sábado, 16 de agosto de 2014

AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS DO CANGAÇO

Evento foi um sucesso

Lampião: bandido ou herói? A contenda ainda divide opiniões entre os estudiosos - mesmo aqueles que asseguram imparcialidade - entre os sertanejos então, que tiveram parentes engrossando a cabroeira de Lampião ou servindo as volantes. Mas Lampião, independente do maniqueísmo que envolve sua atuação, desenvolveu dotes artísticos desde a juventude. Era um hábil artista do couro. Fazia composições poéticas de rara melodia. Exímio dançarino do xaxado, Lampião pisou a dança pelos sertões como um rito das conquistas. Ele teria imprimido no cangaço uma aura artística que o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello chegou a definir como um movimento cultural. Endossando a tese do cangaço como fonte inspiradora de arte no passado e no presente é que a Associação Sertão nas Artes propôs o ciclo de palestras “As linguagens artísticas do cangaço”, sendo que o primeiro módulo aconteceu sábado (9/8), na Câmara Municipal de Nossa Senhora da Gloria.

O historiador e poeta Thiago Fragata, convidado para coordenar a sessão, esclareceu acerca da concepção e metodologia, destacando a importância e inovação do evento se comparado a outros que abordam o cangaço. Para ele “as pesquisas sobre cangaço deveriam ter avançado, infelizmente os autores patinam no maniqueísmo bandido x herói. Apesar da presença de artistas e estudantes neste auditório, percebo o tema como algo que desagrade a maioria dos pesquisadores e a boa parcela do povo nordestino traumatizado pelo cangaço. De um lado, aqueles que heroificam Lampião resistem a aceitá-lo como um sensível artista, então descambam para o preconceito sobre tal possibilidade revelando que o isso macularia a fama de valente e cabra-macho. Por outro lado, aqueles que acusam Lampião de bandido não conseguem enxergar outra coisa além, é compreensível, afinal estão cegos pelo ódio".

O cangaço na literatura brasileira foi o título da palestra de Ramon Diego que é poeta e membro da Academia Gloriense de Letras (AGL) e da Associação Sertão na Arte. Recorrendo a constituição do sertanejo forte traçado por Euclides da Cunha e rastejando pela “biblioteca Lampião” de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Raquel de Queiroz  e Guimarães Rosa ela considerou o cangaceirismo da literatura regional e suas permanências. Diante de um tema com amplas possibilidades considerou o seu recorte como uma das tantas abordagens suscitadas pela proposta.

Jéssica Souza tratou da relação do cangaço com a dança denominada xaxado. Discorreu sobre a origem, significado do étimo “xaxado” e divulgação por parte de Lampião e do seu bando. Ela compara a manifestação artística existente em 2 municípios onde a memória do cangaço mostrasse especialíssima: Serra Talhada/PE lugar de nascimento de Lampião, Poço Redondo/SE, lugar onde Lampião deu seu último suspiro. A pesquisadora concluiu que enquanto a expressão na cidade pernambucana é consumada apenas na dança e Lampião figura como centro das atenções, no município sergipano predomina intervenções teatrais do bando que contracena com Lampião.  

Em breve, a Associação Sertão na Arte divulgará a data do segundo módulo do ciclo de palestras As linguagens artísticas do Cangaço. Você que não conseguiu prestigiar o lançamento poderá comparecer e ainda garantir certificado de participação, é o que garante o Presidente Binho Nortzd.



GALERIA DE IMAGENS 
(Fotos: Romário Andrade)




terça-feira, 12 de agosto de 2014

ANEDOTÁRIO DE SÃO CRISTÓVÃO: O RELÓGIO - III

Relógio do Sol que fica no pátio do Seminário Diocesano (Paraíba)
José Thiago da Silva Filho*

 No ruidoso mundo atual, silêncio e cemitério assumiram condição de sinônimos. Mesmo diante de obras de arte excepcionais e templos seculares que convidam a contemplação poucas pessoas desenvolvem a sensibilidade do olhar. Em uma de suas crônicas, o jornalista Junot Silveira recomenda aos visitantes como visitar “São Cristóvão de minha saudade”, este é o título da obra que diz assim:

Deve-se chegar a São Cristóvão como ensina o poeta, caminhando mansamente, pisando de leve como pisam os pássaros no seu no seu andar nervoso. Assim, respira-se melhor o ar da cidade antiga, penetra-se mais profundamente na sua atmosfera colonial, integra-se na sua tradição, na sua glória, na sua paisagem e nos seus costumes. (…) o melhor mesmo, em São Cristóvão, é adotar a receita do poeta. É o mais condizente para o visitante respeitoso, que não perde a calma e a sabedoria. (…) São Cristóvão não é para os grupos ruidosos nem o visitante apressado”. (1) Ou seja, é preciso mesmo esquecer o relógio e a maratona que alguns receptivos organizam para o turista conhecer as cidades históricas. E por falar em relógio, está na hora de voltar ao caso da pedra da força...

Se a pedra que ficava guardada num quarto isolado do antigo Sindicato dos Operários de São Cristóvão não foi base da forca, ela pode também não ter sido base de um catavento. Em 1902, Laudelino Freire publicou Quadro Chorografico de Sergipe. Nesta obra, página 150, jaz uma informação pertinente que re-orienta nossa investigação para a possibilidade da pedra em questão ter pertencido a um rudimentar relógio de sol ou relógio de água. Autor escreve que na Praça São Francisco, há pouca distância do cruzeiro em ruinas ficava a coluna “da elepsydra”.(2)!?

Depois de consultar alguns dicionários do século XIX e mesmo o Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa (1935) publicado por ele, Laudelino Freire, percebi que a palavra elepsydra não existe. Acredito que o erro foi problema de impressão ou descuido do autor; na correta grafia seria clepsydra. Clepsidra ou Clepsydra, informa o citado dicionário, é um “relógio de água usado pelos antigos”.(3)

Catavento, chafariz, água, clepsidra... desculpem! Não irei especular o mecanismo hidráulico, o desenho da engenhoca. Deixo as informações coligidas e divulgadas por conta de futuros pesquisadores interessados no caso enigmático. Se o relógio que se reportou Laudelino Freire fosse um relógio do sol em pedra calcárea, creio, seria a semelhança do que existe na Paraíba, no pátio interno do antigo Seminário Diocesano, na Igreja de São Francisco.

Uma consideração final. Para cada um dos casos pitorescos colhido entre os seus, o memorialista sancristovense Serafim Sant'iago pontuava no seu anuário como sendo “mais uma anedocta”.(4) Pois bem, fiz a minha crônica em cima dos indícios de Clodomir Silva e Laudelino Freire misturados ao anedotário popular, as estórias, causos que ainda se contam na cidade histórica. Escutei, compartilhei a luz de hipótese e da imaginação uma gênese da rumorosa pedra da forca que durante um tempo, década de 1940 e 1950, ficou recolhida numa das salas do antigo Palácio Provincial, hoje Museu Histórico de Sergipe. Sobre a hipótese na História, esclarece Besselaar numa obra indispensável a formação de pesquisadores comprometidos com investigações desafiadoras, “trata-se de uma explicação provisória de fatos insuficientemente abonados pelos documentos ainda existentes”. Quanto a imaginação, elemento difícil de dosar com os dados colhidos no exercício da escrita – isso porque um deslize definirá o produto como essencialmente ficcional – incentiva o insuperável manual Introdução aos Estudos Históricos “não se escrevem certas páginas da História sem a ajuda da imaginação”.(5)

O anedotário apresentou o caso da pedra da forca com um mínimo de rigor cientifico e imaginação. Lançar hipóteses é algo por demais temerário para quem tem reputação de pesquisador, neste caso gostaria de esclarecer ao leitor - quem sabe um pesquisador da nossa História -, que meu esforço é justamente este: lançar hipóteses. Isto sempre trás um tanto de ousadia, crescente ousadia. (fim)


* José Thiago da Silva Filho (ou Thiago Fragata) é historiador e poeta; especialista em História Cultural pela UFS; sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq); Diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/Secult). Email: thiagofragata@gmail.com Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIII, N. 12.628, 12/8/2014, p. B-6.



