segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Paramopama não é mais o rio da minha aldeia?*

Destaque rio? e cidade de São Cristovão. Foto: Marco Galvão 2006


Thiago Fragata*

E se te falassem que o Rio São Francisco, na verdade, é o Rio Amazonas? Guardadas as devidas proporções, caro leitor, foi este o meu espanto ao descobrir num artigo de Samuel Albuquerque, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, publicado neste respeitado diário (11 e 12/8/2013) com o título “De São Cristóvão ao Rio Comprido” que o Rio Paramopama é o Rio Miranda. Disposto a contribuir no esclarecimento do nebuloso caso, amealhei estudos e consultei pesquisadores que fizeram do principal rio da ex-capital o tema de suas produções acadêmicas.

A corografia (estudo descritivo dos lugares) e a potomografia (estudo dos rios) são áreas do saber geográfico que muito progrediram em razão dos avanços tecnológicos do século XX. Nos séculos anteriores, as missões exploratórias cumpriram a chamada “fase heróica”, enfrentando rios e mares desconhecidos, orientadas pelas estrelas ou astrolábio; palmilhando sertões, pântanos, florestas portando bússola ou apenas auscultando o chão e os sinais da natureza; adaptando-se ao meio e sua fauna exótica e perigosa, por vezes responsável pelo desaparecimento de missões aventureiras. O sobrenatural, o desconhecido, a falta de aparato tecnológico ou interpretação bíblica geraram uma série de lendas miraculosas, estórias fantasiosas difíceis de fazer as crianças do nosso tempo creditarem um mínimo de fundamento. Crer no inferno como uma realidade possível do continente americano, que o rio São Francisco nascia entre o Chile e  Peru, constituem bons exemplos. A propósito, Justiniano de Melo e Silva, no seu enigmático livro “Nova luz sobre o passado” (1906) , chega a desvelar Sergipe como um lugar de passagem para o inferno.¹ 

Mas voltando à questão em pauta acerca do rio que há séculos se conhece como Paramopama, mas que Samuel Albuquerque apresenta como sendo o Miranda, transcrevemos passagem do artigo do ilustrado pesquisador para depois analisar as provas que estribam sua tese.

O curso d’água que passa sob a Ponte Santa Cruz e que, historicamente, foi identificado como Rio Paramopama é, na verdade, um tributário do Rio Miranda e, indiretamente, do Vaza-Barris. O Miranda nasce à noroeste de São Cristóvão, nas imediações do povoado Aningas, e segue no sentido sudeste, percorrendo cerca de 12 quilômetros até desaguar no Vaza-Barris [...] As águas do Paramopama e de outros afluentes vão ao encontro do Rio Miranda na chamada Barra da Cidade de São Cristóvão, estuário que pode ser apreciado do alto da Ladeira do Porto da Banca, à sombra do Convento do Carmo. Em terra firme, o Miranda é o rio que passa sob a rodovia estadual SE-466 (1,4 quilômetros após o seu início), pouco antes do povoado Colônia Miranda. (…) o Rio Paramopama não é aquele que corta a Cidade Baixa de São Cristóvão e sim aquele identificado pelos cristovenses como Rio Miranda”.

Vejamos o que diz Samuel Albuquerque sobre o fundamento da tese: Como cheguei a tais conclusões? Analisando ortofotocartas da “Base cartográfica dos municípios litorâneos de Sergipe” e mapas do “Atlas digital sobre recursos hídricos de Sergipe”, materiais que podem ser consultados junto a Superintendência de Estudos e Pesquisas da Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (SUPES - SEPLAG/SE) e a Superintendência de Recursos Hídricos (vinculada à Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos - SEMARH/SE)”.²

