GILFRANCISCO*
FORMAÇÃO
ACADÊMICA
O romance Os Corumbas, filia-se à corrente de
romances nordestinos da geração de 32, que veio encarar sob o aspecto realista
e social os dramas da vida brasileira naquela região. Mas não existe nada de
estritamente regionalista nesse livro: a universalidade da dor humana nele se
exprime, da maneira mais sensível, através de personagens e de situações, não
apenas do Nordeste, mas de toda parte do mundo. Amando Fontes nasceu a 15 de
maio de 1899, em Santos (SP), filho do farmacêutico Turíbio da Silveira Fontes
e Rosa do Nascimento Fontes. Órfão de pai aos cinco meses de idade, foi criado
e educado por seus avós e tios paternos em Sergipe de onde era oriunda, onde
fez o curso ginasial e secundário no Atheneu Sergipense. Morou em Belo
Horizonte, de 1915 a 1916, preparando-se para cursar a faculdade de Medicina
daquela capital. Por motivo de moléstia, porém, foi forçado a regressar a
Sergipe.
Em 1919, foi para o Rio de Janeiro, matriculando-se
na Escola Nacional de Medicina da Praia Vermelha. Mas antes de terminar o ano,
abandonava nos estudos e regressava a Aracaju. De fins de 1919 a 1922 trabalhou
dirigindo salinas e fazendas de pessoas de sua família. A esse tempo escreveu
versos e contos, dos quais publicou muito pouco. Em 1922, em virtude de ter
sido classificado em 1º lugar num concurso para agentes fiscais realizado em
Salvador, foi nomeado para exercer esse cargo no interior da Bahia. Casou-se em
Aracaju no dia 21 de julho de 1923, com d. Coralina Teixeira Fontes e no ano
seguinte matriculou-se na Faculdade de Direito da Bahia, tendo colado grau em
1928.
Leitor voraz desde cedo, leu os clássicos
portugueses e o melhor da literatura brasileira e europeia, dedicou especial
atenção a Shakespeare, Goethe, Dante, Machado de Assis e interessou-se pelo
pensamento de Comte, Schopenhauer e Spencer.
Amando Fontes tinha o hábito de frequentar rodas
literárias, como na casa do poeta Garcia Rosa, que exercia forte influência na
juventude intelectual de Aracaju; em Salvador gozava das amizades do crítico
Carlos Chiacchio (1884-1947) e Herman Lima (1897-1981). No Rio de Janeiro,
tinha como interlocutor Jackson de Figueiredo (1891-1928), de quem era amigo
desde a infância.
A partir de 1930, fixou-se no Rio de Janeiro, pois
era funcionário do Ministério da Fazenda, dedicando-se à advocacia e retornando
a escrita de Os Corumbas, interrompida
doze anos atrás.
Eleito deputado federal por Sergipe, para a
legislatura de 1934 a 1937, voltando a se reeleger em 1946 e em 1950. Concluído
este último mandato, voltou ao exercício de seu cargo efetivo, no Ministério da
Fazenda.
Amando Fontes faleceu em 1o de dezembro de 1967, deixando quase pronto um
novo romance, O Deputado Santos Lima,
que focaliza os últimos anos da República Velha e os anos que lhe seguiram, até
1933. Sobre o autor, existe uma dissertação de mestrado defendida pela
professora Ivonete Santos, Amando Fontes
e o Romance Industrial, publicada pela Fundação Estadual de Cultura
(Fundesc), de Sergipe, em parceria com a Fundação Universidade de Brasília, 73
páginas, 1991:
O forte conteúdo social dos romances Os Corumbas
(1933) e Rua de Siriri (1934), de Amando Fontes, é uma marca que indica com
bastante clareza o momento literário a que pertencem. Atrelado a circunstâncias
históricas e sociais da maior importância, esse momento é único e terá, portanto,
uma maneira particular de solucionar os problemas que se colocam como obstáculo
à realização de uma das finalidades máximas da literatura brasileira: a transposição da realidade histórica e
social para um plano literário acessível a um público leitor em permanente
estado de transformação.
