CORDELISTAS DE SÃO CRISTÓVÃO: O PATINHAS


O Patinhas vendendo seus cordéis. Foto: Thiago Fragata 2012

Thiago Fragata*
Ruma de meninos armou tucaia na entrada do Museu Histórico Sergipe; outro dia era uma freira ansiosa por fazer um doação de uma palmatoria, mas voltando aos garotos, justificaram o seguinte: a professora disse que o senhor sabe tudo etc e tal. Gargalhei. Disse: isso de novo! Esse povo acha que nasci com o que sei, tá enganado! Que sei tudo, tá engano dobrado. Qual a nova questão? Responderam: queremos saber se em São Cristóvão tem cordelista? Lembrei de O Patinhas


João Batista Araújo Santos, conhecido como O Patinhas, nasceu no povoado Cabrita, em São Cristóvão, no dia 24 de junho de 1955. Teve uma infância difícil, com muito esforço conseguiu concluir o ensino primário. Aos 23 anos foi residir em Salvador. Diz que o grande incentivo para abraçar o mundo da literatura e das artes plásticas veio dos amigos que fez no pátio da Faculdade de Belas Artes da Bahia, alguns professores reconheceram nele um talento nato.

Cordéis de O Patinhas. Foto: Thiago Fragata 2014
Quando o entrevistei em 2012, ele comercializa seus 14 cordéis. Listo:
1 - Lampião morreu em Sergipe
2 - Bahia de todos os santos
3 - O filho da mulher estrupada
4 - A ovelha perdida
5 - Ética profissional
6 - O valente João da Faca
7 - O Sacrifício
8 - A picada do mosquito da dengue
9 - As filhas da prostituta
10 - Arara e o caju
11 - O sonho do poeta
12 - Provérbio popular
13 - Operário Presidente
14 - Peleja de pato e galo

Não tive tempo para prolongar nossa entrevista, o que descobri depois veio da leitura parcial da sua obra: comprei os 10 primeiros títulos disponíveis. Ele produziu alguns trabalhos sob encomenda (Ética profissional, A picada do mosquito da dengue), outros, tematizou a sua própria vida ou buscou homenagear pessoas (Lula) e lugares (Bahia, Aracaju). Revela ainda um tino evangelizador (A Ovelha perdida), buscando na Bíblia e no cristianismo lições que possam orientar/ensinar para boa formação religiosa e cidadã.

Thiago Fragata - poeta e historiador. E-mail: thiagofragata@gmail.com

THIAGO FRAGATA LANÇA CD-ROM CRONOS ON LINE

CRONOS ON LINE FACILITARÁ PESQUISA

Na próxima sexta (5/12), o historiador Thiago Fragata lançará o CD-Rom CRONOS ON LINE. O catálogo digital da Campanha da Praça São Francisco, de São Cristóvão, a Patrimônio da Humanidade (2005/2010) reúne 206 matérias veiculadas na internet (formato PDF) e 4 anexos, sendo 3 vídeos e 1 áudio. O evento acontece na tarde de lançamentos realizada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), em Aracaju, a partir das 17 horas. 
 
Fragata explica a importância do seu catálogo: "nos últimos anos, capturei matérias na internet sobre a campanha da Praça São Francisco e converti em PDF, por segurança, porque percebi a frequência com que essas notícias eram retiradas da rede mundial de computadores, o que deixava os pesquisadores no prejuízo; tanto que mais de 50% dessas matérias não se acham mais disponíveis. Diante desta carência que atingia a todos, num momento pós-reconhecimento que aliás aumentou o interesse das pesquisas sobre o patrimônio mundial sergipano, coloquei ordem cronológica na série de documentos guardados em meu arquivo, anexei vídeos produzidos pela Comissão Pró-candidatura e uma entrevista do saudoso Governador Marcelo Deda concedida no dia 2 de agosto de 2010, sobre a decisão da UNESCO em chancelar a praça localizada em São Cristóvão". 
 