Cleverton Costa Silva e Everton Manoel de Oliveira Santos são grandes conhecedores do Rio Paramopama, assim como eu, eles não apenas pesquisaram mas percorreram da sua nascente, no povoado Jurubeba, até o encontro com o Vaza-Barris.³ Palmilhar o curso do rio era uma prática antiga dos corografistas, é certo que nem todos cumpriram essa árdua tarefa. Já publiquei os desencontros de informações dos antigos pesquisadores quanto ao local exato do nascimento do Rio Paramopama.(4) Interessante é que a tecnologia do séculos XX e XXI, o georreferenciamento, a leitura de fotos de satélite, que poderiam resolver a questão podem também levar ao erro. Foi isso ou a tecnologia estará corrigindo Manuel Ayres de Casal (Corografia Brasílica - 1817), Inácio Antonio Dormundo (Notícia Topográfica da Província de Sergipe, 1826), Manuel dos Passos de Oliveira Telles (Sergipenses, 1903), Clodomir de Souza Silva (Album de Sergipe, 1920), Serafim Santiago (Anuário Cristovense, 1920) e Maria Thetis Nunes (História de Sergipe a partir de 1820, 1978)?

Apesar de Samuel Albuquerque amenizar o problema identificado na sua criteriosa pesquisa, julgando melhor respeitarmos a tradição, espero que os técnicos que produziram a “Base cartográfica dos municípios litorâneos de Sergipe” e os mapas do “Atlas digital sobre recursos hídricos de Sergipe”, possam revisar a questão sob pena de perpetuar a dúvida. Doravante, uma interrogação precederá qualquer afirmativa sobre o Rio Paramopama... De certa forma, o caso reprisa a confusão que em 1925 envolveu Elias Montalvão, Manoel dos Passos e Clodomir Silva a respeito do nome do rio que banha Aracaju, se Cotinguiba ou Sergipe.(5)

* Publicado no Jornal da Cidade. Aracaju, n. 12363, 22 e 23 de setembro de 2013, p. A-7.
** Thiago Fragata é especialista em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe, sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (HGSE), membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR) e diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT). Email: thiagofragata@gmail.com 

FONTES PESQUISADAS
1 - ALBUQUERQUE, Samuel. De São Cristóvão ao Rio Comprido. Jornal da Cidade. Aracaju,  11 e 12/8/2013, p. 7.
2 - FONTES, Arivaldo Silveira. Nova luz sobre o passado. Figuras e fatos de Sergipe. Porto Alegre: Ed. CFP/SENAI, 1992, p. 45.
3 - SANTOS, Everton Manoel de Oliveira. Degradação ambiental na bacia do Rio Paramopama no município de São Cristóvão em Sergipe (Brasil). São Cristóvão, 2007. Monografia (Especialização em Geologia Sedimentar e Ambiental Aplicada a Ambientes Antigos e Recentes), Universidade Federal de Sergipe. SILVA, Cleverton Costa. Águas fluviais e o ecoturismo em Sergipe: possibilidades no rio Paramopama, em São Cristóvão. São Cristóvão, 2008. Monografia (Curso Gestão em Turismo) Centro Federal de Educação Tecnológica de Sergipe.
4 - FRAGATA, Thiago. Onde nasce o rio Paramopama (I e II). Jornal da Cidade. Aracaju, 31/10 e 8/11/2008, p. 6B.
5 - MONTALVÃO, Elias. Qual o rio que banha a cidade. Revista do IHGSE, Aracaju, vol 6, n. 10, 1925, p. 31-35. TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Parecer n. 1: palavras a proposito da memória de Elias Montalvão. Revista do IHGSE, Aracaju, vol 6, n. 10, 1925, p. 37-39. SILVA, Clodomir. Parecer n. 2: o Cotinguiba.  Revista do IHGSE, Aracaju, vol 6, n. 10, 1925, p. 41-81.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

LANÇAMENTO DO IV CÍRCULO DOS OGÃS - Lei 10639/2003: uma década de experiências



O Instituto Brasileiro de Museus propôs para a VII Primavera dos Museus o tema "Museus, memória e cultura afro-brasileira". O Museu Histórico de Sergipe, vinculado a Secretaria de Estado da Cultura, fará um dia de programação (25 de setembro) em parceria com a ong Sociedade para o Avanço Humano e Desenvolvimento Ecosófico (SAHUDE), Associação Cultural Amigos do Museu Histórico de Sergipe (ACAMHS), UNEGRO/SE, Casa do IPHAN, NEDIC/SEED e NEAB/UFS.