ROMANCE DE 30
A chamada literatura
do Nordeste é a denominação corrente que se dá a um conjunto de obras cujo
assunto se prende ao Nordeste do Brasil, escrita por nordestinos direta ou
indiretamente ligados ao I Congresso Brasileiro de Regionalismo, reunido em
Recife, em fevereiro de 1926. Esta denominação não se sabe por quem foi dada
pela primeira vez, mas refere-se à reunião de obras de ficção mais
significativa do período que vai de 1928 a 1945, em que ocorreu uma
revitalização do gênero. O grupo não é homogêneo e nem definido.
A Literatura
do Nordeste tende para a observação dos fatos sociais, registro orgulhoso
do passado, é memorialista e, portanto, tem um aspecto “saudosista”, na sua
forma, está mais próxima da língua falada, situando-se como mais rural que
urbana.
Na verdade, o Romance de 30 é a expressão do neorrealismo
regionalista nordestino, uma fisionomia própria, ligada à tradição romanesca do
século XIX, notadamente a que vinha de Aluízio de Azevedo, com O Mulato e O Cortiço. O Romance do
Nordeste, também uma forma do Modernismo, evoluirá no sentido de denúncia
de inspiração social. É a literatura das secas, do ciclo da cana-de-açúcar, do
romance de testemunho.
Ela procura descrever particularidades geográficas e
socioculturais, além de estudar as condições da organização social em suas
raízes históricas, para proceder a uma análise mais ampla das condições de vida
dos trabalhadores rurais e urbanos.
Os romancistas desse período empenharam-se,
igualmente, em verticalizar o conhecimento das projeções emocionais e
psicológicas desses trabalhadores, ampliando-lhes o sentido de humanização. A
melhor realização artística da proposta neo-regionalista encontra-se nas obras
como A Bagaceira (1928), de José
Américo de Almeida (1887-1980); O quinze
(1930), Raquel de Queirós (1910); Os
Corumbas (1933) e Rua do Siriri
(1937), Amando Fontes (1899-1967); Cacau
(1933), Jubiabá (1935), Jorge Amado
(1912-2001); Vidas Secas (1938),
Graciliano Ramos (1892-1953); e Fogo Morto
(1945), José Lins do Rego (1901-1957).
No caso de Os
Corumbas, seria o mais antigo projeto de romance à maneira de 30 de que se
tem notícia. Sua vinculação ao tema das secas talvez decorresse do regionalismo
da belle époque e anterior; é
possível, se não possível que o capítulo em torno do operariado provenha da
Revolução Russa de 1917, ou de suas ressonâncias onde se processava a
industrialização e, consequentemente, a formação do proletariado urbano.
OS CORUMBAS
A estreia de Amando Fontes na literatura ocorreu com
o romance Os Corumbas (Prêmio Felipe
d’Oliveira), Rio de Janeiro, Schimdt Editora, julho 1933, obteve sucesso, ao
mesmo tempo, na crítica e nas livrarias, bastante elogiado pelos intelectuais e
muito lido pelo público.
Como bem disse o crítico Álvaro Lins (1912-1970), ao
enfocar a valorização d’Os Corumbas:
O que faz deste livro um romance de categoria
superior, com um decisivo poder de comoção e aceitação literária, é o seu
drama, a construção pura e simples da sua história.
Na verdade, Os
Corumbas descreve simplesmente a miséria física e moral gerada pela
impiedosa exploração da mão-de-obra proletária durante o primeiro grande surto
de industrialização no país.
Nela, fixou a odisseia de um casal de camponeses (a
família Corumba – Geraldo e Josefa, os pais, Pedro, Rosenda, Bela, Albertina e
Caçulinha, os filhos) expulso pelo flagelo (1905) e, não tendo como alimentar
uma penca de filhos, atraído pelos melhores salários da indústria de fiação (no
início da década de 1920, as primeiras grandes tecelagens funcionavam a todo
vapor), emigra para Aracaju em busca de uma vida melhor.
