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UMA PROCISSÃO NO PREFÁCIO DA NOSSA HISTÓRIA



Thiago Fragata*

Nesse fim de semana acontece, em São Cristóvão, a tradicional Romaria e Procissão do Senhor dos Passos. Estudiosos apontam o evento como a mais longeva celebração religiosa realizada em Sergipe, remonta início do século XVIII. O Professor Dr. Magno Santos, do Departamento de História da Universidade do Rio Grande do Norte (UFRN), sergipano de Lagarto, é o maior especialista no tema, seu novo livro confirma. “O prefácio dos tempos caminhos da romaria do Senhor dos Passos em São Cristóvão” é título da sua tese defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF), sob orientação da Profa. Dra. Martha Abreu. Em tempo, invoco o nome da saudosa Profa. Dra. Verônica Maria Nunes Meneses que acompanhou o especialista no início da pesquisa. 

O trabalho acadêmico em pauta foi publicado em 2024, ele proporciona maior compreensão acerca do evento católico, das suas transformações e atores sociais envolvidos. Meu objetivo aqui nesse texto é resumir/resenhar a referida obra. No proêmio, Beatriz Góis Dantas, aponta “a questão central do livro é desvendar como a romaria do período imperial foram apropriadas e reinventadas por diferentes segmentos e atores sociais do período republicano, tendo como pano de fundo os processos de reforma devocional do catolicismo brasileiro dos séculos XIX e XX”. (p. 16-17) Por sua vez, Martha Abreu parabeniza a excelência do trabalho que consegue “mostrar o quanto através da Romaria de Senhor do Passos se fez história e se transforma a história. Mais ainda, como é possível através das romarias festivas, estudar a História de Sergipe, seus conflitos, suas lutas políticas, suas identidades, as lutas dos trabalhadores e dos romeiros populares e as estratégias de dominação dos poderosos”. (p. 21) 

O livro é dividido em 3 capítulos: 1) A Jerusalém de Sergipe – mediante consulta de jornais e bibliografia temática reconstitui a romaria em dois contextos históricos: metade do século XIX (império) e primeiras décadas do século XX (republica); mostra como diferentes autores retrataram decadência e modernidade; 2) Impasses da Reforma Devocional Católica em Sergipe – desvela como frades franciscanos e carmelitas rivalizaram no século XX pelo enredo e protagonismo do evento; 3) Memória da tragédia: patrimonialização da romaria – analisa como narrativas memorialistas configuram o tombamento dos bens moveis integrados à romaria. 

Prefácio dos tempos, caminhos da romaria de Senhor dos Passos é escrito em linguagem fluente, às vezes poética sem descuidar-se, contudo, do compromisso com a escrita acadêmica. Com o seu lançamento, as possibilidades de pesquisas ampliaram-se. Particularmente, interessa-me como os devotos sancristovenses interpretaram a Mudança da Capital, de 1855, como o calvário da cidade e dos seus filhos. Também, como a esperança do retorno da capital foi ressignificada como provação e um teste de fé. Independente de qualquer coisa, São Cristóvão é – segundo Magno Santos - “cidade que traz a toponímia de ser aquela que carrega Cristo”. 

 

*Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, de 26 de fevereiro de 2026 


 

 

A TÚNICA III*


Túnica em discussão. Foto: Samuel Albuquerque, 2014


Samuel Albuquerque**

Na semana passada, dialogando com testemunhos legados por Serafim Santiago (1860-1932) e Gumersindo Bessa (1859-1913), lancei a hipótese de que a túnica oitocentista apresentada na exposição temporária “Nos passos do Senhor dos Passos” (aberta ao público no último dia 8 de março, no Museu de Arte Sacra de São Cristóvão) foi doada por Antonio Dias Coelho e Mello (1822-1904), o Barão da Estância, e não por João Gomes de Mello (1809-1890), o Barão de Maruim.

Conforme havia anunciado, passo a outros testemunhos que dão lastro à hipótese que defendo: o texto de memórias de Aurélia Dias Rollemberg (1863-1952) e o testamento do próprio Barão da Estância.