PROGRAMAÇÃO - QUARTA - 25 DE SETEMBRO
LOCAL: MUSEU HISTÓRICO DE SERGIPE

RODA DE LEITURA
9Hs - Uma roda de leitura para discentes irá refletir o tema “combatendo racismo”, em pauta os 50 anos do discurso de Martin Luther King e a poesia engajada de João Sapateiro, Luiz Melo, Solano Trindade, Castro Alves, Éle Semog e José Carlos Limeira.

EXPOSIÇÃO
11Hs - Será lançada a exposição temporária “Sob um céu azul um mundo caótico e injusto”, de Nelsino Pastor. Curadoria de Nivaldo Oliveira.

MESA REDONDA IV CÍRCULO DOS OGÃS - MÓDULO 1
14Hs - Os palestrantes Sônia Oliveira Santos, Andrey Roosewelt Chagas Lemos, Maria Batista Lima e Marcos Vinicius Melo dos Anjos compartilharão com professores e universitários sugestões e práticas baseadas na Lei 10.639/2003. Este momento representa o primeiro módulo do IV Círculo dos Ogãs "Lei 10639/2003: uma década de experiências". Outros dois módulos acontecerão em outubro (26/10) e novembro (20/11), totalizando carga horária 15Hs. A participação nos 3 momentos garante certificado e a inscrição é gratuita.

INSCRIÇÃO: Os interessados em participar do IV Círculo dos Ogãs deverá enviar nome, instituição e telefone para email: museuhsergipe@gmail.com

sábado, 14 de setembro de 2013

CURTA-SE EM SÃO CRISTÓVÃO




A 4ª Mostra Informativa de Cinema Digital Iberoamericano, do XIII CURTA-SE, será exibida na Casa do IPHAN, próxima sexta (20/9), a partir de 16 horas. Dica para chegar: Casa do IPHAN fica localizada no centro histórico de São Cristóvão, na Praça São Francisco, Patrimônio da Humanidade. 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA - Classificação: 16 anos

Hotel Palace: André Aragão,2013, 25´, Documentário, Aracaju/SE. Classificação: 10 anos.
Nove e Meia: Filipe Ferreira, 2012, 19´, Drama, Porto Alegre/RS. Classificação: 10 anos.
 
Porno Star: Nelson Mendoza & Yashim Bahamonde, 2011, 19´, Ficção, Peru/Espanha. Classificação: 16 anos.
 
El revés: Gonzalo Perdomo, 2011, 8´, Ficção, Peru/Espanha. Classificação: Livre
 
Awara nane Putane: Sergio de Carvalho, 2012, 22´58´´, Animação, Rio Branco/AC. Classificação: 10 anos
 
Engole ou Cospervilha?: Marão, David Mussel, Pedro Eboli, Fernanda Valverde, Jonas Brandão, Giuliana Danza, Gabriel Bitar e Zé Alexandre, 2013, 8´, Animação, Rio de Janeiro /RJ. Classificação: 16 anos.
 
