sábado, 29 de março de 2014

Um historiador consagrado fala sobre a ditadura*

Ronaldo Vainfas reforçou tese da Ditabranda

PREÂMBULO NECESSÁRIO 

Aumenta minha insatisfação com o Governo Dilma em não processar criminosos da Ditadura. Essa morosidade, esse Nuremberg Tupiniquim temperado com nossa burocracia esgotou minha paciência que espera Justiça; olhe que diferente da Presidente Dilma não fui e não tive parentes torturados/mortos. Como eleitor de seu Governo, do Governo Lula, prometo fazer um post exclusivo para dedicar a este e outros pontos da minha queixa. Hoje irei apenas compartilhar texto sincero, objetivo e contundente de Tiago de Melo Gomes, Professor Dr. da Universidade Federal Rural  de Pernambuco, a respeito de um infeliz comentário do respeitado estudioso do Brasil Colônia, Ronaldo Vainfas, acerca da Ditadura. Segue texto:


UM HISTORIADOR CONSAGRADO FALA SOBRE A DITADURA

Por Tiago de Melo Gomes**

Este é um post que racionalmente eu sei que não deveria fazer. Mas há momentos na vida em que você simplesmente sabe que tem de fazer determinadas coisas. Profissionalmente eu sei que isso só pode me prejudicar. Também sei que estou dando voz a alguém que neste momento deveria ser ignorado, por mais importante que seja em sua área. Mas me perdoem. Há limite para tudo nesta vida.
 

Um historiador absolutamente excelente, chamado Ronaldo Vainfas, postou em sua página do facebook opiniões aterrorizantes sobre o regime militar. Na opinião dele, os historiadores e a mídia produzem relatos lamentáveis sobre o regime em questão. Dão voz a pessoas que inventam terem sido perseguidos. Faz os crimes da ditadura parecerem pequenos perto do nazi-fascismo. Diz que não existia censura ("censura zero", segundo ele, que só existia entre os historiadores "esquerdizantes, ignorantes", todos professando um marxismo esquemático (ele não se dá ao trabalho de explicar o que é isso). Lamenta a "bolsa-ditadura" que muitos desfrutam hoje, segundo ele, destinadas a "falsos perseguidos". E por aí vai.
 

Começo lamentando o silêncio de meus colegas sobre isso. Não de todos, mas da maioria deles. É um historiador muito importante na área de Colônia (com toda a justiça), tem trabalhos ótimos na área de historiografia e metodologia. Mas me dói ver pessoas que respeito imensamente, muitos dos quais são meus amigos, silenciarem sobre o assunto. Em parte por corporativismo. Provavelmente também por medo de afrontar uma estrelinha rodeada de puxa-sacos dispostos a aplaudir qualquer lixo que ele diga.
 

Não é que eu tenha discordâncias ideológicas com o texto em questão. Fosse isso e este post nem existiria. Por mais que eu discorde, por mais que eu odeie os defensores do regime, eu acho que é possível debater. Eles acham que havia a ameaça real de um golpe comunista, e que estávamos em guerra contra essa ameaça. Discordo do início ao fim. Acho que estão completamente errados. Mas há possibilidades de conversar sobre o assunto em termos aceitáveis.
 

Mas o que o texto do historiador em questão propõe não é isso. Ele não discute minimamente o contexto. Não coloca em questão a violência do regime. O inimigo dele são os opositores do regime. Que ele não qualifica de comunistas, de violentos ou de equivocados. Ele simplesmente diz que eram pessoas que não tinham motivo para ter medo de nada, que inventam sofrimentos que viveram e que hoje se refastelam nas "bolsas-ditadura".
 

Bolsonaro também diz isso. Tudo bem. Mas no caso é um HISTORIADOR. E dos melhores que temos. Falando como se Vladimir Herzog não tivesse sido assassinado sem ser nenhum guerrilheiro, sendo apenas o diretor da TV Cultura. Argumentando que no auge das violações dos direitos humanos, todos pudessem ter certeza que bastava não ser militante da guerrilha que não havia nada a temer. O argumento é baseado apenas num item: ele era estudante da UFF na época e não viu motivo para sentir medo.


Caro Vainfas. Na minha família ninguém nunca pegou em armas. Eram trabalhadores tentando sobreviver. Mas vários enfrentaram a prisão ou a perseguição, inclusive o meu pai. Mas a questão nem é essa. Se tivessem pego em armas estariam certos também. Essa geração está lotada de pessoas que correram riscos enormes pelo que acreditavam. Ponto enorme, monumental para ela. Se você, como estudante, não teve medo, não ache que quem sentiu isso está mentindo. Morreu muita gente que não era guerrilheira: Herzog, Rubens Paiva e tantos outros. Você deve saber disso. Se sabe, é um cretino ao desenvolver esse argumento. Se não sabe, é um ignorante.

