sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

MEMÓRIA E COTIDIANO DA PRAÇA SÃO FRANCISCO

vista aérea da Praça São Francisco

Por Thiago Fragata*

A antiga São Cristóvão tem configuração urbanística medieval - lembra uma acrópole grega – arquitetada segundo mentalidade de seus benfeitores em duas cidades ou planos: a cidade-alta e a cidade-baixa. A cidade-alta ou centro histórico sediava a estrutura do poder político-judicial e religioso da Capitania de Sergipe D’El Rey, quanto à cidade baixa estava destinada ao comercio e a pesca facultada pelo rio Paramopama, afluente do rio Vaza-barris que constituía principal zona da produção canavieira. Uma e outra cidade aglomerava atores distintos, classes distintas, que em raríssimas ocasiões contracenavam nas praças da urbe secular. No centro encontramos a Praça da Matriz, a Praça do Carmo e a Praça São Francisco. Atento para as praças porque elas testemunharam as batalhas, as solenidades cívicas, os atos religiosos e as festas, de certa forma os momentos mais especiais da vida sancristovense.

A Praça São Francisco tem História. Dentre tantos conceitos que a palavra praça pode representar o mais compreensível de todos é o de um espaço amplo e aberto cercado de edifícios. Dessa forma ponho em relevo o caso da Praça São Francisco, nome emprestado do antigo e portentoso Convento que junto com a Santa Casa de Misericórdia e o Palácio Provincial desenham seu retângulo ou seu espaço de vivências. No desenrolar dos séculos a memória dessa praça assustaria o leigo: colonizadores despossuídos rogam auxílio às portas da Misericórdia, assim como os órfãos, as viúvas e tantos infelizes; holandeses queimam e matam pelo controle da cidade amontoando defuntos no espaço público; franciscanos arregimentam trabalhadores para construção de um convento; frequentemente, solenidades garbosas marcam a posse de capitães-mores e ouvidores.

Povo, poder e clero deixaram suas pegadas na Praça São Francisco. Tantas personalidades... seria inútil citar e impossível quantificar. Incita nossa imaginação pensar o que pensou/sentiu Gregório de Matos Guerra quando esteve em São Cristóvão em fins do século XVII. Embora não tenha pintado com seus versos sarcásticos uma lisonjeira “Descrição da cidade de Sergipe Del Rey”, o poeta barroco afirma ter encontrado “dois conventos, seis padres, três letrados”.(1) No entanto, a antiga capital sergipense, pacata demais, pobre demais, diferente da capital baiana, Salvador, que também não tinha o afeto de “Boca do inferno”, no século XX agrada Irmã Dulce no momento em que inicia seus estudos num dos conventos da cidade.

A Praça de São Francisco tem religião. Não apenas o convento que outrora abrigou a ordem franciscana tão dinâmica na vida social da cidade, mas os carmelitas e religiosos das tantas irmandades católicas sempre organizaram quermesses, sermões, missas campais e procissões nessa praça. Tanto a Procissão do Senhor dos Passos quanto a Procissão do Fogaréu e a encenação da Paixão de Cristo tem seu enredo, cenário e palco na Praça São Francisco. E ela tem efetivamente participado do cotidiano da cidade em mais de quatros séculos de experiência histórica.

A Praça São Francisco tem festa. Espaço principal de eventos como o Carnaval, o São João, a Cidade Seresta e o Festival de Arte de São Cristóvão, nela se concentram os respectivos brincantes do frevo, do forró, da boemia e da cultura popular. O patrimônio imaterial ganha relevo nesta praça. Nas serestas milhares de espectadores festejam o desempenho de astros da música nacional no cenário barroco que complementa o romantismo de canções e noites enluaradas.

Por último e não menos importante, vale ressaltar que a referida praça é um postal completo da cidade histórica, êxtase dos visitantes e pesquisadores, o que nos remete a verdade de Eurico Amado quando reputa que “a Praça São Francisco é, com certeza, o mais belo e harmonioso conjunto arquitetônico colonial do Brasil. Nela o visitante tem a impressão de estar integrado num longínquo instante da História, convivendo com as primeiras raízes da nacionalidade" (2). Não se pode esquecer que o Museu Histórico de Sergipe e o Museu de Arte Sacra estão situados na referida praça, respectivamente, nas dependências do antigo Palácio Provincial (1960) e na Ordem Terceira do Convento São Francisco (1974). Um e outro permitem ao visitante conhecer o imaginário e a reconstituir a vida, o ambiente religioso e social dos séculos XVII, XVIII, XIX e início do XX.

