A SOMBRA DA PEDRA: ENIGMA DO RIO VAZA-BARRIS - II*

Brasão de Sergipe Holandes
Thiago Fragata**
Dedicado ao arqueólogo Ademir Ribeiro Junior


Na primeira metade do século XVII, o Brasil tornou-se alvo de disputa entre holandeses e espanhóis. Por uma lógica dinástica, a colônia portuguesa (Brasil) esteve sob o regime de Felipe II, Rei da Espanha, entre 1580 e 1640, como também a metrópole (Portugal) e demais territórios ultramarinos.

Em nome da vitalidade da economia, a Holanda, ex-colônia hispânica, resolveu afrontar o imperialismo filipino. Por 30 anos (1624/1654), na mais ferrenha obsessão, os batavos tentaram conquistar Salvador, capital do Brasil. Interessada no êxito desses que invadiram terras brasileiras, a empresa Companhia das Índias Ocidentais indicou Maurício de Nassau ao cargo de Governador do território ambicionado. Uma voz coeva resumiu a questão com a sentença: “Há muito, a ciência da geografia dividiu o Brasil em capitanias do norte e do sul. A divisão recente é, porém, o que distingue em Brasil Espanhol e Brasil Holandês”.  (continua)



OBS: você pode receber qualquer artigo de Thiago Fragata em PDF mediante pagamento de taxa de serviço R$ 30,00. Mande recibo para e-mail: thiagofragata@gmail.com  


*Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 2015

A SOMBRA DA PEDRA: ENIGMA NO RIO VAZA-BARRIS - I*

Mero, obra de Wagner Zanirato (Zamba)

Thiago Fragata**

Os intelectuais Manoel dos Passos de Oliveira Telles (1859/1935) e Severiano Cardoso (1840/1907) desenvolveram pesquisas e palmilharam povoados de São Cristóvão em fins do século XIX. Ambos tinham a ex-capital como símbolo oracular onde estariam respostas às mais diversas questões investigadas e apresentaram propostas originais relacionadas a pontos da História de Sergipe, a exemplo, a mudança da Capital. Entendiam que não bastava folhear papéis de arquivo, escutar o povo era um exercício imprescindível. Algum morador possuía a informação-chave: ouvira dos parentes, testemunhara, etc. São Cristóvão era assim a lendária esfinge a lançar enigmas aos incautos descobridores.

Na última série, “Anedotário de São Cristóvão”, compartilhei pesquisa baseada nas estórias que o povo sancristovense conta sobre a forca no imaginário dos moradores do centro histórico.(1) Acredito na memória como matéria-prima do conhecimento e da imaginação.

Recentemente, voltei a escutar as populações ribeirinhas das Pedreiras, da Ilha Grande e do Porto São Francisco a respeito de outra questão misteriosa: a sombra da pedra. Tinha 16 anos de idade quando ouvi o desabafo do meu pai, o popular Tiago do Gelo: “Não quero rede minha na sombra da pedra, chega de prejuízo!” Demorei a compreender o que representava de fato a sombra da pedra, pensei numa rocha e só. É mais que isso...

O mote deste artigo é lançar hipóteses à seguinte questão: o que significa a sombra da pedra, localizada no ponto onde o rio Paramopama se encontra com o rio Vaza-barris, entrada da antiga capital de Sergipe d'El Rey?

MORADA DO MERO - Cresci ouvindo muitas estórias contadas pela boca dos pescadores. Os relatos davam azo à imaginação... Uma tanto me impressionou que fiz apontamentos. Todo mundo acrescentava um ponto se o assunto fosse “a sombra da pedra”.

Hoje tenho uma imagem definida do rochedo, um arrecife em formato quadrangular submerso, uma base brocada visível nos períodos de calmaria quando a água desvela a silhueta de batismo. Uns falavam da sombra da pedra como sinônimo de prejuízo, porque a rede que se prendia em suas paredes de cascalho não se resgatava. Linhas e anzóis sem conta perderam-se e ornamentavam o rochedo há uns 10 metros de profundidade. Outros falavam daquele lugar como ponto piscoso.

Razões para evitar a pesca nas proximidades da sombra da pedra todos tinham. O número de “mipas” (pescaria sem peixe) constituía-se um problema que definia a possibilidade de risco/mês que um dono de rede poderia considerar. Independente de qualquer coisa, a pescaria farta seria certa aos que manejassem cautelosamente as armadilhas ali. No entanto, alguém sempre lembrava de um fulano ou beltrano que sumiu na sombra da pedra, mergulhou e nunca emergiu... 
 
