UMA PROCISSÃO NO PREFÁCIO DA NOSSA HISTÓRIA



Thiago Fragata*

Nesse fim de semana acontece, em São Cristóvão, a tradicional Romaria e Procissão do Senhor dos Passos. Estudiosos apontam o evento como a mais longeva celebração religiosa realizada em Sergipe, remonta início do século XVIII. O Professor Dr. Magno Santos, do Departamento de História da Universidade do Rio Grande do Norte (UFRN), sergipano de Lagarto, é o maior especialista no tema, seu novo livro confirma. “O prefácio dos tempos caminhos da romaria do Senhor dos Passos em São Cristóvão” é título da sua tese defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF), sob orientação da Profa. Dra. Martha Abreu. Em tempo, invoco o nome da saudosa Profa. Dra. Verônica Maria Nunes Meneses que acompanhou o especialista no início da pesquisa. 

O trabalho acadêmico em pauta foi publicado em 2024, ele proporciona maior compreensão acerca do evento católico, das suas transformações e atores sociais envolvidos. Meu objetivo aqui nesse texto é resumir/resenhar a referida obra. No proêmio, Beatriz Góis Dantas, aponta “a questão central do livro é desvendar como a romaria do período imperial foram apropriadas e reinventadas por diferentes segmentos e atores sociais do período republicano, tendo como pano de fundo os processos de reforma devocional do catolicismo brasileiro dos séculos XIX e XX”. (p. 16-17) Por sua vez, Martha Abreu parabeniza a excelência do trabalho que consegue “mostrar o quanto através da Romaria de Senhor do Passos se fez história e se transforma a história. Mais ainda, como é possível através das romarias festivas, estudar a História de Sergipe, seus conflitos, suas lutas políticas, suas identidades, as lutas dos trabalhadores e dos romeiros populares e as estratégias de dominação dos poderosos”. (p. 21) 

O livro é dividido em 3 capítulos: 1) A Jerusalém de Sergipe – mediante consulta de jornais e bibliografia temática reconstitui a romaria em dois contextos históricos: metade do século XIX (império) e primeiras décadas do século XX (republica); mostra como diferentes autores retrataram decadência e modernidade; 2) Impasses da Reforma Devocional Católica em Sergipe – desvela como frades franciscanos e carmelitas rivalizaram no século XX pelo enredo e protagonismo do evento; 3) Memória da tragédia: patrimonialização da romaria – analisa como narrativas memorialistas configuram o tombamento dos bens moveis integrados à romaria. 

Prefácio dos tempos, caminhos da romaria de Senhor dos Passos é escrito em linguagem fluente, às vezes poética sem descuidar-se, contudo, do compromisso com a escrita acadêmica. Com o seu lançamento, as possibilidades de pesquisas ampliaram-se. Particularmente, interessa-me como os devotos sancristovenses interpretaram a Mudança da Capital, de 1855, como o calvário da cidade e dos seus filhos. Também, como a esperança do retorno da capital foi ressignificada como provação e um teste de fé. Independente de qualquer coisa, São Cristóvão é – segundo Magno Santos - “cidade que traz a toponímia de ser aquela que carrega Cristo”. 

 

*Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, de 26 de fevereiro de 2026 


 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário sobre essa matéria.

UMA PROCISSÃO NO PREFÁCIO DA NOSSA HISTÓRIA

Thiago Fragata* Nesse fim de semana acontece, em São Cristóvão, a tradicional Romaria e Procissão do Senhor dos Passos. Estudiosos apontam ...