Thiago Fragata compartilhará dados de pesquisa
 
Cronos on line constitui uma prova cabal do ciber-ativismo que envolveu a candidatura da Praça São Francisco e rende homenagens a quatro personalidades que contribuíram para o sucesso do patrimônio evidenciado: Marcelo Deda, Zezinho da Everest, Luiz Alberto e o cantor Rogério.

NO PRÓXIMO VAPOR - II*

Aurélia Dias Rollemberg (Dona Sinhá), déc. 1950
 



Samuel Barros de Medeiros e Albuquerque**

No domingo retrasado, voltamos ao longínquo século XIX e, na manhã de 10 de março de 1879, embarcamos com o Barão de Estância e seus acompanhantes rumo à capital do Império do Brasil. Eis, agora, uma questão: como foi possível reconstituir o percurso daquela viagem oitocentista entre Aracaju e o Rio de Janeiro?

A resposta não carece de rodeios. A reconstituição foi possível graças à sobrevivência de manuscritos e impressos produzidos no Brasil do século XIX ou legados por mulheres e homens que aqui viveram entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX.

E quais seriam esses documentos? O primeiro e mais importante é o texto de memórias de Aurélia Dias Rollemberg (1863-1952), nome de casada da filha mais velha do Barão da Estância com dona Lourença de Almeida Dias Mello.

Como havíamos registrado, as sinhazinhas Aurélia e Anna acompanharam seus pais na viagem de 1879. Décadas depois, no gabinete de leitura do memorável casarão da Rua Boquim, no centro de Aracaju, a viúva do senador Gonçalo de Faro Rollemberg (1860-1927) registrou suas reminiscências sobre o Rio oitocentista em uma pequena caderneta escolar. Esse documento, produzido entre 1927 e 1952, foi editado em 2005, na obra Memórias de Dona Sinhá, e o manuscrito original foi incorporado ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, através de doação feita pelos herdeiros do médico Lauro de Britto Porto (1911-2011). Assim, o texto de memórias de Aurélia sobreviveu e pode ser consultado em sua versão impressa ou manuscrita [1].

No Arquivo Público Estadual de Sergipe, localizamos os registros de saída de embarcações no porto do Aracaju relativos ao ano de 1879. Nesse sentido, o volume 21 do Fundo Segurança Pública registra a saída, em 10 de março, do vapor nacional Marquês de Caxias para o porto da Bahia [2]. Como havíamos mencionado no texto anterior, foi neste vapor da Companhia Baiana de Navegação que os viajantes sergipanos seguiram até Salvador, antes de tomarem o vapor estrangeiro que os conduziria até o Rio.

Por fim, a edição de 16 de março do jornal baiano “O Monitor” veiculou o seguinte registro: “[Ontem], no vapor allemão Valparaiso foram para Santos pelo Rio de Janeiro os seguintes [passageiros]: Manuel de M. e Souza sua senhora, 1 criada e 2 crianças, Barão da Estancia sua senhora, 2 filhas e 4 criados, Antonio da M[otta] Ribeiro e 4 criados, Chr. Retberg, Eleodoro J. de Campos, Dr. Pedro J. Pereira” [3].

Para além das fontes que nortearam, principalmente, a reconstituição do percurso, dialogamos com outros documentos [4] e estudos [5] sobre o Brasil oitocentista, que lançaram luzes sobre os cenários estudados. Exemplo disso são as cartas de preceptora alemã Ina von Binzer, que narram suas experiências enquanto preceptora de famílias fluminenses e paulistas em princípios da década de 1880. Esses documentos foram publicados na Europa em fins da década de 1880 e no Brasil, somente, em meados da década de 1950 [6]. Ina registrou com riqueza de detalhes, por exemplo, suas primeiras impressões sobre a região portuária e o centro do Rio de Janeiro oitocentista.

Longe de querer vomitar erudição em plena viagem marítima, considero tarefa básica no ofício do historiador indicar as fontes que dão vida às suas narrativas. Por mais que devamos primar por uma escrita historiográfica convidativa, julgo importante realçar a tênue linha que separa História e Literatura. (Continua)




* Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 16-17/11/2014, p. CA - 7. A fotografia que ilustra este artigo retrata Aurélia Dias Rollemberg (Dona Sinhá) em princípios da década de 1950 (Acervo particular de Ruth Rollemberg da Fonseca Mandarino).

