sábado, 31 de agosto de 2013

SUBPAC e DRE 8 realizam curso de formação para professores

Renantique lotou o Museu Histórico de Sergipe

“Patrimônio Cultural e Ações Educativas” esse foi o tema do curso de formação continuada para professores do Ensino Básico da rede estadual de ensino realizado pela diretoria regional de Educação (DRE 08), da secretaria de Estado da Educação em parceria com a Subsecretaria de Patrimônio Histórico e Cultural (Subpac) e com o IPHAN. O curso teve início na manhã de sexta-feira, 23, e terá a duração de 80h, divididas em seis dias de atividades interdisciplinares, com conclusão no próximo mês de novembro.

O objetivo do curso de formação é capacitar os professores da rede pública de ensino quanto aos aspectos práticos e teóricos da Educação Patrimonial, bem como facilitar a conscientização da comunidade para a preservação de patrimônio material e imaterial. O primeiro dia de atividades foi realizado na cidade histórica de São Cristovão, onde fica localizada a Praça São Francisco, patrimônio da humanidade. As atividades começaram com a abertura do subsecretário de Patrimônio do Estado, Professor Luis Alberto, seguida pela palestra da professora Beatriz Góis Dantas, mestre em Antropologia, com o tema “O conceito antropológico de Patrimônio Cultural”.

Após as palestras os professores acompanharam um recital de poesias com os poetas e historiadores, Thiago Fragata e Maria da Glória, que na ocasião emocionaram os presentes com diversas poesias, entre elas a de Ferreira Gullar “Quando dois e dois são quatro”. As atividades continuaram com a visita guiada ao Museu de Arte Sacra e ao Museu Histórico de Sergipe. 

Maria Gloria fez recital com Thiago Fragata


Para o diretor da DRE 08, Gaspeu Fontes, a sua diretoria é estratégica para as ações de patrimônio, pois abrange os municípios que abrigam as cidades consideradas mais importantes para o patrimônio histórico cultural de Sergipe, que é Laranjeiras e São Cristovão. “Nós tomamos a iniciativa de realizar esse curso, pois não poderíamos contar com profissionais melhores que os professores para estarem multiplicando a importância da preservação dos patrimônios históricos e culturais dessas cidades históricas”, afirmou o diretor.

Fontes destacou ainda a grande procura dos profissionais pela capacitação, “abrimos o curso para 70 profissionais, mas tivemos que ampliar as inscrições, pois mais de cento e dez professores solicitaram a matrícula, atribuo a grade procura à qualidade técnica dos profissionais que trouxemos para compor esse curso, a professora Beatriz Góis é unanimidade no que diz respeito ao patrimônio, o professor Luiz Alberto também, então estamos satisfeitos com os resultados alcançados”, destacou o professor Gaspeu Fontes, diretor da DRE 08.

Durante a tarde os professores acompanharam o projeto “Patrimônio em Concerto”, realizado pela secretaria de Estado da Casa Civil, por meio da SUBPAC em parceria com a SERGÁS. O concerto foi realizado pelo grupo de música medieval e renascentista Renantique no Museu Histórico de Sergipe. Já no final da tarde os professores puderam acompanhar um cortejo de grupos folclóricos da cidade de São Cristovão.

Para a professora Beatriz Góis, ”iniciativas como essa são louváveis, pois os professores são os melhores atores sociais para proteger e difundir a importância de preservação do Patrimônio, principalmente da forma como está se dispondo o curso com a parte teórica e prática da conservação de patrimônio material e imaterial”, analisou a professora. O curso terá continuidade nas cidades de Laranjeiras, Aracaju e Porto da Folha, todas as cidades importantes berços da História e Cultura do Estado de Sergipe, com palestras e apresentações culturais. A próxima aula será no dia 27 de setembro na cidade de Laranjeiras. 


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (última parte)*

Augusto Leal Garcez, São Cristóvão/SE . Foto: Samuel Albuquerque, 2013


Samuel Albuquerque**

À medida que a periferia de São Cristóvão vai ficando para trás e, deixando a longa Avenida Irineu Neris, seguimos pela Estrada de Rita Cacete, a paisagem se torna mais agradável, graças, sobretudo, a natureza que se reestabelece na vasta planície.

Coqueirais do lado direito, brejos e mangues do lado esquerdo da estrada “desanuviam” o nosso olhar, que se surpreende com a mansidão e a estreiteza do Rio Miranda. Seu curso encontra e passa sob o asfalto no quilômetro 1,4 da rodovia e em nada lembra o majestoso tributário do Vaza-Barris que se avista do alto da Ladeira do Porto da Banca, em São Cristóvão. Felizmente, suas águas parecem estar livres da poluição que encontrará mais adiante, quando alcançam a Barra da Cidade.

