20 ANOS DA CANDIDATURA DO ÚNICO PATRIMÔNIO MUNDIAL SERGIPANO

 

Praça São Francisco, São Cristóvão/SE. Foto: Heitor Xavier


Thiago Fragata*


Há 20 anos, Marco Antonio Faria Galvão organizou o dossiê de candidatura da Praça São Francisco, de São Cristóvão, a Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Fiz parte do time de intelectuais escalado para assinar os textos, junto com Aglaé Fontes da Silva, Maria Thetis Nunes (in memoriam), Luis Fernando Ribeiro Soutelo (in memoriam), José Leme Galvão Junior, Augusto Silva Telles e Edinaldo Batista dos Santos. Vencido trâmite burocrático, marcado por mudança de status e objeto, elaboração de anexos e implementação de obras de fiação subterrânea, iluminação cenográfica, saneamento e drenagem, a Praça São Francisco foi chancelada no dia 1º de agosto de 2010, na Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, sediada em Brasília. Compartilho abaixo minha contribuição, intitulada “História e cotidiano da Praça Francisco: louvor, tradição e fé”; na sequência, resenho a auspiciosa proposição.

“A antiga São Cristóvão tem configuração urbanística medieval – lembra uma acrópole – arquitetada segundo mentalidade de seus construtores em duas cidades ou planos: a cidade-alta e a cidade-baixa. A cidade-alta, ou o centro histórico, sediava a estrutura do poder político-judicial e religioso da Capitania de Sergipe D’El Rey, quanto à cidade-baixa, estava destinada ao comercio e à pesca facultada pelo rio Paramopama, afluente do rio Vaza-Barris, e constituía a principal zona de produção canavieira. Aglomeravam atores distintos, classes distintas que, em raríssimas ocasiões, contracenavam nas praças da urbe secular. No centro, encontramos a Praça São Francisco. Essas praças testemunharam as batalhas, as solenidades cívicas, os atos religiosos e as festas, e os momentos mais especiais da vida sancristovense.

A Praça São Francisco tem história. Dentre tantos conceitos que a palavra praça pode representar, o mais compreensível de todos é o de um espaço amplo e aberto cercado de edifícios. Sobressai-se, na Praça São Francisco, nome emprestado do antigo e portentoso convento franciscano que, junto com a Santa Casa de Misericórdia, o Palácio Provincial e a “Ouvidoria”, desenham seu retângulo ou seu espaço de vivências. No desenrolar dos séculos, a memória dessa praça passa a fazer parte do imaginário dos moradores: colonizadores despossuídos rogam auxílio às portas da Misericórdia, assim como os órfãos, as viúvas e tantos infelizes; holandeses queimam e matam pelo controle da cidade, amontoam defuntos no espaço público; franciscanos arregimentam trabalhadores para construção de um convento; frequentemente, solenidades garbosas marcam a posse de capitães-mores e ouvidores.

Povo, poder e clero deixaram suas pegadas na Praça São Francisco. Tantas personalidades... seria inútil citar e impossível quantificar. Incita a nossa imaginação especular o que pensou/sentiu Gregório de Matos Guerra quando esteve em São Cristóvão em fins do século XVII. Embora não tenha pintado com seus versos sarcásticos uma lisonjeira “Descrição da cidade de Sergipe D’El Rey”, o poeta barroco afirma ter encontrado “dois conventos, seis padres, três letrados”. No entanto, a antiga capital sergipense, pacata demais, pobre demais, diferente da capital baiana, Salvador, que também não tinha o afeto do “Boca do inferno”, no século XX agrada Maria Rita Lopes Pontes, a Irmã Dulce, no momento em que inicia seus estudos num dos conventos da cidade (1933). Em São Cristóvão, a devota “Mãe dos pobres” é batizada com o nome da avó na Congregação da Imaculada Conceição. Considerada santa em razão dos seus trabalhos sociais e do seu devotamento, a Irmã Dulce tem seu nome na lista dos brasileiros que esperam canonização no Vaticano.

A Praça São Francisco tem religião. Não apenas o convento que outrora abrigou a ordem franciscana tão dinâmica na vida social da cidade, mas os carmelitas e religiosos das tantas irmandades católicas que sempre organizaram quermesses, sermões, missas campais e procissões nessa praça. Tanto a procissão do Senhor dos Passos quanto a Procissão do Fogaréu e a encenação da Paixão de Cristo tem seu enredo, cenário e palco na Praça São Francisco. E ela tem efetivamente participado do cotidiano da cidade em mais de quatros séculos de experiencia histórica.

