O POETA PRECISA SONHAR, AJUDE!


Sou José Thiago, popular Thiago Fragata, ajude-me a concretizar um sonho: publicar um livro de poesias dedicado a minha cidade, a nossa São Cristóvão. Com o título de São Cristóvão poética e xilogravada, a obra terá 30 poesias ilustradas com xilogravuras do artista Nivaldo Oliveira.

Você que conhece a minha luta em prol da divulgação e valorização do rico patrimônio cultural da quarta cidade mais antiga do Brasil, a você que deseja conhecer um pouco mais do projeto e colaborar, primeiro assista o vídeo no site do Catarse (https://www.catarse.me/pt/saocristovaopoetica), depois é só clicar no botão lateral da tela que diz “apoiar este projeto”, escolha as condições de depósito para doação que, no mínimo, lhe garantirá um exemplar do livro devidamente autografado. Ou seja, você não doa, apenas antecipa a compra do seu exemplar, incentiva com um patrocínio, a depender do valor desde receberá recompensas: um xilogravura para emoldurar, um camisa estampada com poesia, etc

Click aqui para ajudar Thiago Fragata, o Poeta da ladeira da quarta cidade mais antiga do Brasil


https://www.catarse.me/pt/saocristovaopoetica 


CUL(SC)TURANDO - MAIO 2015



PROCISSÃO DO SENHOR DOS PASSOS - PATRIMÔNIO IMATERIAL SERGIPANO
Publicado no Diário Oficial de Sergipe, de 8 de abril, o Decreto Governamental N. 29.977 que reconheceu a centenária Procissão do Senhor dos Passos de São Cristóvão como Patrimônio Imaterial de Sergipe. Esta foi a última tarefa executada pela equipe da Subsecretaria de Patrimônio Cultural (SUBPAC), acompanhei o abnegado e competente pesquisador Marcos Paulo Carvalho Lima a ouvir pesquisadores e agentes envolvidos na procissão. Enquanto isso o projeto de incentivo ao turismo religioso a partir do evento, que conta com o apoio da Prefeitura Municipal de São Cristóvão e consultoria do Sebrae, se acha estacionado.

CORPUS CHRISTI - VAMOS FAZER TAPETES?
Movimentação na sede paroquial. A agente cultural Vânia Correia e uma equipe devotada visita e sensibiliza moradores, visita escolas palestrando aos alunos e professores, o tema: o corpus christi, sua importância e o trabalho coletivo dos tapetes. Sabemos que a confecção dos tapetes é um trabalho comunitário, dessa forma quem deseja participar compareça cedo, entre 4 e 5 horas da manhã, no pátio da Igreja de Nossa Senhora da Vitória, Igreja Matriz, no dia 4 de junho. Participe, vamos manter viva essa tradicão!

THE BAGGIOS LANÇA DVD E CD “10 ANOS DEPOIS”
Aconteceu no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju, na noite da quarta, 13/5, show de lançamento do DVD e CD “The Baggios 10 anos depois”. A banda que leva o nome da cidade São Cristóvõ em suas composições faz sucesso dentro e fora do Estado e recentemente abriu show de Pitty em Aracaju. Vamos acessar e novo site da banda (www.thebaggios.com.br) e dá aquela força adquirindo o novo produto que motiva sua nova turnê. Parabéns Julico e Perninha!

TORRE DA CLARO PREJUDICA PAISAGEM TOMBADA
Desde junho de 2013 que a empresa de telefonia Claro conseguiu autorização da Prefeitura de São Cristóvão e do Instituto do patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para implantar uma antena shelter (falsa palmeira) dentro de área tombada, inclusive, alterando a paisagem da Praça São Francisco reconhecida Patrimônio Mundial em 2010. De acordo com o moroso processo que alguns moradores provocaram no Ministério Público Federal o IPHAN reconheceu que “foi enganado pelos representantes da Claro quanto a altura e forma da antena,” e por isso indicou um outro lugar para a monstrenga metálica. Mas a antena persiste em nossa paisagem, perguntamos: o caso foi arquivado?

