quarta-feira, 25 de abril de 2012

X Roda de leitura de São Cristóvão: Corpo em movimento

Lola Arévalo se prepara para leitura de "A bailarina", de Cecília Meireles

Roda de Leitura dedicada a dança foi realizada quarta, 25/4, na Biblioteca Pública Lourival Baptista, em São Cristóvão. No repertório poesias de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, José Guilherme S. Filho e Carmen Lúcia Carvalho de Souza. Os contadores Lola Arévalo, Eliene Barbosa, Rosi Barbosa e Thiago Fragata compartilharam as poesias com os alunos do Colégio Estadual Padre Gaspar Lourenço. Convidado especial, dançarino Nelson Santos falou do últimos trabalhos premiados e do X Dança São Cristóvão que acontecerá de 26 a 29 do corrente mês, sempre a partir das 18:00 horas, no Espaço Cultural Pedro Batalha de Góis.

Segue poesias, respectivos autores e intérpretes: 


A BAILARINA


Cecília Meireles
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Essa poesia foi interpretada por Lola Arévalo.



A DANÇA E A ALMA

Carlos Drummond de Andrade
A dança? Não é movimento
súbito gesto musical
É concentração, num momento,
da humana graça natural

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança-não vento nos ramos
seiva, força,perene estar
um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir a forma do ser
por sobre o mistério das fábulas

Essa poesia foi interpretada por Rosi Barbosa.



MUDANÇA...MU...DANÇA ...MUDA!

José Guilherme S. Filho
Na dança da mudança só não se alcança
quem no ritmo da mudança não se lança

Muda o mundo e todo mundo muda
quem não muda fica mudo para o mundo

O sujeito que rejeita as mudanças
E sempre diz não às variâncias
nem se sujeita a perceber
que já está mudando de mundo sem querer

A mudança muda e muda sem se fazer notar e
Vai continuar a mudar
E de tão silenciosa fica muda
E muda não responde aos gritos de socorro
Dos que não querem mudar!

Essa poesia foi interpretada por Eliene Marcelo Santos da Silva.



DANÇA,BAILARINA, DANÇA...
Carmen Lúcia Carvalho de Souza
Dança, bailarina, dança
Põe nos teus passos toda a harmonia
E toda a poesia nas pontas de teus pés
Em gestos nobres,faze surgir a fé!!!

Gira,bailarina,gira...
Vai girando e semeando amor,
Mais depressa que as voltas do mundo,
Pra que haja tempo de matar a dor!

Baila, bailarina,baila...
Traze contigo a primavera
Pra florir os campos,florescendo a Terra,
Numa explosão de cores que tua dança encerra.
Faze de tua arte uma suave prece
Capaz de enternecer os corações de pedra
Faze tua música soar tão alto
Calando assim os estopins da guerra!!!
Mostra ao Homem que o teu bailado
Expressa a vida nesse simples ato...
Onde o amor é tudo,onde o amor é nato.

Que em teus saltos ponhas tua garra
Seguindo sempre a luz de teu clarão,
Quebrando muros para unir os povos
Num universo único, onde se dêem as mãos.

Abre tua alma, no esplendor da dança...
Não desistas nunca e verás,enfim,
Bailar no campo,doce e cálida esperança,
Em meio às flores de um lindo jardim...

Essa poesia foi interpretada por Thiago Fragata.