Em seguida passamos pelo povoado Colônia Miranda, lugar de pessoas simples e muito receptivas. O que notabiliza a paisagem do lugar é o “falso histórico” da igreja e casa da Paróquia Menino Deus, localizadas no largo que é acessado através da via que encontra a SE-466 em seu quilômetro 2,1 (lado direito).

A paróquia foi desmembrada da de Nossa Senhora da Vitória há poucos anos e as edificações que constituem sua sede também são recentes. Contudo, quem as projetou teve como referência a arquitetura religiosa de estilo colonial. O projeto foi executado com certo capricho, botando abaixo o secular nicho que ali existia. Nesse sentido, Serafim Santiago informa que, em fins do século XIX, nos meses de maio, eram realizadas missas solenes nos “nichos dos lugares seguintes: Miranda, Rita Cacete ou Pedrinhas, Pedreiras, Ilha Grande e outros.” (Santiago, 2009, p. 233).

Da Colônia Miranda à Fazenda Rio Comprido chegamos, como se diz, “em um pulo”. Na verdade, um pulo relativamente amplo, de aproximadamente 1,5 quilômetros. Nesse meio tempo, o que mais chama nossa atenção é a extensa planície do Rio Comprido, tomada por verdes pastos e coqueirais.

Na sede da fazenda, somos muito bem recebidos pelo casal Augusto Leal Garcez e Antonieta Cardoso Fontes Garcez, seus atuais proprietários. Uma recepção calorosa e convidativa ao retorno.

Em 1910, quando a fazenda foi adquirida por Álvaro Sobral Garcez, pai do atual proprietário, as atividades açucareiras já haviam dado espaço à pecuária.  Do antigo engenho restou parte da antiga fábrica de açúcar e das senzalas, que hoje servem, respectivamente, de curral e residências de trabalhadores. A “casa de vivenda” passou por sucessivas reformas e foi completamente desfigurada.

A suinocultura é a principal atividade econômica da propriedade, mas por lá também se produz coco e cana de açúcar. As águas do Rio Comprido mantiveram sua boa qualidade e contribuem para o abastecimento da cidade de São Cristóvão. No geral, restou uma pálida lembrança do faustoso engenho de outrora. Mas, ainda assim, somos surpreendidos pelos vestígios do passado sergipano que ali jazem.

A mata densa, no cume de um outeiro ao norte da sede da fazenda, esconde as ruínas do que foi, segundo os relatos, um majestoso templo jesuítico. Trata-se da lendária Capela Nossa Senhora do Desterro.

O senhor Augusto está sempre disposto a conduzir os visitantes ao local, de onde se tem uma vista impagável e os olhos alcançam a cidade de São Cristóvão, o estuário do Vaza-Barris e, na outra margem desse rio, a sede da Fazenda Colégio (Itaporanga d’Ajuda), que abriga o antigo colégio jesuíta e a vistosa capela que, no século XIX, era consagrada à Nossa Senhora da Graça.

Inspirado, o cicerone dá voz às lendas que envolvem boa parte dos templos jesuíticos. Túneis subterrâneos que seguiam até as bordas do Rio Comprido, tesouros escondidos e outras estórias preservadas em um dos recantos do Brasil por onde os inacianos passaram e deixaram seu legado.

Ao observar o que restou da capela, difícil é não recordar a descrição feita por Serafim Santiago de outro memorável templo jesuítico daquele município. A capela erguida no “retiro majestoso e poético” que era a colina de São Gonçalo, bem próximo à cidade de São Cristóvão, foi assim descrita: “(...) uma ruína única, onde as aroeiras crescendo vorazes por entre as fendas da sólida argamassa dividem as paredes e arcadas em ímpios lascoes (...). Vagarosamente suas amarrações se vão afrouxando à força vegetativa mais poderosa, pois por entre suas urdiduras esponta, alastrando-se e dilatando, esgalhos nutridos e fortes, o mato inclemente e vicioso” (Santiago, 2009, p. 75). Registrando suas memórias na década de 1920, Santiago arrematou a questão ao registrar que, “no alto do Desterro”, estavam as ruínas de outra capela jesuítica “nas mesmas condições de S. Gonçalo em São Cristóvão” (Santiago, 2009, p. 135).

O caso do Rio Comprido explica uma questão que intriga alguns estudiosos da arquitetura do açúcar no Brasil. Refiro-me a longa distância entre a capela e a casa-grande em alguns engenhos. Ocorre que, quando as propriedades rurais que haviam pertencido a ordens religiosas eram adquiridas pelos “empreendedores do açúcar”, esses optavam por “descer” para os terraços próximos às margens dos rios, onde erguiam novas sedes para suas propriedades.

Vizinho próximo ao Rio Comprido, o Itaperoá também contava com uma capela erguida, imponente, sobre uma colina, enquanto a sede do engenho ficava no terraço próximo a uma agigantada várzea tomada pelos canaviais e cortada por ribeiros que seguiam ao encontro do Vaza-Barris. A regra era: mira-se, ao longe, a casa de Deus e guarda-se, bem de perto, o ouro branco dos engenhos.

