sábado, 13 de setembro de 2014

Ilha Grande: descobrindo outro patrimônio em São Cristóvão - II

Rosana Eduardo e Thiago Fragata escutam versos de Hélio Santos, 2014

Por Thiago Fragata

Longe, ainda no barco, avistamos a capela da Santa Cruz, padroeira da Ilha Grande, construida no ano de 1933. Dentre o grupo de banhistas, reconheci Hélio Santos que cumpria o rito carregado de lembranças, isso porque morando em outro Estado retornava uma vez ao ano para rever parentes, amigos e desfrutar o lugar da sua juventude.

O menestrel da Ilha Grande, assim podemos batizar Hélio Santos, aposentado, 69 anos. Seus versos rememoram a infância, a alegria e a nostalgia ao têmpero do bairrismo focado na ilha paradisíaca. Sua poeticidade emocionou a professora Rosana Eduardo, do Departamento de Turismo da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que colheu biografia e estrofes.

SERESTA DA CAPELA

(Hélio Santos, 2006)

Vou me mandar lá pra porta da capela
onde vozes tão belas hoje vão se apresentar
Não vou rezar mas sentar lá no cantinho
e olhar bem de mansinho a galera se esbaldar 
Bom vai ficar quando começa a seresta
e alguém se manifesta cantando uma bela canção
E nessa hora todas já estão a vontade
Ali só reina a amizade, alegria e união

Vem pra cantar Lola, Fátima e Madalena 
Beatriz não está que pena, mas tem de quebra Barão
Daqui a pouco Lurdinha entra em cena
Com a voz grave e serena e vem trazendo o lampião.

Chico mais Nelo vem tocando o cavaquinho 
Não pode faltar Paulinho botando pra arrepiar
vai ter Jaminho batendo um tamtam maneiro 
Pedro repica o pandeiro, Calolo vem no ganzá

Não vai faltar nesta noite tão bonita
As netas de Dona Anita que vem pra sapatear
Luis mas Helio pelejando no violão
e som rola de montão e a noite vai esquentar 

Rivanda e Dete vem trazendo arroz doce
Mas seria bom que fosse peixe assado e mugunzá
Vai ter cachaça, vinho tinto e até milone
e não vai ter mais quem reclame até o dia raiar.

E é por isso que eu vou...

A capela da Santa Cruz revelada como ponto da sociabilidade noturno fosse para missa ou seus desdobramentos festivos (bingos, quermesses, etc) ocupa um ponto central na vida dos moradores. Nela se concentram os brincantes do samba de coco na noite/madrugada da festa que marca a chegada do mês junino, da mesma forma a seresta embala outras noites enluaradas. Nunca falta música, "a ilha Grande é um celeiro de músicos", bastando citar Paulinho do Cavaquinho e Hélio Santos, que além de dedilhar o violão, compõe. Seus trabalhos aparecem musicados a partir de paródias, outros bem originais encantam pela sensibilidade e natureza pintada com versos rimados com o nome dos moradores (Lola, Fátima, Madalena, Barão, Lurdinha, Nelo, Paulinho, Jaminho, Calolo, Anita, Luis, Rivanda e Dete).

Cantar seu povo e sua gente é mesmo a tônica da obra de Hélio Santos. Para ilustrar esta assertiva segue uma outra composição de sua lavra.

HINO DA ILHA GRANDE
(Hélio Santos, 2013)

Ilha Grande minha terra querida
O meu chão e também meu lugar
Você faz parte da minha vida
Hoje e sempre hei de lhe amar.

É vizinha da Ilha Pequena

Protegida da fúria dos ventos
e o seu povo de pele morena
que não foge da luta um momento.

As mares vão enchendo e vazando
alagando os seus manguezais
suprimentos ali vão deixando
para o homem e outros animais.

Sua fauna pra nós é riqueza
e a flora vem pra completar
o presente da Mãe Natureza
Todos nós temos que preservar.

As mangueiras que todos os anos
sempre verdes se cobrem de flores
e formando nas pontas dos ramos
belas frutas de vários sabores.

Uma brisa que sopra do mar
balançando seus belos coqueiros
cai a chuva do céu para molhar
essa terra de um povo guerreiro.

As pessoas em suas andanças
nas canoas tem que viajar
sejam velhos, adultos ou crianças
e os homens que saem pra pescar.

Santa Cruz é a nossa Padroeira
mês de maio sempre festejamos
e seus filhos na fé verdadeira
de joelhos a ela louvamos.

Ilha Grande onde eu estiver
Eu jamais poderei lhe esquecer
Não existe um motivo sequer
Pra deixar de gostar de você.

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