Exposição coletiva UR/GENTE: Brechas sob o mormaço


LANÇAMENTO

Sexta-feira, 10/7, no Memorial do Poder Judiciário - 10 artistas com obras que dialogam e chamam à reflexão sobre os impactos da crise climática.

No dia 10 de abril o Coletivo Brechas formado por Daniel Quintiliano, Gabriela Bandeira, Suzana Matsuda e Rafael Carvalho, abrem a exposição UR/GENTE: brechas sob o mormaço. A iniciativa tem como objetivo expor obras de 10 artistas que foram selecionados por meio de chamada em edital, e que dialogam com os impactos da crise climática ambiental em Sergipe. 

 
Não há novidade, já estamos vivendo em meio à crise climática. Em 2025, o Brasil sediou a COP30 em Belém/PA: evento internacional, um balcão de negócios recheado de promessas. Mas a vida está no cotidiano, no agora, é o que nós, artistas e ativistas climáticos acreditamos e então unimos forças para a produção da exposição “UR/GENTE: brechas sob o mormaço” junto ao Memorial Judiciário de Sergipe.


A exposição ficará sediada no Memorial do Poder Judiciário, espaço cultural situado no centro de Aracaju, Praça da Catedral.


Confira a lista dos artistas que compõem a exposição:


Alice Regis  - Aline Viana - Brenda D. Araujo - Cozinha de Vó Comida Ancestral - Edidelson - Islena - Juciele Oliveira - Kely Nascimento - Luan Dias - Thiago Fragata


SERVIÇO:
Exposição UR/GENTE brechas sob o mormaço
Local: Memorial do Judiciário de Sergipe 
Praça Olímpio Campos, 417, Centro, Aracaju-SE
Data: 10 de abril (abertura)
Horário: 19h
Dias de visitação: do dia 10 de abril até 03 de junho – das 8h às 13h.

O AGUADEIRO VÁVÁ DA COLINA

AGUADEIRO - xilogravura do Mestre Nivaldo Oliveira

 

Thiago Fragata*

Minha geração passou a infância flanando pelas ruas de São Cristóvão, ora na cidade-baixa, ora na cidade-alta.  Becos, praças, ladeiras, calçadas, qualquer lugar e hora tinha o marraio ou a pelada, a troca de figurinhas ou revistas em quadrinhos com os meninos dos outros bairros; empinar pipas na linha do trem, brincar de nego-fugido, figurava também como opção. Quase sempre avistávamos Vává da Colina. Era um susto que punha muito menino valentão a correr destabanado de coração na boca. O homem sinistro vinha sempre descalço como um beduíno que vergasta desertos e não desvela a mínima ofegação, um zumbi. Silencioso, acompanhava 10 jegues ajoujados, todos arriados de barricas d'águas colhida na fonte do São Gonçalo ao sopé da Colina das Almas.

O que Vává da Colina trazia naquelas barricas? Isso demorávamos entender, ficávamos pois a imaginar o que o homem esquisito trazia naqueles vasos. Se trouxesse mala ou saco faria mais sentido o nosso temor; o medo que aterrava a todos não era por causa da alimária e sim pelo almocreve.

Corpo franzino e acobreado, libado de suor a refletir os raios solares; vestia sempre um bermudão lodento atado a cintura por uma corda também imunda; tinha cabelo espantado, olhos esbugalhados  e ostentava seriedade a contrastar com um sorriso forçado pelo lábio leporino. Sim, possuía lábio leporino e por isso seus dentes estavam sempre a mostra. Aquele sorriso de caveira era a garantia de uma noite de pesadelos. Daí o terror anunciado involuntariamente pelo aguadeiro. Era isso, Vává da Colina era apenas um vendedor de água, um aguadeiro como se dizia no passado. 

Aos poucos que atentavam para o sujeito, dois grandes desafios: escutar a voz e compreender a mensagem. Fosse aboiando a fila de jeguinhos, bradando nas debandadas ou quando um animal empacava, Vává da Colina era sempre enérgico e gesticulava como um maestro a frente da orquestra. No entanto, quando era preciso falar, oferecer água, falava baixo e cabisbaixo demonstrando assim sua educação. O bordão dos aguadeiros (água fresca, oí água!) nunca ouvir  da sua boca. 