**Professor da UFS e presidente do IHGSE. E-mail: samuel@ihgse.org.br
NOTAS
[1] A referência completa da versão impressa é: ROLLEMBERG, Aurélia Dias. O documento. In: ALBUQUERQUE, Samuel Barros de Medeiros. “Memórias de dona Sinhá”. Aracaju: Typografia Editorial, 2005. p. 47-123. Por sua vez, o documento original possui a seguinte referência: ROLLEMBERG, Aurélia Dias. [Texto de memórias]. Aracaju, [entre 1927 e 1952]. Acervo do IHGSE;
[2] REGISTROS de saída de embarcações no porto de Aracaju em 1879. Arquivo Público Estadual de Sergipe, Fundo SP8 - Inspetoria da Polícia (Marítima e Aérea), volume 21, p. 197 (reverso);
[3] NOTÍCIAS diversas. “O Monitor”, Bahia, 16 mar. 1879, p. 1.
[4] Em termos documentais, fiz uso de: AVÉ-LALLEMANT, Robert. Excursão à província de Sergipe. “Revista do IHGSE”, Aracaju, v. 21, n. 26, 1961; DIÁRIO do imperador D. Pedro II na sua visita a Sergipe em janeiro de 1860. “Revista do IHGSE”, Aracaju, n. 26, p. 64-78, [1965]; MACEDO, Joaquim Manoel de. “Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro”. Tomo Primeiro. Rio de Janeiro: Typ. Imparcial de J. M. Nunes Garcia, 1862; _____. “Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro”. Tomo Segundo. Rio de Janeiro: Typ. de Candido Augusto de Mello, 1863; SANTOS, Luiz Álvares dos. “Viagem Imperial á Provincia de Sergipe”. Bahia: Typographia do Diario, 1860; 
SCHRAMM, Adolphine. “Cartas de Maruim”. Aracaju: Núcleo de Cultura Alemã de Sergipe/UFS, 1991.
[5] Em termos bibliográficos, fiz uso de: ALMEIDA, Maria da Glória Santana de. “Sergipe: fundamentos de uma economia dependente”. Petrópolis: Vozes, 1984; _____. “Nordeste açucareiro”. Aracaju: UFS/SEPLAN/BANESE, 1993; CARVALHO, José Murilo de. “A construção da ordem & Teatro de sombras”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003; FIGUEIREDO, Cláudio; SANTOS, Núbia Melhem; e LENZI, Maria Izabel Ribeiro (Organizadores). “O porto e a cidade”. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005; FREYRE, Gilberto. “Modos de homem e modas de mulher”. Rio de Janeiro: Record, 1987; NUNES, Maria Thetis. “Sergipe Provincial II (1840/1889)”. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Aracaju: BANESE, 2006; PASSOS SUBRINHO, Josué Modesto dos. “História econômica de Sergipe (1850-1930)”. Aracaju: Programa Editorial da UFS, 1987; ROSADO, Rita de Cássia Santana de Carvalho. “O Porto de Salvador, modernização em projeto, 1854-1891”. Salvador: EdUFBA/CODEBA, 1983; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Cultura. In: SILVA, Alberto da Costa e (Coordenação). “Crise colonial e independência: 1808-1830”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. (História do Brasil Nação: 1808-2010, 1).
[6] BINZER, Ina von. “Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil”. São Paulo: Anhembi, 1956.

PROGRAMAÇÃO V CÍRCULO DOS OGÃS "MULHERES NEGRAS"

Cartaz. Autoria: Flavia Santana.
O Círculo dos Ogãs é um evento realizado na cidade de São Cristóvão pela Sociedade para O Avanço Humano e Desenvolvimento Ecosófico-SAHUDE na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra em todo país, 20 de Novembro, data em que morreu Zumbi dos Palmares. O evento ocorre há cinco anos com a parceria do Museu Histórico de Sergipe-MHS.

