quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Proposição de Inscrição da Praça São Francisco na lista do Patrimônio da Humanidade

Detalhe da capa

Por Thiago Fragata*

São Cristóvão, quarta cidade mais antiga do Brasil, está na expectativa de mais um momento histórico. Em dezembro de 2005, comissão do Itamaraty inscreveu a sua candidatura na sede da Unesco, em Paris, na França, ao titulo de Patrimônio da Humanidade. A eleição foi criada na 17a. Conferência Geral da Unesco em 1972. O pleito organizado pela Convenção Internacional sobre a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural congrega mais de 150 países. Seu objetivo é desenvolver ações para guarda e proteção de bens culturais ou naturais que tenham importância universal. Todos os continentes tiveram bens declarados nas últimas décadas.

O dossiê ou a “Proposição de inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão” na lista do Patrimônio Mundial foi elaborado mediante supervisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), patrocínio do Governo do Estado de Sergipe, através da Secretária de Infra-Estrutura, e apoio institucional do Monumenta e da Prefeitura Municipal de São Cristóvão (PMSC). O dossiê teve a coordenação e produção executiva do arquiteto consultor Marco Antonio de Faria Galvão, responsável pela estruturação, coordenação de pesquisa, formulário e equipe interdisciplinar. Alguns intelectuais sergipanos contribuíram na concepção de textos sobre variados aspectos da cidade histórica.

O presente artigo pretende informar o pleito e o conteúdo do dossiê. Antes de resenhar os textos que compõem a obra, convém salientar o excelente levantamento cartográfico apresentado. Mapas dos séculos XVII, XVIII e XIX permitem vislumbrar a posição, a toponímia e as mudanças da cidade. Uma linha do tempo combina a efeméride sancristovense e o inventário dos bens imóveis. Belas fotos da década de 1940 do casario e templos religiosos fazem paralelo com tomadas recentes, inclusive, aéreas.

O primeiro artigo, “A cidade de São Cristóvão na formação histórica sergipana: da colônia aos dias atuais” é assinado por Maria Thétis Nunes. Nele a trajetória da conquista territorial, a colonização e a urbanização da cidade foram pormenorizadas, com ênfase nos principais lances da vida política sergipana que tiveram o cenário da ex-capital.

A “Evolução urbana de São Cristóvão: análise da evolução morfológica do espaço urbano” tem autoria de José Leme Galvão Junior. Apresenta 8 momentos da evolução urbana da cidade tendo como referência o Plano Urbanístico elaborado pelo Prof. Américo Simas, em 1979. Deixa patente que a fundação (1590-1606), a Mudança da Capital (1855) e a chegada da via férrea (1912) foram os momentos de maior transformação do cenário urbano, tanto na cidade-alta quanto na cidade-baixa.

Intitulado “São Cristóvão: urbanismo e arquitetura”, o artigo de Augusto Silva Teles trata da constituição da trama urbana do centro histórico, mostrando a arquitetura dos templos religiosos, praças e dos prédios civis. Interpreta as praças da Matriz, do Carmo e a São Francisco - objeto da candidatura de São Cristóvão - enquanto logradouros formadores do núcleo histórico. Faz análise substancial da Praça São Francisco desvelando seu valor cultural e justificando sua inscrição na lista dos bens culturais do Patrimônio Mundial, nas categorias II e IV.

O Professor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, por sua vez, assina o texto “Convento de Santa Cruz e a Igreja Conventual: a presença franciscana”. Esclarece que a obra autorizada pelo Capitulo Provincial em 1657 demorou mais de um século para ganhar o formato atual em razão da pobreza do lugar e da ordem religiosa. Seu relato abrange todas as dependências do majestoso convento, destacando ícones e esculturas da sacristia, claustro, altares, retábulos, etc. Atenta que o templo é único no Brasil em que a Ordem Terceira (onde funciona o Museu de Arte Sacra) é perpendicular ao convento.

“Memória e cotidiano da Praça São Francisco” tem marca de Thiago Fragata. Rememora lances e personagens enredados no aludido cenário. Apresenta a praça que fundamenta o pleito internacional enquanto espaço de festas, de religião e lazer. Endossando parecer de Eurico Amado o autor assinala que “a Praça São Francisco é, com certeza, o mais belo e harmonioso conjunto arquitetônico colonial do Brasil. Nela o visitante tem a impressão de estar integrado num longínquo instante da História, convivendo com as primeiras raízes da nacionalidade”.