Ele tinha uma clientela fixa e trabalhava todos os dias da semana; aos seus dizia com a voz fanhosa “não tenho folga porque beber água é todo dia”. Alto Divinéia, Santo Antônio, Avenida, Ripiada, Apicum Merém, na maioria dos bairros tinha clientes. Sua concorrência deixará de existir, era o único a entregar água de barrica a domicílio. É certo que muitos buscavam água na fonte do Cristo, Canjiquinha, Banho Morno, Prata, Bica dos Pintos, ou nos chafarizes do centro histórico.

Em meados de 1980 tomei conhecimento do falecimento do homem que passava tocando os jegues arriados com barricas, o último dos aguadeiros de São Cristóvão. Curiosamente, nessa mesma época, Manoel Cabral lembrava num dos seus primorosos textos da antiga estrada dos aguadeiros que ligava a cidade histórica a Aracaju. O memorialista informava que a estrada surgiu logo após a Mudança da Capital em função do comercio de “água boa”.  Consta que Severiano Cardoso escutou na boca dos sancristovenses no início de 1900 a seguinte quadra poética:

 

As águas de São Cristóvão

só parecem de cristal;

as águas de Aracaju

mas parecem rosargal.

 

Rosargal, explica o dicionário, era a cor ferrugem do iodo gerado na lama dos pântanos. Aracaju possuía água de boa qualidade em alguns pontos distantes do seu litoral, no entanto ressentia-se da abundância e do valor medicinal atribuído as águas da ex-capital. Termal, magnésica, ferrosa, eis alguns adjetivos do receituário médico referindo-se aos tipos de água encontrada na região. O antigo banho morno não tinha o nome por mero acaso. A lenda de Rita Cacete fala dos poderes miraculosos da água. Imaginemos pois as recomendações médicas feita aos pacientes tísicos em fins do século XIX: “repouso por 10 dias em Sam Christovam, aonde possa aproveitar o ar puro e a água de boa qualidade”. 

 

                         

 * Texto publicado no Jornal do Dia. Aracaju, 7 de abril de 2026.

 


 

O VÍCIO DE JOÃO BEBE-ÁGUA

 

João Bebe-Água - xilogravura de André Gustavo - 2005

Thiago Fragata*



Nos tempos heroicos do Arquivo Geral do Judiciário de Sergipe (TJ), entre 1996 e 1998, atuei como estagiário ao tempo que cursava graduação em História, na Universidade Federal de Sergipe. Certa vez, auxiliei pesquisador contratado por um genealogista para transcrever documentos de uma família abastada da zona da Cotinguiba que remontava século XVIII. Então o sujeito anotou de um testamento que senhor de engenho deixou de herança “um carro. para a sobrinha”. Ele repassou a informação adiante, alertei que carro ali não era automóvel, mas abreviatura de carroça! Aproveitei fiz palestrinha sobre paleografia e arcaísmos. O tempo repetiria a lição. Durante parte considerável da vida, acreditei que o vício de João Bebe-Água fosse cachaça, “água que passarinho não bebe”, como diz a eufemística expressão popular. Recentemente, o imbróglio foi esclarecido e venho compartilhar.

Na graduação em História, tomei conhecimento do manuscrito de Serafim Santiago, Anuário Christovense, reunindo suas memórias sobre eventos, fatos e personagens da São Cristóvão do seu tempo, fins do século XIX. Dada sua importância, li o precioso acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), transcrevi parte significativa, citei na monografia, reli outras tantas. SANTIAGO conheceu João Nepomuceno Borges, o popular João Bebe-Água, assim como Manoel dos Passos de OLIVEIRA TELLES, que também escreveu muito sobre a ex-capital. (1) Nenhum deles tratou da dipsomania que adversários políticos impingiram no opositor da Mudança da Capital, de 17 de março de 1855. Pertinente destacar como o arroubo patriótico e/ou o derrotismo aparece vinculado ao alcoolismo; como fazer oposição a Mudança da Capital, 17/3/1855, fosse algo quixotesco, exclusivo para indivíduos desprovido de bom senso, coerência, juízo, enfim, gozo pleno da capacidade cognitiva, intelectual e psicológica.

Como já disse, por um bom tempo aceitei com mansidão a possibilidade do João Bebe-Água ser um cachaceiro, afinal sempre foi assim que o vi representado nas peças teatrais da escola, até mesmo na peça encenada na abertura do IX Festival de Arte de São Cristóvão, de 1980. (2) Cômico e comovente, criou-se a narrativa do bebum revoltado, embriagado na loucura ou promessa do retorno da capital, dos foguetes que guardava para estourar nesse dia. Cativado pela informação, do inveterado consumidor de aguardente, li no citado manuscrito de SANTIAGO que o seu vício era “o lenço de rapé e uma catarina, como ele chamava a uma figura preta, feita de ponta de boi, onde conservava um bom torrado que a todos oferecia”. (3) Ignorando o que seria rapé, entendi “torrado” como aguardente, cachaça!? Cheguei a publicar esse disparate, em 2004. (4) Minha surpresa foi o que as pesquisar revelariam sobre o rapé, posteriormente.

