segunda-feira, 20 de abril de 2015

A SOMBRA DA PEDRA: ENIGMA NO RIO VAZA-BARRIS - I*

Mero, obra de Wagner Zanirato (Zamba)

Thiago Fragata**

Os intelectuais Manoel dos Passos de Oliveira Telles (1859/1935) e Severiano Cardoso (1840/1907) desenvolveram pesquisas e palmilharam povoados de São Cristóvão em fins do século XIX. Ambos tinham a ex-capital como símbolo oracular onde estariam respostas às mais diversas questões investigadas e apresentaram propostas originais relacionadas a pontos da História de Sergipe, a exemplo, a mudança da Capital. Entendiam que não bastava folhear papéis de arquivo, escutar o povo era um exercício imprescindível. Algum morador possuía a informação-chave: ouvira dos parentes, testemunhara, etc. São Cristóvão era assim a lendária esfinge a lançar enigmas aos incautos descobridores.

Na última série, “Anedotário de São Cristóvão”, compartilhei pesquisa baseada nas estórias que o povo sancristovense conta sobre a forca no imaginário dos moradores do centro histórico.(1) Acredito na memória como matéria-prima do conhecimento e da imaginação.

Recentemente, voltei a escutar as populações ribeirinhas das Pedreiras, da Ilha Grande e do Porto São Francisco a respeito de outra questão misteriosa: a sombra da pedra. Tinha 16 anos de idade quando ouvi o desabafo do meu pai, o popular Tiago do Gelo: “Não quero rede minha na sombra da pedra, chega de prejuízo!” Demorei a compreender o que representava de fato a sombra da pedra, pensei numa rocha e só. É mais que isso...

O mote deste artigo é lançar hipóteses à seguinte questão: o que significa a sombra da pedra, localizada no ponto onde o rio Paramopama se encontra com o rio Vaza-barris, entrada da antiga capital de Sergipe d'El Rey?

MORADA DO MERO - Cresci ouvindo muitas estórias contadas pela boca dos pescadores. Os relatos davam azo à imaginação... Uma tanto me impressionou que fiz apontamentos. Todo mundo acrescentava um ponto se o assunto fosse “a sombra da pedra”.

Hoje tenho uma imagem definida do rochedo, um arrecife em formato quadrangular submerso, uma base brocada visível nos períodos de calmaria quando a água desvela a silhueta de batismo. Uns falavam da sombra da pedra como sinônimo de prejuízo, porque a rede que se prendia em suas paredes de cascalho não se resgatava. Linhas e anzóis sem conta perderam-se e ornamentavam o rochedo há uns 10 metros de profundidade. Outros falavam daquele lugar como ponto piscoso.

Razões para evitar a pesca nas proximidades da sombra da pedra todos tinham. O número de “mipas” (pescaria sem peixe) constituía-se um problema que definia a possibilidade de risco/mês que um dono de rede poderia considerar. Independente de qualquer coisa, a pescaria farta seria certa aos que manejassem cautelosamente as armadilhas ali. No entanto, alguém sempre lembrava de um fulano ou beltrano que sumiu na sombra da pedra, mergulhou e nunca emergiu... 
 
A sombra da pedra não era a única coisa que atemorizava os trabalhadores do mar, naquelas águas aparentemente residia um mero. Mil estórias ainda ecoam nos meus ouvidos sobre a fantástica criatura. O nome científico do bicho é Epinephelus Itajara. Itajara é um termo tupi que significa "senhor da pedra" (itá, pedra + iara, senhor). Esse animal marinho vive nos oceanos Atlântico e Pacífico. Entre suas características, destacam-se a longevidade (pode viver até 40 anos) e sua capacidade de se camuflar no seu habitat: as pedras.(2)

Dos causos compulsados dentre os pescadores uma unanimidade, todos disseram que sombra do peixe gigante na superfície d’água, bem próximo a tal pedra, explicava a origem do nome. Após descrever o exemplar da megafauna marinha, um deles acrescentou: “E quando passou ao lado da canoa, deu para avistar ostras no seu costado, por pouco não virou meu barco.” Boa parte dos relatos sobre o mero exageram o seu tamanho e o caracteriza “velhaco” por duas razões: consegue escapulir de armadilhas, é um predador oportunista – surpreende suas vítimas. O serranídeo, animal da mesma família das garoupas e do badejo, pode atingir 2,7m de comprimento e pesar 450kg.

Faz tempo... Ninguém fala do gigante marinho que habitava a região onde o Paramopama deságua no Rio Vaza-barris, no povoado Pedreiras. Sumiu, ficou apenas o cenário. Será que alguém capturou o peixe velhaco ou ele encantou-se?”. Os que insistem na sua existência apresentam a maior prova: a sombra da pedra. (continua)

* Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIV, n. 12.838, 19 e 20/4/2015, p. B5.
** Thiago Fragata é poeta e historiador, sócio do IHGSE, professor da SEED/SE, membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq) e do Grupo de Pesquisa Sergipe Oitocentista (SEO/CNPq). Email: thiagofragata@gmail.com
NOTAS DA PESQUISA
1 - FRAGATA, Thiago. Anedotário de São Cristóvão. Jornal da Cidade, edições 2, 6 e 12 de agosto de 2014.
2 - Consulta www.merosdobrasil.org , 10 de abril 2015.
CRÉDITO DA IMAGEM: Mero, de Wagner Zanirato (Zamba), 2015.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