De São Cristóvão ao Rio Comprido, mantive contato com um bem de valor imensurável. Por isso não poderia encerrar essa série de artigos sem registrar os meus agradecimentos aos cristovenses (naturais ou adotivos) que encontrei pelo caminho e que, generosamente, partilharam comigo suas memórias e saberes, enriquecendo-me enquanto historiador e ser humano. Dessa forma, sou grato aos funcionários do Museu de Arte Sacra de São Cristóvão, na pessoa da pedagoga Denize Santiago da Silva; aos colegas da Casa do IPHAN em São Cristóvão, na pessoa da professora Kleckstane Farias e Silva Lucena; aos colaboradores da Paróquia Nossa Senhora da Vitória, nas pessoas de Luiz Alexsandro de Assis e Alexnaldo dos Santos Nere; aos moradores do povoado Colônia Miranda, na família do estudante de engenharia Samuel dos Santos Silveira; aos moradores da fazenda Rio Comprido, na pessoa do proprietário Augusto Leal Garcez; ao historiador Thiago Fragata, diretor do Museu Histórico de Sergipe, amigo e interlocutor; e ao tecnólogo em Gestão de Turismo Cleverton Costa Silva. Finalmente, agradeço aos professores Marilene Araújo de Barros (minha mãe), Magno Francisco de Jesus Santos e Ane Luise da Silva Mecenas Santos. Eles estiveram comigo nas idas e vindas a São Cristóvão e, além de agradáveis, foram pacientes companheiros de viagem.

Aos leitores do JORNAL DA CIDADE, agradeço e registro uma pausa em nossa viagem, antes de retomá-la e seguir rumo a outros engenhos, povoados, vilas e cidades do Sergipe oitocentista.

***

Foi com pesar que, no último dia 10 de agosto, recebi a notícia do falecimento do senhor Augusto Leal Garcez, proprietário da Fazenda Rio Comprido. Ao longo dos últimos meses havíamos estreitado contato e nossas conversas (mesmo por telefone) se tornaram frequentes. Pretendia encaminhar ao meu interlocutor um volume encadernado reunindo todos os artigos desta série, o que não será mais possível. Legarei, então, a oferta aos seus herdeiros, pessoas que saberão zelar pela memória de um homem de bem, um digno sergipano e cristovense do Rio Comprido.



*Publicado do JORNAL DA CIDADE, Aracaju, 25 e 26 ago. 2013, caderno B, p. 7.
**Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br

BIBLIOGRAFIA:
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 135 e 233.
GARCEZ, Augusto Leal. Depoimento concedido ao autor. Fazenda Rio Comprido, São Cristóvão-SE, 4 maio 2013.
BASE CARTOGRÁFICA dos Municípios Litorâneos de Sergipe. [Aracaju]: PRODETUR-NE II/Ministério do Turismo, 2004 [ortofotocartas 691-778, 691-783, 684-778, 684-783];
ATLAS DIGITAL sobre recursos hídricos de Sergipe. Versão 2012-9. Aracaju: SRH/SEMARH/Governo de Sergipe, 2012. 1 DVD (camada Infraestrutura e subcamadas Rodovia Estadual e Rodovia Federal, dentre outras);
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (X)*

Antigo Matadouro Municipal, bairro Apicum-Merem, São Cristóvão. Foto: Samuel Albuquerque, 2013




Samuel Albuquerque**

O primeiro trecho da estrada oitocentista que ligava as cidades de São Cristóvão e Laranjeiras corresponde, basicamente, aos 5 quilômetros percorridos entre a Ponte Santa Cruz, no trevo de São Cristóvão, e a ponte sobre o Rio Comprido, vencendo 1,2 quilômetros da Avenida Irineu Neris e 3,8 quilômetros da SE-466.

A rodovia estadual SE-466, cuja denominação homenageia o político José Correia Santos Neto (Zezinho da Everest), é popularmente conhecida como Estrada de Rita Cacete, uma referência ao povoado por ela cortado em seu quilômetro 5. Vale mencionar que, logo após Rita Cacete, a rodovia perde o seu pavimento e segue em péssimas condições até a BR-101, perfazendo um total de 9,1 quilômetros.

Naturalmente, outras estradas para ela convergem ao longo do seu percurso. Esse é o caso das vias (sem pavimento, diga-se) que conduzem às seguintes localidades: Arame (quilômetro 0,9 – lado direito), Saco (quilômetro 1,8 – lado esquerdo), Gameleiro (quilômetro 2,2 – lado esquerdo) e Aningas (quilômetros 2,9 e 3,6 – lado direito). Além disso, ao lado direito da estrada, arrastam-se os desusados trilhos da Viação Leste Brasileiro, em grande medida ocultados pelo mato.

