`Por Thiago Fragata*
Na entrevista ao programa Roda Viva (TV Cultura), de 7/9/2020, Lilia Moritz Schwarcz, esclareceu que o revisionismo sobre intelectuais, focando a raça, caso de Machado de Assis e Lima Barreto, por exemplo, acontece como demandas do nosso tempo. O revisionismo é próprio das questões acadêmicas e/ou da dinâmica das ciências de um modo geral. (1) Pois bem, em 12/5/2022 lancei palestra e vídeo “Negritando a História de Sergipe: Inácio Joaquim Barbosa, Horácio Hora e Tobias Barreto”, inclusive, com lançamento na Escola do Legislativo de Sergipe (ELESE), em Aracaju. A iniciativa demonstrava como o fenômeno do embranquecimento machadiano ou do silenciamento sobre a raça, o que favorecia/favorece o racismo estrutural, repetiu-se aqui. Gostaria de pontuar, aproveitando momento alusivo a Mudança da Capital (17/3), a negritude das personalidades de proa daquele contexto, refiro-me ao governador Inácio Joaquim Barbosa, que assinou a Resolução 413 visando a transferência da capital de São Cristóvão para Aracaju em 1855; e João Nepomuceno Borges, o popular João Bebe Água, principal opositor da decisão política.
O padre Aurélio Vasconcelos de ALMEIDA, principal biografo de Inácio Barbosa, fez vistas grossas sobre a raça. No volume I, Esboço biográfico de Inácio Barbosa (2000), ele não apresenta nenhuma informação sobre a ascendência do sujeito; nem europeia, nem africana. Digamos que o pesquisador seguiu a mesma tendência das biografias sobre Machado de Assis. (2)
Vejamos 3 questões pendentes a comprometer o embranquecimento do governador da Mudança da Capital:
ORIGEM OMITIDA - Tivesse o padre biógrafo formulado juízo crítico quanto a ascendência africana de Inácio Joaquim Barbosa (filho), teria questionado os motivos do Imperador D. Pedro I recusar a súplica de Inácio Joaquim Barbosa (pai), visando a condecoração da venerável Ordem de Cristo, distinção reservada exclusivamente a cristãos de sangue europeu. O primeiro pedido do genitor data de 26 de julho de 1827; 17 anos depois, 1844, renova o pedido, agora a D. Pedro II, em nome dos bons serviços prestados a causa da independência. Mesmo descurando a crítica, autor deixa pistas, ao traçar partida do distinto e rico militar fluminense: “não se sabe em que posto servira Inácio Joaquim Barbosa (pai) ao Exército da 2ª. Linha, nem qual era a sua nacionalidade. Brasileiro, ou português naturalizado brasileiro, dos muitos que aderiram à causa da Independência do Brasil?”. (3)
APELIDO CATINGA – No seu artigo “O barão de Maruim e o processo da Mudança da Capital”, o professor Dr. Dênio Azevedo, seguindo perspectiva inaugurada por Sebrão Sobrinho, em Laudas para História do Aracaju (1955), mostra o governador Inácio Barbosa como um ajudante de ordens (capitão do mato!?) de João Gomes de Melo. (4) Então rememora verso de mal-dizer (racista!). Eis a passagem:
“As armas mais fortes utilizadas pelo povo revoltado de São Cristóvão foram as palavras escritas em inúmeras quadras recolhidas nas ruas do município. Em uma delas mostra bem como os patriotas cristovenses sabiam da influência do Barão de Maruim na transferência da capital para as praias desertas do Aracaju e demonstra, na visão delas, a verdadeira posição de Inácio Barbosa que no texto aparece como “catinga”, devido a sua cor parda, sempre seguido um caminho trilhado pelo seu mentor: O Barão tá no inferno / o Batista na profunda / o Catinga vai atrás / com o cofre na cacunda”. (5)
