quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A Saga dos bem-te-vis: um passeio por São Cristóvão entre a poética e as gravuras*



Nivaldo Oliveira, Thiago Fragata e a obra. Foto: Danielle Pereira 2015

Magno Francisco**
Na minha infância, eram corriqueiras as conversas familiares no entardecer, na hora da refeição ou nas farinhadas. Tratava-se de momentos únicos na transmissão dos saberes, pois os avós e pais narravam suas aventuras, reproduziam com encanto as lendas e os mistérios do mundo rural. Saudosismo a parte, foi em uma dessas ocasiões que ouvi falar da estória da sagrada família em fuga das tropas de Herodes. De acordo com essas frágeis lembranças, após o nascimento de Jesus, a sagrada família fugia e se escondia dos soldados temendo o assassinato do Menino Deus. Nessas fugas, duas aves os acompanhavam: uma andorinha e um bem-te-vi. A andorinha seguia o jumentinho, apagando os rastros da caminhada, dizendo: “fogo pagou, por aqui não passou”. Na sequência, vinha o bem-te-vi, falastrão: “Olhe que eu vi”. 

Essa narrativa reproduzida dramaticamente para as crianças de outrora, era uma justificativa para a sacralidade da andorinha e a maldição do bem-te-vi. Contudo, podemos buscar um elemento que extrapola o nível do sagrado, que é a questão da memória. O bem-te-vi, com esse episódio teria perdido a proteção humana, mas revelou um ato de fundamental importância para o mundo ocidental: a capacidade de lembrar e, principalmente, a sagacidade de testemunhar. Trata-se de um dos pilares da escrita da história nos moldes pensados na cultura greco-romana. Por isso, a traição sagrada, tão reproduzida nos tempos de tortura, pode ser relativizada ou até mesmo redimida com a percepção de sua perspectiva de testemunha de seu tempo. 

É exclusivamente por essa vertente que vejo uma aproximação entre a ave mítica e dois artistas que publicaram a inspiradora “São Cristóvão, poética e xilogravada”. Thiago Fragata e Nivaldo Oliveira, uniram forças e talento para produzir uma obra concebida como um testemunho de sua época, um passeio revelador das práticas cotidianas e exuberantes da antiga capital sergipana. O verbo, cadente e denunciante, se materializa e revela-se em imagens fortes e firmes, com as xilogravuras do artista que se integrou a alma da velha cidade. 

A cooperação entre os dois artistas, por vezes, nos remete a episódios icônicos da experiência historiográfica nacional, entre as quais a exitosa viagem, realizada nos idos de 1917, do historiador Rocha Pombo e do artista Galdino Guttmann Bicho pelo norte do Brasil, no processo de feitura de um livro de história pátria. Ao contrário dos intelectuais pretéritos, Thiago Fragata e Nivaldo Lima não se deslocaram, virando-se de costas para seu torrão natal. Com perspicácia e técnicas artistas diferenciadas, os artistas olharam para as cenas do cotidiano. Reviraram suas memórias, como quem lida com um baú e estranha seu próprio acervo. 
São Cristóvão, poética e xilogravada, é, acima de tudo, um registro de um olhar entrecruzado, ou seja, o que foi visto e vivido no tempo presente, sentido no presente próximo das reminiscências da infância ou do pretérito longínquo, lido nos cronistas da terra. Os olhares, além de revelarem as cenas vivenciadas, denunciarem as questões coloquiais de uma cidade pacata que se reinventa em suas festas e tradições; expressam o posicionamento de quem olha. O olho do artista plástico revelado nas gravuras registradas a altura do povo, como nas gravuras “Procissão”, “Aguadeiro” e “Vendedor de peixe”. O restaurador emerge entre as camadas populares, entre os atores do folclore e das celebrações populares. 

Por sua vez, o “Poeta das ladeiras”, mostra-se em oscilação nas suas reminiscências literárias, pois por vezes emerge entre os atores sóciais das ruas estreitas da cidade, como ocorre na empolgante poesia “Muqueca” e em outros momentos pinta um cenário que denuncia o seu apurado ângulo de percepção, como “Um quadro noMuseu”, expressivo olhar do diretor do Museu Histórico de Sergipe que via o seu lugar de trabalho como a moldura de uma obra de arte que é patrimônio cultural da Humanidade. 