Esse ano, em sua quinta edição o Círculo dos Ogãs tem como tema de suas rodas as Mulheres Negras, é através dessa voz que mobilizaremos para os debates e conversas, jovens estudantes, professores, trabalhadores e principalmente as mulheres da cidade de São Cristóvão.

O evento já se tornou data cativa na comunidade, principalmente pelas instituições educacionais e culturais da cidade que celebram todo ano a mais expressiva data de luta em reconhecimento dos direitos do povo afrobrasileiro. Por seu significado o Círculo dos Ogãs foi em 2013 contemplado com o Prêmio Abdias Nascimento, conferido pela Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe.O evento tem o apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN/SE), Secretaria de Estado da Cultura, Unegro e Universidade Federal de Sergipe (UFS).


PROGRAMAÇÃO

V CÍRCULO DOS OGÃS: Mulheres Negras (18 a 21/11/2014)


Dia 18/NOV
Local: Museu Histórico de Sergipe|São Cristóvão

19Hs MESA REDONDA "MULHERES NEGRAS NA SOCIEDADE ATUAL"

A Mulher Negra na sociedade brasileira: Quais os desafios?
Laila Thaíse Batista de Oliveira - Jornalista formada pela Universidade Tiradentes(UNIT), mestranda em Comunicação e Sociedade pela Universidade Federal de Sergipe. 


A Mulher Negra e a Conquista dos Espaços de Poder
Íris Fabiana - Formada em Turismo pela Faculdade de Sergipe, Graduanda em Letras/Espanhol na faculdade Pio X, Militante Política e Assessora de comunicação na Secretaria Especial de Politicas para as Mulheres de Sergipe (SEPM).

20Hs Abertura da Exposição Temporária “Mulheres Negras"

Dia 19/NOV
Local: Casa do IPHAN|São Cristóvão

14h MOSTRA DE VÍDEOS - Exibição de Curtas
“O corpo é meu” Fernanda Almeida (produtora)
Vencedores do Curta-História (MEC) 2014
Coordenação: Everlane Morais

Dia 20/NOV
Local: Praça São Francisco|São Cristóvão

15h Intervenção cultural: Dança Poesia e Percussão
- Espetáculo de Dança "Mandala" - Coreógrafo Ezequias Carvalho
- Intervenção poética "Microfone aberto contra o preconceito"
- Apresentação do Grupo de Capoeira "A hora é essa!", com os professores Rato Branco, Encabulado e Bahia.
- Show com MC MI e Convidados
- Apresentação do Grupo Ilê Axê - Mais Cultura "Gina Franco"

Dia 21/NOV
Local: Auditório da ADUFS – UFS

19h MESA REDONDA - “Mulheres de Axé: O arquétipo da Grande Mãe e a liderança feminina nos terreiros de Candomblé”
Martha Sales e Fernanda Cohim

OBS: Evento com direito a CERTIFICADO de 8 horas, presença 70% do evento.

Mais informações:

Marcia Arévalo (79) 8852-1838 – Presidente da SAHUDE

AS MEMÓRIAS DE JUNOT SILVEIRA – I*

Junot Silveira e Jenner Augusto entre amigos em São Cristóvão, anos 1930.


Thiago Fragata*

À Jenner Augusto (11/11/1924 – 02/03/2003)