*Thiago Fragata é historiador, professor, poeta e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Esse texto integra a Inscrição da praça São Francisco na lista de Patrimônio da Humanidade, 2006. E-mail: thiagofragata@gmail.com
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
1 - NUNES, Maria. Sergipe Colonial II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996, p. 317.
2 - CARVALHO, Eliane Maria Silveira Fonseca. São Cristóvão e seus monumentos: 400 anos de História. Aracaju, 1989, p. 27.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

90 anos do Saci Pererê - Entrevista

"Lobatiano de Sergipe" concedeu entrevista para Tatiana Notaro, do Jornal do Commercio (edição de 31/10/2007), em alusão aos 90 anos da estréia do Saci na literatura brasileira. Confira:
TATIANA NOTARO - Qual era a ligação de Lobato com o folclore?
THIAGO FRAGATA -
Em meados do século XIX, o inglês William John Thoms fixou a expressão folk-lore para designar os saberes populares, criando assim um vasto campo de pesquisa a partir do variado acervo do conhecimento popular. Esse variado acervo compreende seres fantásticos, expressões lingüísticas, culinária, danças, estórias, artesanato, etc. O folclore na sua amplitude foi matéria-prima da produção literária de Monteiro Lobato, além das obras estrangeiras a respeito do tema, ele conhecia as contribuições de autores como Pereira da Costa, Melo Morais Filho, Sílvio Romero e João Ribeiro. Depois de escutar os caboclos da sua fazenda no Buquira, passou a desenvolver o tema nas páginas da Revista do Brasil, em 1916. Nacionalista, em 1917 ele questionava a atenção que instituições culturais como o Liceu de Artes e Ofícios concedia aos duendes e seres fantásticos do mundo europeu, sugerindo a incorporação de elementos da mitologia brasílica. Depois de realizar enquête no Jornal O Estado de São Paulo que possibilitou a ele juntar informações de várias partes sobre o negrinho peralta que guinchava pelas matas, Lobato organizou concurso de artes plásticas favoreceu a fixação de uma imagem do Saci. Com esse farto material publica seu primeiro livro ainda em 1917, intitulado Saci-Pererê: resultado de um inquérito. Nesse primeiro momento constatamos o contato dele com o lendário Saci e seu tino de folclorista.

Tanto na obras para adultos, quanto na série do Sítio do Picapau Amarelo, sua criatividade literária iria transformar essa matéria-prima, o folclore, ressignificando-a com nuances inventadas pelo escritor; para citar um exemplo, a cuca um temível animal do amazonas ganha voz e caldeirão de bruxa européia. A relação de Lobato com o folclore era intensa, os “causos” do Tio Barnabé e Anastácia, os ditos populares, o uso das estórias como lição de moral, o arrebatamento e adaptações do Minotauro, Hércules e outros seres da mitologia grega, enfim o aspecto lúdico que caracteriza boa parte do conjunto de sua obra infantil revela sua relação com o folclore.

TATIANA NOTARO - O saci é uma personagem que teve origem no imaginário indígena. Como ele chegou a integrar o imaginário geral?
THIAGO FRAGATA -
A idéia de que o Saci está relacionada ao imaginário indígena aparece nos estudos de Luis da Camara Cascudo, especialmente na Geografia dos Mitos Brasileiro, em 1947. Importante destacar suas observações: de que saci, a palavra, é de origem tupi-guarani e nomeia algumas aves da região sul variando para Matinta-Perera, inclusive. Apesar de inferir uma semelhança com o negrinho a partir do fato de algumas dessas aves conseguirem enganar sua localização com canto, de pousar numa perna só, é impossível localizar o Saci numa ave, aliás, essa impossibilidade se repete com o Uirapuru, ave fantástica da região amazônica. Camara Cascudo observa que o Saci pássaro povoa o imaginário das populações da Argentina ao México. Interessante é que a presença do Saci negrinho de uma perna só, de carapuça vermelha e mágica, que azedava leite, fazia nós na crina dos cavalos e além de outras diabruras surgiu no sudeste e sul (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul), no final do século XVIII. No norte suas características serão notadas em outro mito, a Caipora. Apesar da sua origem indígena ou africana declarada, a influencia portuguesa é maior do podemos pensar, principalmente seus hábitos e poderes que se repetem nos seres mitológicos europeus. Alceu Maynard Araújo declara num estudo de 1948 que esse negrinho era o “mito-síntese de três raças”. Os trabalhos acadêmicos, as músicas e mesmo as estórias da Turma do Pererê, criação do artista Ziraldo, substanciam o imaginário geral a respeito do Saci.