No passar das páginas, de excelente qualidade gráfica, percebe-se que o poeta mostra-se como um cicerone, o guia que apresenta a nostálgica São Cristóvão, “cidade minha, metáfora de todos” (FRAGATA, 2015, p. 11). A urbes é tida como a “cidade-poesia” ou “doce cidade”, com suas castanhas carameladas, barquinhos confeitados, queijadas e má-casados. Cidade dos sabores. Contudo, a cidade se revela como o centro da Misericórdia, na qual: 

“Tem a saga do nazareno
Cidade vestuta, de portas pesadas
Barroca pela própria natureza:
Pedras, cruzes, promessas
Misericórdia!
Procissão e alarido, sedentas bocas
Silêncio para o sermão de Barroso
Ecos, flertes, suor e cabelo queimado” (FRAGATA, 2015, p. 29).

É a cidade das ladeiras, na qual “certeza, a ladeira da Prefeitura é a maior de todas, faz romeiro desistir das promessas... E subir o Cristo!” (FRAGATA, 2015, p. 35). Contudo, essas ladeiras não impede o cicerone de palmilhar as ruas estreitas da capital de outrora. 
“Senhor dos Passos, no Alto da Favela
Guia dos meus passos
Águia de vôos rasos
Benvindo, romeiro de túnica e laço
Itabaiana, Itabaianinha, Lagarto
Sigo você ao Convento do Carmo (FRAGATA, 2015, p. 37).

Com o sancristovense penitente, busca sem êxito “um Cirineu para dividir o andor. É muita dor” (FRAGATA, 2015, p. 63). Mergulha nas dores do passado, com perda do título de capital, com a esperança inglória, pois “Dias de glória esperam nosotros espartanos. E, se não acontece o milagre de Passos, somos homens de pouca fé” (FRAGATA, 2015, p. 65). Por isso, do Museu, ele acompanha o Senhor dos Passos em todos os seus passos: 

Um passo, sete passos
Compassado
Os passos, os romeiros
Passaram cantando pela janela do sobrado
Eram pássaros trinados
Eram canoros, num era o besouro
 Zunindo sobre as cabeças (FRAGATA, 2015, p. 67).

Com isso, o cicerone junta-se ao romeiro, faz a “Promessa de Gregório” e diz: 

“Senhor dos Passos, perdoe
pequei no carnaval (...),
dos sete pecados vezes sete
por causa da festa momesca”.

Caminha e retorna ao Convento do Carmo e liberta a imaginação: 

“Todo ex-voto guarda o milagre
Mistério, um segredo
Revela o nome do santo
Imaginamos a graça
Do promesseiro
O ex-voto desafia
A imaginação alheia
Não é o mistério da fé
A graça vencendo a desgraça (FRAGATA, 2015, p. 69).

Na obra, tão vistosa e igualmente sonora, a graça do olhar sobre a vetusta capital vence por completo a desgraça do desânimo pela perda do título que outrora ostentava, das mazelas políticas vivenciadas no presente e, quem sabe, até mesmo das denúncias heréticas do bem-te-vi nos tempos míticos. Desse modo, pode-se inferir que “São Cristóvão poética e xilogravada” nasce como um valioso testemunho de seu tempo e cobre a função de grande beleza e encanto, do regenerado canto do bem-te-vi. É uma obra para ser lida, vista e sentida, pois nos remete as coisas do nosso povo. Usando do trocadilho, é uma fragata que vale a pena ser navegada.

*Resenha postada no Boletim da Pio Décimo, dezembro 2015. 
** Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Educação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Professor da Faculdade Pio Décimo. Resenha postada no Boletim da Pio Décimo, dezembro 2015.

sábado, 26 de setembro de 2015

PASSO A PASSO: A CAMPANHA VITORIOSA DO POETA SONHADOR

Intervenção poética no lançamento do Jornal Tribuna Sergipe Del Rey, 1/7/2015


A decisão de engavetar meus livros de História e fazer a campanha para publicação do primeiro livro de poesia pelo Catarse foi tomada por duas razões: a) minha revolta em perceber que há uma década lançei “O manifesto em defesa da poesia diária nos jornais sergipanos”, ou seja, o livro atualiza ou amplifica a grita por mais poesia e menos violência na imprensa urubú; b) acenar para os tantos amigos artistas de Sergipe que o Catarse é uma alternativa viável não apenas para a música mas também para literatura. Em resumo, o Catarse pode ser difinido como uma ferramenta de crowndfunding (financiamento colaborativo de projetos culturais para as diversas linguagens artísticas).