A sombra da pedra não era a única coisa que atemorizava os trabalhadores do mar, naquelas águas aparentemente residia um mero. Mil estórias ainda ecoam nos meus ouvidos sobre a fantástica criatura. O nome científico do bicho é Epinephelus Itajara. Itajara é um termo tupi que significa "senhor da pedra" (itá, pedra + iara, senhor). Esse animal marinho vive nos oceanos Atlântico e Pacífico. Entre suas características, destacam-se a longevidade (pode viver até 40 anos) e sua capacidade de se camuflar no seu habitat: as pedras.(2)

Dos causos compulsados dentre os pescadores uma unanimidade, todos disseram que sombra do peixe gigante na superfície d’água, bem próximo a tal pedra, explicava a origem do nome. Após descrever o exemplar da megafauna marinha, um deles acrescentou: “E quando passou ao lado da canoa, deu para avistar ostras no seu costado, por pouco não virou meu barco.” Boa parte dos relatos sobre o mero exageram o seu tamanho e o caracteriza “velhaco” por duas razões: consegue escapulir de armadilhas, é um predador oportunista – surpreende suas vítimas. O serranídeo, animal da mesma família das garoupas e do badejo, pode atingir 2,7m de comprimento e pesar 450kg.

Faz tempo... Ninguém fala do gigante marinho que habitava a região onde o Paramopama deságua no Rio Vaza-barris, no povoado Pedreiras. Sumiu, ficou apenas o cenário. Será que alguém capturou o peixe velhaco ou ele encantou-se?”. Os que insistem na sua existência apresentam a maior prova: a sombra da pedra. (continua)

* Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIV, n. 12.838, 19 e 20/4/2015, p. B5.
** Thiago Fragata é poeta e historiador, sócio do IHGSE, professor da SEED/SE, membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq) e do Grupo de Pesquisa Sergipe Oitocentista (SEO/CNPq). Email: thiagofragata@gmail.com
NOTAS DA PESQUISA
1 - FRAGATA, Thiago. Anedotário de São Cristóvão. Jornal da Cidade, edições 2, 6 e 12 de agosto de 2014.
2 - Consulta www.merosdobrasil.org , 10 de abril 2015.
CRÉDITO DA IMAGEM: Mero, de Wagner Zanirato (Zamba), 2015.

COMO ADQUIRIR CD-ROM “CRONOS ON LINE” SOBRE A CAMPANHA DA PRAÇA SÃO FRANCISCO, DE SÃO CRISTÓVÃO, A PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE?



Há 4 anos, Sergipe conseguiu um importante reconhecimento internacional que foi o festejado selo de Patrimônio da Humanidade concedido a Praça São Francisco, de São Cristóvão, pela UNESCO. A decisão da chancela ocorreu no dia 1º. de agosto de 2010, durante a 34ª. Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, realizada em Brasília no Hotel Royal Tulip. Como lembrou a jornalista Christina Vidoto, da Revista O Prelo a campanha da praça sergipana destacou-se pelo ativismo on line (ou ciber-ativismo) que seria o envolvimento de blog, sites, abaixo-assinado virtual, etc. CRONOS ON LINE: Catálogo Digital da Campanha da Praça São Francisco, de São Cristóvão, a Patrimônio da Humanidade (2005/2010) reúne 206 matérias veiculadas na internet (formato PDF) no periodo de 2005 a 2010, dispostos em ordem cronológica.

O catálogo organizado pelo historiador Thiago Fragata, que atuou como Coordenador da Comissão pró-candidatura da Praça São Francisco, apresenta ainda 4 anexos, a saber:
1 - Primeira propaganda veiculada na TV sobre a campanha da Praça São Francisco (2008)
Produção: Vange Produções e Vídeo, 15’’
2 - Vídeo-documentário Praça São Francisco, Patrimônio da Humanidade (2008).
Produção: CEAV/Universidade Federal de Sergipe. Direção e texto: Thiago Fragata
Editor: Manoel Gonçalves. 5’14’’.
3 - Vídeo-palestra de Thiago Fragata sobre a campanha da Praça São Francisco na Assembléia Legislativa de Sergipe (03/04/2008). Produção: TV Alese, 28'35''
4 - Áudio - Coletiva do Governador Marcelo Deda Chagas a imprensa sergipana na manhã do dia 2 de agosto de 2010, no Palácio do Governo, 40'03''


VALOR R$ 10,00 (DEZ REAIS)
PEDIDOS PELO EMAIL: thiagofragata@gmail.com
OBS: entrega em outros Estados somente com mudança nos valores!

HOMENAGEM E LANÇAMENTO DE LIVROS NO MHS



Na tarde do dia 26 de dezembro, quinta, no Museu Histórico de Sergipe aconteceu o lançamento do livro São Cristóvão São Cristóvão, nas letras das poesias de minha infância, uma coletânea de alunos do 5. ano (ppoetinhas!) da Escola do Lar Imaculada Conceição (ELIC). A escolha da instituição é mais que simbólica, desde abril de 2011, o incentivamos a prática das rodas de leituras na comunidade e o MHS tem sido promotor de ações educativas do gênero.

Dividido em dois momentos, o evento contou com uma homenagem ao poeta Manoel Ferreira Santos, 93 anos, o primeiro diretor do Museu Histórico de Sergipe (gestão 1960/1970), em seguida o lançamento da coletânea com sessão autógrafos. 

