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| Caricatura de Mané de Tiago - Por Fragata 20/2/1990 |
Thiago Fragata*
Teimosia era seu outro nome, Mané de Tiago, o apelido. Meu vô era um filósofo. Toda vez que alguém falava com meu pai sobre as excentricidades do ancião, respondia suspirando como se tivesse entoando um mantra: é assim mesmo, ele é um filooosofo... Mas sobre a teimosia que era sua marca tem um caso que trago nas lembranças, que traduz porque cada sujeito interpreta as coisas a sua maneira, de forma única, por vezes conflitante com a versão de testemunhas. Vamos ao caso.
Como gerente da Fábrica de tecidos São Cristóvão S.A., granjeou fama, na burocracia e meandros da política era chamado de Sr. Manoel Políbio; para os seus entes, incluindo amigos arranchados na grande casa, era Seu Mané ou apenas Mané de Tiago. Ele tinha duas ou três personalidades distintas, a mais impoluta, séria, calculista, discreta, revelava no trabalho. Por vezes, conseguia demonstrar bom humor. Um certo funcionário, batizarei João, descobriu que meu vô gostava de pimenta e pimenta foi a chave que selou a amizade deles. O assunto predileto das conversas era qual a pimenta mais ardida, daí logo estavam trocando pimentas e/ou conservas. Depois que entregavam pacotes furtivamente, no ambiente fabril, sussurravam “prove essa, depois fale o que achou!”.
Meu vô era aquele tipo de comedor de pimenta valentão, gabava-se de não se dobrar pela queimação de nenhuma delas. Toda vez que provava nova espécie ia logo afirmando: essa não arde nada! Depois de mastigar 5, 10 vezes, repetia: arde não! E repetia, repetia essa frase, reprovando. Um dia, o amigo João tirou férias e viajou. Desconheço destino mas retornou com um molho especial, o nome era Trinidad scorpion. (1) Segundo ele, esse era o nome de uma das pimentas mais ardidas do mundo! Não esperou retornar ao trabalho, assim que pisou na velha cap fez uma visita de cortesia ao meu vô. A sua expectativa era vê o gerente chorar, vencido. Foi justamente o que aconteceu. Ele mastigou os bolinhos de feijão untado no molho feroz, repetindo que não ardia. Logo estava vertendo lágrimas copiosamente. Sacou paninho que descansava no colo, assoou nariz duas vezes, então retomava o sacrifício para terminar a comida enquanto o subordinado deleitava-se com a cena.
Aquele choro ganharia interpretações distintas. Vitória! O empregado João estava exultante com a proeza, ter finalmente dobrado o velho gerente fanfarrão, que desconhecia pimenta capaz de fazer chorar. A fim de evitar represálias manteve silencio e frieza diante da cena. Já a versão compartilhada pelo meu vô, assim que o amigo leal foi embora, era outra: estava emocionado porque aquele pobre trabalhador dedicou momento da sua viagem de férias para pesquisar e comprar presente pra seu gerente; e o fato da “lembrancinha” ser pimenta era de emocionar até os mais durões....
Recordo bem aquela sua performance do almoço. Ele sempre salpicava bolinhos com o molho de pimenta, chorava muito e repetia que não estava ardendo. Mané de Tiago morreu em 30 de junho de 2002, vivo teria completado 100 anos em 28 de outubro de 2025. Meu vô era mesmo a teimosia em forma de pimenta, ardia mas fingia-se pimentão.
Como gerente da Fábrica de tecidos São Cristóvão S.A., granjeou fama, na burocracia e meandros da política era chamado de Sr. Manoel Políbio; para os seus entes, incluindo amigos arranchados na grande casa, era Seu Mané ou apenas Mané de Tiago. Ele tinha duas ou três personalidades distintas, a mais impoluta, séria, calculista, discreta, revelava no trabalho. Por vezes, conseguia demonstrar bom humor. Um certo funcionário, batizarei João, descobriu que meu vô gostava de pimenta e pimenta foi a chave que selou a amizade deles. O assunto predileto das conversas era qual a pimenta mais ardida, daí logo estavam trocando pimentas e/ou conservas. Depois que entregavam pacotes furtivamente, no ambiente fabril, sussurravam “prove essa, depois fale o que achou!”.
Meu vô era aquele tipo de comedor de pimenta valentão, gabava-se de não se dobrar pela queimação de nenhuma delas. Toda vez que provava nova espécie ia logo afirmando: essa não arde nada! Depois de mastigar 5, 10 vezes, repetia: arde não! E repetia, repetia essa frase, reprovando. Um dia, o amigo João tirou férias e viajou. Desconheço destino mas retornou com um molho especial, o nome era Trinidad scorpion. (1) Segundo ele, esse era o nome de uma das pimentas mais ardidas do mundo! Não esperou retornar ao trabalho, assim que pisou na velha cap fez uma visita de cortesia ao meu vô. A sua expectativa era vê o gerente chorar, vencido. Foi justamente o que aconteceu. Ele mastigou os bolinhos de feijão untado no molho feroz, repetindo que não ardia. Logo estava vertendo lágrimas copiosamente. Sacou paninho que descansava no colo, assoou nariz duas vezes, então retomava o sacrifício para terminar a comida enquanto o subordinado deleitava-se com a cena.
Aquele choro ganharia interpretações distintas. Vitória! O empregado João estava exultante com a proeza, ter finalmente dobrado o velho gerente fanfarrão, que desconhecia pimenta capaz de fazer chorar. A fim de evitar represálias manteve silencio e frieza diante da cena. Já a versão compartilhada pelo meu vô, assim que o amigo leal foi embora, era outra: estava emocionado porque aquele pobre trabalhador dedicou momento da sua viagem de férias para pesquisar e comprar presente pra seu gerente; e o fato da “lembrancinha” ser pimenta era de emocionar até os mais durões....
Recordo bem aquela sua performance do almoço. Ele sempre salpicava bolinhos com o molho de pimenta, chorava muito e repetia que não estava ardendo. Mané de Tiago morreu em 30 de junho de 2002, vivo teria completado 100 anos em 28 de outubro de 2025. Meu vô era mesmo a teimosia em forma de pimenta, ardia mas fingia-se pimentão.
*Thiago Fragata é professor, historiador e multiartista. Texto integra o inédito Cronicário das memórias – São Cristóvão/SE. publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, 20/3/2026. E-MAIL thiagofragata@gmail.com


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