Mostrando postagens com marcador Museu Histórico de Sergipe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Museu Histórico de Sergipe. Mostrar todas as postagens

MUSEU HISTÓRICO DE SERGIPE: ORIGEM

Palácio Provincial, atual MHS - imagem da década de 1930

 

 Thiago Fragata*

O sobrado do Museu Histórico de Sergipe, localizado em São Cristóvão, remonta ao século XVIII. Naquele contexto de um Brasil Colonial a economia canavieira galgara pico de produção e o mercado exterior favorecendo o embelezamento de conventos e igrejas. Boa parte dos sobrados existentes no centro histórico de São Cristóvão, sede da então Capitania de Sergipe d’El Rey, serviam a administração ou moradia de burocratas e veraneio de abastados senhores de engenho da zona do Cotinguiba e/ou do Vaza Barris. Este não era o caso do proprietário do sobrado localizado a praça São Francisco de São Cristóvão, o tenente Domingos Rodrigues Vieira de Melo, um militar.  

A Emancipação Política de Sergipe da Bahia, em 1820, ocasionou a crescente necessidade de compra e disponibilidade de prédios para administração. Disso resultou a compra do sobrado ao militar no ano de 1823. Incorporado aos próprios nacionais (PN) o prédio foi reedificado e inaugurado em 12 de outubro de 1825, na gestão do Presidente (Governador) Manuel Clemente Cavalcante de Albuquerque, como parte das comemorações das Festas Nacionais em homenagem ao aniversário de Sua Majestade D. Pedro I e à Fundação do Império. (1)

Com acentuada tendência liberal, Manuel Clemente governou durante 20 meses, impingindo medidas inovadoras e alheio aos embates políticos. Dentre as principais medidas constam a fundação de um jardim botânico para centro de apoio a agricultura; organização da “Casa do Trem” com instrutor para formar trabalhadores de artes e ofícios manuais, ampliação do efetivo militar e introdução de método lancasteriano na educação da Província. (2) Sua morte repentina, no dia 2 de novembro de 1826, consternou a todos. Como ele havia manifestado o desejo de ser enterrado “numa das igrejas da cidade”, foi inumado no chão do Convento São Francisco. (3)

Em 1855, o Palácio do Governo foi avaliado, com certo exagero, em 50:000$000 (cinqüenta contos de réis), num momento em que os opositores a Mudança da Capital listavam o prejuízo aos cofres públicos com o ato de Inácio Joaquim Barbosa, então Presidente da Província. (4)

Cinco anos depois, em viagem pelo nordeste, o imperador Dom Pedro II conheceu Sergipe entre os dias 4 e 19 de janeiro de 1860. O monarca visitou a ex-capital no dia 18 e foi homenageado no prédio que servia de Câmara Municipal de Vereadores. Nele armou-se capela e sala de despachos, teve beija-mão e dossel para o ilustre monarca. (5)

João Bebe-Água, apelido do principal opositor a Mudança da Capital, foi vereador do Partido Liberal e nessa condição freqüentou o vetusto monumento. Apesar dos adjetivos impingidos pelos adversários políticos (louco, maltrapilho, cachaceiro) João Nepomuceno Borges, seu nome de batismo, legou uma comovente lição de amor a cidade de São Cristóvão. A promessa de guardar fogos para estourar no dia do retorno da Capital e a jura de morrer sem conhecer Aracaju romantiza seu incompreendido bairrismo quixotesco. (6)

O Estado comprou o prédio que pertencia a Fazenda Federal por 2:000$000 (dois contos de réis), conforme escritura de compra e venda de 19 de março de 1918. (7) Experimentou um período de completo abandono. Nas décadas de 1920 e 1930, nele funcionou a delegacia da cidade. Em janeiro de 1940, durante gestão do prefeito Antônio Silvio Bastos o antigo Palácio Provincial foi reformado para instalação da Escola Barão de Mauá. (8) Mas foi a Mesa de Rendas Federais (Exatoria) que aí permaneceu instalada durante anos. Em 1951-1952, era sede do sindicato dos Operários de São Cristóvão, com sala de jogos e salão de baile. O Grupo Escolar Vigário Barroso ficou instalado durante reforma de sua sede.

Em 1960, no dia 5 de março, foi inaugurado o Museu Histórico de Sergipe, no Governo de Luis Garcia. Seu rico e diversificado acervo tem marca dos organizadores-curadores, os irmãos Junot Silveira e Jenner Augusto. (9) Mas falar dos idealizadores e benfeitores é assunto para outro artigo.

 

*Thiago Fragata é professor, historiador e multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias - São Cristóvão/SE. E-MAIL thiagofragata@gmail.com Publicado no JORNAL DO DIA, de 28 de julho de 2026.