GALERIA DE IMAGENS




Lola se prepara para leitura de "A bailarina", de Cecília Meireles

Rosi Barbosa fez leitura de "A dança e a alma", de Carlos Drummond de Andrade


Eliene Marcelo fez leitura de "Mudança, mu... dança, muda!", de Guilherme Santos

Thiago Fragata fez leitura de "Dança, bailarina, dança!", de Carmen Lúcia

Dançarino Nelson Santos falou das conquistas da dança e da sua vida

Aglaé Fontes, Secretária Municipal de Cultura, falou da importância das rodas de leitura.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Monteiro Lobato: homem-livro, amigo, monumento

Monteiro Lobato e sua primeira obra infantil

Dedicado a Luiz Antônio Barreto (1944/2012), in memoriam

Thiago Fragata*

Hoje, 18 de abril, dia do livro infantil é também celebrado dia do Amigo e dia dos monumentos. Lamentavelmente, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2011 realizada pelo Instituto Pró-livro revelou que maioria dos brasileiros consultados não reconhecem o livro como um amigo pronto a distrair, reconfortar e ensinar. E, se não valorizam o livro talvez nunca venham conhecer quem foi Monteiro Lobato (1882/1948) e a sua obra que é um monumento. Não foi difícil redigir parágrafo juntando as palavras livro, amigo e monumento; no entanto, será impossível resumir a importância desse intelectual para o mercado do livro e literatura infanto-juvenil brasileira.

Para esclarecer o impacto da obra lobatiana no Brasil e sua crescente aceitação, - leia-se formação de leitores encantados com a publicação de A menina do narizinho arrebitado, em 1921 - consulto uma crônica de Graciliano Ramos desse mesmo ano. O autor de Vidas Secas relembra amargurado o sofrimento das crianças matriculadas nas escolas que semelhante aos cárceres aplicavam leitura como uma atividade punitiva. Assim depõe J. Calisto, seu pseudônimo, num jornal de Palmeira dos índios, Alagoas, edição de março:

“Sofro com o sofrimento delas. E é por isso que detesto o livro infantil. Detesto-o cordialmente. Aquelas coisas maçadoras, pesadas, estopantes, xaroposas, feitas como que expressamente com o fim de provocar bocejos, revoltam-me. Espanta-me que escritores componham para a infância pedantices rebuscadas, que as livrarias se encarregam de fornecer ao público em edições que, à primeira vista, causam repugnância ao leitor pequenino; embasbaca-me que professores reproduzam fonograficamente aqueles textos indigestos; assombra-me ver aquilo adotado oficialmente. Odeio o livro infantil. E odeio-o porque sei que a criança o não compreende (...) Almas danadas me obrigaram a ler Camões aos oito anos (...) A escola primária! Não me é agradável a recordação dela. Os livros infantis! Que livros! São paus de sebo a que a meninada é compelida a trepar, escorregando sempre para o princípio antes de alcançar o meio, porque afinal aquilo é um exercício feito sem o mínimo interesse de chegar ao fim”. (1978, p. 66 e 68)

De outra parte, chega nas livrarias naquele 1921, a obra A menina do narizinho arrebitado; e sua tiragem, 50 mil exemplares, é considerada alta mesmo para o nossos dias.  Edgard Cavalheiro ensaiou explicar as razões da extraordinária repercussão dos livros infantis de Monteiro Lobato a partir desta obra inaugural.

“Extrema objetividade das narrações. Tudo é direto, preciso. Nada de rodeios inúteis ou de retórica pedante. As coisas possuem nomes próprios e o autor tem sempre o bom-gosto de não os mudar por outros mais bonitos. Fogo é fogo mesmo e não lume. O sol jamais surge xingado de astro-rei (...) se a linguagem é o que há de mais simples e claro, como serão as histórias? Partindo do princípio de que tudo é maravilhoso para a criança, dentro do universo da criança Lobato considera, muito logicamente, que nada existe de impossível ou de irrealizável, para ela (...) naturalmente, que além da distinção do real e do irreal, há outras coisas que fazem dos livros infantis de Monteiro Lobato os mais procurados de todos os livros infantis que se escreveram até hoje no Brasil, ou melhor, na América. É de grande importância ressaltar o nenhum intuito moralizador dos mesmos - a velha moral do bom premiado e do mau castigado (...) que faz Monteiro Lobato? Simplesmente mostra que este mundo é dos espertos. Que a inteligência bem orientada acabará sempre vencendo a força bruta (...) o intuito da obra de Monteiro Lobato não é, portanto, o de moralizador, e sim o de ensinar. Divertindo, num tom alegre e sadio, ele ensina história e geografia, gramática e aritmética, folclore e mitologia, ciência e tudo o mais que constitui a tortura dos cérebros infantis, nas escolas e colégios”.  (1968, p. 44 e 46-47)