Da ponte sobre o Paramopama à ponte sobre o Rio Comprido, alguns elementos da paisagem são dignos de nota. Imediatamente após a Ponte Santa Cruz, desviando o nosso olhar para a Avenida Felix Pereira (à direita), avistamos as instalações da antiga Empresa Industrial São Cristóvão, fábrica de tecidos que, a partir da década de 1910, deu novo impulso à economia do município.

Nas memórias de Serafim Santiago, encontramos importantes referências à “colossal fábrica de tecidos à margem direita do rio Paramopama”, que, “sob a direção de abastados capitalistas que se associaram com a firma Andrade Chaves e Cia.”, “teve o assentamento da primeira pedra no dia 14 de agosto de 1912 e a inauguração a 4 de fevereiro de 1914” (Santiago, 2009, p. 117-118). O memorialista traduziu e registrou o sentimento dos cristovenses ante a inauguração daquela fábrica, fato que representava a interrupção da “decadência paulatina da pitoresca cidade e da apatia que dominava os seus habitantes” (Santiago, 2009, p. 118).

Inspirado em matérias veiculadas pela imprensa da época, Santiago registrou que, graças a inauguração da fábrica, “o cristovense já não descrê de si, nem se sentirá amesquinhado em face dos filhos da outra parte, porque se transformou graças ao milagre da indústria, neste gigante do presente – o operário”. E continua: “No seio de sua própria cidade, sem se afastar do remanso de suas ilusões e afetos, [o cristovense] encontra o trabalho que traz o conforto, regeneração e bem estar.” (Santiago, 2009, p. 119). Compreendemos, assim, o efeito causado pela “chegada do progresso” na autoestima da população de São Cristóvão. Destituída da condição de capital de Sergipe desde 1855 e tendo passado por um franco processo de decadência, a chegada da fábrica e da ferrovia representavam a ressurreição para uma sociedade moribunda.

Em 1923, quase dez anos após sua inauguração, a fábrica foi visitada pelo presidente do Estado. Segundo Serafim Santiago, Graccho Cardoso teria ficado impressionado com o que viu, atento ao fato de a empresa “dá trabalho diário a 297 mulheres e 104 homens, afora empregos outros, e tem a funcionar 250 teares, que dão o rendimento de 3:640,606 metros de fazendas.” (Santiago, 2009, p. 135).

Desde 2010, a sede da antiga fábrica abriga a Intergriffe’s São Cristóvão Indústria e Comércio de Confecções Ltda, do Grupo Intergriffe’s Nordeste. A análise das fotografias veiculados, em 1920, no “Álbum de Sergipe” indica que a estrutura básica do conjunto arquitetônico foi mantida. Contudo, uma série de intervenções descaracterizou o harmônico conjunto de prédios do início do século XX. Ainda assim, ele se destaca na paisagem da entrada da cidade e chama atenção por sua monumentalidade.

Seguindo pela Avenida Irineu Neris, depois de percorrer cerca de 800 metros desde a Ponte Santa Cruz, deparamo-nos com a fachada e as ruínas do antigo Matadouro Municipal, ao lado direito da via e defronte a Creche Ezilde Serra Pinheiro.

Conforme os registros sobre sua fachada, o prédio foi “reconstruído” na administração do prefeito José Pereira Dantas, na primeira metade da década de 1940. Diante dele, somos tentados a idealizar o restauro da monumental fachada e a reconstrução do seu interior. No mais, caso não fosse interessante reestabelecer um matadouro na localidade, poder-se-ia conferir usos ao prédio que atendessem possíveis demandas de instituições de ensino estabelecidas naquela avenida do bairro Apicum-Merem, como o Colégio Estadual Pe. Gaspar Lourenço e a Escola Estadual Luiz Guimarães.

Um problema ao qual já havíamos feito menção em artigo anterior voltou a roubar nossa atenção. Cerca de 200 metros após as ruínas do matadouro, passa sob a rodovia um córrego bastante poluído, indo ao encontro das águas do Rio Miranda. A imagem é deprimente. São dezenas de canos que, partindo das casas que avançam sobre o curso d’água, despejam esgoto doméstico diretamente no córrego. Essa é uma das principais máculas no entorno da cidade que é guardiã de um patrimônio da humanidade. (continua)



*Publicado no JORNAL DA CIDADE, Aracaju, 18 e 19 ago. 2013, caderno B, p. 6.
** Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br

Sequência de fontes/bibliografia utilizadas:
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 74, 117-120, 134, 135, 176 e 335.
SILVA, Clodomir de Souza. Album de Sergipe, 1820-1920. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1920. p. 280.
BASE CARTOGRÁFICA dos Municípios Litorâneos de Sergipe. [Aracaju]: PRODETUR-NE II/Ministério do Turismo, 2004 [ortofotocartas 691-778, 691-783, 684-778, 684-783];
ATLAS DIGITAL sobre recursos hídricos de Sergipe. Versão 2012-9. Aracaju: SRH/SEMARH/Governo de Sergipe, 2012. 1 DVD (camada Infraestrutura e subcamadas Rodovia Estadual e Rodovia Federal, dentre outras);
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

MHS e Museu da Gente Sergipana conquistam Prêmio RMFA 2013



O Museu Histórico de Sergipe (MHS), espaço cultural administrado pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult), foi um dos vencedores do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que também premiou o Instituto Banese pela criação do Museu da Gente Sergipana, outra iniciativa do Governo de Sergipe.