Confete: Jo Serfaty & Mariana Kaufman, 2012, 15´, Documentário, Rio de Janeiro/RJ. Classificação:Livre
 
O tamanho do mundo:Marcos Souza, 2013, 15´, Ficção, Curitiba/PR. Classificação: Livre
 
El año passado em Mardelplá: Santiago Korovsky y Celeste Contratti, 2013, 4´, Ficção, Buenos Aires- Argentina.

domingo, 1 de setembro de 2013

Leitores patrocinam Viagem Rasa, livro de poesias de Ramon Diego



O que podemos pensar de um livro que teve sua publicação patrocinada pelos futuros leitores? Existe um anseio pela sua leitura, diria fome...Ramon Diego lançou Viagem Rasa, na Câmara Municipal de N. Sra. da Gloria, no dia 24 de agosto, depois de uma vitoriosa campanha no facebook. Simples assim, disse que gostaria de lançar livro de poesias, anunciou conta bancária para depósito e usou novas redes sociais.

Segue discurso proferido pelo jovem e competente poeta que é membro-fundador da Academia Gloriense de Letras (AGL) na noite festiva da literatura.

Boa noite!

O grande problema de um texto, quando feito é o desencantamento da letra que o estrutura, é a lembrança do que poderia ter sido projetado na palavra e que, neste exato momento, não pode ser mais. Por isso faço este esforço de escrita, por isso tento encimentar cada palavra na tentativa de não engolir duas ou três que, posteriormente, façam falta as minhas idéias.

Aviso, de antemão, que não irei dizer sobre o que trata o meu livro, pois carece o mundo de mais mistério às coisas que lhe permitem e, traduzir a poesia em palavras de raso diálogo é justamente o que não pretendo.

Por esses e outras razões me desafiarei a falar sobre o que não pretendo com este livro. Não pretendo ser a venda de um exemplar com interesses estritamente mercadológicos nem encher a barriga das traças nas estantes das academias, livrarias e bibliotecas, prefiro antes ser a marca barata onde escorre a poesia como o orvalho da conversa despretensiosa.

Não pretendo ser raso como o cisco no olho dos que interpretam o óbvio, prefiro antes ser o incômodo raso causado por este. Tampouco pretendo mergulhar os pés na fonte morna desse discurso e dela sair ileso sem uma mancha que me traia. Prefiro ser os pés sujos que encorpam a idéia do leitor, que ao poucos se posiciona, do que alimentar a letra que me aniquila.

Embora não pretenda tanto, o que não pretendo, como viram, é muita coisa, afinal, o que podemos nós, na vida, não fazer senão não pretender?

Peço desculpas pelas feridas que se abrem nesse texto, mas é que a sabatina dos anos e o incômodo causado nas obviedades das coisas me assumem e perpassam também a minha poesia.
Falo isto, pois a nossa vida tem se dividido em óbvio e ócio, este último censurado, caindo ao fundo no som da frase, pois a poesia não é o óbvio do povo, não vivemos mais no século XVII e a sombra da racionalidade é um passado que nos atormenta, como uma dor de dente.

Então, por qual motivo me dou ao “desfrute” de fazer esta viagem pelas palavras? Talvez por que eu não pretenda ser um soldado da matéria, tampouco cantar as coisas do mundo.

O que quero é cantar minhas coisas, minhas cores, a poesia é a minha consciência do mundo, de forma tão clara como não há consciência nas coisas ou nos fatos, assim como também não há nas coisas por si só, poesia alguma.

A poesia existe no homem com a coisa, no contato da palavra com o mundo, afinal, como diria Alberto Caeiro, grande heterônimo de Pessoa, que mistério há nas coisas senão haver quem pense no mistério?

Por fim, gostaria de agradecer afetuosamente, a cada leitor, que me fez vivo, a cada internauta que, através de suas postagens, me compartilhou e me exerceu, afiançando assim a minha poesia.

Gostaria de agradecer principalmente aos servidores públicos de Nossa Senhora da Glória e o seu Sindicato, o SINDISERVE pela sensibilidade política na democratização destas palavras, que embora se dispersem feito arroz de festa, encorpam essa poética, que ao tempo em que é construída, me ultrapassa de súbito, uma poética do homem na coisa, do homem no tempo, uma poética do homem no mundo.

Obrigado!