Confrontando os trechos selecionados, temos um insight do que representou a literatura infantil de Monteiro Lobato, de Narizinho arrebitado ao fantástico Sítio do Picapau-Amarelo que ganhou várias edições para televisão. Sua literatura não representa castigo mas divertimento; linguagem não é rebuscada mas direta, clara e objetiva.

A obra de Monteiro Lobato é objeto de pesquisas as mais diversas, algumas para ampliar os detalhes da sua contribuição ao mercado do livro no Brasil e a promoção da literatura infanto-juvenil, outras para identificar falhas e discriminação na construção de personagens negros. Racista, eugenista e até de nazista ele já foi diagnosticado segundo sua obra. Justo ou injusto? Não irei discutir isso neste 18 de abril, dia alusivo ao seu nascimento, sei que o mundo fantasioso que criou não ofereceu posições dignas aos negros, ou seja, sua imaginação não transcendeu a visão de mundo conservadora; ele era inelutavelmente filho de uma sociedade preconceituosa, um de seus expoentes. Como ainda vivemos nesta mesma sociedade hipócrita e intolerante do tempo de Lobato que tal festejar esse dia valorizando o livro infantil. Faça isso e esqueça Lobato! Lamento informar: não há como valorizar a literatura infantil partindo do zero, isso por causa de Monteiro Lobato, esse homem-livro, amigo e monumento.    

*Especialista em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), membro do Grupo de Pesquisa História Popular do Nordeste (GPHPN/CNPq) e diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT). E-mail: thiagofragata@gmail.com

FONTES DE PESQUISA:

CAVALHEIRO, Edgard. Vida e obra de Monteiro Lobato. In:__. LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Editora Brasiliense, 1968.     
RAMOS, Graciliano. Traços a esmo. In: __. Linhas tortas. 6º. Rio de Janeiro: Editora Record, 1978.

MAIS:



sábado, 14 de abril de 2012

RODA DE LEITURA TREM POESIA

"Trem azul", como chamava os sancristovenses, 1978

Munido de textos poéticos de Silvana Duboc, Manuel Bandeira, Ary Bueno, Paulo Gontram, Maria Gloria e Thiago Fragata; os contadores se revezaram perante o público do Colégio Estadual Deputado Elísio Carmelo na Casa do IPHAN, em São Cristóvão, no dia 10 de maio do corrente ano.
A Roda de Leitura Trem Poesia teve trilha sonora temática: Lá vém o Trem, de Ricardo Ottoboni; Trem das 7, de Raul Seixas; Trem das 11, de Adoniram Barbosa; Trenzinho do caipira, de Heitor Villa Lobos; Encontros e despedidas, de Milton Nascimento.
O trem é um elemento que fascina crianças, jovens e adultos. Brinquedo, meio de transporte, fonte de inspiração, explosão de sentimentos, encontros, despedidas, saudades, amores. Roda de leitura compartilhou os encantos do trem, meio de transporte que fascinou gerações nos séculos XIX e XX.
São Cristóvão inaugurou uma Estação Ferroviária no dia 5 de outubro de 1911 e fez transporte de passageiro até fins da década de 1970.
O objetivo da Roda de Leitura de São Cristóvão segundo os educadores envolvidos (Thiago Fragata, Maria Rita, Kleckstane Farias, Eliene Marcelo, Denize Santiago, Rosy Barbosa e Maria Gloria) é divulgar literatura, estimular a leitura e incentivar a formação de leitores.

Segue textos e imagens da Roda de Leitura Trem Poesia realizada na Casa do IPHAN.