TATIANA NOTARO - Qual a origem do nome "saci"?
THIAGO FRAGATA -
Apesar dos antigos cronistas do Brasil colonial não terem registrado a presença do Saci, a palavra é de origem tupi-guarani, desdobramento de Çaa Cy Pererég.
TATIANA NOTARO - Por qual motivo o senhor escolheu ser um estudioso da obra lobatiana?
THIAGO FRAGATA -
A obra de Lobato sempre atraiu minha atenção. Já conhecia alguns livros infantis e o Sítio do Picapau Amarelo na televisão. Em 2002 herdei as Obras Completas de Monteiro Lobato, composta de 44 volumes organizados pelo Edgar Cavalheiro. Lembro que a coleção é dividida em literatura geral (para adultos), infantil e traduções. A valiosa herança pertenceu ao meu avô paterno, Manoel Políbio da Silva, falecido naquele ano. Devo a ele o gosto pela literatura por isso batizei minha biblioteca com o seu nome. Desde então comecei leitura sistemática dos livros, reli desconstruindo os textos e cartas, busquei seus críticos, biógrafos e especialistas. Resultado da empreitada: comecei a escrever uma trilogia sobre sua importância em alguns campos do conhecimento. Falarei do primeiro porque já foi publicado, um artigo intitulado “Monteiro Lobato, o folclorista”, justamente para mostrar a contribuição dele nessa área tomando o caso do Saci como mote. Esse trabalho se acha disponível no site (http://thiagofragata.blogspot.com/2007/08/monteiro-lobato-o-folclorista.html)

TATIANA NOTARO - Em qual obra Lobato cita pela primeira vez o saci? Qual a data de publicação dessa obra?
THIAGO FRAGATA -
No seu primeiro livro Saci: resultado de um inquérito, publicado em 1917. Este foi o verdadeiro marco zero da indústria editorial brasileira, pois foi editado às expensas do autor, reuniu depoimentos veiculados no jornal O Estado de São Paulo, naquele ano, e das gravuras que personificaram o Saci no já citado concurso de artes plásticas.
TATIANA NOTARO - Como é o Saci no imaginário lobatiano?
THIAGO FRAGATA -
É o negrinho risonho, sempre alegre apesar de ter somente uma perna. Que tem uma touca mágica com poderes de deixá-lo invisível. Faz peraltices, fuma cachimbo. Na sua condição de escritor de livros infantis, Lobato adiciona elementos que satisfaçam seu público e tenham significo moralizador, esta é uma das marcas da sua literatura carente de análise.
TATIANA NOTARO - O senhor acredita que Monteiro Lobato tenha sido o grande responsável pela popularização do saci?
THIAGO FRAGATA -
Tenho plena convicção que ele chamou atenção do Brasil para esse mito em 1916 e 1917, e num segundo momento popularizou a medida em que inseriu como personagem do Sítio do Picapau Amarelo. Publicou O Saci, em 1921, para crianças. Essa popularidade ganharia relevo com os folcloristas, com a interpretação dos artistas plásticos, desenhistas, compositores e, por último, através das adaptações do sítio encantado para a televisão.
TATIANA NOTARO - Como é o saci "original"?
THIAGO FRAGATA -
Não existe consenso em meio aos relatos compulsados pelo Monteiro Lobato em 1917 sobre o ser fantástico, da mesma forma que não existe consenso entre os ornitologistas sobre qual a ave seria o Saci original.
TATIANA NOTARO - Quais outras personagens folclóricas ganharam vida nas obras de Lobato?
THIAGO FRAGATA -
Além do Saci e de outros elementos do nosso folclore, como a vitória-régia, o Uirapuru, a Caipora, a Mula sem-cabeça, o Lobisomem, a Iara, Lobato arrebata para as estórias do Sitio do Picapau Amarelo uma boa parte dos seres da mitologia grega.
TATIANA NOTARO - O que o senhor destacaria de mais curioso nesse estudo de Lobato a respeito do saci?
THIAGO FRAGATA -
Seu pioneirismo, sem dúvida. Importante perceber que houve uma preocupação metodológica, etnográfica, na pesquisa organizada para personificar o Saci que os caboclos de São Paulo e Minas Gerais acreditavam povoar os campos.
TATIANA NOTARO - O que o senhor destacaria como principal peculiaridade da obra lobatiana?
THIAGO FRAGATA -
Monteiro Lobato foi um homem de pensamento, escrita e ação; sua obra compreende essas três esferas. Aí destaco sua peculiaridade. Esse grande brasileiro, um tanto conservador, é verdade, mal compreendido também, pensou o Brasil, apontou soluções, escreveu para adultos, revolucionou o mercado editorial brasileiro, formou gerações, ainda forma, através da sua obra infantil. Da atualidade de sua obra, lembro frase proferida nos tempos de embates a favor do petróleo e contra a truculência de Getúlio Vargas, no Estado Novo: “uma bala não acaba com uma boa idéia, o que acaba com uma boa idéia é uma idéia melhor”.
Thiago Fragata é licenciado em História e pós-graduando em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) e co-autor da Proposição de Inscrição de São Cristóvão a Patrimônio da Humanidade. E-mail: thiagofragata@gmail.com