No entanto, às condições de trabalho e salário
impostas aos operários das fábricas ferem o princípio da dignidade humana. Ao
trabalhador é entregue um leque de deveres, no qual os direitos são esquecidos.
O jovem empregado é engolido pelas correias que o fazem girar por entre os
teares mecânicos. A morte da criança não é um fenômeno acidental. É através
dela que Amando Fontes relata a monstruosidade que se pratica em nome do
progresso.
Na capital sergipana, onde a miséria, a tuberculose
e a prostituição acabam por levar-lhes os filhos, obrigando-os a regressar,
derrotados, à gleba. Não foi necessário muito tempo para que o sonho se
desfizesse. Numa situação de quase miséria, comum a todos os operários das
indústrias de fiação de Aracaju e, além disso, enfrentando valores
comportamentais que os homens do mundo agrário de proeira, a família Corumba
vai se desagregando rápida e inevitavelmente, como se uma maldição pesasse
sobre ela e a tivesse condenado sem misericórdia. Ao final, restam apenas os
dois velhos que, cansados do rosário de degradação e miséria, retornam sem
esperança ao interior.
Amando Fontes pinta um painel incomum para a época;
as crianças raquíticas, os moços tuberculosos, as mulheres grávidas, os
operários mortos pela falta de segurança, as operárias, para as quais resta a
prostituição como única alternativa de sobrevivência, e os agitadores políticos
que marcham para a cadeia. E, do outro lado, o capital explorador da época da
primeira fase da substituição da importação no Brasil, no início dos anos de
1920, quando as leis trabalhistas ainda não existiam e quando as situações
descritas em Os Corumbas eram comuns.
VERSÃO
CINEMATOGRÁFICA
Em entrevista a Isaac Grinberg – Diário da Noite de
6 de fevereiro de 1949, Amando Fontes revela que Os Corumbas iria ser filmado e
que já se encontrava em Aracaju, a equipe cinematográfica filmando vários flagrantes
da procissão do Bom Jesus dos Navegantes no seu percurso no estuário do rio
Sergipe, inclusive as festas natalinas localizadas no Parque Teófilo Dantas.
Vejamos um trecho da entrevista:
Acabo de conceber autorização para a filmagem de “Os
Corumbas”, e confesso que sinto emoção semelhante à da estreia, ao imaginar que
proximamente verei meu romance transportado para a tela, vívido, enfim. (...)
- A Ocidente
Filmes do Brasil, sociedade que tem como principais incorporadores um veterano
dom cinema europeu, o tcheco Sr. Leo Marten, ex-diretor assistente de muitos
filmes, entre os quais “Extase”, estrelado por Heddy Lamar, e o escritor Lúcio
Cardoso, autor largamente conhecido e apreciado no Brasil inteiro. (...)
- Bem,
acontece que diversos capítulos dom romance têm como ambiente principal numa
festa tradicionalíssima do povo de minha terra, a procissão do Bom Jesus dos
Navegantes e as feiras Natalinas, dos últimos dias do ano. São dias muito
bonitos em que Aracaju fica toda em festa para receber os visitantes do
interior do Estado e dos Estados vizinhos. (...)
- Afinal, essa
primeira providência sugeriu que o filme todo fosse rodado “in-loco”, mesmo
porque não seria possível, aliás, sem sacrificar muito das características mais
íntimas do romance, filmá-lo com cenários improvisados. As fábricas, os
“apicuns” (...) O filme será rodado, portanto, nas próprias casas, nas próprias
fábricas, nas próprias praças que sugeriram o romance.
- Esse ponto
ainda não está devidamente assentado. Estão, até o momento, nas cogitações dos
produtores, Bibi Ferreira, Alma Flora, Davi Conde, Rosita Gay, Lúcia Lopes,
Paulo Maurício – o “Castro Alves” -, Modesto de Sousa e outros. Leo Marten e
Lúcio Cardoso serão os diretores – dois elementos de grande valor intelectual,
para mim duas sobejas garantias do êxito do filme, e uma grande e magnífica
equipe europeia de especialistas recém-chegados, se incumbirá da parte técnica.