A vitoriosa campanha “O poeta precisa sonhar, ajude” foi lançada no dia 24 de junho, com video produzido pela minha amada esposa Marcia Arévalo. Como sei do alcance limitado da internet levei a campanha para os recitais e todos os eventos da minha agenda. Fui agraciado com parceiros que abraçaram a causa, contribuindo para sua divulgação. Aqui devo lembrar que muitos compartilharam nas redes sociais, impossível citar a todos... O plano traçado junto com o artista Nivaldo Oliveira era arrecadar fundos para publicação do livro “São Cristóvão poética e xilogravada”. Nesta obra constará 30 poesias da minha lavra inspiradas no universo cultural da cidade, sua gente e seu belo patrimônio. Encerrada no último dia 24 de agosto, venho agradecer e compartilhar os principais atos da jornada.

As mobilizações dos amigos e simpatizantes, em alguns momentos, levou-me aos prantos. Não esquecerei que no dia do amigo recebi a notícia que Dinha da AMI (Associação da Melhor Idade) iria rifar um liquidificador para angariar R$ 300,00 reais em prol do livro que homenageará a sua amada cidade. Recordo suas palavras no dia da entrega do precioso recurso: “você merece!” Familiares de alguns personagens (Manoel Ferreira, Almerinda Parteira, Zé Véinho) que figuram nas poesias se cotizaram para ajudar na empreitada.

Não fiquei navegando na net, fui a campo, lutar pelo sonho. Uma juntada para recapitular os melhores momentos da campanha:


RECITAIS & ENTREVISTAS (TV E RÁDIO)

Entrevista na TVC São Cristóvão, com Nélio Miguel (8/7). Recitei a poesia “N'atividade”

Entrevista no programa “Mestres da Música”, da Rádio Aperipê FM, apresentador Jeová Santana (27/8). Recitei a poesia “N'atividade”.

Recital no I Café Cultural do Atelier Nivaldo Oliveira (8/7). Performance ao lado de Lola Arévalo, 7 anos, que adora poesias. Amigos Efigênia, Dilson Ferraz, Kleckstane Farias, dentre outros, fizeram leitura de poesias inéditas.

Recital na Feira de Troca Solidárias organizada pela Ong SAHUDE, no Parque da Sementeira, em Aracaju (9/7). Fiz uma performance ao lado de Lola Arévalo, 7 anos, que adora poesias.

Intervenção na Solenidade de Aniversário do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), (6/8). Recitei a festejda poesia “Muqueca”.

Roda de leitura “É nosso, o Patrimônio”, no Museu Histórico de Sergipe, (17/8). Fui homenageado e recitei poesia “Praça São Francisco das lembranças”.

Intervenção poética no lançamento do Jornal Tribuna Sergipe Del Rey (1/7). Fiz uma performance ao lado de Lola Arévalo, 7 anos, que adora poesias.

Intervenção poética na reunião do Comitê Gestor da Praça São Francisco. Recitei N'atividade e Muqueca.

MATÉRIAS NA NET

“Resisto e insisto: a poeisa vale a pena”, matéria na Revista Rever, postada no dia 20/8.
donativos. Site do TCE/SE (Tribunal de Contas do Estado de Sergipe)

“Novidades da campanha O poeta precisa sonhar”. Blog Cicerone de São Cristóvão

“Dê o seu lance! Leilão virtual de obras-raras”. Blog Cicerone de São Cristóvão

“Um livro de poesias sobre São Cristóvõa pelos Correios”. Blog da SAHUDE

IMPRESSOS

Informes da campanha na minha coluna “Cul(SC)turando”. Jornal Tribuna Sergipe Del Rey. São Cristóvão, edições de julho, agosto e setembro.

Marcador de divulgação publicado na “Coluna do Osmário”. Jornal da Cidade. Aracaju, 29 de julho 2015.

