Apesar da distância, o padre Antônio Carmelo manteve um vínculo permanente com o torrão natal, nisso a produção literária fala por si. Dentre os textos de jornais e opúsculos, quatro livros se destacam. Um é a síntese biográfica Olímpio Campos perante a História (1910), em que o autor descreve a vida, a trajetória política, o assassinato e as homenagens póstumas ao seu companheiro de batina. (2) Embora os órfãos de Fausto Cardoso, também assassinado em 1906, tenham arquitetado a vindita contra Olímpio Campos, os parentes e amigos do padre morto advogam sua inocência, apelando ao futuro o esclarecimento dos fatos. Carmelo, a propósito, delega aos “historiadores a apuração da verdade” (3)
Aspectos da infância em São Cristóvão e da vida no Seminário de Ciências Teológicas estão em Impressões e Saudades (1912), seu livro de memórias. Aí relembra seu embarque emocionante no vapor Minúsculo Transatlântico que o conduziria à Bahia aos 15 anos. Testemunha a monotonia das aulas e as estripulias da vida no Convento Santa Teresa: o jogo de fino, fuga para as festas de São João e o desaparecimento do vinho da adega conventual. Apesar dos castigos da sua experiência monacal, Carmelo reconhece no padre sergipano José Paes de Azevedo um vice-reitor competente.
Haja Homens (1918) é obra traduzida. Sob o título original “Il nous fout des Homme” a mesma foi escrita pelo francês Felix Antoine Philibert (Dopanloup), alguns anos antes da Guerra Franco-prussiana (1870-1871). A obra de Carmelo é dedicada a D. Pedro II. No prefácio, ele apresenta e justifica a genialidade de intelectuais e artistas brasileiros enquanto fruto da qualidade das instituições educacionais do período monárquico. O cerne da obra mostra como as experiências educacionais do século das revoluções burguesas (XVIII) aceleraram o progresso da humanidade.
A questão de limites territoriais entre Sergipe e Bahia desenrolou-se entre o final do século XIX e início do XX, envolvendo grande parte da intelectualidade dos Estados litigantes. A contribuição de Carmelo foi publicada com o título Aspectos Sergipenses: limites, terras, indígenas (1918). Além de tratar da espinhosa questão territorial com a Bahia, ao sul, o autor expõe a querela com Alagoas, ao norte. No segundo capitulo, inicia digressão em que trata de Antônio Conselheiro, da origem, população do Belo Monte e da fatídica Guerra de Canudos (1896-1897). Apesar do juízo negativo sobre o arraial e seu líder, o padre lamenta “o matadouro humano” instalado no sertão baiano pelo Exército republicano.
Resenhada as obras-mestras do padre Carmelo, cumpre voltar à faina da sua atribulada vida. Sem descuidar das obrigações pias, ele manteve fluxo regular de visitas a Sergipe que eram, com o perdão do trocadilho, religiosamente planejadas. Em tempo hábil, conciliava agenda entre a família, os acertos políticos e os eventos cívicos e religiosos. Sua eloquência enredava ainda missas, palestras e animadas tertúlias. Em 1919, o padre Carmelo foi nomeado vigário da freguesia de Campos de Goitacazes do Rio de Janeiro.
Em 1924, quando a Matriz de São Salvador, de Campos dos Goytacazes/RJ, foi elevada à categoria de Catedral, o religioso foi nomeado para a Cúria da mesma. no entanto, em 29 de dezembro de 1927 escreveu uma carta ao Bispo, D. Henrique Mourão, pedindo demissão do cargo da Cúria Diocesana da Catedral, pois discordava da venda da prataria litúrgica. (4)
Infelizmente, ignoramos o ano da morte do padre Carmelo, bem como a estatística da sua produção literária e contribuições na imprensa fluminense, baiana e sergipana.
*Thiago Fragata é professor, historiador e multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias - São Cristóvão/SE. Publicado no JORNAL DO DIA Aracaju, 21 julho 2026, p. 2. E-MAIL thiagofragata@gmail.com NOTAS DA PESQUISA: 1 - GUARANÁ, Armindo. Dicionário Bio-bibliographico Sergipano. Rio de Janeiro: Pongetti, 1925, p. 16. Livros comentados estão no acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE); 2 - Em 2005, véspera do centenário da tragédia, o jornalista Luis Antônio Barreto re-editou Olímpio Campos perante a História; 3 - CARMELO, Antônio. Olímpio Campos perante a História. Rio de Janeiro: Oficinas Gráficas Gomes, Irmãos e Cia, 1910, p. 153; 4 - Antônio Carmelo. Blog autores campistas [on line] https://autorescampistas.blogspot.com/2012/05/antonio-carmelo-padre-nasceu-no-dia-9.html, consulta 26/6/2026.












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