O resultado do prêmio, que teve 233 projetos inscritos e apenas oito contemplados, foi divulgado na manhã dessa quarta-feira, 14/8, e consagra a política cultural do Governo de Sergipe. “Foram dois prêmios para o nosso Estado. Apenas São Paulo teve desempenho semelhante. Isso nos enche de orgulho e mostra que o governador Marcelo Déda acertou em cheio ao apostar na reforma do Museu Histórico de Sergipe e na criação do Museu da Gente Sergipana”, diz a secretária Eloísa Galdino.

O MHS foi o vencedor da categoria ‘Políticas públicas, programas e projetos governamentais’ com um projeto educativo desenvolvido entre os anos de 2010 e 2012. Já o Instituto Banese levou o prêmio na categoria ‘Responsabilidade Social’, pela construção do Museu da Gente Sergipana. Os vencedores receberão certificado, troféu e R$ 20 mil em dinheiro em solenidade a ser promovida no dia 17 de outubro, no Museu Nacional, em Brasília (DF).

O diretor do Museu Histórico de Sergipe, Thiago Fragata, enaltece o trabalho de equipe. “A conquista do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade representa o trabalho de uma equipe dedicada, que não mede esforços para fazer do MHS um espaço cultural atrativo a sergipanos e turistas, que prima também pelas ações pedagógicas relacionadas à preservação do patrimônio histórico. É uma grande vitória”, comemora Thiago. 

Para o superintendente do Instituto Banese e diretor do Museu da Gente Sergipana, Ezio Déda, a tão renomada conquista adquirida é fruto de um trabalho sério e coletivo. “O mérito se deu em função dos projetos de responsabilidade sócio-ambiental desenvolvidos pela instituição, em especial, o denominado Museu da Gente Sergipana, que prima por fortalecer a identidade do povo sergipano através da disseminação da arte e da cultura”, ressalta Ézio.

Vencedores da edição 2013

• Patrimônio Material: Bens Imóveis e Paisagens Naturais e Culturais
Ação: Coleta, catalogação, higienização e montagem de fragmentos de azulejos da residência Victor Maria da Silva
Proponente: Laboratório de Conservação, Restauração e Reabilitação - Lacore/UFPA
Estado: Pará

• Patrimônio Material: Bens Móveis e Acervos Documentais
Ação: Centro de Memória Dorina Nowill
Proponente: Fundação Dorina Nowill para cegos
Estado: São Paulo

• Patrimônio Imaterial
Ação: Museu do Patrimônio Vivo de João Pessoa
Proponente: Coletivo Jaraguá
Estado: Paraíba

• Patrimônio Arqueológico
Ação: Circuitos Arqueológicos: Práticas Sociais da Arqueologia na Chapada Diamantina - Bahia
Proponente: Carlos Etchervarne
Estado: Bahia

• Políticas públicas, programas e projetos governamentais
Ação: Programa educativo do Museu Histórico de Sergipe - 2010-2012
Proponente: Museu Histórico do Sergipe
Estado: Sergipe

• Responsabilidade Social
Ação: Museu da gente Sergipana - projetos e exposições
Proponente: Instituto Banese
Estado: Sergipe

• Comunicação e mobilização social
Ação: Povos Indígenas no Brasil
Proponente: Instituto Socioambiental
Estado: São Paulo

• Ações Educativas
Ação: Mané Gostoso e o Vaivém do Lúdico
Proponente: Centro de Criação Galpão das Artes
Estado: Pernambuco

Sobre o prêmio

É um dos mais importantes prêmios voltados para ações na área de Patrimônio Cultural. Este ano, o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade celebra os 120 anos de nascimento do modernista Mário de Andrade que, em 1936, a pedido do então ministro da Educação, Gustavo Capanema, elaborou o anteprojeto de lei que resultou na organização jurídica da proteção do patrimônio cultural brasileiro e na criação do atual IPHAN.

Sobre Rodrigo Melo Franco de Andrade

O advogado, jornalista e escritor Rodrigo Melo Franco de Andrade nasceu em 17 de agosto de 1898 em Belo Horizonte. Foi redator-chefe e diretor da Revista do Brasil e, na política, foi chefe de gabinete de Francisco Campos, atuando na equipe que integrou o Ministério da Educação e Saúde do governo Getúlio Vargas. O grupo era formado por intelectuais e artistas herdeiros dos ideais da Semana de 1922. Rodrigo Melo Franco de Andrade comandou o IPHAN desde sua fundação em 1937, até 1967.