CARTAZ

Arte em xilogravura “Praça São Francsico” escolhida para capa do livro foi liberada para elaboração do cartaz da Festa do V Aniversário do Titulo de Patrimômio da Humanidade concedido a esta praça. Evento ocorreu no dia 1 de agosto de 2015


GALERIA DE IMAGENS

Recital na Feira de Troca Solidárias - 19/7/2015
Recital no I Café Cultural, 8/7/2015
Recital no I Café Cultural, 8/7/2015
Nivaldo Oliveira apresenta o livro-caixa
A escolha da capa do livro sonhado
Lançamento do Jornal Tribuna Sergipe Del Rey, 1/7/2015
Entrevista no programa “Mestres da Música”, 27/8/2015
Intervenção poética no Aniversário do IHGSE, 6/8/2015
Roda de leitura “É nosso, o Patrimônio”, 17/8/2015

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O legado do poeta onomástico Manoel Ferreira – II*

Manoel Ferreira e Leonel Brizola, 1982.


Thiago Fragata**
A voz grave e maviosa de Manoel Ferreira, exímio orador, encontrava a acústica perfeita nos conventos seculares e no antigo Palácio Provincial, atual Museu Histórico de Sergipe. Inúmeras plateias e comitivas foram surpreendidas por suas intervenções, que sempre eram substanciadas por versos, maioria de sua lavra. Irei tratar da sua oratória e da poeticidade.

No primeiro trimestre, quando deixou a direção do Museu Histórico de Sergipe, em 1971, o vice-presidente da gestão Garrastazu Médici: Augusto Rademaker chegou ao Estado em visita oficial. Em sua agenda, constava uma ida à ex-capital (São Cristóvão). Era unânime a opinião de que Manoel Ferreira era o cicerone ideal, porém ele não trabalhava na instituição cultural. Resumo, o governador veio até São Cristóvão no dia anterior rogar ao poeta uma recepção à altura da ocasião. Sobre o sucesso, basta informar que, semanas depois, o poeta integraria o quadro de pessoal do novo governo.

Augusto Rademaker era um militar linha dura, um dos figurões execráveis do triste período conhecido como Ditadura Militar. Infelizmente, muitos cidadãos brasileiros que se opuseram às vicissitudes da realidade política imposta foram perseguidos, torturados e mortos, com o aceno de militares como Rademaker. Sisudo, o militar chegou a exibir o riso num momento descontraído da palestra proferida por Manoel Ferreira.

Vendo a foto da recepção oferecida ao vice-presidente Augusto Rademaker, registro de 1971, guardada como relíquia no acervo familiar, recordo outra mais recente, de 1982, quando Manoel Ferreira, na condição de candidato ao governo de Sergipe pelo seu partido (PDT), recebeu Leonel Brizola, que peregrinou no Estado angariando votos para o seu distinto correligionário.

Memórias em confronto, dois encontros de Manoel Ferreira com políticos de ideologias opostas. Sua performance era impecável como anfitrião, cicerone de uma grandiloquência que emendava versos e oportunas passagens bíblicas. Teremos saudades do homem, da sua voz inconfundível. (1)

Batizei ele “poeta onomástico” pois seus versos brotavam diariamente, era uma necessidade básica. Também, seu mote inspirador era a data comemorativa, o santo ou a personalidade que iria encontrar no dia, o evento agendado ou visita surpresa. Por isso, muitos receberam suas poesias em dias de aniversário, casamento, formaturas, conquistas, chegadas, despedidas, ou inaugurações, enfim, momentos importantes que mereceram ganhar versos para ficarem eternizados por esses versos. Acrósticos, ele também cultivava essa arte que consiste em formar frases a partir das iniciais do nome do homenageado.

Impossível dizer quantos poemas e/ou acrósticos ele fez. Infelizmente, o vate prolífero nunca publicou livro. Dizia que “tudo precisava de uma boa revisão” ou que produzia apenas “versos simples”.