A Praça São Francisco tem festa. Espaço principal de eventos como o Carnaval, o São João, a Cidade Seresta e o Festival de Arte de São Cristóvão, nela se concentram os respectivos brincantes do frevo, do forró, da boemia e da cultura popular. O patrimônio imaterial ganha relevo nessa praça. Nas serestas, milhares de espectadores festejam o desempenho de astros da musica nacional no cenário barroco que complementa o romantismo de canções e noites enluaradas.

Por último, e não menos importante, vale ressaltar que a referida praça é um postal completo da cidade histórica, êxtase dos visitantes e pesquisadores, o que nos remete à verdade de Eurico Amado quando reputa que “a Praça São Francisco é, com certeza, o mais belo e harmonioso conjunto arquitetônico colonial do Brasil. Nela o visitante tem a impressão de estar integrado num longínquo instante da História, convivendo com as primeiras raízes da nacionalidade”. Não se pode esquecer que o Museu Histórico de Sergipe e o Museu de Arte Sacra estão situados na referida praça, respectivamente, das dependências do antigo Palácio Provincial (1960) e no Convento São Francisco (1974). Um e outro permitem ao visitante conhecer o imaginário e reconstituir a vida, o ambiente religioso e social dos séculos XVII, XVIII, XIX e início do XX. (1)

Resenha do dossiê: o primeiro texto, “A cidade de São Cristóvão na formação histórica sergipana: da colônia aos dias atuais” é assinado por Maria Thétis Nunes (2023/2009). Nele a trajetória da conquista territorial, a colonização e a urbanização da cidade foram pormenorizadas, com ênfase nos principais lances da vida política sergipana que tiveram o cenário da ex-capital.

A “Evolução urbana de São Cristóvão: análise da evolução morfológica do espaço urbano” tem autoria de José Leme Galvão Junior. Apresenta 8 momentos da evolução urbana da cidade tendo como referência o Plano Urbanístico elaborado pelo Prof. Américo Simas, em 1979. Deixa patente que a fundação (1590-1606), a Mudança da Capital (1855) e a chegada da via férrea (1912) foram os momentos de maior transformação do cenário urbano, tanto na cidade-alta quanto na cidade-baixa.

Intitulado “São Cristóvão: urbanismo e arquitetura”, o artigo de Augusto Silva Teles trata da constituição da trama urbana do centro histórico, mostrando a arquitetura dos templos religiosos, praças e dos prédios civis. Interpreta as praças da Matriz, do Carmo e a São Francisco - objeto da candidatura de São Cristóvão - enquanto logradouros formadores do núcleo histórico. Faz análise substancial da Praça São Francisco desvelando seu valor cultural e justificando sua inscrição na lista dos bens culturais do Patrimônio Mundial, nas categorias II e IV.

O Professor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo (1949/2022), por sua vez, assina o texto “Convento de Santa Cruz e a Igreja Conventual: a presença franciscana”. Esclarece que a obra autorizada pelo Capitulo Provincial em 1657 demorou mais de um século para ganhar o formato atual em razão da pobreza do lugar e da ordem religiosa. Seu relato abrange todas as dependências do majestoso convento, destacando ícones e esculturas da sacristia, claustro, altares, retábulos, etc. Atenta que o templo é único no Brasil em que a Ordem Terceira (onde funciona o Museu de Arte Sacra) é perpendicular ao convento.

“História e cotidiano da Praça Francisco: louvor, tradição e fé” marca a contribuição histórico-poética Thiago Fragata. Texto rememora lances e personagens enredados no aludido cenário e desvela a praça que fundamenta o pleito internacional enquanto espaço de festas, de religião e lazer.

A professora Aglaé Fontes apresenta “São Cristóvão: aspectos culturais”. Desvela religiosidade do cenário, representado nas igrejas e diversas irmandades de outrora, é o fulcro das manifestações populares de louvor e alegria, como as procissões e o folclore. Dentre os festejos trata do Carnaval, do São João, da Seresta e do Festival de Arte de São Cristóvão. Explana sobre o artesanato nas suas diversas categorias: cestaria, escultura, artes plásticas, culinária, ponto-de-cruz, etc

No último artigo, Edinaldo Batista dos Santos traça “A Paisagem e o Homem: aspectos sócio-ambientais”. Embasado em números do Instituto Brasileiro Geográfico e Estatístico (IBGE), o autor discute o saneamento ambiental e as potencialidades naturais da cidade, o que amplia sua vocação para o turismo.



