LAUDELINO PROFESSOR: UM ESQUECIDO MESTRE DE CAPOEIRA

Laudelino Meneses - Acervo da família 

 

Thiago Fragata*

 

Alvaro Machado de Andrade Júnior realizou pesquisa sobre a prática da capoeira em Aracaju visando consumar dissertação (Ciências Socias/UFS), em 2005, com título “A reafricanização da Capoeira em Aracaju: identidades em jogo”. O Mestre Sucuri, como é conhecido, disse que recenseou os mestres de capoeira do Estado. Quando postei vídeo no meu canal youtube sobre o capoeirista de São Cristóvão que fundou “academia” no centro histórico em 1961, o pesquisador manifestou surpresa. O ineditismo da proposta motivou esse texto destacando as proezas do esquecido (não mais!) Mestre Laudelino Professor. (1)

José Laudelino Meneses nasceu em São Cristóvão no dia 20 de novembro de 1922. Filho de Luiz Alves de Meneses e Laudelina Maria de Jesus. Viveu parte da mocidade em Aracaju. Fez a primeira viagem a Bahia, em 1947, visando trabalhar na construção civil. Retornou em 1951, empreendeu novo circuito até 1955. (2)

Foi na temporada em Salvador que Laudelino conheceu o Mestre Waldemar da Paixão. No livro “Capoeira Angola: ensaio etnográfico”, de Waldeloir Rego, ele descreve “Waldemar da Paixão, como bom capoeirista antigo, de fama paralela à de Mestre Bimba. O seu repertório de cantigas é algo notório na cidade. Possuía academia de capoeira na Estrada da Liberdade”. (3) A vida do afamado Waldemar do Barracão ou Waldemar da Pero Vaz, começou nos anos de 1940 quando fundou barracão na invasão do Corta-Braço, futuro bairro da Liberdade; também ensinando na rampa do mercado na cidade baixa. Ele praticava uma capoeiragem diversa e mandingueira, lenta e traiçoeira, com botes, rabo-de-arraia e movimentos ao rés do chão. (4)

Na década de 1950, o barracão do Waldemar, da Liberdade atraiu acadêmicos, artistas e jornalistas. Os etnólogos Anthony Leeds (1950) e Simone Dreyfus (1955), por exemplo, gravaram som dos berimbaus. O escultor Mário Cravo e o pintor Caribé, também capoeiristas, frequentaram o espaço. Possivelmente, quando Pierre Verger captou imagens dos capoeiristas no terreiro do Mestre Waldemar, em 1947/48 (5); e Eunice Catunda frequentou/produziu a matéria “Capoeira no terreiro do Mestre Waldemar, em 1952, encontraram o aluno sergipano. Segue o relato de Catunda: “Quando chegamos ao terreiro a capoeira já começara. Dois dançarinos coleavam rentes ao chão, enquanto dois berimbaus e três pandeiros acompanhavam com estranhos ritmos e sons aquela dança magnífica e arrebatadora, de gente combativa e forte. Os dançarinos do momento eram um carregador de mercado de Água dos Meninos e um operário da construção de civil. O operário estava todo de branco, sapatos brilhando, camisa alvejando. Era um dos melhores dançarinos. É costume da fina-flor dos capoeiristas o dançar assim, “de ponto em branco” como se costuma dizer, para demonstrar sua perícia. Chegam ao cúmulo de dançar de chapéu e os bailarinos hábeis se gabam de sair da dança sem uma só mancha de terra na roupa, limpos e bem arrumados como se ainda não houvessem entrado em função. (6)

Laudelino retornou, em definitivo, para Sergipe no ano de 1955; dois anos depois contraiu núpcias, em São Cristóvão, com Tereza Prado de Menezes, a Dona Bebé. Animado pelos filhos e por amor a capoeira, o Mestre Professor fundou academia – fez seu barracão! -, em 1961, no quintal de casa n. 5, esquina da Rua Floriano Peixoto, centro histórico. (7) Segundo seu filho Marlon Prado, o mestre Professor teve 2 gerações de alunos, todos meninos, variando quantidade (de 10 a 15), com idade mínima de 12 anos. Da primeira turma, recorda os apelidos: Nascimento, Mortoevivo, Maestro, Zé Ari, Pandeiro. Da segunda turma - Marlon, Boshou, Antonio, Zé Cornélio, Neca Beiçola. (8)