terça-feira, 11 de setembro de 2007

CICERONE DE SÃO CRISTÓVÃO

Tenho repetido a saudação de cicerone
aos novos e velhos amigos... e desconhecidos.

São Cristóvão, São Cristóvão
Cidade minha, metáfora de todos
Esfinge de quatro séculos
A lançar enigmas imemoriais
Aos alunos, professores, turistas, pesquisadores...

São Cristóvão, São Cristóvão
Quem não a conhece repete o erro do convertido
Que não vai a Meca depois de aceitar Alá
Pra mim sempre Patrimônio da Humanidade
Tempo, templos para debulhar terços pela vida.

São Cristóvão, São Cristóvão
Tenho encenado Gonçalves Dias
“Todos cantam a sua terra,
também vou cantar a minha”.

São Cristóvão, São Cristóvão
Lembro o conselho de Leon Tolstoi
“Se queres ser universal,
canta a tua aldeia”.

Thiago Fragata é professor, historiador, poeta e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. E-mail: thiagofragata@gmail.com

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

JOÃO BEBE-ÁGUA: o mito em carne e osso

Boneco gigante de João Bebe-Água
confeccionado para animar o carnaval de São Cristóvão

Thiago Fragata*


Nesse momento que São Cristóvão, ex-capital do Estado do Sergipe, figura enquanto candidata ao título de Patrimônio da Humanidade a ser concedido pela UNESCO, é preciso refletir em torno do seu patrimônio material e imaterial. Aproveito para divulgar as informações coligidas nos últimos anos sobre o lendário João Bebe-Água.

João Nepomuceno Borges nasceu em São Cristóvão, no ano de 1823, era filho do capitão Francisco Borges da Cruz e teve um irmão de nome Silvério da Costa Borges. Nada sabemos sobre a sua formação escolar, apenas que aprendeu ler e escrever com maestria, sem a qual não desempenharia os cargos públicos.


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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Proposição de Inscrição da Praça São Francisco na lista do Patrimônio da Humanidade

Detalhe da capa

Por Thiago Fragata*

São Cristóvão, quarta cidade mais antiga do Brasil, está na expectativa de mais um momento histórico. Em dezembro de 2005, comissão do Itamaraty inscreveu a sua candidatura na sede da Unesco, em Paris, na França, ao titulo de Patrimônio da Humanidade. A eleição foi criada na 17a. Conferência Geral da Unesco em 1972. O pleito organizado pela Convenção Internacional sobre a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural congrega mais de 150 países. Seu objetivo é desenvolver ações para guarda e proteção de bens culturais ou naturais que tenham importância universal. Todos os continentes tiveram bens declarados nas últimas décadas.

O dossiê ou a “Proposição de inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão” na lista do Patrimônio Mundial foi elaborado mediante supervisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), patrocínio do Governo do Estado de Sergipe, através da Secretária de Infra-Estrutura, e apoio institucional do Monumenta e da Prefeitura Municipal de São Cristóvão (PMSC). O dossiê teve a coordenação e produção executiva do arquiteto consultor Marco Antonio de Faria Galvão, responsável pela estruturação, coordenação de pesquisa, formulário e equipe interdisciplinar. Alguns intelectuais sergipanos contribuíram na concepção de textos sobre variados aspectos da cidade histórica.