MUSEU HISTÓRICO DE SERGIPE RECUPERA ACERVO ROUBADO
Recuperado acervo roubado do Museu Histórico de Sergipe em dezembro do ano passado. O receptador foi localizado atraves de internet onde tentava negociar os objetos. Espada, punhal e moedas retornaram a guarda da importante instituição que espera investimentos em segurança por parte da Secretaria Estadual de Cultura.

FIM DOS PONTOS DE CULTURA AFETA TAMBÉM SÃO CRISTÓVÃO
A Secult encerrou o convênio com o Ministério de Cultura que garantia a execução dos pontos de cultura no Estado. Os mesmos devem paralisar suas atividades imediatamente. O retrocesso na política cultural é enorme e afeta São Cristóvão. Dois pontos de cultura mantidos por entidades da sociedade civil organizada deixarão de existir: o Axeô mantido pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável Oxogum Ladê, e o Circo-lando mantido pela Ong Sociedade para o Avanço Humano e Desenvolvimento Ecosófico (SAHUDE). Enquanto isso, o projeto pontos de cultura como um todo acabam de virar política nacional de Estado através da medida provisório N. 10166/2015.

UM ARTISTA DIVULGANDO SÃO CRISTÓVÃO
O artista Nivaldo Oliveia segue produzindo obras de arte de excelente qualidade inspirado no patrimônio cultural de São Cristóvão. Essa divulgação da quarta cidade mais antiga do Brasil que realiza solitariamente não promove somente o seu talento mas a cidade que se pretende pólo de Turismo. Enfim, o baiano que merece toda a nossa simpatia faz um trabalho da competência da Secretaria Municipal de Turismo. É ou não é? Obrigado, Nivaldo Oliveira. Agradeço em nome dos menos atentos.

DUDA LISBOA É UM PATRIMÔNIO, UMA DÁDIVA
A jovem jogadora de Vôlei, Duda Lisboa, segue sua trajetória de vitórias pelo mundo. Voltou com o bronze do Circuito Mundial de Vôlei de Praia disputado em Praga, na Republica Tcheca. Orgulho da mãe, popular Cidão, outra que tantos troféus rendeu fama e levou o nome de sua cidade natal a mídia local, nacional e internacional. Mais que tudo isso, a família Lisboa incentiva o esporte e desenvolve um trabalho social digno de relevo, no bairro Pintos. Numa cidade desprovida de praça de esportes, fica o reconhecimento a Duda Lisboa e Cidão pela garra que deve inspirar os seus conterrâneos de São Cristóvão.

MUSEUS DE SÃO CRISTÓVÃO NA SEMANA NACIONAL DE MUSEUS
O Museu Histórico de Sergipe e o Museu da Polícia Militar participaram da XIII Semana Nacional de Museus (21 a 22/5) organizada pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) que este ano teve como tema “museus para uma sociedade sustentável”. Nosso reconhecimento às equipes que prepararam ações educativas e seus respectivos diretores, Sergio Lacerda e Coronel Dilson Ferraz. Visitem os museus!

POETA VAI PRECISAR DA SUA AJUDA
Em breve, Thiago Fragata lançará campanha de arrecadação de patrocínio através do site do Catarse (maior plataforma de crowdfunding, ou financiamento coletivo do Brasil) para publicação do livro São Cristóvão poética e xilogravada. Serão 30 poesias dedicadas ao nosso patrimônio cultural e seus diversos temas, todas com ilustrações do artista Nivaldo Oliveira. Pelo site os interessados irão depositar um valor mínimo que ao mesmo tempo patrocina e garante o livro autografado. Detalhe importante, caso não consiga levantar o total do patrocínio o valor arrecadado será devolvido. Saber mais https://www.catarse.me/

Coluna mensal do poeta e historiador Thiago Fragata. Email: thiagofragata@gmail.com

A SOMBRA DA PEDRA: ENIGMA NO RIO VAZA-BARRIS – III*

Gradil importado, da Casa do Barão de Estância, chegou via Porto das Pedreiras. Foto - Samuel Albuquerque 2013



Thiago Fragata**

Tenho refletido a respeito de uma ruína submersa na Barra da cidade de São Cristóvão (confluência dos rios Vaza-barris e Paramopama), que os pescadores batizaram de “Sombra da Pedra” e gestaram uma mitologia ribeirinha. Já falei do mero gigante, um magnífico exemplar da megafauna marinha, ele virou estória de pescador. Também especulei a possibilidade de haver, no referido lugar, ruínas do antigo “Fortim de Sergipe Del Rey”, registrado por Matheus van den Broeck e Frei Manuel Calado, cronistas do século XVII. As pesquisas nos arquivos contribuíram com as lucubrações e levaram-me à outra perspectiva...