A oratória dele cativava plateias, e suas intervenções não constavam na programação dos eventos. Eram, de fato, maravilhosas intervenções. Uma posse, aniversário, batismo, missa; da multidão ecoava uma voz grave e aveludada, era ele quebrando o silêncio e/ou a modorra. Se ele convertia ouvintes? Não sei, mas o depoimento da professora universitária Maria Batista Lima Silva deve constar no tópico. Durante uma de suas palestras, no IV Círculo dos Ogãs, dia 30 de outubro de 2013, a pesquisadora das questões étnico-raciais revelou que decidiu estudar o tema depois que assistiu a uma intervenção que Manoel Ferreira Santos na distante década de 1990. “Foi no Convento do Carmo, ele encerrou recitando a poesia Deus Negro, de Neimar de Barros”. A poesia era uma de suas prediletas pois discorria sobre um tema que lhe era muito caro, o racismo. Ela tem 76 versos! (2)

Ao recitar uma obra de fôlego, com todos os versos, de forma irretocável, o poeta impressionava. Festejado em sua comunidade, especialmente, na comunidade estudantil do Colégio Estadual Senador Paulo Sarazate, foi convidado para compor o júri de uma gincana cultural nos idos de 1979. Na ocasião, a poetisa Maria Glória, na época, estudante do 7º ano, testemunhou mais uma façanha do memorioso. Ele percebeu que um jovem omitiu versos do “Navio Negreiro”, de Castro Alves; “mutilou o poema” justificou o exigente jurado. Detalhe: o poema em questão contém 240 versos! (3)

Eis um pouco do orador, do poeta onomástico, do agente cultural Manoel Ferreira. De fato, sua folha de serviços prestados ao município de São Cristóvão é extensa. Temendo que o legado se perca no completo esquecimento e omissão reclamada pelo padre Valtervan Correia Cruz, sugiro que entidades, como o Museu Histórico de Sergipe, organizem um evento, seminário ou roda de conversa para desvelar o homem e sua obra. Muitos diziam que o poeta onomástico era um homem a merecer estátua numa das praças da cidade que ele adotou como sua e tanto trabalhou para seu desenvolvimento. Em sua humildade cristã, Manoel Ferreira discordava de tamanho galardão. Vezes, desconversava ou silenciava, mas exultava com a boa opinião dos amigos(as). Também discordava: achava que ele merecia mais que isso. Aliás, este foi o tema inspirador de uma poesia ofertada no seu último aniversário:

Eis o vosso merecimento
o veredicto neste natalício:
estátua na praça!?
mas se festeja 93 anos, Manoel Ferreira,
a cidade é que tem sorte
pois o bronze negaria a estatura do teu porte
mesmo o ouro ocultaria o valor do teu caráter.

Amigo, o mármore seria frio demais para vossos pés
continuai assim um pensador orfão de Rodin
louvando o teu Senhor, rezando poesias
pois versículo é diminutivo da palavra verso.(4)


* Artigo publicado no jornal Tribuna Sergipe Del Rey. São Cristóvão. N. 4, setembro 2015, p. 4.

**Thiago Fragata é poeta e historiador. Email: thiagofragata@gmail.com

NOTAS DA PESQUISA
1 - Entrevistas com Manoel Ferreira Santos. São Cristóvão, 14 de outubro 2014.
2 - Depoimento de Maria Batista Silva, São Cristóvão. 30 de Outubro de 2013.
3 - Depoimento de Maria Gloria Santos, São Cristóvão. 10 de Julho de 2015.
4 - Manoel Ferreira Santos, poesia de Thiago Fragata. Inédita.
Crédito da Imagem: Leonel Brizola e Manoel Ferreira Santos. Folheto da candidatura deste ao Governo do Estado, 1982.

O legado do poeta onomástico Manoel Ferreira - I

Manoel Ferreira. Foto: Thiago Fragata, 2009.
Thiago Fragata*

No dia 30 de julho, faleceu o Sr. Manoel Ferreira Santos (1922/2015), 93 anos, em sua residência localizada no centro histórico de São Cristóvão. Compareci ao velório que aconteceu no Museu Histórico de Sergipe. Os filhos aceitaram a última homenagem desta instituição que teve o pai como seu primeiro diretor. Entre os anos de 1960 e 1970, Manoel Ferreira geriu o museu instalado no antigo Palácio Provincial.

O padre Valtervan Correia Cruz afirmou que o Poder Executivo, se tivesse a ciência dos serviços prestados por esse cidadão ao município, decretaria luto oficial por 3 dias e conclamaria toda a cidade, seus estudantes a participar do funeral.