O QUE VERONICA BOLINA DIZ SOBRE O BRASIL





Por Tiago de Melo Gomes*


"Retrato de um país hipócrita". Ouvi isso sobre o episódio Veronica Bolina. Travesti negra agredida barbaramente por policiais sob a custódia do Estado após ser presa pelo trivialíssimo motivo de brigar com a vizinha. Todo santo dia vizinhos brigam. O simples fato de ela ter sido detida por isso já é absurdo. O que veio depois, então, é devastador. Inclui agressões e mutilação. Da parte de agentes do Estado. Dinheiro dos nossos impostos pagam para que pessoas façam com que a pessoa da esquerda seja violentada a ponto de se transformar na pessoa da direita.

Isso tudo me deixa a seguinte questão: o que fez essas pessoas se sentirem autorizadas a fazerem isso? Pra mim essa é a questão. Por pior que sejam esses humanos, eles jamais fariam isso se não achassem que poderiam. Exemplificando: todos nós conhecemos pessoas que adorariam torturar, agredir e matar quem pensa diferente delas. Mas como sabem que não podem, se aguentam. As pessoas que fizeram o que fizeram com Veronica de alguma forma se sentiram autorizadas. Em algum nível acreditaram que vivem em uma sociedade que aceita coisas assim.

Aí você olha para o congresso nacional. Pensa que lixos humanos tipo Bolsonaros e Felicianos tiveram recordes de votos pregando a opressão aos oprimidos como forma de defender a sociedade do mal. Aí você começa a pensar que o problema nem são essas pessoas, mas os eleitores delas. E se lembra que todo santo dia escuta discurso escroto, filho da puta, racista, homofóbico. Não há um mísero dia que você não escute piadinha sobre o "viadinho" que a pessoa e você conhecem. Não há mísero dia em que por algum grupo do whatsapp você não receba uma "maravilhosa" piada sobre algum grupo subalterno. E se você se sentir ofendido o desgraçado que mandou ainda banca o perseguido: "nossa, desculpa se te ofendi", fazendo parecer que você é que é sensível.

Quantas pessoas você conhece que dizem "não voto no Bolsonaro mas admiro sua coragem"? Ou "tem coisas dele que não concordo, mas ele fala umas coisas importantes"? Isso é muito sério. Pois esses lixos defendem que tá pouca opressão aos subalternos. Tem mesmo é de aumentar. Estamos matando poucos gays, estamos discriminando pouco os negros, há poucos maridos matando suas esposas, foi pouca gente morta e torturada no regime militar. Tem de aumentar. Tudo em nome da família e dos bons costumes, claro.

Também tem a versão pretensamente religiosa da coisa. Os filhos da puta lêem Jesus Cristo falando de amor e compreensão e saem por aí odiando todo mundo que não concorda com eles. Pegam partes descontextualizadas de textos escritos há milhares de anos e usam isso para disseminar o ódio. Fazem isso considerando que estão defendendo o mundo cristão. Duvido muito que os felicianos da vida acreditem nisso. Pra mim são apenas picaretas mesmo. Mas não falta gente ignorante para espalhar o ódio em nome de Jesus. O que por si só é um contra senso gigante.

Tudo isso nós vemos todo santo dia. Esse é o mundo em que vivemos. Logo, nada mais natural que um bando de policiais tenha achado super de boas prender um travesti negro por conta de uma briga com uma vizinha. Acharam normal torturar, mutilar e desfigurar essa pessoa. Lógico que eles acharam que a sociedade à sua volta permitiria que isso acontecesse. Essa é a pior parte: eles tinham toda a razão em achar isso. Esse é o país em que vivemos. Um país machista, racista, homofóbico, que cultiva com gosto esses preconceitos e vota em quem os defende. O problema não é a polícia. O problema é seu. Você, que de alguma forma compactua com as posturas descritas, é tão culpado pelo que aconteceu quanto os que torturaram Veronica.

*Professor universitário da UFR/PE. Email: melogtiago@hotmail.com

MUSEU HISTÓRICO DE SERGIPE NO CONHECENDO MUSEUS


Estive na Direção do Museu Histórico de Sergipe, instituição subordinada a Secretaria de Estado da Cultura, por quase 6 anos. Deixei o cargo em março último e eis que no último dia do mês citado, foi exibido pela TVE Brasil(EBC) e reproduzida pela TV Aperipê um programa gravado em julho do ano passado. Agradeço a todos os parceiros. Não repetirei nada do que disse antes, posto aqui para que fique documentado neste diário virtual um produto de excelente qualidade. 

Nele um visita virtual, nele um pouco da História de Sergipe, nele um pouco da história da arte sergipana, enfim, o produto é muito rico. Tenho outras matérias editadas de atividades realizadas na minha gestão que espero postar em breve.

Ah! junto com o último artigo referente ao aniversário do MHS (55 anos) esta matéria oferece um rápido relatório do foi, era, o desafio permanente da nossa equipe. Digo nossa porque "fragatas não voam só!"