RUÍNA DA ATALAIA DO VAZA-BARRIS

No ano de 1855, quando São Cristóvão perdeu a condição de capital por uma decisão do Governador Inácio Joaquim Barbosa, o Porto das Pedreiras era um dos mais movimentados da região. Não dependia da cheia das marés para embarque ou desembarque de mercadorias, superava, assim, o Porto São Francisco (do mercado) e o Porto do Carmo (atual Porto da Banca), ambos do rio Paramopama. O Porto das Pedreiras ficava no Vaza-barris há pouca distância da Barra da cidade e da Sombra da Pedra, era amplo, e o inconveniente era a distância da sede: 8km. Havia, ainda, o Porto do Sítio Gameleira, em relação ao qual, em 1835, João Simões dos Reis, Secretário da Câmara, avaliava: “onde vão ancorar as embarcações sumacas que comerciam desta cidade comarca para a cidade da Bahia assim como o do Povoado de Itaporanga deste município.”(1)

Não falarei sobre motivos da Mudança da Capital, esse não é o objeto de investigação, lembro somente ser um mal-entendido o pretexto da “falta de porto”, que alguns professores repetem. Não foi por falta de um porto, como já disse: a ex-capital tinha mais de um. Havia a carência de um porto bem localizado, de fácil comunicação com a Bacia do Cotinguiba: região que concentrava a maior produção de cana-de-açúcar e que, sobretudo, não dependia das marés. Insisto no assunto Porto das Pedreiras, tanto pela sua proximidade da Sombra da Pedra quanto por se tratar de um importante entreposto comercial até as primeiras décadas do século XX. É bom frisar que não me refiro ao atual e inexpressivo cais a que chamam de Porto das Pedreiras.

Pertinente destacar que a movimentação não era somente de mercadorias, faz-se necessário desvelar o deslocamento dos viajantes, os roteiros terrestres e marítimos. O médico Francisco Sabino Coelho de Sampaio, por exemplo, deixou o relato de uma viagem de São Cristóvão à capital, Aracaju, realizada em meados do século XIX: “A 26 de outubro de 1858, à noite, sahi de S. Christóvão com a minha Família para o Aracaju, embarcando-me no porto de São Francisco. Cheguei ao porto Santa Maria às 10 horas da manhã do dia 27; sahiu-se às 6 horas da tarde, passou-se a noite na beira da Costa, e embarcamo-nos ahi às 8 horas da manhã do dia 28, e chegamos ao Aracaju às 11 horas do mesmo dia com três horas de viagem.” Em resumo, foram 2 dias de viagem de um percurso de 5 léguas. (2)

Entre os séculos XIX e XX, a maior representante da navegação costeira, ou de cabotagem, foi a empresa Lioyd Brasileiro. Portos da Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Rio de Janeiro recebiam embarcações das Companhias: Pernambucana, Esperança Marítima, Navegação Costeira, Espírito-Santense, Lioyd Brasileiro, dentre outras.(3) Além do transporte de pessoas, transportavam-se cargas. Dessa forma, empresas estabelecidas na então Capital Federal negociavam com empresas situadas em capitais do Nordeste.