Os oradores resenharam a trajetória e o carácter do amigo, pai, avô, poeta, homem público e religioso que foi Manoel Ferreira Santos. O homenageado trabalhou na Fábrica Sam Christovam, aliás, chegou à cidade em 1935 para ser apontador no escritório da empresa. Fez carreira política a partir do operariado e população carente. Foi deputado estadual pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro); fundador-proprietário do Restaurante Candangos, que se tornaria a principal casa de shows da cidade nos anos 1960 a 1970; a última experiência na seara política foi uma candidatura ao governo do Estado em 1980. Como deputado estadual defendeu a instalação de curso ginasial em São Cristóvão e proteção das nascentes dos rios. Em meados da década de 1990, foi eleito o presidente do Alcóolicos Anônimos (AA), secção São Cristóvão, onde realizou mais uma importante contribuição à sociedade sancristovense.

Um fato desconhecido do público que compareceu as exéquias do poeta foi o seu papel na criação da marca Quarta cidade mais antiga do Brasil, como ficaria afamada São Cristóvão a partir de 1967.

As pesquisas indicam que, até a década de 1960, esse rótulo não existia, por essa razão não era divulgado nos meios de comunicação. Ele surge com Manoel Ferreira dos Santos, então diretor do Museu Histórico de Sergipe. Naquela época, José Calasans, Freire Ribeiro, Manoel Cabral, Sebrão Sobrinho e até Jorge Amado vivenciavam a antiga cidade: uns, a trabalho; outros, como exercício literário ou passeio. Irremediavelmente, visitavam o museu e eram ciceroneados pelo poeta grandiloquente com suas recepções. Manoel Cabral, escritor e companheiro de partido de Manoel Ferreira, recomenda aos turistas: “Guarde a tarde para o Museu e Manoel Ferreira.”

Voltando ao rótulo “quarta cidade mais antiga”, tudo começou num programa de rádio por volta de 1966. Manoel Ferreira foi divulgar a festa de aniversário do Museu Histórico de Sergipe e expressou que São Cristóvão era uma das primeiras cidades do Brasil. Nem todos aceitaram, a afirmação sempre despertou/desperta querelas bairristas. A interrogação se mantinha nas recepções de turistas e autoridades, ora ventilada por um leigo, ora por um intelectual, o que desconfortava o anfitrião.

O Sr. Manoel Ferreira rememora que seu estudo sobre a História de Sergipe deu-se com os conselhos e livros de Sebrão Sobrinho. Da prosa travada com o pesquisador itabaianense, teve a seguinte ideia: submeter a espinhosa questão ao Conselho Federal de Cultura, instância do Ministério da Educação. Assim feito, o caso foi apresentado por Hélio Viana, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), na sessão plenária de 24 de agosto de 1967.

Um ofício remetido pelo Secretário-Geral do Conselho Federal de Cultura, Manoel C. Bandeira de Mello, transcrevia o excerto do parecer final que foi recebido com entusiasmo pelas autoridades sergipanas. Afirmava: “... não temos dúvida em atestar ser a cidade de São Cristóvão a quarta cidade do Brasil. Somente a antecedeu a Cidade de Salvador, a de São Sebastião do Rio de Janeiro e Filipeia de Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa.”(1) Esse importante documento, penso, exibido pelas autoridades sergipanas como a última palavra sobre o assunto (governador, vice-governador, secretario de cultura do Estado rubricaram-no), não encerra a questão. Faz-se mister saber o que precisa uma cidade para receber esse título, ou dito de outra forma, o que definia em termos coloniais a cidade.

Grosso modo, o que distinguia vila e freguesia era a assistência espiritual dispensada pela igreja católica aos colonos. A cidade possuía Casa da Câmara e Cadeia, paróquia e o reconhecimento da Coroa. Assim, deu-se com Salvador em 1548 e as primeiras cidades embora não seja possível lastrear com documentos todos os casos. Sergipe, por exemplo, ressente-se da ordem enviada por Felipe II ao governador-mor da Bahia, Cristóvão de Barros, visando a colonizar o território. São Cristóvão e João Pessoa surgiram no período da União Ibérica (1580-1640), mantinha-se estreita relação com a Espanha.

Voltando ao tema central deste artigo, o mote de São Cristóvão “quarta cidade mais antiga do Brasil”, percebo que, independentemente do respaldo concedido em 1967, o mercado do turismo sergipano consolidou a marca em campanhas publicitárias. Inconteste, ele cumpre os requisitos da boa propaganda e se encontra relacionado de forma visceral ao nome de Manoel Ferreira, o poeta onomástico. (continua)


*Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIV, n. 12.922, 1 de agosto de 2015,p. B-6.