Dona Sinhá, como ficou conhecida a filha do Barão da Estância e viúva do político Gonçalo de Faro Rollemberg (1860-1927), registrou sobre a presença de sua família nas festividades religiosas da antiga capital de Sergipe: “(...) iamos com muitas saudades para S. Christovão, assistirmus a Procissão de Passos [e] S. Sancta, que eram mto bonitas e concorridas” (Rollemberg In: Albuquerque, 2005, p. 53, 56-57).

Em seu testamento, além de declarar-se “firme Catholico Apostolico Romano”, o Barão da Estância deixou uma pequena fortuna para o templo que abrigava a imagem que tanto cultuava. “Deixo a Igreja do Nosso Senhor Jesus dos Passos da Cide de S Christovão huma apolice de hum conto de re de juros a 5% pa com os juros d’esta apolice dever de huma Missa Cantada todos os annos no dia dezignado. Esta apolice ficará em poder do parocho da Freguesia, e qqr q seja o seo [ilegível] tendo o direito de cobrar os juros do anno pa o dia [da] Missa Cantada. Nao poderá em tempo algum passar a outro, e nem ser alienada, salvo se justificar q a Igreja precisa de reparos, e n’este caso poderá ser negociada” , registrou o devoto já moribundo (Barão da Estância, 1904, p. 3).

Outra vontade expressa no testamento do Barão da Estância era a de ser velado aos pés do Senhor dos Passos, sob a casa que ajudou a manter: “Se morrer aqui [em S Christovão] o meo corpo será levado a Igreja do Senhor dos Passos, e lá collocado em huma mesa forrada de preto, sem eça sem aparato algum. Encomendado simploriate plos Frades a São Francisco, será meo corpo conduzido plos meos amigos e parentes pa a Igreja do Colegio na onde serei sepultado” (Barão da Estância, 1904, p. 3-4). Sua vontade parece ter sido cumprida à risca e ainda hoje podemos encontrar a esquecida e maltratada lápide sepulcral do Barão da Estância e de outros membros de sua família (inclusive seus pais, irmãos e sua segunda consorte) no que foi a sacristia da Igreja Nossa Senhora da Guia do Colégio, nos arredores do povoado Nova Descoberta, em Itaporanga d’Ajuda. Aliás, é preciso que se registre o estado lastimável em que se encontram as lápides no interior daquele combalido templo, a despeito de ser ele um bem tombado pelo poder público federal e pertencer a descendentes diretos dos que ali jazem. 

Voltando à túnica em questão, uma fonte que registra sua origem é o depoimento concedido pela memorialista Maria Paiva Monteiro (1913-2004) ao historiador Magno Santos em dezembro de 2003. Considerada “a memória viva de São Cristóvão” (Santos, 2012, p. 12), a professora primária conhecida como dona Marinete era filha de um antigo tesoureiro da Ordem Terceira do Carmo, o senhor Horácio Pio Monteiro (1852-1924), e foi secretária da Associação Nossa Senhora do Carmo, entidade que, nos idos da década de 1970, assumiu muitas das atribuições dos terceiros do Carmo, inclusive a organização das procissões quaresmais. Dona Marinete preservou a memória de que o Barão da Estância teria mandado confeccionar aquela túnica na França, oferecendo-a ao Senhor dos Passos como prova de sua devoção (Santos, 31 out. 2012).

Sobre a memorável Marinete, registrou o historiador: “A trajetória de vida de dona Marinete esteve relacionada com a romaria dos Passos. Mais do que isso. Ela participou ativamente dos bastidores da celebração maior da cidade de São Cristóvão. Ofícios, arrumação das charolas, reuniões de comissões organizadoras, criação de associações, tudo isso ocorreu ao longo do século XX com a presença dessa devota. Prova disso foram as reuniões da década de 70 do século XX em que a devota se tornou testemunha da extinção da Ordem Terceira do Carmo e assumiu o cargo de secretária da nova Associação de leigos criada sob a tutela do arcebispo metropolitano de Aracaju, Dom Luciano Cabral Duarte. Desde a tenra infância dona Marinete esteve presente na vistosa procissão, pois ela era membro de uma família católica da cidade” (Santos, 2012, p. 3)

É preciso mencionar, inclusive, que o primeiro registro historiográfico do qual tenho notícia, tratando da referida túnica, remete ao estudioso das devoções cristovenses que, em fins de 2003, colheu duas longas entrevistas com dona Marinete. Baseando em depoimentos da memorialista, Magno Santos registrou: “A túnica doada pelo Barão da Estância não é mais usada, mas traz em si as marcas de devoção, como o desgaste do tecido em partes em que os romeiros tocavam. O tato devocional passou milhares de vezes pelo manto, em busca de bênçãos, deixando suor, lágrimas e preces. São algumas das facetas da devoção ao Senhor dos Passos, que conseguia unir em um mesmo percurso, sob o mesmo tecido um nobre e tantos flagelados da sociedade aristocrática e excludente de Sergipe oitocentista” (Santos, 2010, p. 164-165). 

