Severiano Cardoso Thiago Fragata*
Severiano Cardoso (1840/1907) e Manoel dos Passos de Oliveira Teles (1859/1935) escreveram sobre a História e a mitologia folclórica de Sergipe. Infelizmente, não temos obra que revele contribuição deles ao que se convencionou chamar cultura popular, especialmente os contos folclóricos que “romantizaram” ou incrementaram por força da imaginação literária. Eles conheceram São Cristóvão, na segunda metade do século XIX; Manoel dos Passos fixou residência lá. Pesquisaram arquivos e escutaram muitas versões sobre a ex-capital. Não por acaso, Serafim Santiago (1859/1932) recordaria destes intelectuais em seu Anuário Christovense. (1) Tratar do contributo de Severiano Cardoso a lenda de Rita Cacete é o nosso intento.
Um texto de Severiano Cardoso desvela as condições terapêuticas do banho de Rita Cacete, ou seja, dos poderes milagrosos da sua água. O conto foi publicado na edição de 13 de março de 1904, do jornal O Estado de Sergipe. A obra foi republicada no folheto “Lendas Sergipanas”, coleção patrocinada pelo governo do Estado, em 1984, omitindo injustamente autoria. Consideramos oportuna sua veiculação, transcrevemos com grafia atualizada:
“A LENDA DE RITA CACETE - É crença popular que no tempo da invasão dos holandeses uma pobre forasteira procurou alívio para suas infelicidades na plaga cristovense. Era, porém, vista entre os próprios colonos portugueses como bruxa ou feiticeira. Tendo uma filha, que era um primor de formosura, saía a esmolar para ela, pelos arredores, arrimada a um bordão, por quase já não poder andar.
Os garotos apupavam-na e enxotavam-na exclamando: daí-te daí, Rita Cacete, fazendo alusão à vara nedosa em que se agüentavam para andar. Ela refugiou-se para o lado das Pedrinhas, e, um dia adoeceu sua linda e interessante filha. Apareceu-lhe a Mãe d’Água, e disse-lhe com pungida do estado da jovem enferma: - Eu curarei tua filha! Anda comigo.
Andaram, e chegando à beira d’uma emsombrada por uma árvore secular, a Mãe d’Água falou: - Imerge-a.
A velhinha obedeceu, e de repente a fonte cobriu-se de alvíssima fumaça. Depois do banho a moça ficou inteiramente curada e voltou-lhe a primitiva beleza em todo seu frescor primaveril. Descobriu-se então a virtude da fonte, aonde entre fumaça, hoje azulada, um bom gênio derrama sobre os que a procuram a carnúpia da saúde”. (2)
Apresentado o conto folclórico, segue rápidas notas exegéticas. O texto foi elaborado a partir de consulta de populares sancristovenses. A velha Rita da estória citada, identificada como forasteira, bruxa e mendicante pelos portugueses, tinha como bem precioso uma filha jovem e bela. Aquela resolveu abrigar-se em Pedrinhas, povoado da cidade, em razão do apelido “Rita Cacete” impingido pelos jovens por causa do cajado. Uma figura deveras conhecida do folclore brasileiro, a Mãe d’água, aparece na vida de Rita Cacete para sanar a doença da sua linda filha, através de um banho nas águas de uma fonte. A saúde é, assim, um estado de graça para o desfecho feliz da estória. Em resumo, podemos segmentar texto em duas partes. A primeira contextualiza e caracteriza os personagens, explicando o porquê do nome Rita Cacete. A segunda localiza a morada, noticia a doença, o agente da cura (Mãe d’Água), a fonte e o tratamento. É possível que a fonte corresponda ao atual balneário de Rita Cacete, embora não caiba alarde sobre os poderes salutares de um simples banho.
Lamentamos o descaso do poder público em relação aquele balneário que guarda um grande potencial turístico, histórico, natural, mítico. Rogamos a Prefeitura Municipal de São Cristóvão mesma atenção que foi concedida ao Balneário Bica dos Pintos.