Em Sergipe do início do século XX, a movimentação de embarcações dava-se pela Barra de Aracaju (Rio Cotinguiba e/ou Sergipe), Barra de Estância (Rio Real) e Barra de São Cristóvão (Rio Vaza-barris). Nessa época, a Barra de São Cristóvão expressava o mais acanhado movimento portuário, também um antigo ponto de contrabando (a tradicional sonegação de impostos). Burlava-se o fisco: isso era facilitado pela localização privilegiada. É oportuno lembrar a extinta estrada que ligava essa região à capital sergipana através do Povoado Caípe. Assim como essa via terrestre, o antigo Porto das Pedreiras não mais existe. Para esclarecimento, vejamos o que diz um estudo corográfico, publicado em 1897, sobre o referido porto: “É largo e profundo, oferecendo um ancoradouro seguro aos navios que ahi vão carregar. Há ahi um grande trapiche da Companhia do Lloyd, antiga bahiana.”(4) Naquele ano, encerrou o contrato entre a Associação Sergipana e a União, referente ao serviço de um rebocador que transportava cargas entre as barras de Estância, Cotinguiba e São Cristóvão.(5) Trapiche, segundo o dicionário, é um “armazém de mercadorias junto ao cais.”(6) O mencionado trapiche das Pedreiras era gerenciando pela Casa Comercial Jucundino e Cia., localizada na Rua Aurora, em 1907.(7)

Além das pequenas sumacas e botes, ao Porto das Pedreiras, aportavam vapores e patachos nacionais, conforme detalham as planilhas de entrada e saída de embarcações em Sergipe, contidas nos relatórios do Governo de Olímpio Campos (1898/1902). Foram 30 embarcações em 1898 e 37 no ano seguinte. Ali, acontecia o embarque e o desembarque de cargas: açúcar, algodão, etc. Os familiares de Antonio Dias Coelho e Melo (1822/1904), o Barão de Estância, informam que o material importado da Inglaterra para reforma da casa de veraneio, em 1887, localizada no Povoado Pau d'Arco, Itaporanga, inclusive o gradis que ornamentam portas e janelas, chegou pelo Porto das Pedreiras.(8)

No intento de monitorar a entrada e a saída de navios na Barra de São Cristóvão, por conta de fiscalizar as cargas e de prevenir acidentes, a Capitania dos Portos, na gestão de Cyro Câmara, tomou providências. No dia 8 de dezembro de 1908, inaugurou-se festivamente a “Atalaia de Sam Christovam, situada na bocca do Rio Vasa-barris.”(9) Atalaia não é farol, trata-se de uma pequena guarita construída num ponto estratégico para observar/fiscalizar embarcações. Não se sabe a exata localização dessa atalaia, nem quando foi desativada. Consta que sua estrutura foi assentada sobre rochedos, que supostamente seriam os que compõem a Sombra da Pedra
 
Iniciei esta série comparando a antiga São Cristóvão a uma esfinge que lança enigmas aos aventureiros pesquisadores. Se a comunidade acadêmica, os arqueólogos, especialmente, encamparem a aventura até as paragens da Sombra da Pedra, com certeza, experimentarão maiores riscos do que passei nos arquivos, bibliotecas e sebos, de onde juntei dados desconexos e produzi esta síntese.

José Calasans Brandão da Silva (1915/2001) revolucionou a interpretação da Guerra de Canudos na década de 1950 ao propor compreensão dela excetuando o clássico Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha. Hoje, essa ousadia nem é considerada... Neste ano de centenário desse eminente canudólogo, historiador e folclorista, compartilho suas palavras sinceras que estimularam o meu tirocínio: “Este trabalho inicial deve ser julgado com benevolência. Quem trilha caminho novo, ainda não percorrido por outros, enfrenta dificuldades sem conta, equívocos, incorre em omissões, que não raro se transformam em lamentáveis esquecimentos, senão mesmo clamorosas injustiças. (...) Agradeço, porém, com o mesmo interesse com que peço indulgência, as luzes dos que possam e queiram melhorar o conteúdo desta tarefa.” (10) (fim).

*Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIV, n. 12860, 17 e 18 de maio de 2015, p. A-7.
**Thiago Fragata: poeta e historiador, sócio do IHGSE, professor da SEED/SE, membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq) e do Grupo de Pesquisa Sergipe Oitocentista (SEO/CNPq). Email: thiagofragata@gmail.com

NOTAS DA PESQUISA:
1 - APES, Aracaju. Ofício de João Simões, Secretário da Câmara, ao Vice-Presidente da Província. 30 de dezembro de 1835. CM1 - 21, doc. 209.
2 - SOBRINHO, Sebrão. Laudas da História do Aracaju. 2a. ed. Aracaju: Gráfica J. Andrade, 2005, 289.
3 - LISBOA, l. Da Silva. Chorographia do Estado de Sergipe. Aracaju: Imprensa Official, 1897, p. 57.
4 - Idem, p. 149.
5 - Jornal de Notícias. Aracaju, ano II, n. 468, 18 de outubro de 1897, p. 2.
6 - BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: FAE, 1986, p. 1142.
7 - Correio de Aracaju. 10 de fevereiro de 1907, p. 4.
8 - Entrevista com Samuel Barros de Medeiros Albuquerque, Aracaju. 24 de abril de 2015.
9 - Folha de Sergipe. Aracaju, XVIII, N. 162, 10 de dezembro de 1908, p. 2.
10 - SILVA, José Calasans Brandão da. Aracaju e outros temas sergipanos. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013.
CRÉDITO DA IMAGEM: Janela da Casa de Veraneio do Barão de Estância, seu gradil foi importado da Inglaterra e chegou via Porto das Pedreiras. Foto: Samuel Albuqueque, 2013.

A SOMBRA DA PEDRA: ENIGMA DO RIO VAZA-BARRIS - II*

Brasão de Sergipe Holandes
Thiago Fragata**
Dedicado ao arqueólogo Ademir Ribeiro Junior


Na primeira metade do século XVII, o Brasil tornou-se alvo de disputa entre holandeses e espanhóis. Por uma lógica dinástica, a colônia portuguesa (Brasil) esteve sob o regime de Felipe II, Rei da Espanha, entre 1580 e 1640, como também a metrópole (Portugal) e demais territórios ultramarinos.

Em nome da vitalidade da economia, a Holanda, ex-colônia hispânica, resolveu afrontar o imperialismo filipino. Por 30 anos (1624/1654), na mais ferrenha obsessão, os batavos tentaram conquistar Salvador, capital do Brasil. Interessada no êxito desses que invadiram terras brasileiras, a empresa Companhia das Índias Ocidentais indicou Maurício de Nassau ao cargo de Governador do território ambicionado. Uma voz coeva resumiu a questão com a sentença: “Há muito, a ciência da geografia dividiu o Brasil em capitanias do norte e do sul. A divisão recente é, porém, o que distingue em Brasil Espanhol e Brasil Holandês”.  (continua)



OBS: você pode receber qualquer artigo de Thiago Fragata em PDF mediante pagamento de taxa de serviço R$ 30,00. Mande recibo para e-mail: thiagofragata@gmail.com  


*Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 2015

A SOMBRA DA PEDRA: ENIGMA NO RIO VAZA-BARRIS - I*

Mero, obra de Wagner Zanirato (Zamba)

Thiago Fragata**

Os intelectuais Manoel dos Passos de Oliveira Telles (1859/1935) e Severiano Cardoso (1840/1907) desenvolveram pesquisas e palmilharam povoados de São Cristóvão em fins do século XIX. Ambos tinham a ex-capital como símbolo oracular onde estariam respostas às mais diversas questões investigadas e apresentaram propostas originais relacionadas a pontos da História de Sergipe, a exemplo, a mudança da Capital. Entendiam que não bastava folhear papéis de arquivo, escutar o povo era um exercício imprescindível. Algum morador possuía a informação-chave: ouvira dos parentes, testemunhara, etc. São Cristóvão era assim a lendária esfinge a lançar enigmas aos incautos descobridores.

Na última série, “Anedotário de São Cristóvão”, compartilhei pesquisa baseada nas estórias que o povo sancristovense conta sobre a forca no imaginário dos moradores do centro histórico.(1) Acredito na memória como matéria-prima do conhecimento e da imaginação.

Recentemente, voltei a escutar as populações ribeirinhas das Pedreiras, da Ilha Grande e do Porto São Francisco a respeito de outra questão misteriosa: a sombra da pedra. Tinha 16 anos de idade quando ouvi o desabafo do meu pai, o popular Tiago do Gelo: “Não quero rede minha na sombra da pedra, chega de prejuízo!” Demorei a compreender o que representava de fato a sombra da pedra, pensei numa rocha e só. É mais que isso...