Confesso também não acreditar que a finíssima túnica foi confeccionada na França. Considero provável que os materiais e a mão de obra utilizada sejam, realmente, de origem francesa. Contudo, penso estar no atelier de certa madame Laurant, modista francesa estabelecida à Rua do Ouvidor (centro do comércio de luxo no Rio de Janeiro oitocentista), a criação daquela peça.

Conforme os registros de memória de Aurélia Dias Rollemberg, desde fins da década de 1870, a família do Barão da Estância tomou parte no seleto grupo de clientes daquela modista, cujo concorrido atelier ficava sobre a famosa Confeitaria Paschoal, no número 128 da Ouvidor, esquina com Gonçalves Dias.

Madame Laurant aparece em vários momentos da narrativa de dona Sinhá. No primeiro deles, a memorialista registrou: “Ella era uma franceza q fallava o portuguez, delicada e optima modista. Morava com uma filha que ajudava e uma sobrinha professôra formada em musica” (Rollemberg In: Albuquerque, 2005, p. 67).

Na companhia da museóloga Ana Karina Rocha de Oliveira, especialista em coleções têxteis, examinei detidamente a veste em estudo, uma “túnica de veludo na cor roxa, manga comprida, decote em V acentuado, gola clerical e forrada com tafetá róseo em toda a sua extensão”. Entre os detalhes alcançados pelo experiente olhar da museóloga, chamaram a minha atenção os finíssimos elementos fitomorfos (flores e folhas) confeccionados em fita dourada que decora a gola, as mangas e a barra da peça. Contudo, outros elementos decorativos, como “estrelas bordadas em alto relevo com fio dourado e lantejoulas” (dispostas indiscriminadamente em toda a peça), foram aplicados à túnica ao longo dos anos em que ela foi usada nas procissões quaresmais, nublando a sua originalidade.

Em suma, baseado nos testemunhos históricos e no parecer técnico citado, aposto minhas fichas na hipótese de que a túnica do Senhor dos Passos, supostamente doada pelo Barão de Maruim, foi confeccionada no Rio de Janeiro, por uma modista francesa da Rua do Ouvidor, sob encomenda, na verdade, do Barão da Estância.

Mas, seja como for, é provável que os sentimentos que moveram a ação do devoto brasonado assemelhem-se aos que movem os milhares de romeiros que, no segundo domingo da Quaresma, tomam as ruas da antiga capital de Sergipe, renovando a sua fé, dando conta das graças alcançadas e pedindo a benção do Senhor que, certamente, não dissocia a luxuosa túnica de veludo da ordinária túnica cetim atirada sobre sua imagem ao final da Procissão do Encontro. (Fim)
 


*Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 27 e 28 de abril de 2014, p. 11.
**Professor da UFS e presidente do IHGSE. E-mail: samuel@ihgse.org.br

FONTES UTILIZADAS:
OLIVEIRA, Ana Karina Rocha de. “Descrição da ‘Túnica do século XIX doada pelo Barão de Maruim’, peça da exposição ‘Nos Passos do Senhor dos Passos’, aberta ao público em 8 de março de 2014, no Museu de Arte Sacra de São Cristóvão – MASC”. Aracaju, 30 mar. 2014 (Arquivo/Biblioteca Samuel Albuquerque).
ROLLEMBERG, Aurélia Dias. O documento. In: ALBUQUERQUE, Samuel Barros de Medeiros. “Memórias de Dona Sinhá”. Aracaju: Typografia Editorial, 2005. p. 47-123.
SANTOS, Magno Francisco de Jesus. Os últimos passos de uma devoção: indícios da religiosidade de um nobre sergipano oitocentista. “Historien – Revista de História”, Petrolina, v. 3, p. 149-167, 2010.
SANTOS, Magno Francisco de Jesus. Os sete passos da Paixão: patrimônio e memórias na romaria do Senhor dos Passos de Sergipe. “Anais do Congresso Internacional de História e Patrimônio Cultural”. Terezina: 2012. p. 1-13.
SANTOS, Magno Francisco de Jesus. Depoimento concedido ao autor. Aracaju, 31 de outubro de 2012.
TESTAMENTO do Barão da Estância. São Cristóvão, 1904. Arquivo Geral do Judiciário, fundo São Cristóvão/Cartório do 1º Ofício, caixa 11, número geral 77.

