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| Construção de ponte no balneário Bica dos Pintos 1977 |
Thiago Fragata*
O Brasil foi o último país da América a
abolir a escravidão africana. A partir do momento que a imagem de nação
mestiça/escravista incomodou o Governo Imperial diante da comunidade internacional
alguns intelectuais sugeriram a substituição dos negros por trabalhadores
europeus visando o “branqueamento” do país. Apostavam que a oferta ou
distribuição de terras, por exemplo, convenceria qualquer europeu pobre e
resolveria a questão. Assim começaram as colônias de imigrantes no Brasil. O
leitor deve se perguntar “qual a relação destas colônias do século XIX com o
banho da Bica dos Pintos?”. Além da resposta, objetivamos mostrar a evolução da
propaganda governista a respeito deste lugar aprazível localizado em São
Cristóvão, Sergipe.
Além de médico e historiador, Felisbelo
Firmo de Oliveira Freire teve uma atuação marcante na política. Seguindo uma
tendência nacional respaldada na “consignação do Governo Central para o serviço
de immigração e colonização”, é que o Governador Felisbelo Freire criou 3
núcleos coloniais, sendo um na cidade de Estância e dois em São Cristóvão.
Nesta os núcleos seriam instalados na antiga Colônia de Patrimônio e nos
Pintos. No Decreto N. 44, de 22 de maio de 1890, diz o parágrafo 1º: “Fica
creado o núcleo colonial no lugar denominado - Pintos - no município de S.
Christovam, compreendendo todos os terrenos ultimamente comprados ao major
Guilherme Silveira Telles”. Na ocasião, o major Ivo do Prado Martins Pires da
Franca foi nomeado para tratar dos “trabalhos preliminares do núcleo colonial
Pintos”. (1)
Infelizmente, o Governo que comprou o
terreno, “decretou sobre o assunto, oferecendo vantagens aos estrangeiros que quisessem
estabelecer-se no Estado, dedicando-se aos trabalhos da lavoura” foi deposto
por ordem do Marechal Deodoro da Fonseca, então Presidente da República, em
1890. Seus sucessores, a exemplo do Monsenhor Olímpio Campos, preferiram a Colônia
de Patrimônio a Colônia Pintos, quando o tema da agricultura retornou a pauta. No
entanto, descobrimos que mesmo sem efetivar o programa de núcleos coloniais e o
programa de imigração, alguns italianos instalaram-se nos Pintos em fins do
século XIX.
Após o fracasso da experiência de
estrangeiros na colônia Pintos, uma nova tentativa, agora com trabalhadores
nacionais (brasileiros), foi planejada em 1910. Em resposta ao ofício do
Ministro da Agricultura, Rodolpho Miranda, autorizando a instalação do “Centro
Agrícola de Sergipe” o então Governador Rodrigues Doria, escreve em 27 de
setembro daquele ano: “peço lembrar a V. Ex., já existir neste Estado um lugar
com duas léguas de extensão, comprado pelo Estado, no município de Sam
Christovam, com mattas, aonde o Governo da União, pretendia fundar a Colônia
dos Pintos. (…) que se acha adaptada para os fins desejados”. (2) O plano não se
efetivou, pois, o resultado das eleições de setembro de 1910 mudou o cenário
político.
O novo Governador Siqueira de Meneses,
que era sancristovense, escolheu a antiga colônia de Patrimônio para inaugurar
o Centro Agrícola. Ele conhecia bem aquele lugar pois na função de engenheiro
militar foi designado para medição, desenho e construção das casas do “primeiro
núcleo colonial”, como dizia a propaganda do Governo Felisbelo Freire, no
distante 1890. (3) Não se pode considerar que a Colônia Pintos foi esquecida,
ela foi a leilão pela Delegacia do Thesouro Fiscal em 1911. Alegando
recomendação da Diretoria do Patrimônio Nacional, foi divulgado edital em 22 de
março, aonde lemos: “se acha aberta, dentro do praso de trinta dias, a contar
da data do presente edital, nova concorrência pública para venda do próprio
nacional denominada Colônia Pintos, situado no município de Sam Christovam,
neste Estado, sob as condições abaixo declaradas, servindo de base o preço de
5:500$000,000”. (4) Não localizamos nas pesquisas a certidão de compra e venda,
especulamos que foi nesta ocasião que a antiga Colônia Pintos passou a
jurisdição do Poder Público Municipal.
Nas imediações da antiga Colônia Pintos,
que não se constitui uma colônia de imigrantes, tampouco um centro agrícola,
surgiu o bairro Pintos. Parte considerável dos primeiros moradores eram
operários da Fábrica Sam Christovam S.A., oriundos de cidades do sertão e
agreste sergipano. Não por acaso, sua igreja é dedicada a São José Operário e a
escola municipal recebeu o nome “Pedro Amado”, proprietário da citada fábrica.
E tem mais relações. Pela Lei Municipal N. 77, de 10 de maio de 1971, o
prefeito Paulo Correia dos Santos autorizou a construção do Parque Municipal
Dr. Pedro Amado. Segundo informa o seu parágrafo: “na área que compreende as
bicas dos banhos público, no bairro Pintos, um Parque Natural e Turístico”. (5)
Ou seja, é possível identificar dois momentos na experiência do lugar Bica dos
Pintos, um do potencial agrícola, outro do potencial turístico que começa na
gestão de Paulo Correia (1971-1972), popular Paulo da Farmácia.
O Balneário da Bica dos Pintos teve sua
maior efervescência turística na década de 1970 e início dos anos 1980. Alguns
bares foram construídos na gestão do Prefeito Lauro Rocha de Andrade, bem como
uma pequena ponte que dá acesso as biqueiras. Com a reforma implementada pelo
Governo do Estado, via recursos da EMSETUR, em 1979, o lugar teve nome oficial
alterado para “Parque Governador João Alves Filho”. O balneário já passou por
outras reformas, a última em 2023 na gestão de Marcos Santana, quando recebeu uma
nova denominação: Parque Natural Aloízio Fontes dos Santos.
Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 29 de abril de 2026.
NOTAS DA
PESQUISA
1
- O Republicano. Aracaju, ano II, N. 147, 28 de maio de 1890, p. 1.
2
- Centro Agrícola. O Estado de Sergipe. Aracaju, ano XII, n. 3397,
15/10/1910, p. 2.
3
- Ato, 28/02/1890. O Republicano.
Aracaju, ano II, n. 94, 19/3/1890, p.
4
- Edital Delegacia Fiscal. Diário da Manhã. Aracaju, ano I, n. 59,
18/04/1911, p. 3.
5
- Lei Municipal N. 77, de 10 de maio de 1971. Arquivo da Câmara Municipal de
São Cristóvão.