ANEDOTÁRIO DE SÃO CRISTÓVÃO: A FORCA

Praça São Francisco, 1920


Thiago Fragata*

 Na maioria das cidades coloniais brasileiras 4 estórias alimentam a mitologia, o folclore e o bolso de conversadores que se intitulam “guias de turismo”; são elas: aqui tem passagens (túneis), aqui teve forca, aqui tem botija enterrada, aqui tem fantasmas! Essas estórias integram repertório de levar ao êxtase qualquer plateia nem que seja pelo riso. Em alguma cidade colonial, talvez, uma ou outra destas fantasias ocorram; hoje sabemos dos casos de botija nas Minas Gerais, por exemplo, que endossaram generalizações as mais absurdas. Vejamos o caso da forca de São Cristóvão, antiga capital de Sergipe D’El Rey, a partir da minha experiência no Museu Histórico de Sergipe, entre 2009 e 2013.

Os visitantes que conheceram o Museu Histórico de Sergipe, instalado em 5 de março de 1960, no sobrado do antigo Palácio Provincial, na função de Sindicato dos Trabalhadores da Industria Têxtil, entre os anos de 1949 e 1954, perguntam pela “pedra da forca” que ficava guardada numa das salas. Assim fez, no sábado, 19 de julho de 2014, o visitante José Juarez Leite, 75 anos, que estudou na Escola Operária Barão de Mauá, sediada na unidade museal. Pelo seu depoimento, a escola era constituída por uma turma de filhos de operários e tinha como professora Arasceles Rodrigues Correia. (1)

Sabemos que até os anos de 1940 havia um pedestal quadrangular próximo ao cruzeiro da Praça São Francisco. Foi aquele bloco que gerou na verve popular a suspeita da existência da forca na ex-capital. Ali seria o cadafalso, lugar das execuções dos criminosos perante os representantes da justiça e povo. Infelizmente, das possibilidades aventadas pela minha investigação nenhuma respalda os enforcamentos na praça pública. Então, qual seria mesmo a origem da base pétrea desmontada e recolhida no sobrado do antigo Palácio Provincial? Reuni 3 possibilidades: 

1) UM CATAVENTO - Encontrei a primeira pista numa publicação de 1920, de autoria de Clodomir Silva, intitulada Álbum de Sergipe. A obra que festeja o centenário da Emancipação Política de Sergipe da Bahia (1820/1920) constitui um esforço intelectual de fôlego pois objetiva traçar um panorama histórico, político, cultural, econômico e social dos 34 municípios a época, com um alentado preâmbulo sobre o passado do Estado. Nas duas fotografias das praças (Carmo e São Francisco) vemos cataventos responsáveis pela força eólica a bombear água para servir a população do centro histórico. (2) Como nos dois casos os beneficiados eram especialmente os religiosos, considero possível que esta melhoria faça parte das ações desencadeadas com a chegada dos franciscanos em 1906. o que é certo afirmar é que a instalação de cataventos na cidade deu-se no início do século XX.

Durante a primeira etapa da organização do Arquivo Municipal de São Cristóvão em 2006, encontrei um documento valioso sobre o assunto. No Livro de Atos do Governo Municipal de São Cristóvão (1904 e 1930), verso da página 18, o secretário Umbelino Pereira transcreve ofícios endereçados ao Intendente de Lagarto, com cópia ao padre Possidônio Pinheiro da Rocha, daquela paróquia, datada de fevereiro ou março do ano de 1929. Lemos o conteúdo: “Sciente essa Intendencia que se acha ahi na cidade de Lagarto parte no mercado público e parte em uma igreja peças de um catavento que pertence a intendência municipal d'aqui indo parar ahi conforme informações colhidas de pessoas que sabem do cazo por empréstimo feito pelo Doutor Graccho Cardoso ao Reverendo Possidônio e actualmente temos precisão do dito chafariz venho solicitar officios de V. Sa. a fim de ser entregue pela intendencia d'ahi ou por quem esteja de posse aguardando vossa resposta afim de mandar reconduzir para aqui”.(3)

Atente que ele implora a atenção do intendente da cidade de Lagarto e do seu pároco para resolver um problema: “precisão do dito chafariz”. Fato é que até os idos de 1980, o centro histórico de São Cristóvão possuía vestígios de pelo menos 3 chafarizes, hoje ausentes da paisagem assim como os antigos cataventos que na carta citada aparecem como sinônimos.

Diante das poucas provas amealhadas, não tenho a certeza dos ex-alunos da escola do sindicato instalado no antigo sobrado, hoje Museu Histórico de Sergipe, sobre a pedra da forca. Eles ainda falam com um olhar carregado de espanto sobre o assunto que envolve assombrações do prédio, os fantasmas que arrastavam correntes pelos corredores, almas penadas. Adiante, aventarei outras possibilidades para a famosa pedra da forca...(continua)

 


 

*Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 7 de fevereiro de 2026.

FONTES DE PESQUISA 1 - Entrevista de José Juarez Leite concedida a Thiago Fragata. São Cristóvão, 19 de julho de 2014. 2 - SILVA, Clodomir. Album de Sergipe (1820/1920). Aracaju: Governo do Estado de Sergipe, 1920, p. 281 e 283. 3 - Livro de Atos do Governo Municipal de São Cristóvão (1904 e 1930). Arquivo da Prefeitura Municipal de São Cristóvão. Manuscrito. IMAGEM: Praça São Francisco publicada no Álbum de Sergipe, de Clodomir Silva, 1920, p. 283.

 


 

SERGIPANOS NO ACRE - II*

 

O sergipano Siqueira de Meneses fundou a cidade de Sena Madureira, no Acre, em 25/9/1904.