O conto folclórico Rita Cacete foi publicado n’O Estado de Sergipe, em 13 de março de 1904, mas a pesquisa ou o trabalho de campo aconteceu em 1890. Nesse ano, Severiano Cardoso passou uma temporada em São Cristóvão por recomendação médica. Afamada pela qualidade da água e dos ares, a ex-capital recebia “neurastênicos”, como se chamavam trabalhadores extenuados pela rotina, com saúde fragilizada. Ironicamente, o velho professor do Atheneu Sergipense buscava a “carnupia da saúde” que aludiu no seu texto. É o que depreendemos da nota publicada no jornal: “ilustrado professor da nossa Escola Normal já se acha com sua Exma. família nesta capital, de volta de seu passeio de férias à velha e salubérrima cidade de São Cristóvão, com razão considerada o sanatório deste Estado.” (3)
O veraneio em São Cristóvão rendeu uma centena de poesias que o intelectual publicou no jornal O Republicano, da capital Aracaju, no evolver de 1891. Inspirado na lenda de Rita Cacete, produziu três peças literárias a partir da escuta junto aos populares sancristovense lá nas Pedrinhas, atual povoado Rita Cacete.
Alvíssaras! Por iniciativa dos professores Magno Francisco de Jesus Santos e Ane Luíse Silva Mecenas Santos as poesias produzidas da imersão de Severiano Cardoso na urbe quatricentenária serão publicadas, em breve, na coletânea “Uma pétala todas as manhãs: Severiano Cardoso e as poesias melancólicas de uma ex-capital (1891)’, pelo selo da Editora SEDUC.
Segue trecho da apresentação da obra: “As pétalas cotidianas revelam diferentes tons de São Cristóvão. Ora, o poeta adentrava a névoa do tempo e recuperava personagens de outrora, como um sopro que transmutavam lendárias figuras em vívidas gentes. Ora, o poeta se deslocava pelas ruas e estradas da cidade no tempo presente, revelando o protagonismo de trabalhadores e trabalhadoras, de uma gente que tinha parcos recursos, que labutava na produção de esteiras, abanos, rendas, quitutes e doces. Severiano Cardoso andou e registrou os saberes, os fazeres e os causos dos pobres. Perpetuou em seus sonetos os sabores das guloseimas, as cores das festas, o rebolado das brincantes de samba”. Compartilhamos abaixo umas das peças literárias, da recolha do intelectual estanciano, dedicada a lenda de Rita Cacete:
LENDA
Foi a Rita Cacete uma velhinha
Que plantou num brejal uma mangueira,
O caroço metendo bem na beira
D’uma fonte do sítio da Pedreira...
Vinha da Europa, à noite, uma rainha
Banhar-se ali, risonha e prazenteira...
Vinha nas asas da brisa mais fagueira
Que o leque do ambiente outrora tinha...
Não gostava a rainha d’água fria...
E a mãe Rita, solicita, a aquecia,
Numa fogueira de pétalas de rosas...
Eis aí porque banho tem fumaça,
A água é morna, quando a noite passa,
E tem o leito pedras preciosas...
*Thiago Fragata - Historiador, poeta, multiartista. Texto publicado no JORNAL DO DIA, Aracaju, 11 de julho 2026. E-mail: thiagofragata@gmail.com NOTAS DA PESQUISA: 1 - SANTIAGO, Serafim. Anuário Christovense. São Cristóvão: Editora UFS, 2009; 2 - CARDOSO, Severiano. Rita Cacete. O Estado de Sergipe. Aracaju, 13 de março de 1904; GOVERNO DO ESTADO DE SERGIPE. Rita Cacete. In: Lendas sergipanas. 2a. ed. Aracaju, ano I, n. 1, jul. 1984, p. 11-12; 3 - O Republicano. Aracaju, 1891, p. 2.


