor da Revista do IHGSE.

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