NOTAS DA PESQUISA: 1 - NUNES Maria Thétis. História de Sergipe a partir de 1820. Rio de Janeiro, Editora Cátedra, 1978, p. 113; 2 - NUNES, Maria Thétis. Sergipe provincial. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000, p. 141, 151 e 154; 3 - Testamento de Manoel Clemente Cavalcante de Albuquerque. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, Aracaju, ano II, n. 5, 1914, p. 131-132; 4 - Correio Sergipense. Papéis antigos. Revista do Aracaju. Aracaju, 1944, p. 265; 5 - GALVÃO, Manuel da Cunha. Viagem Imperial a Província de Sergipe, ou narração dos preparativos, festejos e felicitações que tiverão logar por occasião da visita que fizerão a mesma província, em janeiro de 1860. Bahia: Typ. do Diário, 1860, p. 95; 6 - Revisão sobre João Bebe-água. JORNAL DO DIA, Aracaju, ano VI, n. 1847, 17 e 18 março 2011, p. 3; 7 - Cartório do 1º. Ofício da Comarca de Aracaju. Livro de Notas, fls. 57 a 59; 8 - Recibo de despesa. Tesouraria Arquivo da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, 04/12/1939-05/04/1940; 9 - FRAGATA, Thiago Fragata. Cinqüentenário do Museu Histórico de Sergipe: o sobrado (I). JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XXXIX, N. 11.309, 28 e 29/03/2010, p. B-11.

 

 
 
 

 

ANEDOTÁRIO DE SÃO CRISTÓVÃO II: OS FANTASMAS*

Antigo Palácio Provincial, foto década de 1940
 

Thiago Fragata*

No romance O Encontro com o outro (1983), de José de Sacramento, ele contextualiza São Cristóvão da década de 1950. Consta o Sindicato os Operários de São Cristóvão e nele funcionando secretaria, gabinete odontológico e sala de jogos na parte superior do sobrado onde seria instalado o Museu Histórico de Sergipe em 1960. Pelo que se depreende da brincadeira do personagem Cresio que levou a secretária Valdete a incontinência urinária, o prédio era assombrado por um ilustre fantasma. O jovem explica que a alma do Governador Inácio Joaquim Barbosa arrastava correntes pelos corredores, penando pelo seu maior pecado segundo os bairristas sancristovenses: mudar a capital para Aracaju em 1855. (1) De uma forma ou de outra, fantasmas é outra estória recorrente que alimenta o gosto da plateia e não por acaso tematiza obras da literatura e do cinema como tema inoxidável.

Os fantasmas dos sobrados, conventos e igrejas seculares de São Cristóvão inspiraram a poética de Freire Ribeiro, a crônica de Junot Silveira e a ironia de José Calasans e até Câmara Cascudo na rápida visita que fez a velha cidade em abril de 1951. Pouca gente sabe disso, aliás pouca gente sabe o quanto ainda se relaciona cidade colonial com velhos fantasmas.

Velhos fantasmas é o nome da canção da banda sergipana Sibberia, que tendo conquistado um festival de música em 2011, ganhou o privilégio de gravar o clip no interior do Museu Histórico de Sergipe. O enredo trata do romance entre um homem e a alma de sua falecida amada que reside num antigo sobrado. Gravada na madrugada de 11 de junho daquele ano, o clip pode ser consultada na internet. http://letras.mus.br/sibberia/1096746/

O poeta Freire Ribeiro dedicou seu livro “São Cristovão de Sergipe D'El Rey” publicado em 1971, “às almas penadas que nos deixaram dormir tranquilamente... num velho e mal-assombrado Palácio”. Na beleza poética de sua comovente obra, João Bebe-Água é quem aparece como um fantasma de um sonho ou promessa: o retorno da capital para São Cristóvão.

 

BEBE-ÁGUA

Freire Ribeiro

 

Sentado na noite

Num trono de estrelas

Bebe-Água conversa

Com a velha cidade!...

 

Regressou do outro-mundo

E do sono profundo

Que a morte derrama

Com mãos de veludo

Nos olhos dos vivos

Sejam reis ou cativos!...

 

Bebe-água cochicha

Nas sombras da noite

Com as velhas igrejas!...

É fantasma de um sonho,

É o próprio lamento

Do ontem vestindo

O burel do passado

Na paz dum convento!

 

Os mortos retornam

Em sonhos amados,

Revendo, na vida,

As cousas passadas!...

 

Conversa um sobrado

Que está caducando

Com João Bebe-Água

Com ele lembrando

À luz de outra idade,

Os dias de glória

Da velha cidade!

Ilustres figuras

Egrégios senhores,

Humildes escravos

- sinhazinhas amadas

Que, na morte, abrumadas

Não sentem da vida

A luz e o calor!

 

Com chagas imensas

No corpo invisível

- as chagas do pranto

Nos olhos da dor.

 

Bebe-Água, coitado

Revendo o passado

Bebe-Água é saudade

Bebe-Água é amor!... (2)

 

Os fantasmas e a morte nas cidades coloniais nem sempre tiveram o patíbulo armado na praça central como ponto de encontro a divertir multidões. Considero improvável que a pedra procurada pelos ex-alunos da Escola do Sindicato dos Operários que funcionou entre os anos de 1949 e 1954 nas dependências do atual Museu Histórico de Sergipe tenha pertencido a uma forca, talvez a um catavento (equipamento para bombear água). Continua.

 

  

*Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 11 de fevereiro de 2026.

 FONTES DE PESQUISA

1 - SACRAMENTO, José do. O Encontro com o outro. Aracaju: Segrase, 1983, p. 75.

2 - RIBEIRO, João Freire. São Cristóvão em Sergipe Del-Rey (poesias). 1971, p. 7 e 18.

IMAGEM: Antigo Palácio Provincial. Década 1940. Acervo digital do MHS.

20 ANOS DA CANDIDATURA DO ÚNICO PATRIMÔNIO MUNDIAL SERGIPANO

  Praça São Francisco, São Cristóvão/SE. Foto: Heitor Xavier Thiago Fragata* Há 20 anos, Marco Antonio Faria Galvão organizou o dossiê d...