Na graduação em História, tomei conhecimento do manuscrito de Serafim Santiago, Anuário Christovense, reunindo suas memórias sobre eventos, fatos e personagens da São Cristóvão do seu tempo, fins do século XIX. Dada sua importância, li o precioso acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), transcrevi parte significativa, citei na monografia, reli outras tantas. SANTIAGO conheceu João Nepomuceno Borges, o popular João Bebe-Água, assim como Manoel dos Passos de OLIVEIRA TELLES, que também escreveu muito sobre a ex-capital. (1) Nenhum deles tratou da dipsomania que adversários políticos impingiram no opositor da Mudança da Capital, de 17 de março de 1855. Pertinente destacar como o arroubo patriótico e/ou o derrotismo aparece vinculado ao alcoolismo; como fazer oposição a Mudança da Capital, 17/3/1855, fosse algo quixotesco, exclusivo para indivíduos desprovido de bom senso, coerência, juízo, enfim, gozo pleno da capacidade cognitiva, intelectual e psicológica.
Como já disse, por um bom tempo aceitei com mansidão a possibilidade do João Bebe-Água ser um cachaceiro, afinal sempre foi assim que o vi representado nas peças teatrais da escola, até mesmo na peça encenada na abertura do IX Festival de Arte de São Cristóvão, de 1980. (2) Cômico e comovente, criou-se a narrativa do bebum revoltado, embriagado na loucura ou promessa do retorno da capital, dos foguetes que guardava para estourar nesse dia. Cativado pela informação, do inveterado consumidor de aguardente, li no citado manuscrito de SANTIAGO que o seu vício era “o lenço de rapé e uma catarina, como ele chamava a uma figura preta, feita de ponta de boi, onde conservava um bom torrado que a todos oferecia”. (3) Ignorando o que seria rapé, entendi “torrado” como aguardente, cachaça!? Cheguei a publicar esse disparate, em 2004. (4) Minha surpresa foi o que as pesquisar revelariam sobre o rapé, posteriormente.
RAPÉ - (do francês râpé, "ralado") é o tabaco em pó que serve para cheirar. O hábito de consumir rapé era bastante difundido no Brasil até o início do século XX. Era visto de maneira contraditória, ora como hábito elegante, ora como vício; presente nos diferentes segmentos da sociedade. Há menções ao hábito em obras de Eça de Queirós (Maias), Leon Tolstói (Guerra e Paz), Helena Morley (Minha vida de menina) e Machado de Assis (O Bote de Rapé). (5) Vejamos trecho desta crônica machadiana, sob pseudônimo Eleazer, publicada no jornal o Cruzeiro, de 1878:
vício do rapé é um vício circunspecto
indica desde logo um homem de razão;
tem entrada no paço, e reina no salão,
Governa a sacristia e penetra na igreja.
uma boa pitada as ideias areja;
dissipa o mau humor. (...)
Inda mais: até o amor aumenta
Com a porção de pó que recebo na venta. (6)
Assim como o cigarro em nosso tempo, no século XIX o rapé foi símbolo de moda, saúde, bom apetite, longevidade, afrodisíaco, recomendado pela ciência, por último condenado pela mesma ciência, tanto que seu uso terapêutico sofre restrições, hoje.
Voltando ao mote do texto, alguém pergunta: João Bebe-água era alcoólatra? Não virou alcoólatra com trauma da Mudança da Capital? Bom, das informações coligidas e compartilhadas dos contemporâneos, refiro-me a Serafim Santiago e Manoel dos Passos, é razoável protestar, ainda que apreciar cachaça - preciso enfatizar - em nada deveria comprometer suas atitudes bairristas, nem mesmo as pragas rogadas aos “inimigos de São Cristóvão”. Chama atenção, o fato dos citados autores justificarem o apelido “Bebe-Água” por razões dissonantes, oposta da alcoolomania. Confira:
Nas últimas estrofes da poesia DITO E FEITO, dedicada a João Bebe-Água”, de 1890, OLIVEIRA TELLES fala das promessas feitas no traumático advento da Mudança da Capital, de 17/3/1855. Vale a pena conferir, ipsis litteris:
Jurou que nunca iria a Aracaju
para não anular a sua magoa
Desabafa em falar. Feroz e cru.
Não bebe água de lá, e assim deságua
a dor que lhe lacera o peito nu
por isso é que o chamam – Bebe-Água. (7)
SANTIAGO, por sua vez recorda “quando alguém lhe perguntava: Senhor João, como tem passado? – ele respondia logo, muito satisfeito: “bebendo água”. Uma terceira razão dissonante do ébrio, foi lembrada por Sebrão SOBRINHO, em Fragmentos da História de Sergipe, de 1972; à página 162, escreve sobre João Bebe-Água “sendo abstêmio e disso fazendo gabos com repoches aos sacerdotes de Baco, de que só bebia a linfa potável”. (8)
Enfim, pela juntada, aconselho sopesar a próxima encenação teatral que apresente João Bebe-Água como o bêbado que não conseguiu estragar a festa da Mudança da Capital. Faz isso e o meu esforço em reconhecer meu erro crasso (ter confundido rapé com cachaça), depois de 22 anos, não terá sido em vão.
*Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 27/03/2026.
FONTES DA PESQUISA 1 - OLIVEIRA TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Bebe água. In: Sergipenses: escriptos diversos. 2ª. Ed. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013. Manuscrito de Serafim Santiago foi publicado: SERAFIM, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora da UFS, 2009; 2 - OLIVA, Terezinha Alves de; SOARES, Rosane; CABRAL, Otávio Luiz. FASC: Uma história em cartaz. São Cristóvão: Editora da UFS, 2008, p. 37; 3 - SANTIAGO, Serafim. Idem, p. 263; 4 - SILVA FILHO, José Thiago da. João Bebe-Água: o mito em carne e osso. Jornal da Cidade. Aracaju, 20, 21-22/3/2004; 5 - Rapé segundo wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Rap%C3%A9, consulta 24/3/2026; 6 - MAGALHÃES JR, Raimundo. Esplendor, decadência e morte do rapé. In: O Império em Chinelos. Rio de Janeiro: Ed. Civilizações Brasileira, 1957, p. 155; 7 - INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SERGIPE (IHGSE). Aracaju, Christofaneida, 1890. Manuscrito de Manoel dos Passos de Oliveira Telles; 8 - SOBRINHO, Sebrão. Fragmentos da História de Sergipe. Aracaju: Livraria Regina, 1972, p. 162.