 

Vamos ao ponto seguinte. Segundo o historiador, não havia censura no Brasil. "censura zero", diz ele. Segundo Vainfas, a censura era privilégio da esquerda. Bem, estamos falando de uma ditadura de direita, num momento (ele fala dos anos 70) no qual a guerrilha de esquerda havia sido desbaratada, mas mesmo assim fala como se Stalin fosse o dono do poder de permitir o que poderia ser dito no Brasil. Melhor não discutir.
 

Chegamos ao dia de hoje. Na opinião do historiador, seus colegas e a imprensa fazem uma leitura lamentável do que aconteceu naqueles anos. E aí chegamos à grande questão. Há mais de 20 anos o Brasil é governado por pessoas que se criaram politicamente na oposição à ditadura: Itamar, FHC, Lula e Dilma. Todos tinham (e têm) defensores do regime como aliados, e nunca tiveram coragem de meter de fato o dedo na ferida.
 

Mas a questão é que, ao menos entre historiadores e jornalistas, reina o consenso de que a ditadura foi um lixo. Matou, torturou e exilou pessoas. Condenou inumeráveis famílias ao sofrimento. O professor Vainfas fica enojado com isso. Acha que é juiz do sofrimento alheio. Age como se tivesse o poder divino de decidir quem tem o direito de se considerar atacado. Contraria barbaramente, sem nenhuma cerimônia, algo que aprendemos no primeiro semestre de graduação: historiadores não são juízes do passado. Com o aplauso dos puxa-sacos e a conivência silenciosa dos que são progressistas mas não querem problemas com um historiador conhecido. "Vai que um dia eu preciso dele" usado como justificativa para o silêncio frente a um tema tão caro.
 

O Brasil segue tendo milhões de problemas e defeitos. Mas ter tanta gente rejeitando a ditadura NÃO é um deles. Por mais triste que seja, que o professor Vainfas se junte a gente como Danilo Gentili e Rafinha Bastos. O planeta do "posso falar merda a vontade, se me questionarem digo que estou indo contra a ideologia oficial e pronto". Que não tenhamos mais espaço para gente assim, para além dos minúsculos círculos dos reaças empedernidos.


*Texto reproduzido do blog 171nalata
** Tiago de Melo Gomes - Professor Dr. da Universidade Federal Rural  de Pernambuco (UFRPe)

quinta-feira, 27 de março de 2014

Monóculo MHS - Exposição Dengos e Doçuras (29/10 a 29/11/1993)

Aglaé Fontes abraça doceira Dona Jeninha. Na sequência: Elizabete, Avanir, Dona Gedalva, Dona Nalva, Dona Terezinha, Dona Linda e Dona Zezé. Acervo MHS/1993

O rico patrimônio da gastronomia brasileira é igualmente diverso conforme seu povo, alias a criatividade do brasileiro se reflete também na cozinha. Dentre as tantas atividades educativas realizadas na gestão de Ana Fonseca Medina (1990/1995) o monóculo destaca a exposição temporária Dengos e Doçuras realizada de 29 de outubro a 29 de novembro de 1993. Esta reuniu doceiras, estudiosos como Aglaé Fontes e José Calasans Brandão da Silva, autoridades e animada plateia.

No Livro de Registro de Exposições MHS - 1993/1997, José Calasans Brandão da Silva deixou um depoimento assinado no dia 5 de novembro de 1993, que merece a atenção dos estudiosos da gastronomia:

Estive neste Museu, acompanhando o mestre Gilberto Freyre nos primeiros anos da década de 1940. O grande sociólogo por haver publicado seu livro sobre o açúcar, que é o primeiro documento da valorização da culinária regional brasileira, que tem nesta velha capital sergipana um dos mais fortes alicerces. Lembro-me que Gilberto elogiou então os doces que encontrou aqui. Pelo visto quero registrar minha satisfação pela exposição que acabo de visitar. Vale como uma eloquente prova do amor à nossa memória cultural. José Calasans Brandão da Silva, São Cristóvão, 5 de novembro de 1993”.

