A NEGRITUDE DESFILOU NA MUDANÇA DA CAPITAL – II


 Por Thiago Fragata*

O padre Aurélio Vasconcelos de ALMEIDA, autor do principal estudo biográfico de Inácio Barbosa, governador da Mudança da Capital, considera improvável a suposta negritude. Vejamos trechos da sua contestação “Despeito ou recalque passional e racial do Presidente”, no Esboço Biográfico de Inácio Barbosa, volume II, endossada por 2 justificativas inverossímeis: “Emprestam ao Dr. Inácio Joaquim Barbosa Filho outro equívoco, supondo-se que era ele mulato (...) entretanto, para mais rigorosa da verdade histórica, temos de considerar que nem fatos nem documentos atestam a suposta procedência racial de Dr. Barbosa, quando os indícios denunciam o contrário”. Segue os indícios: 1) seus pais integraram a “fidalguia” da capital do império, Rio Janeiro; 2) o mais ilustre dos parentes, o general Manoel Felizardo de Souza Melo, seu primo, não teria chegado ao generalato se fosse um mulato. (1)

JOÃO BEBE-ÁGUA, HOMEM NEGRO - A primeira poesia que João Bebe-Água aparece como homem negro foi escrita pela poetisa Cleide Santos em 2018, inclusive conquistou prêmio em concurso realizado em São Cristóvão. Relembrando a fala de Lilia Moritz Schwarcz, revisamos fatos e personagens a partir que questões candentes; a racialidade e/ou o seu silenciamento intencional é uma delas. (2) Vejamos as pistas que revelam a negritude de João Nepomuceno Borges, o popular João Bebe-Água, afamado opositor da Mudança da Capital, de São Cristóvão para Aracaju, de 17/3/1855.

IRMANDADE DO AMPARO DOS HOMENS PARDOS - Dois textos sobre João Bebe-água foram produzidos por intelectuais contemporâneos. O primeiro, Manoel dos Passos de Oliveira TELLES, escreveu a forma de necrológio, em 1895, e publicou em Sergipenses, no ano de 1903. O outro, é de Serafim Santiago, do Anuário Christovense, redigido entre fins do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX. TELLES destaca o entranhado bairrismo ou patriotismo do anti-herói: “conheci nos últimos tempos de sua peregrinação pela terra (...) soube ser patriota de coração, que viveu e morreu isento dessa condenação do destino: não foi um louco, não foi um mendigo, era um resignado” (3) SANTIAGO, por sua vez, apresenta informações esparsas da vida e descreve a aparência de João Bebe-água. Diz assim: “Este devoto também de Nossa Senhora do Amparo, que muitos anos serviu de Thezoureiro e zelador da Irmandade, nasceu e morreu na antiga cidade de São Christovão”. (4) Detalhe importante, ele participou da Irmandade do Amparo dos Homens Pardos, ou seja, um coletivo leigo formado por negros católicos.

PARDO – Serafim Santiago faz descrição “Darei também signais característicos do Bebe-água: - era de baixa estatura e um tanto gordo; tinha a côr de um pardo amarelado bilioso; cabelos anellados; trajava jarreta, conforme o costume antigo, fazendo ele mesmo as roupas que uzava...” (5) Reprovamos o conceito de parditude, engodo acadêmico, pois no Brasil a negritude se acha diretamente relacionada ao fenótipo, como a sociedade lê as pessoas. Dito de outra forma, hoje João Bebe-água seria tratado como um negro, sofreria racismo como todo negro!


Para finalizar, selecionamos representações artístico-visuais que concatenam a perspectiva racial das personalidades que marcaram a Mudança da Capital. Destacamos o Inácio Barbosa negro, desenho de Eduardo Oliveira, com texto de Itamar Freitas. Obra recebeu título Aracaju: uma história em quadrinhos (2011). Projeto foi realizado pela TECNED, com o apoio da Secretaria Municipal de Educação, Prefeitura de Aracaju. (6) Destacamos também, o boneco gigante de João Bebe-Água negro, brincante dos carnavais de São Cristóvão desde 2005, ano que foi produzido pelo artista Anselmo Seixas. A arte foi inspirada na descrição de Serafim Santiago, no Anuário Christovense. 
 

ERRATA: O sujeito que aparece na foto ilustrando matéria “Inácio Barbosa”, do blog “Sergipe, sua terra, sua gente”, gerenciado por Armando Maynard, não corresponde. Por lapso ou pressa, foto postada é de Inácio Bittencourt (1862/1943), jornalista e divulgador do espiritismo kardecista no Brasil. (7) Recadinho aos estudantes, professores e pesquisadores: cuidado para não divulgar foto de um homem branco na sua pesquisa sobre Mudança da Capital! Ajude a descolonizar a História de Sergipe. (fim)

 


Inácio Joaquim Barbosa era negro! 

 

*Thiago Fragata – Historiador, poeta, multiartista e educador antirracista. Email: thiagofragata@gmail.com Texto publicado no JORNAL DO DIA.Aracaju, 13 de março de 2026.

 

FONTES CONSULTADAS

1 - ALMEIDA, Aurélio Vasconcelos de. Esboço biográfico de Inácio Barbosa – vol. II. Aracaju: Gráfica Sercore, 2000, P.  107-116.

2 - Entrevista de Lilia Moritz Schwarcz para o Roda Viva (TV Cultura), em 7 de setembro de 2022.

3 - TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Bebe água. In: Sergipenses: escriptos diversos. 2ª. Ed. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013, p. p. 263. 

4 - SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora da UFS, 2009, p. 262.

5 – Idem, p. 263.

6 - FREITAS, Itamar. Aracaju: uma história em quadrinhos. Aracaju: TECNED/SEMED/PMA, 2011.

7 - Inácio Joaquim Barbosa era negro: https://www.youtube.com/watch?v=7QmdX8c6WbM, consulta 28/2/2026.

 


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