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| AGUADEIRO - xilogravura do Mestre Nivaldo Oliveira |
Thiago Fragata*
Minha geração passou a infância flanando
pelas ruas de São Cristóvão, ora na cidade-baixa, ora na cidade-alta. Becos, praças, ladeiras, calçadas, qualquer
lugar e hora tinha o marraio ou a pelada, a troca de figurinhas ou revistas em
quadrinhos com os meninos dos outros bairros; empinar pipas na linha do trem,
brincar de nego-fugido, figurava também como opção. Quase sempre avistávamos
Vává da Colina. Era um susto que punha muito menino valentão a correr destabanado
de coração na boca. O homem sinistro vinha sempre descalço como um beduíno que
vergasta desertos e não desvela a mínima ofegação, um zumbi. Silencioso,
acompanhava 10 jegues ajoujados, todos arriados de barricas d'águas colhida na fonte
do São Gonçalo ao sopé da Colina das Almas.
O que Vává da Colina trazia naquelas
barricas? Isso demorávamos entender, ficávamos pois a imaginar o que o homem
esquisito trazia naqueles vasos. Se trouxesse mala ou saco faria mais sentido o
nosso temor; o medo que aterrava a todos não era por causa da alimária e sim
pelo almocreve.
Corpo franzino e acobreado, libado de
suor a refletir os raios solares; vestia sempre um bermudão lodento atado a
cintura por uma corda também imunda; tinha cabelo espantado, olhos esbugalhados e ostentava seriedade a contrastar com um
sorriso forçado pelo lábio leporino. Sim, possuía lábio leporino e por isso
seus dentes estavam sempre a mostra. Aquele sorriso de caveira era a garantia
de uma noite de pesadelos. Daí o terror anunciado involuntariamente pelo
aguadeiro. Era isso, Vává da Colina era apenas um vendedor de água, um
aguadeiro como se dizia no passado.
Aos poucos que atentavam para o sujeito,
dois grandes desafios: escutar a voz e compreender a mensagem. Fosse aboiando a
fila de jeguinhos, bradando nas debandadas ou quando um animal empacava, Vává
da Colina era sempre enérgico e gesticulava como um maestro a frente da
orquestra. No entanto, quando era preciso falar, oferecer água, falava baixo e
cabisbaixo demonstrando assim sua educação. O bordão dos aguadeiros (água
fresca, oí água!) nunca ouvir da sua
boca.
Ele tinha uma clientela fixa e
trabalhava todos os dias da semana; aos seus dizia com a voz fanhosa “não tenho
folga porque beber água é todo dia”. Alto Divinéia, Santo Antônio, Avenida,
Ripiada, Apicum Merém, na maioria dos bairros tinha clientes. Sua concorrência
deixará de existir, era o único a entregar água de barrica a domicílio. É certo
que muitos buscavam água na fonte do Cristo, Canjiquinha, Banho Morno, Prata,
Bica dos Pintos, ou nos chafarizes do centro histórico.
Em
meados de 1980 tomei conhecimento do falecimento do homem que passava tocando
os jegues arriados com barricas, o último dos aguadeiros de São Cristóvão.
Curiosamente, nessa mesma época, Manoel Cabral lembrava num dos seus primorosos
textos da antiga estrada dos aguadeiros que ligava a cidade histórica a
Aracaju. O memorialista informava que a estrada surgiu logo após a Mudança da
Capital em função do comercio de “água boa”.
Consta que Severiano Cardoso escutou na boca dos sancristovenses no
início de 1900 a seguinte quadra poética:
As
águas de São Cristóvão
só
parecem de cristal;
as
águas de Aracaju
mas
parecem rosargal.
Rosargal,
explica o dicionário, era a cor ferrugem do iodo gerado na lama dos pântanos.
Aracaju possuía água de boa qualidade em alguns pontos distantes do seu
litoral, no entanto ressentia-se da abundância e do valor medicinal atribuído
as águas da ex-capital. Termal, magnésica, ferrosa, eis alguns adjetivos do
receituário médico referindo-se aos tipos de água encontrada na região. O
antigo banho morno não tinha o nome por mero acaso. A lenda de Rita Cacete fala
dos poderes miraculosos da água. Imaginemos pois as recomendações médicas feita
aos pacientes tísicos em fins do século XIX: “repouso por 10 dias em Sam
Christovam, aonde possa aproveitar o ar puro e a água de boa qualidade”.
* Texto publicado no Jornal do Dia. Aracaju, 7 de
abril de 2026.