A Professora Aglaé D’Ávila Fontes apresenta “São Cristóvão: aspectos culturais”. Mostra que a religiosidade do cenário, representada nas igrejas e diversas irmandades de outrora, é o fulcro das manifestações populares de louvor e alegria, como as procissões e o folclore. Dentre os festejos trata do Carnaval, do São João, da Seresta e do Festival de Arte de São Cristóvão. Explana sobre o artesanato nas suas diversas categorias: cestaria, escultura, artes plásticas, culinária, ponto-de-cruz, etc

No último artigo, Edinaldo Batista dos Santos traça “A Paisagem e o Homem: aspectos sócio-ambientais”. Embasado em números do Instituto Brasileiro Geográfico e Estatístico (IBGE), o autor discute o saneamento ambiental e as potencialidades naturais da cidade, o que amplia sua vocação para o turismo. Sobre os recursos hídricos, informa que as bacias do rio Sergipe e do Vazabarris banham a cidade, e que maior parte dos problemas da qualidade de vida da população tem relação com a água.

Eis o documento que apresenta a única cidade sergipana candidata ao titulo de Patrimônio da Humanidade. O comitê da UNESCO estará se reunindo em junho do ano corrente para análise das candidaturas. A exemplo de Ouro Preto, Olinda e Salvador, São Cristóvão reúne potencialidades indiscutíveis para merecer a unanimidade dos jurados. O patrimônio cultural dos sergipanos, orgulho de João Bebe-Água, merece o reconhecimento internacional.

* Thiago Fragata - Professor, historiador, poeta e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). E-mail: thiagofragata@gmail.com

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Já é Patrimônio da Humanidade!

Cicerone veste vermelho e fala de São Cristóvão


Comissão da Unesco visitou São Cristóvão dias 20, 21 e 22 de agosto, para verificar in loco as informações da Inscrição da Praça São Francisco na lista de bens reconhecidos como Patrimônio da Humanidade. Formada pela representante da instituição, Dora Aríza Gusmán, e pelo vice-presidente do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios no Brasil (Icomos), Eugênio de Ávila Lins, a equipe participou de reuniões com representantes da comunidade de São Cristóvão, da Prefeitura Municipal, do Governo do Estado, Monumenta, IPHAN e Ministério Público. A perspectiva é que o resultado da avaliação seja anunciado em novembro, antes o ICOMOS irá apresentar em Paris, no mês de setembro, um parecer sobre a visita.

Enquanto intelectual engajado na elaboração do dossiê de inscrição, Thiago Fragata foi convidado para ciceronear a referida comissão nas ruas do centro histórico de São Cristóvão. Também participou das reuniões, inclusive da última ocorrida no dia 23 com os sócios do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Numa de suas intervenções ele "frisou que a cidade histórica já é Patrimônio da Humandade, falta a chancela da Unesco".


sexta-feira, 10 de agosto de 2007

MESTRES DO FOLK: Mestre Raimundo


Raimundo Bispo dos Santos nasceu em Ponto Tubatinga, Bahia, em 9 de novembro de 1925. Teve infância cercada de música por influência do seu pai. Chegou em Sergipe aos 8 anos de idade, quando foi morar em Estância. Lá conheceu o Reisado, o Samba de Coco, passando a integrar os grupos, ora como tocador, ora como brincante. Mudou-se para São Cristóvão em 1959. Integrou-se com entusiasmo a Chegança da cidade histórica. Organizou o grupo dos Bacamarteiros de São Cristóvão, expressão que retrata dois momentos na História do Brasil: a vitória do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai e a caçada aos cangaceiros de Lampião. Mestre Raimundo coordena também o São Gonçalo do Amarante e o Samba de Coco.

Por Thiago Fragata - Professor, poeta, historiador e sócio-efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). E-mail: thiagofragata@gmail.com
FOTO BACAMARTEIROS: Isa Vanny da Silva Farias

MESTRES DO FOLK: Jorge do Estandarte


Nasceu Jorge dos Santos na histórica São Cristóvão, no dia 27 de fevereiro de 1935. Aprendeu folclore na vivência com a família, pai, tio e avô que eram brincantes do reisado, da taieiras, da chegança e do batalhão, sem esquecer os blocos tradicionais do carnaval. Nos anos 50 do século passado já coordenava a saída do Bloco Tira-teima, patrocinado pela fábrica têxtil Sam Christovam S. A. Morou no Rio de Janeiro entre os anos de 1960 e 1989, período que trabalhou em duas escolas de samba: Acadêmicos do Salgueiro e Bafo de Onça.

