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MERO DA SOMBRA DA PEDRA


Exemplar da espécie: mero

Thiago Fragata* 


Esse texto desvela uma lenda de São Cristóvão que registrei há alguns anos, nas pesquisas de campo. Coletar estórias do povo, assim nasceu o folclore em meados do século XIX, na Europa. Folclore é um neologismo, termo inventado pelo arqueólogo britânico Willian Jonh Thoms, para designar o conhecimento popular. No artigo publicado em 22 de agosto de 1846, folklore aparece como junção de folk (povo) e lore (sabedoria) para definir o conjunto de manifestações que simbolizam a cultura popular e, por conseguinte, refletem sua identidade. 
 
Na segunda metade do século XIX, intelectuais inspirados no romantismo inventaram narrativas embasadas no folclore para desvendar o passado. Severiano Cardoso e Manoel dos Passos de Oliveira Telles, por exemplo, foram intelectuais que, inspirados na sabedoria popular buscaram em São Cristóvão, antiga capital, respostas as suas pesquisas acerca da história de Sergipe. O rico patrimônio cultural da “cidade-mãe”, fundada no final do século XVI (1590) é prenhe de possibilidades encantou os pesquisadores. Vejo nos seus esforços uma espécie de “consulta ao oráculo de Delfos”, da Grécia antiga, as tantas escaramuças ou perquirições realizadas. O primeiro revelou Rita Cacete, o segundo conheceu pessoalmente João Bebe-Água; nenhum deles tratou da sombra da pedra... 
 
Na minha juventude em São Cristóvão, idos de 1985, aprendi a consertar “motores de rabeta” com o meu pai, o popular Tiago do Gelo, proprietário de barcos e redes. Uma queixa recorrente dos pescadores era a “sombra da pedra”, localizada próximo ao Porto das Pedreiras. Demorei decifrar esta enigmática expressão dita com agouro. Vamos a exegese: 
 
PEDRA - Hoje tenho uma imagem definida do rochedo, uma base brocada visível nos períodos de calmaria quando a água revela a silhueta de batismo. Uns falavam da sombra da pedra como sinônimo de prejuízo, porque a rede que se prendia em suas paredes de cascalho não se resgatava. Linhas e anzóis sem conta perderam-se e ornamentavam o rochedo há uns 10 metros de profundidade. Outros falavam daquele lugar como ponto piscoso. Razões para evitar a pesca nas proximidades da sombra da pedra todos tinham. O número de “mipas” (pescaria sem peixe) constituía-se um problema que definia a possibilidade de risco que um dono de rede poderia considerar. Independente de qualquer coisa, a pescaria farta seria certa aos que manejassem cautelosamente as armadilhas a sua volta. No entanto, alguém sempre lembrava de um fulano ou beltrano que sumiu na sombra da pedra, mergulhou e nunca emergiu... 
 
A SOMBRA - A sombra da pedra não era a única coisa que atemorizava os trabalhadores do mar, naquelas águas aparentemente residia um mero. Mil estórias ainda ecoam nos meus ouvidos sobre a fantástica criatura. O nome científico do bicho é Epinephelus Itajara. Itajara é um termo tupi que significa "senhor da pedra" (itá, pedra + iara, senhor). Esse animal marinho vive nos oceanos Atlântico e Pacífico. Entre suas características, destacam-se a longevidade - pode viver até 40 anos! - e sua capacidade de se camuflar no seu habitat: as pedras. 
 
Eureka! O peixe era a sombra! Dos causos contados pelos pescadores uma unanimidade, todos disseram que a sombra de um peixe gigante na superfície d’água, bem próximo a tal pedra, explicava a origem do nome. Após descrever o exemplar da megafauna marinha, um deles acrescentou: “E quando passou ao lado da canoa, deu para avistar ostras no seu costado, por pouco não virou meu barco.” Boa parte dos relatos sobre o mero exageram o seu tamanho e o caracteriza “velhaco” por duas razões: consegue escapulir de armadilhas, é um predador oportunista – surpreende suas vítimas. O serranídeo, animal da mesma família das garoupas e do badejo, pode atingir 2,7m de comprimento e pesar 450kg! 
 
Faz tempo, ninguém fala do gigante marinho que habitava a região onde o rio Paramopama deságua no Rio Vaza-barris, no povoado Pedreiras. Sumiu, ficou apenas o cenário. Será que alguém capturou o peixe velhaco ou ele encantou-se?”. Os que insistem na sua existência apresentam a maior prova: o lugar onde fica a sombra da pedra. 
 
*Thiago Fragata é professor, historiador e multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias – São Cristóvão/SE. Texto publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano LV, n, 15.414, 30/8 a 1/9/2025, p. 2.