(...)
RUA DO SIRIRI
A despeito de Os
Corumbas ser algo na estrutura, na linguagem, na caracterização dos
personagens e no empenho de crítica social, não lhe faltam força expressiva e
interesse humano. O mesmo já não se poderá dizer de Rua do Siriri (1937), romance em que, ao retratar o drama social do
meretrício em Aracaju, lugar-comum perenemente cinzento, cansativamente
repetido ao longo de cerca de 300 páginas, do viver miserável das mulheres da
vida, igual ao de quaisquer outras pelo mundo afora. Não há propriamente ação,
apenas a melancolia dessas existências para quem o vício se tornou uma
fatalidade: hoje, uma humilhação, amanhã, a miséria, mais tarde, a Santa Casa e
a morte. Tudo isso narrado com absoluta simplicidade, incidindo, por vezes, na
monotonia, mas nunca perdendo a nota profundamente humana.
PREMIAÇÃO
A Sociedade Felippe d’Oliveira instituída para
incentivar a produção literária nacional, concedeu o seu primeiro prêmio em
valor de cinco mil contos de réis. A escolha recaiu no interessante romance de
costumes Os Corumbas, de autoria do jovem escritor sergipano Amando Fontes, que
foi considerado o melhor livro publicado em 1933. Votaram a favor d’Os Corumbas
nomes de muita expressão, entre as quais figuram Álvaro Moreyra, Assis
Chateubriand, Rodrigo Otávio Filho, João Dandt Oliveira, Renato de Almeida,
Edmundo da Luz Pinto, Augusto Schimdt, O. Tarquínio de Souza, Freitas Valle e
Renato Toledo Lopes.
Numa sessão em 1º de março de 1934 na Sociedade
Felippe de Oliveira, para fazer entrega do prêmio de 5:000$000 que aquela
organização instituiu para a melhor obra de literatura nacional publicada
durante o ano. A reunião foi presidida pelo ministro Tarquínio de Souza, do
Tribunal de Contas. Depois de normalmente iniciada a sessão, teve a palavra o
escritor ministro Ronald de Carvalho, que num discurso feliz e bem lançado
analisou a pessoa e a obra de Felippe de Oliveira, tecendo encômios à sua ação
no meio intelectual brasileiro.
A seguir referiu-se ao romance Os Corumbas
distinguido pelo prêmio da Sociedade em 1933, examinando, em frases belas e
expressivas, não só os pendores do seu autor, Amando Fontes, como sobretudo o
poder de sua fértil imaginação.
SUCESSIVAS
EDIÇÕES
Os Corumbas, livro constituído
simplesmente como uma descrição rigorosamente realista e teve o mérito de
chamar a atenção para o submundo das populações marginais urbanas do Nordeste.
Por isso, Amando Fontes é considerado dentro do movimento literário regional de
1930, o primeiro romancista da vida urbana, ou seja, do romance proletário.
Mesmo tendo sido adotado pelo vestibular da
Universidade Federal de Sergipe, o Programa de Avaliação Seriada – PAS, no
período de 1998 a 2000, e o romance se encontrar em sua 23a edição (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio
Editora, 1999), Amando Fontes é um dos menos conhecido entre os romancistas de
30 – um crítico chegou a afirmar que sua obra principal, Os Corumbas, não pode ser qualificada de romance.
Apesar de tudo, não é suficiente para que se tenha
uma ideia da vitalidade e do poder de resistência desse livro, mesmo pela sua
presença e atualidade em sucessivas edições. É mais que preciso ler Os Corumbas, para sair do semiesquecimento
a que, compreensível, mas, injustamente, foi relegado até hoje.