O presente artigo pretende informar o pleito e o conteúdo do dossiê. Antes de resenhar os textos que compõem a obra, convém salientar o excelente levantamento cartográfico apresentado. Mapas dos séculos XVII, XVIII e XIX permitem vislumbrar a posição, a toponímia e as mudanças da cidade. Uma linha do tempo combina a efeméride sancristovense e o inventário dos bens imóveis. Belas fotos da década de 1940 do casario e templos religiosos fazem paralelo com tomadas recentes, inclusive, aéreas.

O primeiro artigo, “A cidade de São Cristóvão na formação histórica sergipana: da colônia aos dias atuais” é assinado por Maria Thétis Nunes. Nele a trajetória da conquista territorial, a colonização e a urbanização da cidade foram pormenorizadas, com ênfase nos principais lances da vida política sergipana que tiveram o cenário da ex-capital.

A “Evolução urbana de São Cristóvão: análise da evolução morfológica do espaço urbano” tem autoria de José Leme Galvão Junior. Apresenta 8 momentos da evolução urbana da cidade tendo como referência o Plano Urbanístico elaborado pelo Prof. Américo Simas, em 1979. Deixa patente que a fundação (1590-1606), a Mudança da Capital (1855) e a chegada da via férrea (1912) foram os momentos de maior transformação do cenário urbano, tanto na cidade-alta quanto na cidade-baixa.

Intitulado “São Cristóvão: urbanismo e arquitetura”, o artigo de Augusto Silva Teles trata da constituição da trama urbana do centro histórico, mostrando a arquitetura dos templos religiosos, praças e dos prédios civis. Interpreta as praças da Matriz, do Carmo e a São Francisco - objeto da candidatura de São Cristóvão - enquanto logradouros formadores do núcleo histórico. Faz análise substancial da Praça São Francisco desvelando seu valor cultural e justificando sua inscrição na lista dos bens culturais do Patrimônio Mundial, nas categorias II e IV.

O Professor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, por sua vez, assina o texto “Convento de Santa Cruz e a Igreja Conventual: a presença franciscana”. Esclarece que a obra autorizada pelo Capitulo Provincial em 1657 demorou mais de um século para ganhar o formato atual em razão da pobreza do lugar e da ordem religiosa. Seu relato abrange todas as dependências do majestoso convento, destacando ícones e esculturas da sacristia, claustro, altares, retábulos, etc. Atenta que o templo é único no Brasil em que a Ordem Terceira (onde funciona o Museu de Arte Sacra) é perpendicular ao convento.

“Memória e cotidiano da Praça São Francisco” tem marca de Thiago Fragata. Rememora lances e personagens enredados no aludido cenário. Apresenta a praça que fundamenta o pleito internacional enquanto espaço de festas, de religião e lazer. Endossando parecer de Eurico Amado o autor assinala que “a Praça São Francisco é, com certeza, o mais belo e harmonioso conjunto arquitetônico colonial do Brasil. Nela o visitante tem a impressão de estar integrado num longínquo instante da História, convivendo com as primeiras raízes da nacionalidade”.

A Professora Aglaé D’Ávila Fontes apresenta “São Cristóvão: aspectos culturais”. Mostra que a religiosidade do cenário, representada nas igrejas e diversas irmandades de outrora, é o fulcro das manifestações populares de louvor e alegria, como as procissões e o folclore. Dentre os festejos trata do Carnaval, do São João, da Seresta e do Festival de Arte de São Cristóvão. Explana sobre o artesanato nas suas diversas categorias: cestaria, escultura, artes plásticas, culinária, ponto-de-cruz, etc

No último artigo, Edinaldo Batista dos Santos traça “A Paisagem e o Homem: aspectos sócio-ambientais”. Embasado em números do Instituto Brasileiro Geográfico e Estatístico (IBGE), o autor discute o saneamento ambiental e as potencialidades naturais da cidade, o que amplia sua vocação para o turismo. Sobre os recursos hídricos, informa que as bacias do rio Sergipe e do Vazabarris banham a cidade, e que maior parte dos problemas da qualidade de vida da população tem relação com a água.

Eis o documento que apresenta a única cidade sergipana candidata ao titulo de Patrimônio da Humanidade. O comitê da UNESCO estará se reunindo em junho do ano corrente para análise das candidaturas. A exemplo de Ouro Preto, Olinda e Salvador, São Cristóvão reúne potencialidades indiscutíveis para merecer a unanimidade dos jurados. O patrimônio cultural dos sergipanos, orgulho de João Bebe-Água, merece o reconhecimento internacional.

* Thiago Fragata - Professor, historiador, poeta e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). E-mail: thiagofragata@gmail.com

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Já é Patrimônio da Humanidade!