O mote deste artigo é lançar hipóteses à seguinte questão: o que significa a sombra da pedra, localizada no ponto onde o rio Paramopama se encontra com o rio Vaza-barris, entrada da antiga capital de Sergipe d'El Rey?

MORADA DO MERO - Cresci ouvindo muitas estórias contadas pela boca dos pescadores. Os relatos davam azo à imaginação... Uma tanto me impressionou que fiz apontamentos. Todo mundo acrescentava um ponto se o assunto fosse “a sombra da pedra”.

Hoje tenho uma imagem definida do rochedo, um arrecife em formato quadrangular submerso, uma base brocada visível nos períodos de calmaria quando a água desvela a silhueta de batismo. Uns falavam da sombra da pedra como sinônimo de prejuízo, porque a rede que se prendia em suas paredes de cascalho não se resgatava. Linhas e anzóis sem conta perderam-se e ornamentavam o rochedo há uns 10 metros de profundidade. Outros falavam daquele lugar como ponto piscoso.

Razões para evitar a pesca nas proximidades da sombra da pedra todos tinham. O número de “mipas” (pescaria sem peixe) constituía-se um problema que definia a possibilidade de risco/mês que um dono de rede poderia considerar. Independente de qualquer coisa, a pescaria farta seria certa aos que manejassem cautelosamente as armadilhas ali. No entanto, alguém sempre lembrava de um fulano ou beltrano que sumiu na sombra da pedra, mergulhou e nunca emergiu... 
 
A sombra da pedra não era a única coisa que atemorizava os trabalhadores do mar, naquelas águas aparentemente residia um mero. Mil estórias ainda ecoam nos meus ouvidos sobre a fantástica criatura. O nome científico do bicho é Epinephelus Itajara. Itajara é um termo tupi que significa "senhor da pedra" (itá, pedra + iara, senhor). Esse animal marinho vive nos oceanos Atlântico e Pacífico. Entre suas características, destacam-se a longevidade (pode viver até 40 anos) e sua capacidade de se camuflar no seu habitat: as pedras.(2)

Dos causos compulsados dentre os pescadores uma unanimidade, todos disseram que sombra do peixe gigante na superfície d’água, bem próximo a tal pedra, explicava a origem do nome. Após descrever o exemplar da megafauna marinha, um deles acrescentou: “E quando passou ao lado da canoa, deu para avistar ostras no seu costado, por pouco não virou meu barco.” Boa parte dos relatos sobre o mero exageram o seu tamanho e o caracteriza “velhaco” por duas razões: consegue escapulir de armadilhas, é um predador oportunista – surpreende suas vítimas. O serranídeo, animal da mesma família das garoupas e do badejo, pode atingir 2,7m de comprimento e pesar 450kg.

Faz tempo... Ninguém fala do gigante marinho que habitava a região onde o Paramopama deságua no Rio Vaza-barris, no povoado Pedreiras. Sumiu, ficou apenas o cenário. Será que alguém capturou o peixe velhaco ou ele encantou-se?”. Os que insistem na sua existência apresentam a maior prova: a sombra da pedra. (continua)

* Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIV, n. 12.838, 19 e 20/4/2015, p. B5.
** Thiago Fragata é poeta e historiador, sócio do IHGSE, professor da SEED/SE, membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq) e do Grupo de Pesquisa Sergipe Oitocentista (SEO/CNPq). Email: thiagofragata@gmail.com
NOTAS DA PESQUISA
1 - FRAGATA, Thiago. Anedotário de São Cristóvão. Jornal da Cidade, edições 2, 6 e 12 de agosto de 2014.
2 - Consulta www.merosdobrasil.org , 10 de abril 2015.
CRÉDITO DA IMAGEM: Mero, de Wagner Zanirato (Zamba), 2015.

LAUDELINO PROFESSOR: UM ESQUECIDO MESTRE DE CAPOEIRA

Laudelino Meneses - Acervo da família    Thiago Fragata*   Alvaro Machado de Andrade Júnior realizou pesquisa sobre a prática da capoeira ...