RAPÉ - (do francês râpé, "ralado") é o tabaco em pó que serve para cheirar. O hábito de consumir rapé era bastante difundido no Brasil até o início do século XX. Era visto de maneira contraditória, ora como hábito elegante, ora como vício; presente nos diferentes segmentos da sociedade. Há menções ao hábito em obras de Eça de Queirós (Maias), Leon Tolstói (Guerra e Paz), Helena Morley (Minha vida de menina) e Machado de Assis (O Bote de Rapé). (5) Vejamos trecho desta crônica machadiana, sob pseudônimo Eleazer, publicada no jornal o Cruzeiro, de 1878:

vício do rapé é um vício circunspecto
indica desde logo um homem de razão;
tem entrada no paço, e reina no salão,
Governa a sacristia e penetra na igreja.
uma boa pitada as ideias areja;
dissipa o mau humor. (...)
Inda mais: até o amor aumenta
Com a porção de pó que recebo na venta. (6)

Assim como o cigarro em nosso tempo, no século XIX o rapé foi símbolo de moda, saúde, bom apetite, longevidade, afrodisíaco, recomendado pela ciência, por último condenado pela mesma ciência, tanto que seu uso terapêutico sofre restrições, hoje.

Voltando ao mote do texto, alguém pergunta: João Bebe-água era alcoólatra? Não virou alcoólatra com trauma da Mudança da Capital? Bom, das informações coligidas e compartilhadas dos contemporâneos, refiro-me a Serafim Santiago e Manoel dos Passos, é razoável protestar, ainda que apreciar cachaça - preciso enfatizar - em nada deveria comprometer suas atitudes bairristas, nem mesmo as pragas rogadas aos “inimigos de São Cristóvão”. Chama atenção, o fato dos citados autores justificarem o apelido “Bebe-Água” por razões dissonantes, oposta da alcoolomania. Confira:

Nas últimas estrofes da poesia DITO E FEITO, dedicada a João Bebe-Água”, de 1890, OLIVEIRA TELLES fala das promessas feitas no traumático advento da Mudança da Capital, de 17/3/1855. Vale a pena conferir, ipsis litteris:

Jurou que nunca iria a Aracaju
para não anular a sua magoa
Desabafa em falar. Feroz e cru.
Não bebe água de lá, e assim deságua
a dor que lhe lacera o peito nu
por isso é que o chamam – Bebe-Água. (7)

SANTIAGO, por sua vez recorda “quando alguém lhe perguntava: Senhor João, como tem passado? – ele respondia logo, muito satisfeito: “bebendo água”. Uma terceira razão dissonante do ébrio, foi lembrada por Sebrão SOBRINHO, em Fragmentos da História de Sergipe, de 1972; à página 162, escreve sobre João Bebe-Água “sendo abstêmio e disso fazendo gabos com repoches aos sacerdotes de Baco, de que só bebia a linfa potável”. (8)

Enfim, pela juntada, aconselho sopesar a próxima encenação teatral que apresente João Bebe-Água como o bêbado que não conseguiu estragar a festa da Mudança da Capital. Faz isso e o meu esforço em reconhecer meu erro crasso (ter confundido rapé com cachaça), depois de 22 anos, não terá sido em vão.


 *Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 27/03/2026. 

  

FONTES DA PESQUISA 1 - OLIVEIRA TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Bebe água. In: Sergipenses: escriptos diversos. 2ª. Ed. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013. Manuscrito de Serafim Santiago foi publicado: SERAFIM, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora da UFS, 2009; 2 - OLIVA, Terezinha Alves de; SOARES, Rosane; CABRAL, Otávio Luiz. FASC: Uma história em cartaz. São Cristóvão: Editora da UFS, 2008, p. 37; 3 - SANTIAGO, Serafim. Idem, p. 263; 4 - SILVA FILHO, José Thiago da. João Bebe-Água: o mito em carne e osso. Jornal da Cidade. Aracaju, 20, 21-22/3/2004; 5 - Rapé segundo wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Rap%C3%A9, consulta 24/3/2026; 6 - MAGALHÃES JR, Raimundo. Esplendor, decadência e morte do rapé. In: O Império em Chinelos. Rio de Janeiro: Ed. Civilizações Brasileira, 1957, p. 155; 7 - INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SERGIPE (IHGSE). Aracaju, Christofaneida, 1890. Manuscrito de Manoel dos Passos de Oliveira Telles; 8 - SOBRINHO, Sebrão. Fragmentos da História de Sergipe. Aracaju: Livraria Regina, 1972, p. 162.