FONTES DE PESQUISA

([1]) SILVEIRA, Junot. São Cristóvão de minha saudade. In: São Cristóvão Del Rei. Governo de Sergipe: Imprensa Official da Bahia, 1969.

(2) FREIRE, Laudelino. Quadro Chorografico de Sergipe. Paris/Rio de Janeiro: Guarnier Livreiro-editor, 1902, p. 150.

(3) FREIRE, Laudelino. Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa - Vol II. 2ª. Rio de Janeiro: livraria José Olympio Ed., 1954 (1ª. Ed. 1935), p. 1428.

(4) SANTIAGO, Serafim. Annuário Christovense ou cidade de São Cristóvão. São Cristóvão: EDUFS, 2009.

(5) BASSELAAR, José Van Den. Introdução aos estudos históricos. 5ª. Ed. São Paulo, EPU, 1979, p. 266 e 272.

IMAGEM: Relógio do Sol, pátio interno do antigo Seminário Diocesano, na Igreja de São Francisco. Paraíba. Capturado em 20/07/2014 http://www.bancodaimagemedosom.blogger.com.br/


ANEDOTÁRIO DE SÃO CRISTÓVÃO: OS FANTASMAS - II


Antigo Palácio Provincial

 José Thiago da Silva Filho*

No romance O Encontro com o outro (1983), de José de Sacramento, ele contextualiza São Cristóvão da década de 1950. Consta o Sindicato os Operários de São Cristóvão e nele funcionando secretaria, gabinete odontológico e sala de jogos na parte superior do sobrado onde seria instalado o Museu Histórico de Sergipe em 1960. Pelo que se depreende da brincadeira do personagem Cresio que levou a secretária Valdete a incontinência urinária, o prédio era assombrado por um ilustre fantasma. O jovem explica que a alma do Governador Inácio Joaquim Barbosa arrastava correntes pelos corredores, penando pelo seu maior pecado segundo os bairristas sancristovenses: mudar a capital para Aracaju em 1855. (1) De uma forma ou de outra, fantasmas é outra estória recorrente que alimenta o gosto da plateia e não por acaso tematiza obras da literatura e do cinema como tema inoxidável.

Os fantasmas dos sobrados, conventos e igrejas seculares de São Cristóvão inspiraram a poética de Freire Ribeiro, a crônica de Junot Silveira e a ironia de José Calasans e até Câmara Cascudo na rápida visita que fez a velha cidade em abril de 1951. Pouca gente sabe disso, aliás pouca gente sabe o quanto ainda se relaciona cidade colonial com velhos fantasmas.

Velhos fantasmas é o nome da canção da banda sergipana Sibberia, que tendo conquistado um festival de música em 2011, ganhou o privilégio de gravar o clip no interior do Museu Histórico de Sergipe. O enredo trata do romance entre um homem e a alma de sua falecida amada que reside num antigo sobrado. Gravada na madrugada de 11 de junho daquele ano, o clip pode ser consultada na internet. http://letras.mus.br/sibberia/1096746/

O poeta Freire Ribeiro dedicou seu livro “São Cristovão de Sergipe D'El Rey” publicado em 1971, “às almas penadas que nos deixaram dormir tranquilamente... num velho e mal-assombrado Palácio”. Na beleza poética de sua comovente obra, João Bebe-Água é quem aparece como um fantasma de um sonho ou promessa: o retorno da capital para São Cristóvão.

BEBE-ÁGUA

Freire Ribeiro

Sentado na noite
Num trono de estrelas
Bebe-Água conversa
Com a velha cidade!...

Regressou do outro-mundo
E do sono profundo
Que a morte derrama
Com mãos de veludo
Nos olhos dos vivos
Sejam reis ou cativos!...

Bebe-água cochicha
Nas sombras da noite
Com as velhas igrejas!...
É fantasma de um sonho,
É o próprio lamento
Do ontem vestindo
O burel do passado
Na paz dum convento!