1 - A VIAGEM DE TREM - Autor: Silvana Duboc

Nossa vida é: como uma viagem de trem, cheia de embarques e desembarques, de pequenos acidentes pelo caminho, de surpresas agradáveis com alguns embarques e de tristezas com os desembarques...

Quando nascemos, ao embarcarmos nesse trem, encontramos duas pessoas que, acreditamos, farão conosco a viagem até o fim: Nossos pais. Não é verdade?

Infelizmente, em alguma estação eles desembarcam, deixando-nos órfãos de seus carinhos, proteção, amor e afeto.

Muitas pessoas tomam esse trem a passeio. Outros fazem a viagem experimentando somente tristezas. E no trem há, também, pessoas que passam de vagão a vagão, prontas para ajudar a quem precisa. Muitos descem e deixam saudades eternas.

Outros tantos viajam no trem de tal forma que, quando desocupam seus assentos, ninguém sequer percebe. Curioso é considerar que alguns passageiros que nos são tão caros, acomodam-se em vagões diferentes do nosso. Isso obriga a fazer essa viagem separados deles. Mas claro que isso não nos impede de, com grande dificuldade, atravessarmos nosso vagão e chegarmos até eles. O difícil é aceitarmos que não podemos nos assentar ao seu lado, pois outra pessoa estará ocupando esse lugar.

Essa viagem é assim: cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas, embarques e desembarques. Sabemos que esse trem jamais volta. Façamos, então, essa viagem, da melhor maneira possível, tentando manter um bom relacionamento com todos os passageiros, procurando em cada um deles o que tem de melhor, lembrando sempre que, em algum momento do trajeto, poderão fraquejar e, provavelmente, precisaremos entender isso.

Nós mesmos fraquejamos algumas vezes. E, certamente, alguém nos entenderá. O grande mistério, afinal, é que não sabemos em qual parada desceremos.

E fico pensando: quando eu descer desse trem sentirei saudades? Sim. Deixar meu filho viajando nele sozinho será muito triste. Separar-me de alguns amigos que nele fiz, do amor da minha vida, será para mim dolorido. Mas me agarro na esperança de que, em algum momento, estarei na estação principal, e terei a emoção de vê-los chegar com sua bagagem, que não tinham quando desembarcaram.

E o que me deixará feliz é saber que, de alguma forma, posso ter colaborado para que ela tenha crescido e se tornado valiosa. Agora, nesse momento, o trem diminui sua velocidade para que embarquem e desembarquem pessoas. Minha expectativa aumenta, à medida que o trem vai diminuindo sua velocidade... Quem entrará? Quem saíra?

Agradeço a Deus por você fazer parte da minha viagem, e por mais que nossos assentos não estejam lado a lado, com certeza, o vagão é o mesmo.

Texto lido por Kleckstane Farias.


2 - TREM VIRADO (inédita) - Autor: Thiago Fragata

Lá vem o trem
Lá vem o trem
Lá vem o trem
Trem azul/trem amarelo
Trem azul/trem amarelo
Trem azul/trem amarelo

Sai da frente minino!
Você pode escorregar na merda
aí o trem come perna

Lá vem o trem
Lá vem o trem
Lá vem o trem
Trem azul/trem amarelo
Trem azul/trem amarelo
Trem azul/trem amarelo

Pela Tebaída
Pelo morro São Gonçalo
Passa na Colina das Almas
E para na Estação
Segue adiante trem de ferro
Vai com Deus!
Mas faz favor: não descarrilha na curva

Lá vem o trem
Lá vem o trem
Lá vem o trem
Trem azul/trem amarelo
Trem azul/trem amarelo
Trem azul/trem amarelo

1954, Chega meu Deus o trem virou!
Foi na curva do São Gonçalo
Morreu muichta gente
O caminhão levou os feridos
Uma tragédia pra esquecer
Depois de chorar e enterrar os mortos.