*Thiago Fragata – Historiador, poeta, multiartista. Email: thiagofragata@gmail.com Publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 1 de agosto de 2026. FONTE CONSULTADA: 1 - Proposição da inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na lista do Patrimônio Mundial. Governo de Sergipe, 2006, p. 117- 122. 
 

 

 

 

MUSEU HISTÓRICO DE SERGIPE: ORIGEM

Palácio Provincial, atual MHS - imagem da década de 1930

 

 Thiago Fragata*

O sobrado do Museu Histórico de Sergipe, localizado em São Cristóvão, remonta ao século XVIII. Naquele contexto de um Brasil Colonial a economia canavieira galgara pico de produção e o mercado exterior favorecendo o embelezamento de conventos e igrejas. Boa parte dos sobrados existentes no centro histórico de São Cristóvão, sede da então Capitania de Sergipe d’El Rey, serviam a administração ou moradia de burocratas e veraneio de abastados senhores de engenho da zona do Cotinguiba e/ou do Vaza Barris. Este não era o caso do proprietário do sobrado localizado a praça São Francisco de São Cristóvão, o tenente Domingos Rodrigues Vieira de Melo, um militar.  

A Emancipação Política de Sergipe da Bahia, em 1820, ocasionou a crescente necessidade de compra e disponibilidade de prédios para administração. Disso resultou a compra do sobrado ao militar no ano de 1823. Incorporado aos próprios nacionais (PN) o prédio foi reedificado e inaugurado em 12 de outubro de 1825, na gestão do Presidente (Governador) Manuel Clemente Cavalcante de Albuquerque, como parte das comemorações das Festas Nacionais em homenagem ao aniversário de Sua Majestade D. Pedro I e à Fundação do Império. (1)

Com acentuada tendência liberal, Manuel Clemente governou durante 20 meses, impingindo medidas inovadoras e alheio aos embates políticos. Dentre as principais medidas constam a fundação de um jardim botânico para centro de apoio a agricultura; organização da “Casa do Trem” com instrutor para formar trabalhadores de artes e ofícios manuais, ampliação do efetivo militar e introdução de método lancasteriano na educação da Província. (2) Sua morte repentina, no dia 2 de novembro de 1826, consternou a todos. Como ele havia manifestado o desejo de ser enterrado “numa das igrejas da cidade”, foi inumado no chão do Convento São Francisco. (3)

Em 1855, o Palácio do Governo foi avaliado, com certo exagero, em 50:000$000 (cinqüenta contos de réis), num momento em que os opositores a Mudança da Capital listavam o prejuízo aos cofres públicos com o ato de Inácio Joaquim Barbosa, então Presidente da Província. (4)

Cinco anos depois, em viagem pelo nordeste, o imperador Dom Pedro II conheceu Sergipe entre os dias 4 e 19 de janeiro de 1860. O monarca visitou a ex-capital no dia 18 e foi homenageado no prédio que servia de Câmara Municipal de Vereadores. Nele armou-se capela e sala de despachos, teve beija-mão e dossel para o ilustre monarca. (5)

João Bebe-Água, apelido do principal opositor a Mudança da Capital, foi vereador do Partido Liberal e nessa condição freqüentou o vetusto monumento. Apesar dos adjetivos impingidos pelos adversários políticos (louco, maltrapilho, cachaceiro) João Nepomuceno Borges, seu nome de batismo, legou uma comovente lição de amor a cidade de São Cristóvão. A promessa de guardar fogos para estourar no dia do retorno da Capital e a jura de morrer sem conhecer Aracaju romantiza seu incompreendido bairrismo quixotesco. (6)

O Estado comprou o prédio que pertencia a Fazenda Federal por 2:000$000 (dois contos de réis), conforme escritura de compra e venda de 19 de março de 1918. (7) Experimentou um período de completo abandono. Nas décadas de 1920 e 1930, nele funcionou a delegacia da cidade. Em janeiro de 1940, durante gestão do prefeito Antônio Silvio Bastos o antigo Palácio Provincial foi reformado para instalação da Escola Barão de Mauá. (8) Mas foi a Mesa de Rendas Federais (Exatoria) que aí permaneceu instalada durante anos. Em 1951-1952, era sede do sindicato dos Operários de São Cristóvão, com sala de jogos e salão de baile. O Grupo Escolar Vigário Barroso ficou instalado durante reforma de sua sede.

