quarta-feira, 26 de novembro de 2014

MEU CABELO NÃO É RUIM, VOCẼ É QUE NÃO PRESTA!



Outro dia fiquei muito triste ao presenciar uma conversa num ônibus entre professoras (sei que é o tema e o tom ocorre na maioria dos salões de cabeleireiro Brasil a fora). Das expressões recorrentes anotei "alisar meu cabelo, tenho cabelo ruim!"; "disse para fulana: você é que tem o cabelo ruim!". Elas riam.

Pulando esta parte em que pareço um mal-educado, escutando conversa alheia, ninguém imagina a altura da "conversa de comadre" das duas amigas que não se viam há tempos... Voltando a minha tristeza. Era 15 de outubro, dia do professor, lembro bem pois fiquei a refletir o seguinte: mesmo sem querer, elas devem olhar para seus alunos e concluir "aquele tem cabelo ruim...; Nossa! nessa sala só tem criança do cabelo ruim..."; ou expressar através de gestos inocentes, gesto de carinho com alguém da turma, como passar mão na cabeça de aluno ou aluna que possua cabelo liso...

Finalizei minha tristeza lembrando as crianças de cabelo crespo e o sistema escolar brasileiro que é parte da sociedade preconceituosa por isso reflete "inocentemente" ou involuntariamente todo o preconceito.

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Encontrei um texto de Larissa Bezerra que é o melhor sobre o tema "cabelo ruim". Ofereço aos professores, até mesmo para aqueles(as) que passam tempo da aula penteando (alisando) o cabelo da criança que o pai ou a mãe certamente “teve preguiça de pentear ou foi pressa!” (isso aconteceu com a minha pequena outro dia!)

"CABELO RUIM”
Por Larissa Bezerra

Uns meses atrás minha mãe chega brava do serviço... Questionei e ela me diz: Lary, acredita que uma menina lé no serviço disse que eu podia parar de alisar o cabelo e deixar natural e pentear pra cima? Que eu ia ficar bonita.
Na mesma hora foi como se a revolta da minha mãe fosse transferida pra mim. E eu muito brava respondi: Mainha! Manda ela deixar o cabelo dela ficar de bruxa pra ver se é bom! Diz pra ela deixar o cabelo dela sem a chapinha de toda a manhã, e pentear pra cima igual uma doida! ....
Pois é, frequentemente vejo pessoas sem vivência nenhuma com um argumento podre e desonesto, dizendo que os negros são preconceituosos com eles mesmos... Já ouvi de amigos, de família, de conhecidos e de desconhecidos. Dai eu fico questionando essas coisas: eu sou negra e tenho cabelo crespo. Aliso o cabelo desde os 7 anos de idade, e até os 23 minha idade atual, eu nunca ouvi alguém se referir ao meu cabelo como crespo. Desde criança ouvi que o meu cabelo é duro, outrora de bruxa, ou cabelo de bombril, cabelo ruim.
Se eu não conhecia outra tese, pra mim o que eu ouvia era o certo. Então logo me "acostumei" que eu tinha cabelo ruim. As aspas são pra um atento: eu fingia me acostumar, porque toda noite orava pra deus, pra que eu acordasse com o cabelo bom. E devo escurecer, que cabelo bom não era o cabelo liso, na minha concepção de cabelo bom, era qualquer cabelo que crescesse pra baixo, ou seja eu não pedia pra Deus um cabelo igual de japonês, eu pedia pra acordar com um cabelo liso, ou cacheado, que eu pudesse ir com ele solto pra escola. Nem preciso dizer que o "milagre" nunca acontecia. (risos).
Bom o fato é que eu sentia vergonha de ter aquele cabelo, que crescia pro alto, que era armado, que tinha pouco brilho, e que eu nunca jamais, em hipótese alguma vi algum parecido nas novelas, ou nos desenhos, ou em programas infantis. Na minha cabeça infantil, ninguém importante tinha um cabelo daquele. E minha mãe (que não teve infância diferente da minha) logo passou alisante, pente quente( esse é o mais cruel de todos). Até ferro de passar roupa. Eu sentia meu cabelo fritar, e o cheiro de queimado subia, e eu ouvia a frase: pra ser bonita tem que sofrer! E eu pensava: não sou bonita, mas vou ser daqui a pouco! Logo olhava pro espelho e via a imagem um pouco parecida com as apresentadoras dos meus programas infantis preferidos, eu estava com o cabelo liso, eu estava bonita, e saia toda feliz, cheia de queimaduras no couro cabeludo, mas o importante era que os meninos da minha escola não iam puxar a xuxinha do meu cabelo fazer uma roda e dizer: ei cabelo de bombril! Não! Eu nem precisava de xuxinha. Estava liso! Até chover....
Na adolescência percebi que "ser negra não era bom" eu recebia muitos apelidos ruins e isso me deixava triste, apesar de eu ser a negra mais clara da família isso não impedia de ser chamada de escrava Isaura, e apesar de revidar chamando alguns de macarrão sem molho, eu via que não era a mesma coisa, não era a mesma dor, não tinha uma história de escravidão por trás de um xingamento bobo desses. Dai então comecei fugir do Sol, sim eu evitava o máximo pegar Sol, inventava milhões de desculpas pra não ter que ficar mais preta, e realmente fiquei pálida por um bom tempo, até pouco tempo por sinal...
Ai com tudo isso eu fico pensando : como pode uma pessoa vim culpar os negros de racismo com si próprio, com uma infância dessas? O negro nasce numa sociedade que finge ter igualdade racial, mas na verdade, todo negro procura referências, procura em que advogado, medico, astronauta, engenheiro negro se espelhar, mas não encontra, como culpar uma criança que odeia sua pele, sua cor, seu cabelo, se desde que ela nasceu, ela foi ensinada de forma direta e indireta que sua pele, sua cor, seu cabelo não é bonito? Eu não vou culpar minha mãe que alisou meu cabelo quando eu era uma criança, porque ela também foi vítima dessa sociedade má! Eu não vou me culpar se até um ano atrás eu achava que cabelo crespo era cabelo de bruxa , cabelo de bombril, cabelo ruim, porque foi o que me disseram a vida toda, e ninguém disse o contrario! Representatividade importa! Eu não tive, eu não vi nenhuma novela com protagonista negra com cabelo crespo advogada ou medica pra eu ver que meu cabelo era lindo, e que minha cor era magicamente linda! As negras nas novelas eram empregadas, eu não me via ali... Quando adolescente a única negra protagonista tinha "cor do pecado" , e não! Eu também não me via ali! Na minha idade adulta as negras protagonistas são umas loucas por sexo! E não! Eu não me vejo mais uma vez! Então como vou tolerar uma pessoa que não sabe o que é ser negra me dizer que os negros são racistas com si mesmos?" 
Cabelo ruim? de Neusa Baptista pinto: dica de livro


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Não pensem que sou contra a Educação, atento para suas mazelas. Escola e família, duas instituições que enquanto parte da sociedade preconceituosa reproduz e "naturaliza" o mal. Espero que os amigos(as) educadores façam sua difícil tarefa de perceber e ousar, digo ousar porque sei que muitos nada aprenderam na teoria sobre isso. Essa é a verdade na boca do professor deste país “todo dia tem uma novidade na transversalidade, no currículo escolar. Darei o novo conteúdo do jeito que posso!..."

Em nome dos ousados, dos professores ousados que fazem além por conta da revolta contra esta sociedade nossa, que encerro dizendo: Professor é mesmo a maior das profissões, ele passa por todas as outras profissões e forma ser humano na parceria da família!

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