Lá vem o trem
Lá vem o trem
Lá vem o trem
Trem azul/trem amarelo
Trem azul/trem amarelo
Trem azul/trem amarelo.

Poesia interpretada pelo próprio autor.


3 - TREM DE FERRO - Autor: Manuel Bandeira
Café com pão
Café com pão
Café com pão


Virge Maria que foi isso maquinista?


Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)


Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
(café com pão é muito bom)


Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...


Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)

Poesia lida pela contadora Maria Rita.



4 - O TREM - autor: Ary Bueno 

La vai o trem, carregado de muitas saudades
Trem que corre pelos trilhos, cortando tantas cidades
Vai conduzindo muitos sonhos sem maldade
Tanta fé, tanta esperança, tanta busca a felicidade

Em cada estação uma alegria, gente feliz de verdade
Cada parada descarrega, gente tão cheia de bondade
Gente simples, gente humilde, mais algumas cheia de vaidade
Que no trem não se mistura, não se sente a vontade

La vai o trem, conduzindo centenas de passageiros
Carrega gente pobre, e gente com muito dinheiro
Cortando rios, túneis, e locais com árvores e pinheiro
Seu apito corta os ares, com um grito altaneiro

E eu aqui olho os trilhos, por onde foi minha felicidade
Pois o trem levou consigo, quem amei com intensidade
Este trem que não retorna, seguiu rumo a outra cidade
Levou para sempre o meu amor, só me deixou esta saudade

Saudade que não embarca, que não me deixa não
Esqueci de despachá-la para uma outra estação
E assim esta malvada, que só me traz a solidão
Se aninhou eternamente... na estação do coração
Texto foi lido pela aluna do Colégio Estadual Deputado Elísio Carmelo.


5 - DENTRO DO TREM TEM - Autor: Paulo Gontran Ramos

Dentro do trem estranho, estranhos têm. Alguns vêem, outros vêm. Alguns não, outros lêem. Dentro do trem tem quem tem e quem não tem, também tem. Pára na estação. Fica parado. Arranca, pára. Estranhos no trem têm.

Tem trem e não tem também. Se vai, também vem. Se fica, arranca, pára, abre portas também. Têm trens, apressados têm. Uns vêem, outros crêem. Têm trens, rápidos trens. No horário, o trem vem. Abre portas, mostra o que contém. Tem trem. Forte trem. Estranhos têm. Fica trem. Vai trem. Pára trem. Abre portas trem.

Vou eu também.

Poesia interpretada por Denize Santiago.



GALERIA IMAGENS

Passageiros aguardam trem na Estação Sam Christovam, 1923

Estação Sam Christovam desativada, 1980

Público, alunos do Colégio Estadual Dep. Elísio Carmelo

Kleckstane Farias, nova integrante da Roda de Leitura de São Cristóvão

Aluna participou também das leituras

Maria Rita leu "O Trem", de Manuel Bandeira

Maria Gloria interpretou poesia de sua autoria 

Poetisa Maria Gloria encantou público com interpretação

Denize Santiago leu poesia de Paulo Gontram Ramos


terça-feira, 3 de abril de 2012

ANEXO PARA O PLEBISCITO DO MOSQUEIRO


Um dos investimentos da Prefeitura de Aracaju: Orlinha Por do Sol



OBS: Esse artigo foi publicado em 2008, disponho aqui para colaborar no debate (ou novela como sentenciou José Dias Firmo dos Santos, Presidente do Fórum de Defesa de Aracaju), quanto aos direitos dos municípios de São Cristóvão e Aracaju relativo a posse e administração do povoado Mosqueiro e região. 



Thiago Fragata[*]


Tenho acompanhado com atenção a querela entre Aracaju e São Cristóvão acerca da posse do povoado Mosqueiro desde que o Deputado Federal José Carlos Machado conseguiu na justiça o direito de pagar o IPTU do seu imóvel no município sancristovense. Como já esclareci no artigo “Quantos povoados tem São Cristóvão?” (Jornal da Cidade, 27/02/2007), o ex-prefeito e atual Deputado Estadual Armando Batalha cedeu esse povoado para Aracaju de forma arbitrária e injustificada no ano de 1999.