Em 1960, no dia 5 de março, foi inaugurado o Museu Histórico de Sergipe, no Governo de Luis Garcia. Seu rico e diversificado acervo tem marca dos organizadores-curadores, os irmãos Junot Silveira e Jenner Augusto. (9) Mas falar dos idealizadores e benfeitores é assunto para outro artigo.

 

*Thiago Fragata é professor, historiador e multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias - São Cristóvão/SE. E-MAIL thiagofragata@gmail.com Publicado no JORNAL DO DIA, de 28 de julho de 2026.

NOTAS DA PESQUISA: 1 - NUNES Maria Thétis. História de Sergipe a partir de 1820. Rio de Janeiro, Editora Cátedra, 1978, p. 113; 2 - NUNES, Maria Thétis. Sergipe provincial. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000, p. 141, 151 e 154; 3 - Testamento de Manoel Clemente Cavalcante de Albuquerque. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, Aracaju, ano II, n. 5, 1914, p. 131-132; 4 - Correio Sergipense. Papéis antigos. Revista do Aracaju. Aracaju, 1944, p. 265; 5 - GALVÃO, Manuel da Cunha. Viagem Imperial a Província de Sergipe, ou narração dos preparativos, festejos e felicitações que tiverão logar por occasião da visita que fizerão a mesma província, em janeiro de 1860. Bahia: Typ. do Diário, 1860, p. 95; 6 - Revisão sobre João Bebe-água. JORNAL DO DIA, Aracaju, ano VI, n. 1847, 17 e 18 março 2011, p. 3; 7 - Cartório do 1º. Ofício da Comarca de Aracaju. Livro de Notas, fls. 57 a 59; 8 - Recibo de despesa. Tesouraria Arquivo da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, 04/12/1939-05/04/1940; 9 - FRAGATA, Thiago Fragata. Cinqüentenário do Museu Histórico de Sergipe: o sobrado (I). JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XXXIX, N. 11.309, 28 e 29/03/2010, p. B-11.

 

 
 
 

 

PADRE CARMELO: VIDA E ALGUMAS OBRAS

 

PADRE CARMELO 

imagem restaurada com CHATGPT 


 

Thiago Fragata*

 
Antônio Carmelo, filho de Maximiano Teixeira de Jesus e Januária Carolina de Jesus, nasceu em 9 de fevereiro de 1870, na cidade de São Cristóvão, onde cursou Humanidades. Seguiu carreira religiosa, foi seminarista na Bahia. Consolidado o presbiterato, assumiu a paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Mundo Novo, do Rio de Janeiro. Em dezembro de 1897, transferiu-se para São Paulo para reger a freguesia de Nossa Senhora das Dores de Fartura e, consequentemente, exercer a intendência municipal. Expirado o mandato, retornou ao Rio de Janeiro com o fito de consagrar-se ao magistério secundário, quando fundou o Externato Atheneu Guanabara. O pendor ao magistério levou o religioso a prestar dois concursos visando docência no Instituto Benjamim Constant, falhando no intento apesar das boas notas. Em 1907 inaugurou Colégio Boa Vista, no Alto da Tijuca, ofertando vagas para internato e externato. (1)

Apesar da distância, o padre Antônio Carmelo manteve um vínculo permanente com o torrão natal, nisso a produção literária fala por si. Dentre os textos de jornais e opúsculos, quatro livros se destacam. Um é a síntese biográfica Olímpio Campos perante a História (1910), em que o autor descreve a vida, a trajetória política, o assassinato e as homenagens póstumas ao seu companheiro de batina. (2) Embora os órfãos de Fausto Cardoso, também assassinado em 1906, tenham arquitetado a vindita contra Olímpio Campos, os parentes e amigos do padre morto advogam sua inocência, apelando ao futuro o esclarecimento dos fatos. Carmelo, a propósito, delega aos “historiadores a apuração da verdade” (3)

Aspectos da infância em São Cristóvão e da vida no Seminário de Ciências Teológicas estão em Impressões e Saudades (1912), seu livro de memórias. Aí relembra seu embarque emocionante no vapor Minúsculo Transatlântico que o conduziria à Bahia aos 15 anos. Testemunha a monotonia das aulas e as estripulias da vida no Convento Santa Teresa: o jogo de fino, fuga para as festas de São João e o desaparecimento do vinho da adega conventual. Apesar dos castigos da sua experiência monacal, Carmelo reconhece no padre sergipano José Paes de Azevedo um vice-reitor competente.