Fonte: Secult

terça-feira, 13 de agosto de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (IX)*

Vista aérea de São Cristóvão e do estuário do Rio Miranda, onde deságua o Paramopama (Marco Galvão, 2007)


Samuel Albuquerque**


Os testemunhos legados por Serafim Santiago nos levam a refletir sobre um problema ambiental que se acentua cada vez mais em São Cristóvão: a degradação dos rios.

Ao concluir que o arruinamento da Ponte Santa Cruz, em princípios do século XX, era resultado da parca vigilância sobre práticas irregulares de pesca, o memorialista registrou que “pessoas do povo faziam pescarias às horas mortas da noite, por baixo das arcadas [da ponte], de onde colhiam peixes moradores nas fendas ou buracos feitos por estas criaturas nas pedras que serviam de base da referida construção”. Os populares empregavam instrumentos de ferro “a fim de extrair dos mencionados buracos o produto do seu mal entendido trabalho, sem lhe advertir a consciência o mal que estavam praticando” (Santiago, 2009, p. 109).

Partindo da observação de Santiago, concluímos que, em menos de um século, a população cristovense conseguiu transformar o rio sob a ponte Santa Cruz em um esgoto a céu aberto. Dificilmente, um observador atento ao estado do Paramopama cogitaria a possibilidade de saborear frutos que, por ventura, dele saíssem, tamanha a má impressão causada pelo lançamento de lixo e esgoto domésticos nesse curso d’água.

Segundo o historiador Thiago Fragata “o valor histórico dispensado à cidade [de São Cristóvão] é inversamente proporcional ao conhecimento da sua geografia, dos seus povoados, mesmo para os sancristovenses” (Fragata, 2007, p. 6). Plenamente de acordo, abrirei parênteses para tratar de uma questão, no mínimo, nebulosa.

O curso d’água que passa sob a Ponte Santa Cruz e que, historicamente, foi identificado como Rio Paramopama é, na verdade, um tributário do Rio Miranda e, indiretamente, do Vaza-Barris. O Miranda nasce à noroeste de São Cristóvão, nas imediações do povoado Aningas, e segue no sentido sudeste, percorrendo cerca de 12 quilômetros até desaguar no Vaza-Barris.

As águas do Paramopama e de outros afluentes vão ao encontro do Rio Miranda na chamada Barra da Cidade de São Cristóvão, estuário que pode ser apreciado do alto da Ladeira do Porto da Banca, à sombra do Convento do Carmo (início da rua denominada, oficialmente, como Francisco Oliveira Silva). Em terra firme, o Miranda é o rio que passa sob a rodovia estadual SE-466 (1,4 quilômetros após o seu início), pouco antes do povoado Colônia Miranda.

Como cheguei a tais conclusões? Analisando ortofotocartas da “Base cartográfica dos municípios litorâneos de Sergipe” e mapas do “Atlas digital sobre recursos hídricos de Sergipe”, materiais que podem ser consultados junto a Superintendência de Estudos e Pesquisas da Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (SUPES - SEPLAG/SE) e a Superintendência de Recursos Hídricos (vinculada à Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos – SEMARH/SE). Esses documentos divergem do que foi divulgado por autores como o padre Inácio Antonio Dormundo (em 1826), Manuel dos Passos de Oliveira Telles (em 1903), Clodomir de Souza Silva (1920), Serafim Santiago (em 1920) e Maria Thetis Nunes (em 1978 e 2000), dentre outros. Aliás, de acordo com os mapas da Superintendência de Recursos Hídricos, o Rio Paramopama não é aquele que corta a Cidade Baixa de São Cristóvão e sim aquele identificado pelos cristovenses como Rio Miranda.

Por respeito à tradição, julgo ser melhor continuar identificando o curso d’água que corta a Cidade Baixa como Paramopama, tendo, porém, a consciência de que ele é um afluente do Rio Miranda, sendo esse um dos principais tributários da margem esquerda do Vaza-Barris. (Continua)



*Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 11 e 12 ago. 2013, caderno A, p. 7.
**Samuel Albuquerque - Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br