José Calazans e Ana Medina na exposição "Dengos e doçuras. Acervo MHS/1993
O pesquisador Thiago Fragata, diretor do MHS, atenta que em 1940 funcionava no prédio do museu uma instituição escolar. O Museu Histórico de Sergipe foi inaugurado somente em 5 de março de 1960.
 GALERIA
FOLDER com texto de apresentação de Ana Maria da Fonseca Medina e programação 
FOTOGRAFIAS
Ana Medina, diretora do MHS, discursa na abertura de exposição. Acervo MHS/1993
José Calazans e Ana Medina na exposição "Dengos e doçuras. Acervo MHS/1993
Doceiras no pátio.Acervo MHS/1993
Vendedoras: Elizabete e Avanir. Acervo MHS/1993
Público prestigiou o evento. Acervo MHS/1993
Aglaé Fontes abraça Dona Geninha. Na sequência: Elizabete, Avanir, Dona Gedalva, Dona Nalva, Dona Terezinha, Dona Linda e Dona Zezé. Acervo MHS/1993
Fogão cenográfico. Acervo MHS/1993
Compotas e Licores. Acervo MHS/1993
Doces à base de coco. Acervo MHS/1993
Apresentação do Pastoril Mirim. Acervo MHS/1993

* Monóculo é um post produzido pela equipe do MHS a partir da catalogação do acervo documental e imagético coordenado por Thiago Fragata. Iniciativa revela ações educativas do MHS, documentos e imagens do acervo. 
SABER MAIS: MONÓCULO MHS - Grupo de Poesias Iñaron - 1/10/1992

Fonte: Blog do Museu Histórico de Sergipe

segunda-feira, 24 de março de 2014

Roda de Leitura vai explorar sabores de São Cristóvão

Queijada, outro sabor encontrado em São Cristóvão

Na próxima sexta, (28/3), às 9 horas, acontece no auditório do Museu Histórico de Sergipe a Roda de Leitura “Sabores de São Cristóvão”. O evento pretende explorar textos poéticos de sabores inconfundíveis da quarta cidade mais antiga do Brasil, como da queijada, castanha caramelada, beijús e bricelets. A gastronomia constitui um patrimônio imaterial que dada sua importância se acha retida nas impressões, lembranças e na literatura. 


Ano passado o Museu Histórico de Sergipe realizou duas rodas temáticas: Polemizando Monteiro Lobato (abril), Combatendo Racismo (setembro). Para roda de leitura Sabores de São Cristóvão foram selecionados textos de Freire Ribeiro, Luiz Melo, Aglacy Mary e Thiago Fragata. 

Presença confirmada de alunos do Escola do Lar Imaculada Conceição (ELIC).


Bricelets, outro sabor encontrado em São Cristóvão

terça-feira, 11 de março de 2014

Procissão do Senhor dos Passos

Procissão do Senhor dos Passos. Foto: Marcio Garcez, 2006

Thiago Fragata*


A Procissão do Senhor dos Passos acontece em São Cristóvão há séculos, sempre realizada no segundo fim de semana da quaresma. Os dois momentos ou as duas procissões, uma chamada Procissão de Senhor dos Passos, outra chamada Procissão do Encontro fazem parte do Ciclo da Semana Santa, que tem ainda a Procissão do Fogaréu e a Procissão do Enterro do Senhor como manifestações complementares. Todas encenam o sofrimento de Jesus Cristo para remissão dos pecados da humanidade e se constituem em procissões penitenciais. [1]

Conforme reza a tradição, a guarda da imagem de Senhor dos Passos e a organização do ato processional ficava aos encargos dos leigos da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, transformada em Associação em 1977. Não é possível datar com exatidão o início da maior romaria de Sergipe, os indícios acenam que tudo começou no final do século XVIII ou início do XIX. Consta que a imagem articulada, chamada de roca, em razão das características constitutivas e mobilidade, foi encontrada no rio Paramopama, afluente do Vaza barris. Nisso, a história da imagem nutre curiosa semelhança com a da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, içada por pescadores do fundo do rio Paraíba, em São Paulo, no ano de 1717. Serafim Santiago escreveu sobre a origem da imagem do Senhor dos Passos: 

Um homem praiano (diziam elles) cujo nome não me lembro encontrou certo dia, rolando pela costa que fica ao sul da cidade, um grande caixão resultado talvez de um naufrágio de alguma sumaca; elle cuidadosamente rolou-o para a terra, abrio-o e surprehendido ficou verificando a existência de uma perfeitíssima imagem de roca em tamanho natural. O homem de educação religiosa muito honesto, tomou uma canoa e nella acomodou o referido caixão, e com outros companheiros transportou para a velha cidade o feliz e milagroso achado. Foi esta sagrada imagem ali entregue aos frades jesuítas carmelitas que collocou em uma capelinha da Egreja – Ordem 3ª. do Carmo, e depois de longos annos, mudada pra o throno do Altar-mór da mesma Egreja. Como sabem, sempre foi no segundo domingo da quaresma, o dia aprasado para effetuar a tradicional Procissão dos Passos na antiga cidade”. [2]