Em 1975, o Mestre Professor concedeu entrevista a pesquisadora Maria Gilza Alves dos Santos, estagiária que realizou o “Levantamento e Documentação das Manifestações Lúdicas - São Cristóvão/SE”, projeto de extensão universitária da UFS coordenado pela antropóloga Beatriz Gois Dantas. Sequenciamos algumas informações do inestimável documento. Neste a capoeira figura enquanto manifestação lúdica “sem época específica”, ou seja, não tem período de apresentação. Os tópicos explicitam sobre o informante, a brincadeira, os participantes, a apresentação, a indumentária.

Sobre a brincadeira e aprendizado do Mestre Laudelino Professor, segue transcrição ipsis litteris: “segundo o informante, a Capoeira é uma brincadeira de origem africana, veio para o Brasil com os escravos de Angola. A Capoeira é formada por uma luta que chega a ser agressiva. Tem um ritmo balançado, acompanhado pelo jogo de berimbaus. A brincadeira é dividida em duas partes: angola e regional. A capoeira Regional é moderna e é caracterizada pelos saltos que são dados só em defesa. Enquanto que a Capoeira Angola é a tradicional, os seus saltos são dados por baixo. O Sr. Laudelino de Meneses aprendeu a brincar capoeira na Bahia com o mestre Waldemar Sampaio, residente na rua Pero Vaz, no bairro da Liberdade”. (9)

Laudelino Meneses fez parte do quadro de funcionários da Prefeitura Municipal. Foi mestre de obras da gestão do prefeito Romualdo Prado (1963/1966). Tomou parte na obra da construção do Ginásio de Esporte Lourival Baptista, bem como na reforma da praça da Matriz. O capoeirista faleceu de complicações cardio-respiratórias aos 58 anos, no leito do Hospital Senhor dos Passos, em São Cristóvão, no dia 22 de maio de 1981. Berimbau silenciou, Axé! Salve o Mestre Laudelino Professor!

*Thiago Fragata – Historiador, poeta, multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias – São Cristóvão/SE. Email: thiagofragata@gmail.com FONTES CONSULTADAS: 1 - ANDRADE JR, Alvaro Machado de. A reafricanização da Capoeira em Aracaju: identidades em jogo (Dissertação – UFS); 2 – Mestre Laudelino Professor – 2023, Conferir vídeo do canal Poesia com Tempero https://www.youtube.com/watch?v=qU9Em9rlL-c 3 - Waldeloir Rego, no livro CAPOEIRA ANGOLA: ensaio-etnográfico, 1968, p. 279; 4 – Waldemar do Barracão, na Wikipedia; 5 – o acervo de Pierre Verger tematizando a capoeira do Barracão do Mestre Waldemar, no Corta-Braço, é formado por 32 fotos, poucos brincantes foram identificados: Traíra, Bugalho, escultor Mario Cravo. Site Velhos Mestres. https://velhosmestres.com/br/waldemar-1955-3, consulta 3/8/2026; 6 - CATUNDA, Eunice. Capoeira no Terreiro do Mestre Waldemar. Fundamentos - Revista de Cultura Moderna. São Paulo, nº 30, novembro de 1952, p. 16-18; 7 - Levantamento e documentação das manifestações lúdicas folclóricas – São Cristóvão/SE. 26 de abril a 3 de julho de 1975. Estagiária: Maria Gilza Alves Santos. Projeto da Universidade Federal de Sergipe. Coordenação: Beatriz Gois Dantas; 8 - Marlon Prado Menezes - entrevista para Thiago Fragata, São Cristóvão, 13 janeiro 2023. Entrevistei Neca Beiçola em 12 de janeiro 2023 (In memoriam) que confirmou as informações; 9 - Errata: à época, somente o mestre de Capoeira Waldemar da Paixão (não Waldemar Sampaio) atuava no bairro Liberdade. Depoimento de José Laudelino. Levantamento e documentação das manifestações lúdicas folclóricas – São Cristóvão/SE. 26 de abril a 3 de julho de 1975.  

 

 

Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 25 de agosto de 2026.



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