Bibliografia:
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 109.
FRAGATA, Thiago. Quantos povoados tem São Cristóvão?. Jornal da Cidade, Aracaju, Caderno B, p. 6, 27 de fevereiro 2007.
BASE CARTOGRÁFICA dos Municípios Litorâneos de Sergipe. [Aracaju]: PRODETUR-NE II/Ministério do Turismo, 2004 [ortofotocartas 691-778, 691-783, 684-778, 684-783].
ATLAS DIGITAL sobre recursos hídricos de Sergipe. Versão 2012-9. Aracaju: SRH/SEMARH/Governo de Sergipe, 2012. 1 DVD (camada Infraestrutura e subcamadas Rodovia Estadual e Rodovia Federal, camada Hidrografia e subcamada Bacia Hidrográfica do Vaza-Barris).
DORMUNDO, Ignacio Antonio. Noticia topographica da Provincia de Sergipe, redigida no anno de 1826... In: NUNES, Maria Thetis. Sergipe provincial I: 1820-1840. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000. p. 372-373 (baseada em transcrição de M. A. Galvão, preservada na Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional).
TELLES, M. P. Oliveira. Sergipenses (Escriptos Diversos). Aracaju: Typografia d’O Estado de Sergipe, 1903. p. 108.
SILVA, Clodomir de Souza. Album de Sergipe, 1820-1920. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1920. p. 61, 62, 280.
NUNES, Maria Thetis. Sergipe provincial I: 1820-1840. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000. p. 141.
FRAGATA, Thiago. Onde nasce o Paramopama? (I). Jornal da Cidade, Aracaju, 31 out. 2008. Caderno B, p. 6, Opinião.
_____. Onde nasce o Paramopama? (II). Jornal da Cidade, Aracaju, 8 nov. 2008. Caderno B, p. 6, Opinião.
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (VIII)*

Ponte Velha ou Ponte Santa Cruz sobre o Paramopama, em São Cristóvão/SE, déc. 1940 (Acervo IPHAN)


Samuel Albuquerque**
 
Antes de deixar para trás o Engenho Rio Comprido e seguir viagem pela estrada oitocentista que ligava as cidades de São Cristóvão e Laranjeiras, algumas considerações...

Sem o socorro da Arqueologia Histórica, a reconstituição do trajeto entre a Igreja Nossa Senhora da Vitória e o início da estrada para às Laranjeiras foi possível graças aos registros legados por Serafim Santiago, em seu “Anuário Cristovense”. Os 500 metros do referido trajeto, descritos no primeiro artigo desta série, passavam pelas antigas Praça da Matriz, Rua de São Francisco, Ladeira de São Francisco, Praça do Mercado, Rua da Feira Velha e Ponte Santa Cruz. Grosso modo, o mesmo trajeto pode ser feito passando pelas atuais Praça Getúlio Vargas, Travessa Municipal, Ladeira do Açougue, Rua Marechal Deodoro, Travessa Dr. Carlos Menezes e Rua Dr. Graccho Cardoso. Habitualmente, só é possível percorrê-lo a pé, considerando o estreitamento da Ladeira do Açougue próximo a linha férrea e o sentido do trânsito de automóveis nas vias da Cidade Baixa.

Desde o ponto de partida, registra-se um “mundo de coisas” dignas de nota, a começar pelo lastimável estado de conservação da antiga sede da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, na ponta noroeste da Praça Getúlio Vargas, esquina com a Travessa Municipal (antiga Rua de São Francisco). Também denominado Palácio Governador Dr. Augusto do Prado Franco, o prédio foi construído entre 1932 e 1951, substituindo o “elegante e moderno” sobrado que pertenceu ao comerciante português Antônio Fernandes de Souza (Santiago, 2009, p. 275).

A íngreme e sinuosa Ladeira do Açougue (antiga Ladeira de São Francisco) é uma das vias mais inspiradoras de São Cristóvão. Há séculos ela une as ditas cidades alta e baixa e dela se tem uma ampla tomada da malha urbana, que se dilata para noroeste e norte. No sentido horário, avistamos os tanques que, substituindo os antigos ternos de salinas, servem à prática da aquicultura no bairro Apicum-Merem (antigos apicuns nas baixas do Sítio Merem). Em seguida, a ocupação desordenada do Alto da Divinéia (antigo Sítio Merem de Cima) e do Morro da Favela (com sua agigantada imagem do Senhor dos Passos) prende nossa atenção.

A Ladeira do Açougue foi recentemente socorrida pelo Programa Monumenta do IPHAN/Ministério da Cultura. A obra de requalificação foi concluída em julho de 2012 e algumas práticas populares têm conferido um colorido especial àquela artéria. As donas de casa que por ali residem costumam esticar seus varais nas bordas da ladeira. O sol ajuda a secar rapidamente e o vento movimenta as toalhas de cama e mesa que, com seus múltiplos tons, enchem de vida a paisagem.

As memórias de Serafim Santiago sugerem que, até princípios do século XX, a Ladeira do Açougue era menos sinuosa e bifurcava-se em sua base, dando acesso às ruas que levavam ao Porto São Francisco e a Praça do Mercado (atuais ruas Porto São Francisco e Marechal Deodoro). A instalação da ferrovia, contudo, provocou drásticas mudanças na paisagem da cidade. Uma delas pode ter sido a mutilação da secular ladeira, em princípios da década de 1910.