MULATO POBRE – Manoel dos Passos de Oliveira Telles, por sua vez, difundiu em Sergipenses (1900) uma estória recolhida na boca do povo da ex-capital. Ei-la: “Inácio Barbosa queria transferir a sede do governo sergipano de São Cristóvão para Laranjeiras e, para tal fim, viajou até a próspera cidade da Cotinguiba, com a intenção de acertar, em definitivo, a transferência. Aconteceu, todavia, num jantar oferecido ao Presidente, um fato desagradabilíssimo. Um dos oradores teria dito que Inácio Barbosa era um mulato pobre, mas honrado, cuja família ele muito conhecia. Estava presente ao banquete uma jovem do engenho Brejo, pretendida do Presidente. Inácio Barbosa compreendeu, então que fora de água abaixo o seu romance de amor. Um mulato, mesmo que fosse o Presidente da Província, não poderia almejar pertencer a uma das mais importantes famílias da aristocracia açucareira de Sergipe. Furioso e amargurado, o Presidente deixou Laranjeiras. Apeiou-se, exausto, após uma longa jornada, nas praias desertas do Aracaju. Por isso, diziam os velhos de São Cristóvão e Manoel dos Passos acreditou, a capital foi transferida para Aracaju, e não para Laranjeiras”. (6)
Rechaçando toda e qualquer possibilidade de Inácio Barbosa ter sido “um mestiço inteligente e letrado”, como escreveu “certo cronista anônimo”, no jornal O Estado de Sergipe, de 17 de março de 1905, (7) o padre Aurélio Vasconcelos de ALMEIDA produziu a contestação inverossímil “Despeito ou recalque passional e racial do Presidente”, no Esboço Biográfico de Inácio Barbosa, volume II. (8) Continua
*THIAGO FRAGATA – Historiador, poeta, multiartista e educador antirracista. Email: thiagofragata@gmail.com Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 7 de março de 2026.
FONTES CONSULTADAS: 1 – Entrevista de Lilia Moritz Schwarcz para o Roda Viva (TV Cultura), em 7 de setembro de 2022.
2 - SOARES, Claudio. Os biógrafos e as biografias de Machado de Assis. Consulta em 23/2/2026. https://www.brasildefato.com.br/2022/07/19/os-biografos-e-as-biografias-de-machado-de-assis/
3 - ALMEIDA, Aurélio Vasconcelos de. Esboço biográfico de Inácio Barbosa – vol. I. Aracaju: Gráfica Sercore, 2000.
4 - SOBRINHO, Sebrão. Laudas para História de Aracaju. Aracaju: PMA, 1954, p. 224.
5 - AZEVEDO, Dênio. O barão de Maruim e o processo da Mudança da Capital. RIHGSE. Aracaju, n. 38, 2009, p. 165.
6 - CALASANS, José. Aracaju e outros tema sergipanos. 2ª. Ed. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013, p. 88-89.
7 - WYNNE, Pires. História de Sergipe. Rio de Janeiro: Pongetti, 1972, p.
8 - ALMEIDA, Aurélio Vasconcelos de. Esboço biográfico de Inácio Barbosa – vol. II. Aracaju: Funcaju/Gráfica Sercore, 2000, p. 107-117.
O padre Aurélio Vasconcelos de ALMEIDA, principal biografo de Inácio Barbosa, fez vistas grossas sobre a raça. No volume I, Esboço biográfico de Inácio Barbosa (2000), ele não apresenta nenhuma informação sobre a ascendência do sujeito; nem europeia, nem africana. Digamos que o pesquisador seguiu a mesma tendência das biografias sobre Machado de Assis. (2)
Vejamos 3 questões pendentes a comprometer o embranquecimento do governador da Mudança da Capital:
ORIGEM OMITIDA - Tivesse o padre biógrafo formulado juízo crítico quanto a ascendência africana de Inácio Joaquim Barbosa (filho), teria questionado os motivos do Imperador D. Pedro I recusar a súplica de Inácio Joaquim Barbosa (pai), visando a condecoração da venerável Ordem de Cristo, distinção reservada exclusivamente a cristãos de sangue europeu. O primeiro pedido do genitor data de 26 de julho de 1827; 17 anos depois, 1844, renova o pedido, agora a D. Pedro II, em nome dos bons serviços prestados a causa da independência. Mesmo descurando a crítica, autor deixa pistas, ao traçar partida do distinto e rico militar fluminense: “não se sabe em que posto servira Inácio Joaquim Barbosa (pai) ao Exército da 2ª. Linha, nem qual era a sua nacionalidade. Brasileiro, ou português naturalizado brasileiro, dos muitos que aderiram à causa da Independência do Brasil?”. (3)