A SOMBRA DA PEDRA: ENIGMA NO RIO VAZA-BARRIS - I*

Mero, obra de Wagner Zanirato (Zamba)

Thiago Fragata**

Os intelectuais Manoel dos Passos de Oliveira Telles (1859/1935) e Severiano Cardoso (1840/1907) desenvolveram pesquisas e palmilharam povoados de São Cristóvão em fins do século XIX. Ambos tinham a ex-capital como símbolo oracular onde estariam respostas às mais diversas questões investigadas e apresentaram propostas originais relacionadas a pontos da História de Sergipe, a exemplo, a mudança da Capital. Entendiam que não bastava folhear papéis de arquivo, escutar o povo era um exercício imprescindível. Algum morador possuía a informação-chave: ouvira dos parentes, testemunhara, etc. São Cristóvão era assim a lendária esfinge a lançar enigmas aos incautos descobridores.

Na última série, “Anedotário de São Cristóvão”, compartilhei pesquisa baseada nas estórias que o povo sancristovense conta sobre a forca no imaginário dos moradores do centro histórico.(1) Acredito na memória como matéria-prima do conhecimento e da imaginação.

Recentemente, voltei a escutar as populações ribeirinhas das Pedreiras, da Ilha Grande e do Porto São Francisco a respeito de outra questão misteriosa: a sombra da pedra. Tinha 16 anos de idade quando ouvi o desabafo do meu pai, o popular Tiago do Gelo: “Não quero rede minha na sombra da pedra, chega de prejuízo!” Demorei a compreender o que representava de fato a sombra da pedra, pensei numa rocha e só. É mais que isso...

O mote deste artigo é lançar hipóteses à seguinte questão: o que significa a sombra da pedra, localizada no ponto onde o rio Paramopama se encontra com o rio Vaza-barris, entrada da antiga capital de Sergipe d'El Rey?

MORADA DO MERO - Cresci ouvindo muitas estórias contadas pela boca dos pescadores. Os relatos davam azo à imaginação... Uma tanto me impressionou que fiz apontamentos. Todo mundo acrescentava um ponto se o assunto fosse “a sombra da pedra”.

Hoje tenho uma imagem definida do rochedo, um arrecife em formato quadrangular submerso, uma base brocada visível nos períodos de calmaria quando a água desvela a silhueta de batismo. Uns falavam da sombra da pedra como sinônimo de prejuízo, porque a rede que se prendia em suas paredes de cascalho não se resgatava. Linhas e anzóis sem conta perderam-se e ornamentavam o rochedo há uns 10 metros de profundidade. Outros falavam daquele lugar como ponto piscoso.

Razões para evitar a pesca nas proximidades da sombra da pedra todos tinham. O número de “mipas” (pescaria sem peixe) constituía-se um problema que definia a possibilidade de risco/mês que um dono de rede poderia considerar. Independente de qualquer coisa, a pescaria farta seria certa aos que manejassem cautelosamente as armadilhas ali. No entanto, alguém sempre lembrava de um fulano ou beltrano que sumiu na sombra da pedra, mergulhou e nunca emergiu... 
 
A sombra da pedra não era a única coisa que atemorizava os trabalhadores do mar, naquelas águas aparentemente residia um mero. Mil estórias ainda ecoam nos meus ouvidos sobre a fantástica criatura. O nome científico do bicho é Epinephelus Itajara. Itajara é um termo tupi que significa "senhor da pedra" (itá, pedra + iara, senhor). Esse animal marinho vive nos oceanos Atlântico e Pacífico. Entre suas características, destacam-se a longevidade (pode viver até 40 anos) e sua capacidade de se camuflar no seu habitat: as pedras.(2)

Dos causos compulsados dentre os pescadores uma unanimidade, todos disseram que sombra do peixe gigante na superfície d’água, bem próximo a tal pedra, explicava a origem do nome. Após descrever o exemplar da megafauna marinha, um deles acrescentou: “E quando passou ao lado da canoa, deu para avistar ostras no seu costado, por pouco não virou meu barco.” Boa parte dos relatos sobre o mero exageram o seu tamanho e o caracteriza “velhaco” por duas razões: consegue escapulir de armadilhas, é um predador oportunista – surpreende suas vítimas. O serranídeo, animal da mesma família das garoupas e do badejo, pode atingir 2,7m de comprimento e pesar 450kg.

Faz tempo... Ninguém fala do gigante marinho que habitava a região onde o Paramopama deságua no Rio Vaza-barris, no povoado Pedreiras. Sumiu, ficou apenas o cenário. Será que alguém capturou o peixe velhaco ou ele encantou-se?”. Os que insistem na sua existência apresentam a maior prova: a sombra da pedra. (continua)

* Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIV, n. 12.838, 19 e 20/4/2015, p. B5.
** Thiago Fragata é poeta e historiador, sócio do IHGSE, professor da SEED/SE, membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq) e do Grupo de Pesquisa Sergipe Oitocentista (SEO/CNPq). Email: thiagofragata@gmail.com
NOTAS DA PESQUISA
1 - FRAGATA, Thiago. Anedotário de São Cristóvão. Jornal da Cidade, edições 2, 6 e 12 de agosto de 2014.
2 - Consulta www.merosdobrasil.org , 10 de abril 2015.
CRÉDITO DA IMAGEM: Mero, de Wagner Zanirato (Zamba), 2015.

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