Em nenhuma outra obra do romance de 30, mesmo
naquelas da fase panfletária de Jorge Amado, a exploração e a miséria foram tão
dramaticamente denunciadas. João Ribeiro (1860-1934) foi o primeiro crítico a
manifestar-se na imprensa brasileira sobre o novo romancista, através da coluna
Registro Literário, do dia, 3 de
agosto do ano de 1933, publicado pelo Jornal
do Brasil:
Esse romance forte é realmente um milagre da nossa
literatura tão preocupada de futilidades e de luxuria. O Sr. Amando Fontes é um
escritor raro e destemido a ser um dos mestres da geração nova. Tudo é belo
nesse livro. Os personagens, a alma que os aviventa, o céu a terra, os campos,
as árvores e o rio que sussurra levando para o mar as lágrimas dos homens e das
coisas.
Otávio de Faria (1908-1980), um dos principais
vultos da geração pré-modernista, num dos primeiros artigos sobre Os Corumbas, publicado na revista Boletim de Ariel (RJ), no 1, outubro de 1933, mensário, órgão da segunda
fase do movimento modernista, diz o seguinte:
Não sei se o sr. Amando Fontes é superior, como
romancista, ao sr. Jorge Amado. É muito cedo para afirmar qualquer coisa nesse
sentido. Mas, por enquanto, uma coisa já é evidente: Os Corumbas é muito
superior a Cacau. Os Corumbas têm mesmo, como romance, uma importância muito
pouco comum.
PROIBIÇÃO
Um fato curioso ocorreu no Estado de Pernambuco,
quando da proibição do romance de Armando Fontes Os Corumbas, quando o
Interventor Lima Cavalcanti enviou ao também interventor (interino) de
Pernambuco o seguinte telegrama a propósito da proibição da venda do romance Os
Corumbas naquele Estado. O Telegrama foi publicado no Correio da Manhã, Rio de
Janeiro, de 4 de fevereiro de 1934:
Interventor – Recife – Acabo de saber que a Ordem
Social daí proibiu a venda de “Os Corumbas”, romance de Amando Fontes. Trata-se
de um grande livro, de enorme sucesso em todo o país. Julgo verdadeiro
disparate a proibição, pedindo-lhe falar com urgência ao capitão Rossini sobre
essa inexplicável proibição, determinando ao mesmo tempo à Ordem Social que não
continue proibindo a divulgação de um livro que aquém, como em todos os
Estados, é largamente lido.
Abraços – a) Lima Cavalcanti.
FORTUNA
CRÍTICA
Plenamente vitoriosa a estreia deste excelente
escritor sergipano, com o romance Os Corumbas, que segundo Jorge Amado “ler Os
Corumbas equivale a fazer uma viagem a Sergipe, onde decorrem os acontecimentos
do livro”. Basta realizar uma rápida consulta nos jornais sergipanos, entre
1933 a 1937 e verá a quantidade de artigos publicados sobre “Os Corumbas”,
assinados pelos melhores críticos literários da época: Pinheiro de Lemos;
Almiro R. Barbosa, Mário Cabral, Pedro Calmon, Jair Silva, Olívio Montenegro,
Jorge Amado, Joel Silveira, Tasso da Silveira, Edison Carneiro, Dias da Costa e
outros
P. S.
Jorge Amado
Não o classificarei nessa ou naquela escola, mesmo
porque não entendo disso. Também essa questão de escola e aproximações deixo
para os críticos oficiais, que têm a obrigação do descobrir intenções sutis no
volume.
No entanto, quero notar coisa, Os Corumbas não é um
romance proletário. Se faço essa anotação é porque várias pessoas têm me
afirmando que Amando Fontes realizou literatura proletária como o seu livro.
Primeiro, acho que as fronteiras que separam o
romance proletário do romance burguês não estão ainda perfeitamente
delimitadas. Mas já se advinham algumas. A literatura proletária é uma
literatura de luta e de revolta. E de movimento de massa. Sem enredo e sem
senso de imoralidade. Fixando vidas miseráveis sem piedade, mas com revolta. É
mais crônica e panfleto (ver Judeus sem dinheiro, Passageiros de Terceira, O
Cimento) do que romance no sentido burguês.
*Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, (292), julho de
1933.
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Amando Fontes
Andrade Muricy
Os Corumbas são um romance. Autêntico. Forte. Denso.