Os mortos retornam
Em sonhos amados,
Revendo, na vida,
As cousas passadas!...

Conversa um sobrado
Que está caducando
Com João Bebe-Água
Com ele lembrando
À luz de outra idade,
Os dias de glória
Da velha cidade!
Ilustres figuras
Egrégios senhores,
Humildes escravos
- sinhazinhas amadas
Que, na morte, abrumadas
Não sentem da vida
A luz e o calor!

Com chagas imensas
No corpo invisível
- as chagas do pranto
Nos olhos da dor.

Bebe-Água, coitado
Revendo o passado
Bebe-Água é saudade
Bebe-Água é amor!... (2)


Os fantasmas e a morte nas cidades coloniais nem sempre tiveram o patíbulo armado na praça central como ponto de encontro a divertir multidões. Considero improvável que a pedra procurada pelos ex-alunos da Escola do Sindicato dos Operários que funcionou entre os anos de 1949 e 1954 nas dependências do atual Museu Histórico de Sergipe tenha pertencido a uma forca, talvez a um catavento (equipamento para bombear água). Ironicamente, a cidade abençoado com as águas cristalinas da Imperial, Santa Cecília, Lev, São Cristóvão, tem no Serviço de Abastecimento de Água e Esgoto (SAAE), autarquia da Prefeitura Municipal, um carrasco a servir a população sancristovense água barrenta e onerosa - desculpem o trocadilho! - pela hora da morte. (continua)



* José Thiago da Silva Filho (ou Thiago Fragata) é historiador e poeta; especialista em História Cultural pela UFS; sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq); Diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/Secult). Email: thiagofragata@gmail.com  Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIII, n. 12.623, 6/8/2014, p. B-6.
 

FONTES DE PESQUISA
1 - SACRAMENTO, José do. O Encontro com o outro. Aracaju: Segrase, 1983, p. 75.
2 - RIBEIRO, João Freire. São Cristóvão em Sergipe Del-Rey (poesias). 1971, p. 7 e 18.
Imagem: Antigo Palácio Provincial. Década 1940. Acervo digital do MHS.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS DO CANGAÇO





Lampião: bandido ou herói? A contenda ainda divide opiniões entre os estudiosos - mesmo aqueles que asseguram imparcialidade - entre os sertanejos então, que tiveram parentes engrossando a cabroeira de Lampião ou servindo as volantes. Mas Lampião, independente do maniqueísmo que envolve sua atuação, desenvolveu dotes artísticos desde a juventude. Era um hábil artista do couro. Fazia composições poéticas de rara melodia, “acorda Maria Bonita” e “Olê, mulher rendeira” são obras de sua autoria, segundo Frederico Bezerra Maciel. Exímio dançarino do xaxado, Lampião pisou a dança pelos sertões como um rito das conquistas. Ele teria imprimido no cangaço uma aura artística que bem poderia redefini-lo enquanto um movimento cultural. Será?

Para tratar do cangaço como fonte inspiradora de arte no passado e no presente é que a Associação Sertão nas Artes apresenta o ciclo de palestras As Linguagens Artísticas do Cangaço, envolvendo acadêmicos, artistas, pesquisadores, professores e estudantes. O primeiro módulo acontece no sábado, 9/8, na Câmara Municipal de Nossa Senhora da Gloria, 14:00 horas. Confira a programação.

PROGRAMAÇÃO

LOCAL: Câmara Municipal de Nossa Senhora da Gloria
HORÁRIO: 14 horas

O CANGAÇO E SUA IMPORTÂNCIA HISTÓRICA
Thiago Fragata – Historiador e poeta, diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/Secult)

O CANGAÇO NA LITERATURA BRASILEIRA
Ramon Diego - Escritor e poeta, membro da Associação Sertão na Arte

MÚSICA E DANÇA NO CANGAÇO
Jéssica Souza – professora e historiadora, membro da Associação Sertão na Arte

OBS: Todos os participantes receberão certificados.