Cicerone veste vermelho e fala de São Cristóvão


Comissão da Unesco visitou São Cristóvão dias 20, 21 e 22 de agosto, para verificar in loco as informações da Inscrição da Praça São Francisco na lista de bens reconhecidos como Patrimônio da Humanidade. Formada pela representante da instituição, Dora Aríza Gusmán, e pelo vice-presidente do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios no Brasil (Icomos), Eugênio de Ávila Lins, a equipe participou de reuniões com representantes da comunidade de São Cristóvão, da Prefeitura Municipal, do Governo do Estado, Monumenta, IPHAN e Ministério Público. A perspectiva é que o resultado da avaliação seja anunciado em novembro, antes o ICOMOS irá apresentar em Paris, no mês de setembro, um parecer sobre a visita.

Enquanto intelectual engajado na elaboração do dossiê de inscrição, Thiago Fragata foi convidado para ciceronear a referida comissão nas ruas do centro histórico de São Cristóvão. Também participou das reuniões, inclusive da última ocorrida no dia 23 com os sócios do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Numa de suas intervenções ele "frisou que a cidade histórica já é Patrimônio da Humandade, falta a chancela da Unesco".


sexta-feira, 10 de agosto de 2007

MESTRES DO FOLK: Mestre Raimundo


Raimundo Bispo dos Santos nasceu em Ponto Tubatinga, Bahia, em 9 de novembro de 1925. Teve infância cercada de música por influência do seu pai. Chegou em Sergipe aos 8 anos de idade, quando foi morar em Estância. Lá conheceu o Reisado, o Samba de Coco, passando a integrar os grupos, ora como tocador, ora como brincante. Mudou-se para São Cristóvão em 1959. Integrou-se com entusiasmo a Chegança da cidade histórica. Organizou o grupo dos Bacamarteiros de São Cristóvão, expressão que retrata dois momentos na História do Brasil: a vitória do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai e a caçada aos cangaceiros de Lampião. Mestre Raimundo coordena também o São Gonçalo do Amarante e o Samba de Coco.

Por Thiago Fragata - Professor, poeta, historiador e sócio-efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). E-mail: thiagofragata@gmail.com
FOTO BACAMARTEIROS: Isa Vanny da Silva Farias

MESTRES DO FOLK: Jorge do Estandarte


Nasceu Jorge dos Santos na histórica São Cristóvão, no dia 27 de fevereiro de 1935. Aprendeu folclore na vivência com a família, pai, tio e avô que eram brincantes do reisado, da taieiras, da chegança e do batalhão, sem esquecer os blocos tradicionais do carnaval. Nos anos 50 do século passado já coordenava a saída do Bloco Tira-teima, patrocinado pela fábrica têxtil Sam Christovam S. A. Morou no Rio de Janeiro entre os anos de 1960 e 1989, período que trabalhou em duas escolas de samba: Acadêmicos do Salgueiro e Bafo de Onça.

De volta a terra natal, dedicou-se as tradições cívicas, religiosas e festejos culturais, enquanto funcionário da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, oportunidade que gerenciou iniciativas no âmbito da cultura local. Conhecido na cidade como Jorge do Estandarte em razão dos riquíssimos estandartes de alto valor artístico que produz. Coordena o Grupo União do São Gonçalo, que tem sede na própria residência, onde acontece ensaios regulares de Reisado, Samba de Coco, Reisado e Batalhão de São João.
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BATALHÃO DE SÃO JOÃO

Festejar os santos juninos (São João, Santo Antônio, São Pedro e Santa Isabel) é o fito do Batalhão. A percussão ritma brincantes e frentista, a semelhança das batucadas, no embalo de cânticos nordestinos. Estandarte e elementos juninos adornam a indumentária que brilha em movimentos de passada e giro. A Rainha do Milho é uma figura de destaque no Batalhão de São João.

MESTRES DO FOLK: Mestre Rindú

Nasceu no bairro do Apicum Merém, em São Cristóvão, no dia 18 de setembro de 1940. Desde muito cedo aprendeu a dançar folclore e a pescar, como atividades complementares, uma como forma de lazer, outra como meio de sobrevivência. Aprendeu com João Curtiço a Chegança de São Cristóvão, hoje desativada, bem como na Caceteira do falecido João de Cota, de quem herdou os brincantes da Banca do Peixe, reduto dos pescadores da cidade histórica.