Haja Homens (1918) é obra traduzida. Sob o título original “Il nous fout des Homme” a mesma foi escrita pelo francês Felix Antoine Philibert (Dopanloup), alguns anos antes da Guerra Franco-prussiana (1870-1871). A obra de Carmelo é dedicada a D. Pedro II. No prefácio, ele apresenta e justifica a genialidade de intelectuais e artistas brasileiros enquanto fruto da qualidade das instituições educacionais do período monárquico. O cerne da obra mostra como as experiências educacionais do século das revoluções burguesas (XVIII) aceleraram o progresso da humanidade.

A questão de limites territoriais entre Sergipe e Bahia desenrolou-se entre o final do século XIX e início do XX, envolvendo grande parte da intelectualidade dos Estados litigantes. A contribuição de Carmelo foi publicada com o título Aspectos Sergipenses: limites, terras, indígenas (1918). Além de tratar da espinhosa questão territorial com a Bahia, ao sul, o autor expõe a querela com Alagoas, ao norte. No segundo capitulo, inicia digressão em que trata de Antônio Conselheiro, da origem, população do Belo Monte e da fatídica Guerra de Canudos (1896-1897). Apesar do juízo negativo sobre o arraial e seu líder, o padre lamenta “o matadouro humano” instalado no sertão baiano pelo Exército republicano.

Resenhada as obras-mestras do padre Carmelo, cumpre voltar à faina da sua atribulada vida. Sem descuidar das obrigações pias, ele manteve fluxo regular de visitas a Sergipe que eram, com o perdão do trocadilho, religiosamente planejadas. Em tempo hábil, conciliava agenda entre a família, os acertos políticos e os eventos cívicos e religiosos. Sua eloquência enredava ainda missas, palestras e animadas tertúlias. Em 1919, o padre Carmelo foi nomeado vigário da freguesia de Campos de Goitacazes do Rio de Janeiro.

Em 1924, quando a Matriz de São Salvador, de Campos dos Goytacazes/RJ, foi elevada à categoria de Catedral, o religioso foi nomeado para a Cúria da mesma. no entanto, em 29 de dezembro de 1927 escreveu uma carta ao Bispo, D. Henrique Mourão, pedindo demissão do cargo da Cúria Diocesana da Catedral, pois discordava da venda da prataria litúrgica. (4)

Infelizmente, ignoramos o ano da morte do padre Carmelo, bem como a estatística da sua produção literária e contribuições na imprensa fluminense, baiana e sergipana.


*Thiago Fragata é professor, historiador e multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias - São Cristóvão/SE. Publicado no JORNAL DO DIA Aracaju, 21 julho 2026, p. 2. E-MAIL thiagofragata@gmail.com NOTAS DA PESQUISA: 1 - GUARANÁ, Armindo. Dicionário Bio-bibliographico Sergipano. Rio de Janeiro: Pongetti, 1925, p. 16. Livros comentados estão no acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE); 2 - Em 2005, véspera do centenário da tragédia, o jornalista Luis Antônio Barreto re-editou Olímpio Campos perante a História; 3 - CARMELO, Antônio. Olímpio Campos perante a História. Rio de Janeiro: Oficinas Gráficas Gomes, Irmãos e Cia, 1910, p. 153; 4 - Antônio Carmelo. Blog autores campistas [on line] https://autorescampistas.blogspot.com/2012/05/antonio-carmelo-padre-nasceu-no-dia-9.html, consulta 26/6/2026.

 


 

 

 

20 ANOS DA CANDIDATURA DO ÚNICO PATRIMÔNIO MUNDIAL SERGIPANO

  Praça São Francisco, São Cristóvão/SE. Foto: Heitor Xavier Thiago Fragata* Há 20 anos, Marco Antonio Faria Galvão organizou o dossiê d...