Thiago Fragata leu versos gravados numa foto de Manoel Ferreira e Leonel Brizola
Com Leonel Brizola imagem encontrada nas pesquisas sobre a vida e obra de Manoel Ferreira

MANOEL FERREIRA SANTOS 
Se festeja 93 anos, esse mundo é que tem sorte
pois o bronze não daria a estatura do teu porte
nem o ouro cotaria o valor do teu caráter.
(Versos de Thiago Fragata)

Manoel Ferreira é um importante agente cultural sancristovense

Na sequencia, o diretor do ELIC, Junior Macário apresentou a equipe de professores e coordenadores da institituição e discorreu sobre os projetos "Herdeiros do Futuro" e "Novos Poetas". Foi reconhecido o esforço da professora Cleide Oliveira, que acompanhou o grupo de alunos na produção da obra literária que reúne trabalhos dedicados a cidade de São Cristóvão.

Equipe ELIC


Mesa dos autores, os poetinhas
Professora Cleide Oliveira, grande incentivadora da produção poética
Diretor, Junior Macário, destacou que o livro é um ato de amor a São Cristóvão
Sessão de autógrafos

Dentre a coletânea, merecem destaque alguns trabalho dedicados ao pitoresco, ao cotidiano, as coisas de São Cristóvão e que muito bem caberia como suvenir na mala dos turistas. Independente disso, sabemos que a obra será um dos paradidáticos das turmas do ELIC. Para finalizar, vamos curtir a poesia de Ana Rebeca.


CHEIRO DE SÃO CRISTOVÃO

Ana Rebeca

Cheiro de terra molhada
Cheiro de comidas típicas
Mandioca
Macaxeira
Batata doce
Doce batata
Que o povo gosta
Se alegra
E pede mais.
Esse é o cheiro de São Cristóvão
Cheiro de terra molhada
Doceiras
Com seus doces na calçada.


  

SABER MAIS:
http://www.museuhsergipe.blogspot.com.br/2014/12/livro-de-poesias-dedicados-sao.html


CORDELISTAS DE SÃO CRISTÓVÃO: O PATINHAS


O Patinhas vendendo seus cordéis. Foto: Thiago Fragata 2012

Thiago Fragata*
Ruma de meninos armou tucaia na entrada do Museu Histórico Sergipe; outro dia era uma freira ansiosa por fazer um doação de uma palmatoria, mas voltando aos garotos, justificaram o seguinte: a professora disse que o senhor sabe tudo etc e tal. Gargalhei. Disse: isso de novo! Esse povo acha que nasci com o que sei, tá enganado! Que sei tudo, tá engano dobrado. Qual a nova questão? Responderam: queremos saber se em São Cristóvão tem cordelista? Lembrei de O Patinhas


João Batista Araújo Santos, conhecido como O Patinhas, nasceu no povoado Cabrita, em São Cristóvão, no dia 24 de junho de 1955. Teve uma infância difícil, com muito esforço conseguiu concluir o ensino primário. Aos 23 anos foi residir em Salvador. Diz que o grande incentivo para abraçar o mundo da literatura e das artes plásticas veio dos amigos que fez no pátio da Faculdade de Belas Artes da Bahia, alguns professores reconheceram nele um talento nato.

Cordéis de O Patinhas. Foto: Thiago Fragata 2014
Quando o entrevistei em 2012, ele comercializa seus 14 cordéis. Listo:
1 - Lampião morreu em Sergipe
2 - Bahia de todos os santos
3 - O filho da mulher estrupada
4 - A ovelha perdida
5 - Ética profissional
6 - O valente João da Faca
7 - O Sacrifício
8 - A picada do mosquito da dengue
9 - As filhas da prostituta
10 - Arara e o caju
11 - O sonho do poeta
12 - Provérbio popular
13 - Operário Presidente
14 - Peleja de pato e galo

Não tive tempo para prolongar nossa entrevista, o que descobri depois veio da leitura parcial da sua obra: comprei os 10 primeiros títulos disponíveis. Ele produziu alguns trabalhos sob encomenda (Ética profissional, A picada do mosquito da dengue), outros, tematizou a sua própria vida ou buscou homenagear pessoas (Lula) e lugares (Bahia, Aracaju). Revela ainda um tino evangelizador (A Ovelha perdida), buscando na Bíblia e no cristianismo lições que possam orientar/ensinar para boa formação religiosa e cidadã.

Thiago Fragata - poeta e historiador. E-mail: thiagofragata@gmail.com

COMO PARTICIPAR DA RIFA EM PROL DA ABERTURA DO ATELIÊ FRAGATA EM LAGARTO/SE?

 COMO PARTICIPAR DA RIFA EM PROL DA ABERTURA DO ATELIÊ FRAGATA EM LAGARTO/SE? 1 - Escola número de 1 a 100, antes confira se tá disponível  ...