Esse (des)caso tem uma face jurídica e outra, histórica. Quanto a primeira, lembro o pronunciamento do Deputado Estadual Wanderlê Correia, no último dia 27 de maio, quando alertou que a “doação” do povoado Mosqueiro, celebrada mediante assinatura do Termo de Ajustamento 004/1999, foi inconstitucional porque não ocorreu no prazo legal (mínimo de 6 meses antes da eleição) e, principalmente, porque não resultou de um plebiscito. 

Minha contribuição pretende revelar a face histórica do imbróglio. Motivado por uma declaração de um ouvinte, num programa radiofônico, do tipo “Mosqueiro sempre pertenceu a Aracaju”.

Inicialmente, gostaria de expor um dado acessível ao mais leigo dos leitores. Clodomir Silva (1892-1932) escreveu duas obras fundamentais para o conhecimento do nosso Estado: Álbum de Sergipe (1920) e Minha Gente (1926). No Álbum de Sergipe, ele traça panorama histórico, político e econômico dos 36 municípios que formavam o Estado de Sergipe na segunda década dó século XX. Não será difícil consultar a referida obra na Biblioteca Pública Clodomir Silva, localizada no bairro Siqueira Campos da capital, e ler que Robalo, Atalaia, Areia Branca, Santa Maria e o Mosqueiro eram povoados de São Cristóvão. (p. 305 e 308)

No ano de 2006, coordenei a primeira etapa da organização do Arquivo da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, por iniciativa da Secretaria de Administração. O esforço resultou num banco de dados de documentos produzidos entre 1821 e 1950. Dentre os vários documentos que tratam desses povoados, gostaria de evocar um livro de Registro de Imposto Territorial, com lista de sítios e domicílios debitados nos povoados entre os anos de 1948 e 1951, incluindo Mosqueiro e Robalo. Atento que esse tipo de imposto, assim como o imposto sobre coqueirais, sempre foi taxado pela Prefeitura de São Cristóvão conforme acervo armazenado no citado arquivo. Sobre o povoado Robalo, especialmente, existe um anexo do Relatório do Governador Josino Meneses a Assembléia Legislativa, de 7 de setembro de 1903, que informa a implantação de uma cadeira de ensino no povoado.

Meu conhecimento de causa vai além da imparcialidade de uma pesquisa acadêmica. Minha avó, saudosa Dinack Maria do Rosário e Silva, alugou casa do Mosqueiro a Prefeitura de São Cristóvão para servir ao destacamento policial no ano de 1943. Se o aluguel do imóvel ficava aos encargos da Prefeitura de São Cristóvão, ela tinha a jurisdição da área. Os recibos dessa transação resistiram ao tempo e as traças, eles existem.

Diante das informações supracitadas, creio não pairar dúvidas quanto a naturalidade do povoado Mosqueiro. Compreendo os serviços e investimentos que a Prefeitura de Aracaju tem efetuado na melhoria daquela comunidade, parte significativa através do Governo Federal; também compreendo o entusiasmo de alguns em se declarar morador da capital. Ainda assim, considero justa a proposição do Deputado Estadual Professor Wanderlê Correia de reclamar: a) compensação para São Cristóvão em razão da perda do território do Mosqueiro e, principalmente, b) elaboração de um plebiscito que revele o anseio democrático da questão.



FONTE: FRAGATA, José Thiago da. Anexo para o plebiscito do Mosqueiro. Jornal da Cidade. Aracaju, Ano XXXVII, N. 10761, 1 e 2/6/2008, p. B-11.



[*] Thiago Fragata é historiador, especialista em História Cultural (UFS), sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) e diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/Secult). E-mail: thiagofragata@gmail.com