Para além do barulho e do grande movimento da zona comercial, a mutável Cidade Baixa reserva algumas surpresas aos olhares mais atentos. Na Rua Marechal Deodoro, ao lado direito do Mercado Municipal Lauro Rocha de Andrade e separados por uma viela, estão dois interessantes prédios da primeira metade do século passado. O primeiro deles, segundo depoimentos colhidos pelo historiador Thiago Fragata, pertenceu ao comerciante de origem italiana Baltazar Mandarino, que ali inaugurou uma loja de tecidos. Posteriormente, o prédio foi alugado a outros empreendedores locais, que diversificaram as atividades comerciais do estabelecimento. O segundo prédio é o antigo Talho de Carne Verde, inaugurado em 1931 e que, possivelmente, substituiu a primitiva Casa do Açougue, arruinada em princípios do século XX (Santiago, 2009, p. 108). Nos dois casos, restauro e funcionalidade se fazem urgentes.

Seguindo pela Rua Marechal Deodoro e tomando, em seu último trecho, a Travessa Dr. Carlos Menezes, alcança-se a Praça Dr. Lauro de Freitas, onde está o combalido Terminal de Integração Prefeito Gileno Barreto (antiga Estação Rodoviária Erundino Prado Filho), e o início da Rua Dr. Graccho Cardoso (antiga Rua da Feira Velha), que segue no sentido norte até a Ponte Santa Cruz. Nesse trecho, chama nossa atenção a antiga Estação Ferroviária de São Cristóvão, por trás do terminal de ônibus; o nicho e a ponte Santa Cruz, ao final da Rua Graccho Cardoso.

Cerca de 100 metros antes da Ponte Santa Cruz, a Rua Dr. Graccho Cardoso é cortada pelo córrego (com feições de canal sanitário) que no passado era conhecido como Riacho Cachorro, um modesto afluente do Paramopama notado e descrito por Clodomir Silva, em seu “Álbum de Sergipe” (Silva, 1920, p. 280).

O nicho conhecido como Santa Cruz da Ponte é um bem que singulariza a paisagem da Cidade Baixa. Preservado por moradores da Rua Dr. Graccho Cardoso, ele existe, ao menos, desde a década de 1880. Contudo, registros fotográficos do acervo do IPHAN/SE indicam que a singela casa de orações foi reedificada, ainda mais próximo à ponte e ao Paramopama, em meados do século XX.

Serafim Santiago, ao descrever os festejos religiosos do mês mariano em São Cristóvão, registrou: “começavam, logo no dia 25 de abril, as novenas de Santa Cruz, com grande animação em toda a Cidade e seus lugares vizinhos, principalmente as que com a festa se celebram no nicho que fica a direita da ponte de pedra ao sair da cidade, no fim da rua denominada ‘Feira Velha’”. Informou, ainda, que “naquela pequena casa de orações, em alguns anos até Sermão foi proferido pelo conhecido orador sacro vigário Barroso, havendo nas noites de novena, conforme o gosto dos mordomos ou novenários, fogos de artifícios, esplendida iluminação e leilão” (Santiago, 2009, p. 232 e 233).

Quanto à “ponte de pedra e cal na saída da cidade”, a mesma que ao final da Rua Dr. Graccho Cardoso passa sobre o Paramopama, sabemos ter sido reedificada ainda na primeira metade do século XIX, durante a “administração esclarecida” do presidente Manuel Clemente Cavalcanti de Albuquerque (1798-1826). Conforme Maria Thetis Nunes, “conhecendo o quanto o progresso econômico sergipano estava na dependência de estradas para o escoamento da produção agrícola, especialmente a açucareira, [o presidente] planificou e construiu algumas, e também pontes, reedificando a que cruzava o rio Paramopama” (Nunes, 2000, p. 141).

Outra restauração importante na Ponte Santa Cruz foi realizada, ao que tudo indica, nas primeiras décadas do século XX. Segundo Serafim Santiago, a ponte, “formada com duas arcadas e tendo dois assentos laterais apropriados ao descanso dos viajantes”, teria sido acudida pelo intendente Fausto Francisco dos Santos, “que procurou bons pedreiros, mandou preparar argamassa com azeite de peixe e meteu mãos a obra na referida ponte, que já se achava em princípio de ruína” (Santiago, 2009, p. 109). Atualmente, a beleza da antiquíssima ponte é ocultada pelo avanço de ocupações irregulares nas margens do Paramopama. Rio e ponte estão espremidos entre prédios residenciais e comerciais da caótica Cidade Baixa. (Continua)



*Samuel Albuquerque é professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br
**Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 3 ago. 2013, caderno B, p. 6.

Bibliografia:
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense... São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 77-79, 108, 109, 117, 232, 233, 275, 317, 328, 329 e 335.
SILVA, Clodomir de Souza. Coronel José de Faro. In: _____. Album de Sergipe, 1820-1920. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1920. p. 280.
NUNES, Maria Thetis. Sergipe provincial I: 1820-1840. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000. p. 141.
BASE CARTOGRÁFICA dos Municípios Litorâneos de Sergipe. [Aracaju]: PRODETUR-NE II/Ministério do Turismo, 2004 [ortofotocarta 691-778];
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].