De volta a terra natal, dedicou-se as tradições cívicas, religiosas e festejos culturais, enquanto funcionário da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, oportunidade que gerenciou iniciativas no âmbito da cultura local. Conhecido na cidade como Jorge do Estandarte em razão dos riquíssimos estandartes de alto valor artístico que produz. Coordena o Grupo União do São Gonçalo, que tem sede na própria residência, onde acontece ensaios regulares de Reisado, Samba de Coco, Reisado e Batalhão de São João.
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BATALHÃO DE SÃO JOÃO

Festejar os santos juninos (São João, Santo Antônio, São Pedro e Santa Isabel) é o fito do Batalhão. A percussão ritma brincantes e frentista, a semelhança das batucadas, no embalo de cânticos nordestinos. Estandarte e elementos juninos adornam a indumentária que brilha em movimentos de passada e giro. A Rainha do Milho é uma figura de destaque no Batalhão de São João.

MESTRES DO FOLK: Mestre Rindú

Nasceu no bairro do Apicum Merém, em São Cristóvão, no dia 18 de setembro de 1940. Desde muito cedo aprendeu a dançar folclore e a pescar, como atividades complementares, uma como forma de lazer, outra como meio de sobrevivência. Aprendeu com João Curtiço a Chegança de São Cristóvão, hoje desativada, bem como na Caceteira do falecido João de Cota, de quem herdou os brincantes da Banca do Peixe, reduto dos pescadores da cidade histórica.

O Mestre Rindú, apelido de José Gonçalo dos Santos, se destaca nos eventos que participa a frente da Caceteira. Vestido para Chegança teve destaque especial no Seminário Nacional de Culturas Populares, que aconteceu em Brasília, em fevereiro de 2005. Enquanto Mestre da Caceteira recebeu o troféu Mestre Cadunga outorgado pela Prefeitura Municipal de Laranjeiras, cidade histórica de forte tradição cultural. Mestre Rindú é um dos ícones do folclore sancristovense.
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CACETEIRA

A caceteira é uma manifestação folclórica tradicional no período junino de São Cristóvão, a quarta cidade mais antiga do Brasil. Entoando cantigas do cancioneiro popular sergipano, homens e mulheres compõem o cortejo animado por zabumbas, ganzá e cuíca. O nome caceteira lembra o processo artesanal de sova do couro dos instrumentos de percussão e o próprio batuque “à base de cacetes”.

As caceteiras mais antigas de São Cristóvão datam da primeira metade do século XX. A Caceteira da Dona Biu e a Caceteira de João de Cota, ambas desaparecidas com o falecimento dos seus mentores, ainda resistem na memória coletiva da cidade. Atualmente, a única manifestação folclórica desse gênero é a Caceteira do Rindú, apelido do seu coordenador, o Sr. José Gonçalo dos Santos. De acordo com a tradição, todos os anos, no dia 31 de maio, a Caceteira do Rindú composta de 26 brincantes percorre as ruas do centro histórico numa batucada que festeja a chegada do mês junino. A meia-noite, o repique dos sinos das igrejas centenárias é louvado com emoção: “o sino do Carmo abalou, abalou deixa abalar”, diz o refrão.


Por Thiago Fragata - Professor, poeta, historiador e sócio-efetivo do Insituto Histórico e Geográfico de Sergipe. E-mail: thiagofragata@gmail.com

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Monteiro Lobato, o folclorista

Primeiro livro de Monteiro Lobato (1917)


RESUMO: artigo trata da contribuição de Monteiro Lobato, na seara do folclore, a partir da sua obra "O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito", de 1917.



Por Thiago Fragata*

Nesse mês de agosto é pertinente ressaltar a contribuição de Monteiro Lobato ao folclore brasileiro. Muitos perfis do insigne intelectual foram desvelados pelos estudiosos de sua obra: escritor, editor, missivista, pedagogo, diplomata, economista, financista, humorista, crítico de arte, poeta, patriota, panfletista. Apenas o raro trabalho “Monteiro Lobato, o Folklore e o Çaa Cy Pererég”, assinado por Alceu Maynard Araújo, em 1948, destaca o pioneirismo de Lobato na pesquisa etnográfico e na promoção do folclore brasileiro, focando o caso do fantástico Saci Pererê. 


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