Construído. Ninguém mais romancista do que Amando Fontes, nesta geração em que
há tão poucos, mas tão preciosos ficcionistas. Outros levaram a expressão a
requinte ou a precisão admirável; Aqui o estilo “flamboyant” de Plínio Salgado
e, por vezes, de José Américo. Além, a matéria aglutinada, gelatinosa,
substancial e caótica de Adelmo Magalhães. E a vivacidade camarada, sincera
cheia de seiva, de João Alphonsus. E a abstração sensualíssima de Barreto
Filho. E mais. Tanta riqueza. Talvez essencialmente mais rica do que a poesia,
a prosa de ficção e de ensaio, desta vivaz gente nova.
* A Nação - Rio de Janeiro, 3 de setembro de 1933.
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IMPRESSÕES LITERÁRIAS
Manoel
Bandeira
Os Corumbas é um romance indigesto
Preciso explicar-me. Geralmente se diz da má
literatura, dos livros mal feitos, que são indigestos. A expressão me parece
imprópria. A má literatura é intragável, isso é o que ela é. Agora o bom livro,
o livro rico de substância humana, rico de ensinamento ou de poesia, esse a
gente o fecha pensando que acabou e o danado continua a remexer dentro da
gente, coisa viva e imperecível que nunca pode ser inteiramente assimilada em
nossa própria substância. Assim Os Corumbas. À proporção que me afasta da
primeira impressão da leitura, as suas personagens passaram a me preocupar como
gente que conheci de fato, cujo destino me abalou profundamente e de cuja
lembrança nunca mais me libertei. E agora mesmo, virando-lhe as páginas em
procura das notas que risquei à margem, senti as pontadas da emoção
reavivarem-se aqui e ali, como a gente costuma sentir com elementos da própria
experiência. Sobretudo com o caso de Caçulinha, a mais nova das Corumbas,
talvez a figura feminina mais tocante de todos os romances brasileiros, criação
admirável que por si só revela um grande romancista.
*Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 3 de setembro
de 1933.
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Os Corumbas
Gilberto Amado
Peço aos meus leitores que não vejam nas linhas
abaixo uma manifestação de benevolência por ser o autor dos Corumbas sergipano.
O meu bairrismo não influencia minhas simpatias literárias.
Esse romance que se passa em Sergipe é um dos raros
livros sérios, compostos, orgânicos que têm sido feitos no Brasil. É um
verdadeiro romance, sem enchimentos literários, sem rodeios críticos, sem
amplificações, sem conversa fiada. Não é livro de um letrado. É produto de um
talento ingênuo simples, mas forte e amplo, e apto, pela própria virgindade em
que ficou, no alheamento da cultura, à representação direta da vida.
*Boletim de Ariel. Rio de Janeiro (313) setembro de
1933.
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Os Corumbas
Jordão de Oliveira
Trago comigo, estes dias, o orgulho de ter sido um
dos primeiros a anunciar o grande livro de Amando Fontes – Os Corumbas.
Foi o ano passado, Amando convida-nos, alguns
amigos, ao ouvirmos a leitura do seu manuscrito. Todos deram uma opinião.
Lembro-me ter dito, apenas, que era um livro triste, para os católicos, um belo
livro para os intelectuais, e um livro útil, para mim.
Tenho-o nas mãos, agora, editado pelo bom gosto de
Frederico Schmidt. Li-o demoradamente, interrompendo, aos pedaços, como quem
fala soluçando. E já não pude formular nenhum conceito, porque ele caiu de
chofre e em bloco sobre a minha sensibilidade, com a imposição inevitável dos
grandes acontecimentos naturais.
Um escritor feliz Amando Fontes. Teve a sorte de
ofertar-nos um romance vigoroso que o coloca ao lado dos maiores escritores
brasileiros.
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*GILFRANCISCO: jornalista, professor universitário,
membro do Grupo Plena/CNPq/UFS e do GPCIR/CNPq/UFS. Doutor Honoris Causa pela
Universidade Federal de Sergipe –gilfrancisco.santos@gmail.com