O Mestre Rindú, apelido de José Gonçalo dos Santos, se destaca nos eventos que participa a frente da Caceteira. Vestido para Chegança teve destaque especial no Seminário Nacional de Culturas Populares, que aconteceu em Brasília, em fevereiro de 2005. Enquanto Mestre da Caceteira recebeu o troféu Mestre Cadunga outorgado pela Prefeitura Municipal de Laranjeiras, cidade histórica de forte tradição cultural. Mestre Rindú é um dos ícones do folclore sancristovense.
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CACETEIRA

A caceteira é uma manifestação folclórica tradicional no período junino de São Cristóvão, a quarta cidade mais antiga do Brasil. Entoando cantigas do cancioneiro popular sergipano, homens e mulheres compõem o cortejo animado por zabumbas, ganzá e cuíca. O nome caceteira lembra o processo artesanal de sova do couro dos instrumentos de percussão e o próprio batuque “à base de cacetes”.

As caceteiras mais antigas de São Cristóvão datam da primeira metade do século XX. A Caceteira da Dona Biu e a Caceteira de João de Cota, ambas desaparecidas com o falecimento dos seus mentores, ainda resistem na memória coletiva da cidade. Atualmente, a única manifestação folclórica desse gênero é a Caceteira do Rindú, apelido do seu coordenador, o Sr. José Gonçalo dos Santos. De acordo com a tradição, todos os anos, no dia 31 de maio, a Caceteira do Rindú composta de 26 brincantes percorre as ruas do centro histórico numa batucada que festeja a chegada do mês junino. A meia-noite, o repique dos sinos das igrejas centenárias é louvado com emoção: “o sino do Carmo abalou, abalou deixa abalar”, diz o refrão.


Por Thiago Fragata - Professor, poeta, historiador e sócio-efetivo do Insituto Histórico e Geográfico de Sergipe. E-mail: thiagofragata@gmail.com

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Monteiro Lobato, o folclorista

Primeiro livro de Monteiro Lobato (1917)


RESUMO: artigo trata da contribuição de Monteiro Lobato, na seara do folclore, a partir da sua obra "O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito", de 1917.



Por Thiago Fragata*

Nesse mês de agosto é pertinente ressaltar a contribuição de Monteiro Lobato ao folclore brasileiro. Muitos perfis do insigne intelectual foram desvelados pelos estudiosos de sua obra: escritor, editor, missivista, pedagogo, diplomata, economista, financista, humorista, crítico de arte, poeta, patriota, panfletista. Apenas o raro trabalho “Monteiro Lobato, o Folklore e o Çaa Cy Pererég”, assinado por Alceu Maynard Araújo, em 1948, destaca o pioneirismo de Lobato na pesquisa etnográfico e na promoção do folclore brasileiro, focando o caso do fantástico Saci Pererê. 


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Você receberá o artigo mediante pagamento de taxa de R$ 30,00 (trinta reais), esse valor simbólico custeará próximo livro de Thiago Fragata.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Barroco em Sergipe: soneto de Gregório de Matos


Descrição da cidade de Sergipe d’El Rey

Três filas de casebres remendados
Sete becos de mentrastos entupidos
Cinco soldados rotos e despidos
Doze porcos na praça bem criados.

Dois conventos, seis frades, três letrados
Um juiz com bigodes sem ouvidos
Três presos de piolhos carcomidos
Por comer dois meirinhos esfaimados.

As damas com sapatos de baeta
Palmilha de tamanca como frade,
Saia de chita, cinta de raquete.

O feijão que só faz ventosidade
Farinha de pipoca, pão de greta
De Sergipe d’El Rey esta é a cidade.

Vocabulário colonial
esfaimados: famintos
mentrastos: de mentastro, referente a resto de ervas da família das labiacidas
meirinhos: fiscais, cobradores de impostos.
sapatos de baeta: tipo de sapato de camuça, símbolo de status
pão de greta: pão mofado


Comentário do Historiador Thiago Fragata
Soneto atribuído a Gregório de Matos e Guerra, o mais polêmico dos poetas coloniais. Com ironia e sarcasmo seus versos lhe renderam o apelido de Boca do Inferno. Ao estilo dos versos tecidos para a Bahia, a Descrição da cidade de Sergipe d’El Rey, como era conhecida São Cristóvão, constitui prova de que seu autor esteve in loco na fonte de sua inspiração. Certamente, o poeta baiano passou pela então capital sergipana, em fins do século dezessete, antes de seguir para o exílio na África. O fato teria ocasionado, então, a obra poética que disseca a sociedade sancristovense, na sua (des)ordem administrativa, religiosa e material.