DOMINGO DE REMINISCERE*

Cartaz 2014

Magno Francisco de Jesus Santos**


Segundo domingo da Quaresma. Domingo da transfiguração; dia em que os sergipanos seguem para um só destino. Dia em que São Cristóvão se transforma na capital católica do estado, na Jerusalém sergipana. Trata-se de um tempo de transformação, penitência e celebração da dor, com romeiros transportando o Cristo com o grande madeiro sobre seus ombros. Como Simão, o cirineu, os sergipanos expressam sua fé ao Senhor dos Passos e renovam a esperança de dias melhores.

Ao longo da segunda semana do tempo quaresmal o ritmo dos lares de muitas famílias sergipanas é alterado. As lojas de cidades interioranas expõem o seu estoque de tecidos roxos. Costureiras adiantam a confecção de mortalhas. Artesãos dão os últimos retoques nos ex-votos encomendados. Proprietários de ônibus e caminhões revisam seus veículos para o transporte de romeiros. Trabalhadores rurais olham esperançosos para o céu a espera da chuva que sempre vem na sagrada semana de Passos. As conversas e os pensamentos de muitos sergipanos giram em torno de um mesmo tema: a romaria do Senhor dos Passos da cidade de São Cristóvão.

Para as famílias católicas de Sergipe, o segundo final de semana da Quaresma é respeitado como se fosse uma prévia da Semana Santa, dias de penitência e de rememorar os sofrimentos de Cristo a caminho do Calvário. Os evangelhos remetem à transfiguração de Jesus como revelação de sua natureza divina. Nas ruas de São Cristóvão, primeira capital de Sergipe, celebra-se o Cristo desfigurado, por meio da devoção ao Senhor dos Passos.

O Senhor dos Passos, principal devoção católica do povo sergipano, pode ser visto como uma bela representação do povo simples que lota as ruas da cidade, com seus calejados pés descalços, com suas mortalhas roxas e suas faces sofridas. Ao longo dos três dias de celebrações, milhares de romeiros choram e rezam diante da imagem do Senhor dos Passos. O que esses romeiros encontram nessa imagem? A sua própria face. A angústia da dor e do abandono. O ultraje da humanidade. O olhar doloroso do Senhor dos Passos que se confunde com suas próprias dores.

Falar na romaria do Senhor dos Passos significa discutir a permanência de práticas de sacrifícios. Pelas estradas e rodovias de Sergipe deslocam-se famílias inteiras, vestidos com mortalhas roxas e segurando seus cajados, a mercê da insegurança e vulneráveis aos perigos. Pelas ruas da velha cidade, promesseiros participam das procissões ajoelhados, rolando pelo chão ou até mesmo embaixo dos andores. Ao final de cada procissão, ocorre o milagre do Senhor dos Passos: na cidade de São Cristóvão ocorre uma chuva de túnicas roxas, quando os romeiros se despem e atiram suas vestes na imagem sagrada.

A romaria do Senhor dos Passos também é o lócus dos sentidos. Para sentir o tempo de penitência dos Passos podemos fechar os olhos e ouvir o dobrar dos sinos, os motetos dos sete Passos, o lastimoso canto da Verônica ou os benditos dos pedintes. Podemos sentir os cheiros que rondam a cidade, com os cabelos queimados pelas velas na Procissão do Depósito, com o manjericão exposto nos andores. O paladar também é inconfundível com as famosas queijadas e briceletes vendidos nas ruas e ladeiras da cidade. O calor humano transcende o espaço da igreja, sentido no aperto entre os devotos transportando os andores do Senhor dos Passos e da Virgem da Soledade pelas ruas estreitas. Podemos finalmente abrir os olhos e ver o colorido dos parques de diversões na cidade baixa, o roxo nas sacadas dos casarões, das igrejas e dos corpos dos romeiros, sem esquecer do que os devotos fazem questão de destacar: a beleza dos "olhos vivos dos Senhor dos Passos".