 

MANÉ DE TIAGO: PIMENTA FAZ CHORAR OU EMOCIONA

Caricatura de Mané de Tiago - Por Fragata 20/2/1990
 Thiago Fragata*

Teimosia era seu outro nome, Mané de Tiago, o apelido. Meu vô era um filósofo. Toda vez que alguém falava com meu pai sobre as excentricidades do ancião, respondia suspirando como se tivesse entoando um mantra: é assim mesmo, ele é um filooosofo... Mas sobre a teimosia que era sua marca tem um caso que trago nas lembranças, que traduz porque cada sujeito interpreta as coisas a sua maneira, de forma única, por vezes conflitante com a versão de testemunhas. Vamos ao caso.

Como gerente da Fábrica de tecidos São Cristóvão S.A., granjeou fama, na burocracia e meandros da política era chamado de Sr. Manoel Políbio; para os seus entes, incluindo amigos arranchados na grande casa, era Seu Mané ou apenas Mané de Tiago. Ele tinha duas ou três personalidades distintas, a mais impoluta, séria, calculista, discreta, revelava no trabalho. Por vezes, conseguia demonstrar bom humor. Um certo funcionário, batizarei João, descobriu que meu vô gostava de pimenta e pimenta foi a chave que selou a amizade deles. O assunto predileto das conversas era qual a pimenta mais ardida, daí logo estavam trocando pimentas e/ou conservas. Depois que entregavam pacotes furtivamente, no ambiente fabril, sussurravam “prove essa, depois fale o que achou!”.

Meu vô era aquele tipo de comedor de pimenta valentão, gabava-se de não se dobrar pela queimação de nenhuma delas. Toda vez que provava nova espécie ia logo afirmando: essa não arde nada! Depois de mastigar 5, 10 vezes, repetia: arde não! E repetia, repetia essa frase, reprovando. Um dia, o amigo João tirou férias e viajou. Desconheço destino mas retornou com um molho especial, o nome era Trinidad scorpion. (1) Segundo ele, esse era o nome de uma das pimentas mais ardidas do mundo! Não esperou retornar ao trabalho, assim que pisou na velha cap fez uma visita de cortesia ao meu vô. A sua expectativa era vê o gerente chorar, vencido. Foi justamente o que aconteceu. Ele mastigou os bolinhos de feijão untado no molho feroz, repetindo que não ardia. Logo estava vertendo lágrimas copiosamente. Sacou paninho que descansava no colo, assoou nariz duas vezes, então retomava o sacrifício para terminar a comida enquanto o subordinado deleitava-se com a cena.

Aquele choro ganharia interpretações distintas. Vitória! O empregado João estava exultante com a proeza, ter finalmente dobrado o velho gerente fanfarrão, que desconhecia pimenta capaz de fazer chorar. A fim de evitar represálias manteve silencio e frieza diante da cena. Já a versão compartilhada pelo meu vô, assim que o amigo leal foi embora, era outra: estava emocionado porque aquele pobre trabalhador dedicou momento da sua viagem de férias para pesquisar e comprar presente pra seu gerente; e o fato da “lembrancinha” ser pimenta era de emocionar até os mais durões....

Recordo bem aquela sua performance do almoço. Ele sempre salpicava bolinhos com o molho de pimenta, chorava muito e repetia que não estava ardendo. Mané de Tiago morreu em 30 de junho de 2002, vivo teria completado 100 anos em 28 de outubro de 2025. Meu vô era mesmo a teimosia em forma de pimenta, ardia mas fingia-se pimentão.

*Thiago Fragata é professor, historiador e multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias – São Cristóvão/SE. publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 20/3/2026. E-MAIL thiagofragata@gmail.com
 


NOTAS: 1 - Espécie de pimenta que tem origem em Trinidade e Tobago, sendo uma das pimentas mais ardidas do mundo, rivalizando com a Carolina Riper.

Exposição coletiva UR/GENTE: Brechas sob o mormaço

LANÇAMENTO Sexta-feira, 10/7, no Memorial do Poder Judiciário - 10 artistas com obras que dialogam e chamam à reflexão sobre os impactos da ...