Dessa forma, a imagem de traços europeus teria alcançado seu destino: “A cidade de Sergipe Del Rey” [3], como estava gravado no caixão submerso das águas do Paramopama. A origem das procissões remonta à Idade Média, quando a “peste negra” e a inconstância meteorológica punham em xeque o futuro da humanidade, segundo o imaginário da época. Daí a Igreja Católica promover cortejos de relíquias sagradas, entoando ladainhas a rogar o perdão de Deus. A imagem de roca surge neste contexto para dirimir alguns problemas: o manequim articulado e leve permite montar a iconologia de qualquer santo; era preciso retirar do meio do povo imagens exclusivas de ouro e/ou prata, como também aliviar o peso do andor.

A Procissão do Senhor dos Passos, que acontece na quarta cidade mais antiga do Brasil, sai do Convento de Nossa Senhora do Carmo, no sábado à noite. Depois dos ofícios, o préstito acompanha a imagem até a Igreja de Nossa Senhora da Vitória. O que os romeiros assistem a cada ano é uma espécie de auto dramático, ambulante, barroco, com paradas denominadas “Passos” ou estações da Via Crucis. Entre a massa de fiéis predomina a túnica roxa atada com cordão, à semelhança da imagem, numa forma de compartilhar o sofrimento do nazareno como um cirineu.

As mais variadas promessas já foram cumpridas: um certo Chico Alves, arrastou pesada cruz de Aracaju a São Cristóvão; outro “pagador de promessa” esculpiu livro de madeira, como ex-voto, porque aprendeu a ler e escrever depois de adulto. Aos fiéis que acompanham o ato processional – de joelhos ou “se arrastando que nem cobra pelo chão” – o poeta Elyseu Carmelo lembrou em versos: “Quem de joelhos passa lembrando seu martyrio/ Fá-lo sinceramente seguindo o Redemptor/ Ferido e torturado, do seu calvário à via”.[4]

No domingo, acontece a Procissão do Encontro. O ápice desse ato é o encontro das imagens do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores, invocação mariana. Seguindo percurso distinto, a primeira sai da Igreja Matriz ao tempo em que a segunda sai do Convento do Carmo. Milhares de fiéis ganham as ruas e a Praça São Francisco para escutar o sermão e o canto da Verônica que enredam a comovente liturgia do catolicismo colonial.

Os milagres atribuídos ao Senhor dos Passos geraram os ex-votos e resultaram no Museu que hoje ocupa o claustro da Ordem Terceira do Carmo. Ex-voto é abreviatura de “ex-voto suscepto”, frase latina que significa “promessa feita”. [5] Como obras de arte ou prova da graça alcançada, tais objetos elaborados em madeira, parafina, gesso ou barro representam a parte do corpo sobre a qual o promesseiro rogou a intercessão do taumaturgo. No acervo do Museu dos Ex-votos, aberto a visitação pública de domingo a domingo, podemos encontrar os mais enigmáticos símbolos da fé cristã.

No passado, São Cristóvão foi centro político e religioso da Capitania de Sergipe Del Rey. Esse antigo centro de convergência religiosa preserva manifestações culturais do período colonial, como a Procissão de Senhor dos Passos.



*Thiago Fragata - Historiador e poeta, diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/Secult). Email: thiagofragata@gmail.com Artigo publicado em VIEIRA, Márcio José Garcez. Senhor dos Passos em todos os passos. Aracaju: Gráfica J. Andrade, Banco do Nordeste, 2006, p. 21-25. É um dos textos que compõe a coletânea “São Cristóvão respostas a esfinge do tempo”, que aguarda publicação.

NOTAS DE PESQUISA

[1] TINHORÃO apud NUNES, Verônica. São Cristóvão mantém tradição religiosa. Gazeta de Sergipe. Aracaju, n. 12927, 27/2/2002, p. C4.
[2] INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SERGIPEE, Aracaju. Annuario Christovense, de Serafim Santiago, 1920. p. 19verso e 20. Manuscrito.
[3]Idem.
[4] ARQUIVO GERAL DO JUDICIÁRIO DE SERGIPE, Aracaju. Sabbado de Passos, 18/2/1940. Diário de Elyseu Carmelo. Manuscrito.
[5] KARWINSKY, Esther Sant’Anna de Almeida. Ex-votos: confrontos entre o popular e o científico – uma forma milenar de comunicação de massa. Anais do Encontro Cultural de Laranjeiras. Aracaju, Governo do Estado de Sergipe, 1994, p. 317.   
MAIS: Click e confira uma roda de Leitura dedicada ao Senhor dos Passos, 2012.