É o Domingo de Reminiscere, do Salmo, que clama "Senhor, lembra de tua misericórdia e do teu amor que existe desde sempre" (Salmos 25:6). É o dia em que a população católica sergipana lembra suas tradições e reforça os seus laços devocionais com o Senhor dos Passos. Avós, pais, filhos e netos, vestidos de roxo, descalços e com velas nas mãos acompanham a imagem do Senhor dos Passos e mostram a vitalidade do patrimônio cultural de Sergipe, por meio da superação das dificuldades provocadas pela exclusão social e na certeza que no próximo ano, estando vivos, retornarão para a cidade, que no campo religioso, nunca deixou de ser capital.



*Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 6 de abril de 2014.
** Magno Francisco de Jesus Santos é Editor da Revista do IHGSE e professor da Faculdade Pio Décimo

De São Cristóvão ao Rio Comprido (IV)*

D. Pedro II, Imperador do Brasil, 1859.


Samuel Albuquerque**


Ao contrário do que ocorre com o mais célebre proprietário do Rio Comprido, o capitão-mor Henrique Luis de Araújo Maciel (1760-1829), a historiografia pouco se refere aos senhores ou senhoras que conduziram os destinos daquele engenho na segunda metade do século XIX.

Em suas “Laudas da História do Aracaju”, Sebrão Sobrinho editou um interessante “ofício da edilidade cristovense” que relaciona os engenhos de açúcar de São Cristóvão e Itaporanga no ano de 1855. O documento indica que o “Rio Comprido (antigo Desterro)” tinha como proprietário José Guilherme da Silveira Telles, um tenente coronel da Guarda Nacional, cuja memória foi preservada em célebres testemunhos de época. Ele aparece, por exemplo, na narrativa encomendada ao médico baiano Luiz Álvares dos Santos pelo presidente Manuel da Cunha Galvão, tratando da passagem do imperador D. Pedro II e da imperatriz dona Teresa Cristina pela Província de Sergipe, em janeiro de 1860.


Ao chegar à cidade de São Cristóvão, por volta das oito horas do dia 17, o imperador, que trajava “paletó preto, calça branca, chapéu de palha e botas de montaria”, encontrou a divisão da Guarda Nacional organizada em três brigadas e a primeira delas era comandada pelo tenente coronel José Guilherme. Segundo o testemunho, “A divisão da Guarda Nacional comandada pelo senador Antonio Diniz de Siqueira e Mello, formava alas desde a entrada da cidade até o Paço. A parada compunha-se de três brigadas. A primeira era comandada pelo tenente coronel José Guilherme da Silveira Telles, a segunda pelo tenente coronel Domingos Dias Coelho e Mello Junior e a terceira pelo tenente coronel Manuel Gaspar de Mello Menezes” (Santos, 1860, p. 101).


É preciso mencionar que, nesse antológico episódio da história sancristovense, o senhor do Engenho Escurial integrou a comitiva que acompanhava o augusto visitante. Segundo os registros de Luiz Álvares, “Na baixa do Vale do Medo, que fica meia légua distante de São Cristóvão, era S. M. o Imperador esperado pelo coronel Domingos Dias Coelho e Mello, um dos mais ricos proprietários da Província, varão maior de 68 anos. Estava no grande uniforme da sua patente militar e acompanhado de seus filhos, genros e outros muitos cidadãos, que tinham vindo a cavalo da cidade de São Cristovão para aí receberem S. M. o Imperador” (Santos, 1860, p. 100-101). Entre os filhos do Coronel Domingos, estava Antonio Dias Coelho e Mello, proprietário do Escurial e futuro Barão da Estância.


Pela “Felicitação que a S. M. I. dirigiu a comissão encarregada de sua recepção na cidade de São Cristóvão”, documento editado na obra de Luiz Álvares de Silva, constatamos que a referida comissão era formada pelos mais prestigiados cidadãos de São Cristóvão e Itaporanda d’Ajuda. Encabeçava-a o coronel Domingos Dias Coelho e Mello, patriarca do Engenho Itaporanga, seguido pelo já mencionado filho Antonio e pelos genros Sebastião Gaspar de Almeida Botto, senhor do Engenho Poxim, Pedro Leopoldo de Araújo Nabuco (futuro Barão de Itabaiana), senhor do Engenho Cumbe de Baixo, além de outros parentes e aliados políticos. José Guilherme da Silveira Telles foi o quarto membro a assinar o referido documento (Santos, 1860, p. 108-109).