Os relatos memorialísticos traçam grandes painéis da realidade. Estes retratos são obras de artistas e/ou historiadores, uns mais realistas, outros mais poéticos, cronistas do passado. Recentemente, recebemos duas excelentes produções biográficas, genealógicas, de marcante rigor historiográfico. A primeira foi “Memórias de famílias: o percurso de quatro fazendeiros”, de Ibarê Dantas; a segunda, “Trilhando Memórias”, de Ana Maria Fonseca Medina. Por demais resenhadas, devo apenas reputar o nível e o vigor do gênero literário em terras sergipanas. Nem sempre as memórias de um contexto historico-geográfico são enfeixadas em livro e chegam ao público leitor. Se o relato memorialístico que Serafim Santiago escreveu para os seus netos em 1920 ganhou o formato livro em 2009 foi graças aos esforços da Universidade Federal de Sergipe e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, em razão do consenso destes centros de difusão do conhecimento. O Anuário Christovense traça um panorama geral dos fatos e práticas civis e religiosas de São Cristóvão na segunda metade do século XIX e início do XX, quando o autor comemora a chegada do progresso com a inauguração da Fábrica de Tecidos Sam Christovam em 1914. (1) No presente artigo revelarei a São Cristóvão na década de 1930 através das lembranças de um cronista, Junot José da Siveira (1923/2003). 
Junot Silveira era irmão de Jenner Augusto, destacado artista plástico, e teve uma marcante atuação no jornalismo baiano apesar de ter ensaiado seus primeiros voos em Sergipe, assim como o irmão. Foi editor do jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, por mais de 40 anos (1958, meados da década de 1990). Na sua crônica registrou a nostalgia dos tempos de infância em São Cristóvão enquanto pauta do gênero literário que dominou magistralmente. “Num sentido, genérico, usa-se a palavra crônica para indicar, até hoje, o registro da feição de uma comunidade e de uma época, as memórias de um passado que se quer fixar”. (2) Apesar do dissenso quanto a classificação da crônica, se é paraliteratura, literatura ou história, tenho o cronista como um historiador dos costumes ou historiador do cotidiano.(3) 
Folheei 20 crônicas de Junot Silveira produzidas entre 1968 e 1994 e confesso minha admiração e descoberta do seu potencial memorialístico; “algumas de suas crônicas dominicais – conforme asseverou Mario Cabral – são antológicas”. (4) Da minha parte, não ousarei resenhar ou mesmo resumir seus escritos a respeito da sua encantada infância. Por isso deixarei seu texto “Ontem e Hoje”, publicado em 1988, substituir este elogio. Antes é importante frisar que os irmãos Jenner Augusto e Junot Silveira chegaram em São Cristóvão em 1930. Sua mãe, Maria Catarina Mendes da Silveira, professora, foi transferida para o Grupo Escolar Vigário Barroso, situado na atual Praça da Matriz. A residência simples em que moraram por 4 anos era no fundo da Igreja do Amparo dos Homens Pardos. (5) 
 ONTEM E HOJE - Vendo tantos carros manobrar no pátio do estacionamento eu me lembrei dos tempos de criança. Da época em que vivi em São Cristóvão com seus casarões coloniais, os seus conventos, os seus frades e suas beatas, as procissões desfilando pelas ruas, a velha fábrica de tecidos que funcionava na Cidade Baixa. 
 Era para essa fábrica que passavam, madrugada ainda, dezenas e dezenas de operários pela nossa porta. Eram homens e mulheres que acordavam cedo e calçavam tamancos, pisando em passos rápidos o chão de cimento das calçadas ou o barro das ruas. Acordavam cedinho, com o amanhecer, para se dirigirem ao trabalho, que não ficava perto da residência de todos. À época não havia transporte coletivo; o jeito era utilizar as pernas, caminhar muito mais de um quilômetro para lá e muito mais de um outro quilômetro para voltar. Iam limpos para o trabalho, limpos como a manhã que respiravam e quando retornavam estavam suarentos, com os corpos visgando e com vestígios de algodão. Traziam do serviço essa lembrança diariamente, e mais o cansaço de lidar com os teares. 
 Nas tardes de domingo tinham como lazer o futebol, o quadro da própria fábrica, o União Têxtil, se a memória não me trai, fazendo ótimas exibições frente a representação de outras cidades, inclusive Aracaju. No União Têxtil havia grandes valores, como Zeca Trincheira, um zagueiro pesado e forte e o hábil centroavante Zeca Tenisson. O Zeca Tenisson jogou futebol por mais de 25 anos seguidos, sempre com muita garra, muito empenho e muito brilhantismo. E também com muita discussão em campo, que não era homem para levar desaforo para casa. Por várias e várias vezes seguidas comandou a seleção sergipana que, se nem sempre teve melhor atuação, não foi por sua culpa. 
 O Zeca Tenisson jogou futebol durante tanto tempo, que eu devia ter uns cinco anos de idade quando ele já era craque do União Têxtil e, já adolescente, quando contava 17 anos, eu jogava ao seu lado em Laranjeiras e ele me transmitia alguns de seus truques e um pouco da sua experiência e da sua habilidade. Tivesse ele atuado em outros meios, em um centro como o Rio de Janeiro ou São Paulo, teria gozado de fama nacional. Fama justa, merecida e não fabricada como é comum acontecer hoje em dia. 
 O campo do União Têxtil, em São Cristóvão, era aberto; o da Associação Atlética, do Lagarto, colocava uma empanada nos dias de grandes eventos, o de Laranjeiras tinha uma cerca de bambus. No gramado dos três conheci bons atletas, mas nenhum deles se igualava ao Zeca Tenisson. Mas dele tenho também a lembrança de bom amigo que me levava, quando criança e ele adulto, a passear na São Cristóvão, inclusive nos dias de festas religiosas. Nos dias em que a cidade se enchia de visitantes. Nos dias em que chegavam os romeiros de várias partes, em caminhões, que então ainda não eram chamados de paus-de-arara. Ou em trens especiais. E as pessoas de maiores posses, altos comerciantes e senhores de engenho, que se transportavam de automóvel. 
 Esses automóveis eram, para mim, um deslumbramento. Nunca tive, sequer, um velocípede. O carro em que brincava era de madeira, das quatro rodas ao volante, feito por mim e os amigos. Daí o encantamento pelos veículos que chegavam de fora, especialmente de Aracaju. Pela manhã quase sempre ficavam postados na Praça de São Francisco e à tarde, lado a lado, na Praça da Matriz. Alguns motoristas, mais compreensivos e tolerantes, permitiam que eu sentasse no coxim, pegasse no volante, tocasse na alavanca do câmbio. Tudo isso eu fazia com o maior contentamento da vida. Com a mesma sofreguidão com que Thiago, sentado ao meu colo, mexe no painel do carro, acende e apaga as luzes do farol, vai-se familiarizando, precocemente, com a máquina que eu vejo manobrar no pátio do estacionamento e me traz lembranças de um passado que vai longe, mas sempre presente em minha vida sentimental. (6) Continua.

*Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 12 de novembro de 2014, p. B-6.
** Thiago Fragata é Especialista em História Cultural (UFS), sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT), membro do GPCIR/CNPQ. Email: thiagofragata@gmail.com

NOTAS DA PESQUISA 
1 DANTAS, Ibaré. Memórias de família: o percurso de quatro fazendeiros. Aracaju: Criação, 2013; MEDINA, Ana Maria Fonseca. Trilhando memórias. Aracaju: Sercore, 2013; SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora da UFS, 2009. 
2 BENDER, Flora et all. Crônica: história, teoria e prática. São Paulo: Editora Scipione, 1993, p. 14.
3 EWALD, Ariane P. et all. Crônicas folhetinescas: subjetividade, modernidade e circulação da notícia. In: NEVES, Lúcia Maria et. All. (org.) História e imprensa: representações culturais e práticas de poder. Rio de Janeiro: DP&A, FAPERJ, 2006, p. 242; BENDER, obra citada, p. 14-15. 
4 CABRAL, Mario. Jornal da Noite (críticas). Salvador: Editora Artes Gráficas, 1997, p. 307. 
5 PONTUAL, Roberto. Jenner e a Arte Moderna na Bahia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974, 41. Imagem foi retirada desta obra.
6 SILVEIRA, Junot. Ontem e Hoje. A Tarde. Salvador, 11 /9/1988.

LAUDELINO PROFESSOR: UM ESQUECIDO MESTRE DE CAPOEIRA

Laudelino Meneses - Acervo da família    Thiago Fragata*   Alvaro Machado de Andrade Júnior realizou pesquisa sobre a prática da capoeira ...