**Thiago Fragata é poeta e historiador. Email: thiagofragata@gmail.com

Arquivo Particular de Manoel Ferreira dos Santos, São Cristóvão. Oficio do Secretario- Geral do Conselho Federal de Cultura, Manoel C. Bandeira de Mello, ao Diretor do Museu de Sergipe, Manoel Ferreira dos Santos. N. 141, 29 de agosto de 1967. Datilografado


CUL(SC)TURANDO SÃO CRISTÓVÃO - SET 2015



CENTENÁRIO DE LOURIVAL BAPTISTA
No próximo dia 4 de outubro Lourival Baptista (1915/2013) completaria 100 anos. Médico e político, ele teve uma atuação marcante em São Cristóvão, cidade que acolheu o baiano de Entre Rios que chegou para trabalhar na fábrica São Gonçalo no ano de 1942. Visando celebrar sua memória o Tribunal de Contas do Estado de Sergipe (TCE) preparou uma extensa programação a ser iniciada no próximo dia 4 de setembro com a solenidade na Praça Lourival Baptista (popular Praça da Bíblia), às 10:30 horas. Logo depois, o padre Waltervan Correia celebrará uma missa no Convento do Carmo. As obras legadas por Lourival Baptista a São Cristóvão faz jus às homenagens.

O SUCESSO DA CAMPANHA “O POETA PRECISA SONHAR”
No dia 24 de agosto encerrou a campanha “O poeta precisa sonhar” com uma arrecadação que superou o desafio do Catarse. O objetivo é publicar o livro “São Cristóvão poética e xilogravada” com 30 poesias minha e ilustrações do artista Nivaldo Oliveira em homenagem a cidade histórica, no 5 de novembro, dia da Cultura. O projeto vitorioso que já inspira outros artistas recebeu colaborações de internautas de Sergipe, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Acre, Brasília. Em São Cristóvão aconteceram mobilizações e recitais pelo sucesso da campanha; Dinha da AMI, por exemplo, rifou um liquidificador. O gesto espontâneo comoveu este poeta que agradece a todos os colaboradores.

7 DE SETEMBRO É DIA DE HOMENAGEAR A PÁTRIA
Há quem considere ultrapassado o desfile das escolas e forças militares no 7 de setembro, dia alusivo a Independência do Brasil. Foi no dia 7 de setembro de 1822 que decretou-se a independência do Brasil em relação a Portugal, sua metropole. O patriotismo demonstrado na Copa do Mundo, nas Olimpíadas, nas Eleições, nas manifestações contra ou afavor do Governo Federal, provam a vitalidade deste sentimento. O dia é um momento importantíssimo para difusão do patriotismo, ele é organizado pelas instituições educacionais. Formar cidadãos(ãs) é uma tarefa compartilhada entre a escola e a família. Desfilar e/ou prestigiar o desfile constitui um ato cívico a ser preservado/valorizado por toda sociedade democrática brasileira.

SABE QUEM É A PADROEIRA DE SÃO CRISTÓVÃO?
Muita gente acredita que São Cristóvão é o padroeiro de São Cristóvão, um erro. Alguns juram que o padroeiro é o Senhor dos Passos. Na verdade, a cidade tem uma padroeira que é Nossa Senhora da Vitória. Aliás, o dia dedicado a ela é feriado municipal, 8 de setembro.

MULTA PARA QUEM SUJA E DEPREDA
Sonho com o dia em que pessoas que sujam vias públicas, mesmo aquelas que colocam lixo em dias que não acontecem coleta, sejam multadas. Desejo o mesmo para quem depreda monumentos, postes e bancos de praças. Ah! Mas defendo programas de educação ambiental também pois é preciso atuar em duas frentes: uma educativa, outra punitiva.

FRASEADO PARA REFLEXÃO
“A poesia tira o homem da realidade, mas o devolve mais enriquecido”. Ernst Fischer (1899/1972), crítico austríaco

Coluna mensal do poeta e historiador Thiago Fragata. Email: thiagofragata@gmail.com
FONTE: Tribuna Sergipe Del Rey. Ano I, N. 4, setembro 2015, p. 4.