Contando com o empenho desses homens, a vetusta cidade foi cuidadosamente preparada para receber D. Pedro II, “ostentando suas graças e donaires, como a matrona que se enfeita esperando ocupar em um salão de baile o lugar que em outro tempo ocupara orgulhosa e altiva” (Santos, 1860, p. 101). Segundo o relato oficial, quando o imperador entrou em São Cristóvão, “estava toda ornada de arcos a cidade, feitos de folhagens e bandeiras. As ruas limpas e alcatifadas de junco. Todas as casas estavam asseadas, tendo as janelas ornadas de colchas. Das janelas as senhoras e meninas espargindo flores sobre o imperial Viajante, acompanhavam este ato com vivas entusiásticos, com aclamações prazenteiras e sinceras” (Santos, 1860, p. 101).


Indicando outros vínculos na rede de relações de José Guilherme, também assinaram o documento supracitado os seguintes senhores: cônego Ignacio Antonio da Costa Lobo, vigário geral da província; padre José Gonçalves Barroso, então vigário paroquial de São Cristóvão; major Pedro Muniz Telles de Menezes; médico Francisco da Silva Freire; bacharéis João Baptista da Lapa Trancoso e Marcellino Pereira de Vasconcellos; comerciante Antonio Fernandes de Souza; major Seraphim Álvares d’Almeida Rocha, senhor do Engenho Buraco (depois Usina São Carlos), em Itaporanga; engenheiro Silvio Anacleto de Souza Bastos, senhor do Engenho Itaperoá, em São Cristóvão; Francisco da Motta Rebello; padre José Evangelista de Campos, vigário de Itaporanga; major Felisberto de Oliveira Freire (futuro Barão de Laranjeiras), senhor do engenho Belém, em Itaporanga; capitão Gonçalo Vieira Dantas, senhor dos engenhos Capoeira (antigo Alagoa), Ribeira e Tombador, em Itaporanga; e major Delfino Gaspar d’Almeida Bôto, senhor do Engenho Patrimônio, em São Cristóvão. Grosso modo, eram homens ricos ou influentes, vinculados ao Partido Liberal.


No “Anuário Cristovense” de Serafim Santiago, encontramos um registro que indicia o lugar de destaque ocupado por José Guilherme na sociedade sergipana de meados da década de 1870. Ao descrever a Procissão do Depósito (também conhecida como da Transladação ou do Encerro), que, inserida na Festa do Senhor dos Passos, ocorria na noite do segundo sábado da Quaresma, Santiago informa: “À uma hora, e às três da tarde do sábado, ouvia-se dobrarem os sinos da Ordem Terceira e do Carmo, anunciando aos fiéis a tradicional procissão à noite, denominada do depósito. Ao toque da Ave-Maria, eram repetidos os dobres chamando o povo para o ato da concorridíssima procissão que saía da Igreja do Carmo; esta a maior de São Cristóvão não comportava o extraordinário número de fiéis que se espalhavam pela praça do Carmo aguardando a saída da imponente procissão. Momentos antes de sair a Imagem, já ali estavam reunidos um crescido número de músicos que iam prestar por antiga devoção, seus serviços gratuitamente, segundo o antigo e respeitado costume. Via-se também ao pé da charola, aguardando o momento da saída, o Presidente da Província com seu estado-maior, Barão da Estância, comendador Sebastião Gaspar de Almeida Botto, Coronel José Guilherme da Silveira Telles, Coronel Domingos Dias Coelho Mello, doutor Sílvio Anacleto de Souza Bastos, doutor Simões de Mello e muitíssimos outros abastados proprietários do Vaza-Barris, antigos devotos da respeitável Imagem do Senhor dos Passos. A charola nesta procissão era carregada exclusivamente pelo Exmo. Senhor Presidente e seus imediatos; então os homens que naquele tempo, faziam votos para nesse dia carregarem a charola, era necessário que rogassem para serem cedidos alguns dos varões aos devotos que haviam feito a promessa” (Santiago, 2009, p. 182). Dessa forma, o memorialista coloca o senhor do Rio Comprido entre os homens de proa no campo político e econômico da província, indicando, também, o seu credo e devoção.