APELIDO CATINGA – No seu artigo “O barão de Maruim e o processo da Mudança da Capital”, o professor Dr. Dênio Azevedo, seguindo perspectiva inaugurada por Sebrão Sobrinho, em Laudas para História do Aracaju (1955), mostra o governador Inácio Barbosa como um ajudante de ordens (capitão do mato!?) de João Gomes de Melo. (4) Então rememora verso de mal-dizer (racista!). Eis a passagem:
“As armas mais fortes utilizadas pelo povo revoltado de São Cristóvão foram as palavras escritas em inúmeras quadras recolhidas nas ruas do município. Em uma delas mostra bem como os patriotas cristovenses sabiam da influência do Barão de Maruim na transferência da capital para as praias desertas do Aracaju e demonstra, na visão delas, a verdadeira posição de Inácio Barbosa que no texto aparece como “catinga”, devido a sua cor parda, sempre seguido um caminho trilhado pelo seu mentor: O Barão tá no inferno / o Batista na profunda / o Catinga vai atrás / com o cofre na cacunda”. (5)
MULATO POBRE – Manoel dos Passos de Oliveira Telles, por sua vez, difundiu em Sergipenses (1900) uma estória recolhida na boca do povo da ex-capital. Ei-la: “Inácio Barbosa queria transferir a sede do governo sergipano de São Cristóvão para Laranjeiras e, para tal fim, viajou até a próspera cidade da Cotinguiba, com a intenção de acertar, em definitivo, a transferência. Aconteceu, todavia, num jantar oferecido ao Presidente, um fato desagradabilíssimo. Um dos oradores teria dito que Inácio Barbosa era um mulato pobre, mas honrado, cuja família ele muito conhecia. Estava presente ao banquete uma jovem do engenho Brejo, pretendida do Presidente. Inácio Barbosa compreendeu, então que fora de água abaixo o seu romance de amor. Um mulato, mesmo que fosse o Presidente da Província, não poderia almejar pertencer a uma das mais importantes famílias da aristocracia açucareira de Sergipe. Furioso e amargurado, o Presidente deixou Laranjeiras. Apeiou-se, exausto, após uma longa jornada, nas praias desertas do Aracaju. Por isso, diziam os velhos de São Cristóvão e Manoel dos Passos acreditou, a capital foi transferida para Aracaju, e não para Laranjeiras”. (6)
Rechaçando toda e qualquer possibilidade de Inácio Barbosa ter sido “um mestiço inteligente e letrado”, como escreveu “certo cronista anônimo”, no jornal O Estado de Sergipe, de 17 de março de 1905, (7) o padre Aurélio Vasconcelos de ALMEIDA produziu a contestação inverossímil “Despeito ou recalque passional e racial do Presidente”, no Esboço Biográfico de Inácio Barbosa, volume II. (8) Continua
*THIAGO FRAGATA – Historiador, poeta, multiartista e educador antirracista. Email: thiagofragata@gmail.com Texto publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 7 de março de 2026.
FONTES CONSULTADAS: 1 – Entrevista de Lilia Moritz Schwarcz para o Roda Viva (TV Cultura), em 7 de setembro de 2022.
2 - SOARES, Claudio. Os biógrafos e as biografias de Machado de Assis. Consulta em 23/2/2026. https://www.brasildefato.com.br/2022/07/19/os-biografos-e-as-biografias-de-machado-de-assis/
3 - ALMEIDA, Aurélio Vasconcelos de. Esboço biográfico de Inácio Barbosa – vol. I. Aracaju: Gráfica Sercore, 2000.
4 - SOBRINHO, Sebrão. Laudas para História de Aracaju. Aracaju: PMA, 1954, p. 224.
5 - AZEVEDO, Dênio. O barão de Maruim e o processo da Mudança da Capital. RIHGSE. Aracaju, n. 38, 2009, p. 165.
6 - CALASANS, José. Aracaju e outros tema sergipanos. 2ª. Ed. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013, p. 88-89.
7 - WYNNE, Pires. História de Sergipe. Rio de Janeiro: Pongetti, 1972, p.
8 - ALMEIDA, Aurélio Vasconcelos de. Esboço biográfico de Inácio Barbosa – vol. II. Aracaju: Funcaju/Gráfica Sercore, 2000, p. 107-117.


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