Para saber mais:
NUNES, Maria Thétis. Sergipe Colonial II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996, p. 242.
MOTT, Luiz. Sergipe D’El Rey: três sonetos seiscentistas. Estudos Humanísticos. Salvador, ano I, vol. I, p. 125-128.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Siqueira de Menezes: um sergipano à toda prova

Siqueira de Menezes, o "olhar da expedição"" nas palavras de Euclides da Cunha


RESUMO: Apresenta síntese biográfica de Siqueira de Menezes (1852/1931) a partir das pesquisas. O militar teve uma atuação marcante na Guerra de Canudos (1896/1897) e foi Governador de Sergipe (1910/1013).




SIQUEIRA DE MENEZES: UM SERGIPANO A TODA PROVA

Por Thiago Fragata
José de Siqueira Menezes nasceu em São Cristóvão, no dia 7 de dezembro de 1852, onde iniciou estudos primários. Concluiu o secundário em Laranjeiras, centro intelectual florescente. Quanto à formação profissional, optou pela carreira militar, matriculando-se na conceituada Escola de Engenharia do Rio de Janeiro, onde assentou praça em 1870, último ano da Guerra do Paraguai. O ideal republicano invadiu o Brasil como conseqüência do aludido conflito, pois a fórmula do regime paraguaio inculcara os nossos generais.

 
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MANIFESTO EM DEFESA DA POESIA NOS JORNAIS SERGIPANOS

“Dias maravilhosos, em que os jornais vêm cheios de poesia...”
Mário Quintana
Há décadas não lemos poesias nos jornais de Sergipe (Cinform, Jornal da Cidade, Correio de Sergipe, Jornal do Dia, etc). Há trinta anos a queixa não faria sentido, é conferir a hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe para saber do que estamos falando. O fato é que alguns editores hoje, pensam que a população sergipana não precisa de poesia para viver, malgrado um ou outro leitor endosse tal disparate. Nesse manifesto advogamos em nome da poesia diária e/ou semanal, defendendo o bem-estar e a qualidade de vida que ela proporciona no cotidiano das pessoas.

Desde cedo, a poética toma parte em nossa vida. Na infância a poesia alegra e solta a língua das crianças. Quem não recitou “batatinha quando nasce...”. Na adolescência não é muito diferente, ou se decora poesia para abrilhantar os eventos da escola ou a “azaração” entre os jovens arrola versos de poema plagiado (porque o remetente tem que se passar por autor no vale-tudo pela conquista). E ainda tem estudante que acha que uma poesia vai garantir maior nota na redação escolar. Por falar em educação, a literatura é disciplina obrigatória do ensino médio, em suma, ela apresenta as manifestações artísticas de cunho literário de certo contexto histórico, evidenciando as “escolas de arte”, destacando alguns representantes da prosa e do verso. Diante disso, fica a pergunta: qual a prática da literatura na sociedade, no tocante a poesia?

O despertar poético dos estudantes poderia ter seu laboratório na sala de aula, o que é raramente observado. Grande parte dos jovens, a propósito, retrai seu potencial diante da ênfase concedida aos poetas do livro didático. A iniciativa dos primeiros versos dá-se, na maioria das vezes, como dever extra-classe, descomprometido com o universo escolar.

A poesia e o poeta não são eremitas. Poesia é pra ser socializada, respeitando-se, claro, o direito autoral. Não pode ficar à margem - marginalizada - do cotidiano das pessoas. E os jornais sergipanos, quem diria, exilaram a poesia de suas páginas; investiram-se da nefasta missão de apartá-la da sociedade. Paradoxalmente, todos pleiteiam o rótulo do mais completo do Estado. Completo, sem poesia!?

Conclamamos os poetas e simpatizantes da poesia diária e/ou semanal a opinarem sobre o (des)caso. Será exagero? Se for, encaminharemos desculpas à imprensa, contanto que possamos, em breve, ler poesias nos jornais de Sergipe. Não faltarão poetas anônimos sedentos em divulgar seus trabalhos, nem mesmo aqueles que têm livro publicado, haja vista que a divulgação aquece as vendas. Auguramos a sensibilidade de todos que fazem à imprensa de Sergipe. Seremos mais felizes uma vez que parte da felicidade é sentimento. Poesia é sentimento.

E você, o que acha? Deixe seu comentário!
Thiago Fragata - Professor, historiador, poeta, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGS). Fonte: www.thiagofragata.blogspot.com