Serafim Santiago registrou, ainda, a participação de José Guilherme em ações que visavam acudir São Cristóvão, livrando-a de um “dragão” que ameaçava devorar a cidade. Ele se referia ao barrocão José Aleixo, o já mencionado precipício surgido de sucessivos deslizamentos de terra nas encostas da colina sobre a qual a cidade foi erguida. Nesse sentido, em 1872, o governo provincial nomeou uma comissão da qual José Guilherme fazia parte, juntamente com o Barão da Estância, o engenheiro Silvio Anacleto de Souza Bastos, o vigário José Gonçalves Barroso e o bacharel Francisco José Martins Penna Junior. O objetivo da comissão era, obviamente, o “de se encarregar da direção da obstrução do dito barrocão” (Santiago, 2009, p. 274).


Infelizmente, a empreitada não teve um final feliz. Segundo Santiago, o vigário Barroso, “sem a competência técnica de engenheiro”, tomou a dianteira da comissão formada pelos “mais importantes cidadãos da localidade” e foi o efetivo administrador da obra, associando-se ao influente comerciante Antonio Fernandes de Souza, português conhecido popularmente como Antônio Cabeça (Santiago, 2009, p. 274-275).


Sob a batuta do vigário, foi erguida uma verdadeira muralha de contenção, a base de muita pedra e cal. Entretanto, registrou o memorialista: “Depois de um forte temporal, as águas represadas partiram a enorme parede, às 5 horas da manhã de um dia de outubro daquele ano [de 1873], produzindo grande estrondo que despertou a população; e então extraordinário número de pessoas compareceu ao local e ali lastimou a importância [de oito contos de réis] despendida improficuamente. (...) A queda da parede deu livre passagem às águas que devido à sua enorme quantidade, produziram grandes prejuízos aos moradores das ruas de São Miguel e do Mercado.” (Santiago, 2009, p. 275).


Uma “velha novidade”, poderíamos concluir, é o fato de o dinheiro público escorrer morro abaixo, devido a má gestão de obras. A crendice popular atribuiu aquele infortúnio à opção de Barroso em aproveitar para a sua muralha as pedras de antigas edificações arruinadas, como as igrejas de São Gonçalo e São Miguel e, principalmente, “a pedra oitavada que fora parte do braço do antigo Cruzeiro de São Francisco, decepado por uma faísca elétrica” (Santiago, 2009, p. 275).


Seja por incompetência terrena ou por castigo dos céus, a obra foi paralisada, os cofres públicos foram prejudicados e a sociedade seguiu temerosa de novas tragédias. Vencer-se-iam alguns anos até que São Cristóvão (e não São Jorge) vencesse o dragão.


*Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju, 6 jul. 2013, caderno B, p. 6.
**Samuel Albuquerque é Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br
Sequência de fontes/bibliografia utilizadas:
SEBRÃO SOBRINHO. Laudas da História do Aracaju. Sergipe: Prefeitura Municipal de Aracaju, 1955. p. 59-61.
SANTOS, Luiz Álvares dos. Viagem Imperial á Provincia de Sergipe.... Bahia: Typographia do Diario, 1860. p. 99-109.
REGISTRO DO CASAMENTO de Sebastião Gaspar de Almeida Bôto com Rosa Benta Coelho e Mello. Itaporanga d’Ajuda, 1853. In: Livro de registro de casamentos – 1845/1877, número 370. p. 54 (anverso). Arquivo da Igreja Matriz da Paróquia de Nossa Senhora d’Ajuda, Itaporanga/SE.
REGISTRO DO CASAMENTO de Pedro Leopoldo de Araujo Nabuco com Francisca Dias Coelho e Mello. Itaporanga d’Ajuda, 1851. In: Livro de registro de casamentos – 1845/1877, número 267. p. 38 (reverso). Arquivo da Igreja Matriz da Paróquia de Nossa Senhora d’Ajuda, Itaporanga/SE.
LOUREIRO, Kátia Afonso Silva. Arquitetura Sergipana do Açúcar. Aracaju: UNIT, 1999. p. 50.
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 182, 274 e 275.

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