 

THIAGO FRAGATA* 

Segue o recenseamento dos sergipanos que dedicaram trabalhos em prol do Estado do Acre, nas primeiras décadas do século XX. A base desta pesquisa é o Dicionário Bio-bibliográfico Sergipano (1925), de Armindo Guaraná, que revela sujeitos que experienciaram a saga da borracha, os confrontos armados no Acre e a querela política e judicial pela sua posse entre a Bolívia, o governo do Amazonas e a União.

Felisbello Firmo de Oliveira Freire - Médico e Historiador, nasceu em Itaporanga, em 1851, veio a falecer na capital federal, Rio de Janeiro, em 1916. Primeiro governador do Estado de Sergipe e autor de uma dezena de livros dentre os quais é pertinente citar a História de Sergipe (1891) e Os direitos do Amazonas sobre o território do Acre: estudo histórico e político (1906). Ao final do rumoroso caso do Acre, ele foi reconhecido pelo Governo Brasileiro como Território Nacional, condição que se manteve até 1962, ano em que finalmente foi reconhecido como Estado. (9)

Pedro Antônio de Oliveira Ribeiro - Nasceu em Laranjeiras, em 1851, e faleceu no Rio de Janeiro no ano de 1917. Dentre as inúmeras atividades desempenhadas ao longo da vida o magistrado foi autor da “Contestação e Tréplica em defesa dos direitos da União na ação de reivindicação movida pelo Estado do Amazonas, contra a União Federal”, redigida no ano de 1906. (10)

José Manoel Palmeira da Silva - Nasceu em Simão Dias, em 1873. Diferente dos dois últimos referenciados, esteve no Acre, residindo alguns anos. Comerciante, comprava e revendia borracha no Acre e Amazonas. Estudioso e dotado de experiência no mercado financeiro viajou para Bolívia, Chile e Paraguai. (11)

João Moreira de Magalhães – Médico, nasceu em Estância em 1855. Clinicou em Aracaju antes de tentar o sucesso da profissão no Amazonas. Por nomeação do Governo local, efetivou-se inspetor de saúde da cidade de Porto Acre. Foi diretor da Instrução Pública, de Manaus, no ano de 1890. (12)

José de Siqueira Meneses - Engenheiro, militar, político, nasceu em São Cristóvão em 1852. A convite do Governo Federal chefiou missão de reconhecimento no território do Acre, onde fundou a cidade de Sena Madureira (25/9/1904), sendo o primeiro prefeito. A “Princesinha do Acre”, como a cidade é conhecida, representa um marco histórico da presença sergipana na região. (13)

Nilo Moreira Guerra – Nasceu em Aracaju, em 1870, e faleceu em Sena Madureira, em 1917. A exemplo do já citado Avelino de Medeiros Chaves, Nilo chegou ao Acre para desempenhar profissão de agrimensor.  Foi nomeado diretor da Repartição de Obras Públicas, terras e meteorologia da Prefeitura do Alto Purus. Colaborou na Revista Amazonense. (14)

José Thomaz de Aquino Meneses – Padre, nasceu em Gararu em 1889. Secretário do Bispado e Cura da Catedral de Manaus. Foi sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas e Professor de Latim do Ginásio Amazonense. (15)

Olympio Rollemberg de Oliveira Chaves – Músico e poeta, nasceu em Socorro, em 1860, e faleceu em Maceió, no ano de 1919. Foi contador do Tesouro do Amazonas, cargo que desempenhava em Manaus, capital do Estado. (16)

Salustiano Orlando de Araújo Costa – Magistrado, nasceu em São Cristóvão, em 1834, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1908. Chefe de Polícia do Amazonas, também atuou na Educação enquanto Diretor da Instrução Pública, em 1865. (17)

Oséas Motta – Nasceu em Capela, em 1886. Aos 15 anos viajou para o Amazonas no propósito de trabalhar no comercio, auxiliando o tio Maxímino José da Motta. Dentre os cargos ocupados, vale ressaltar o de escrivão, inspetor, delegado de Manaus. Foi um dos fundadores da extinta Assembleia Literária Amazonense. Por questões de perseguição política, foi residir no Rio de Janeiro, onde em 1925, trabalhou na Câmara dos Deputados como defensor da Borracha. (18)

Apresentamos informações esparsas de sergipanos que tangenciaram o contexto histórico-geográfico do território acreano nos seus primórdios, fins do século XIX e início do XX. Pesquisa limitou-se praticamente à consulta do Dicionário Bio-bibliográfico, de Armindo Guaraná, obra de referência que tem suscitado diversas abordagens, originando monografias, dissertações, teses etc. Evidente que muitos anônimos fizeram parte da História do Acre. Por exemplo, no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) o governo brasileiro empreendeu política de incentivo a produção de borracha no Acre. Propagandas anunciaram vantagens e perspectivas alvissareiras na imprensa nordestina, o que deflagrou nova migração, inclusive de sergipanos, em razão do II ciclo da borracha.

FONTES DA PESQUISA: 9 - GUARANÁ, Armindo. Dicionário Bio-bibliográfico Sergipano. Rio de Janeiro: Pongetti, 1925, p. 83-86; 10 - idem, p. 241-242; 11 - Idem, p. 175; 12 - Idem, p. 143; 13 - Idem, p. 185-186; 14 - Idem, p. 232-233; 15 - Idem, p. 187; 16 - Idem, p. 236-237; 17 - Idem, p. 253-254; 18 -Idem, p. 230. 

 


*CRÉDITOS DO TEXTO: FRAGATA, Thiago. SERGIPANOS NO ACRE II. JORNAL DO DIA. Aracaju, 31 de janeiro de 2026.  

  

                           Dedicado ao saudoso amigo pesquisador Luiz Antônio Barreto (1944/2012)

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