quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

SOBRE UM ANTIGO CARNAVAL NO PAÇO DE SERGIPE


Serafim Santiago (1860/1932) escreveu o Anuário Christovense no início do século XX. O manuscrito esteve durante muito tempo à disposição dos pesquisadores no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), em Aracaju. No ano de 2009, a obra foi publicada pela Universidade Federal de Sergipe. O livro de memórias retrata São Cristóvão, suas festas e seu povo, no evolver do século XIX e inicio do XX. 

QUEM FOI SERAFIM SANTIAGO?
 
Memorialista e funcionário público. Filho de José Florêncio e Umbelina Santiago. Nasceu em São Cristóvão a 4 de janeiro de 1859 e faleceu no mesmo município a 1º. De setembro de 1932. Casou-se com Sara em 25 de junho de 1887. Foi pai de 9 filhos (7 são citado no anuário: João B. Santiago, Benjamin, Serafim de Santiago Junior, Francisca Xavier de Santiago, Umbelina Santiago Prudente, Anita, Pedro). Mudou-se para Aracaju em 29 de junho de 1887, onde exercera o funcionalismo público. Aos 60 anos, começou a escrever as memórias sobre a vivencia em São Cristóvão que resultariam no mais rico e inédito depoimento sobre a cultura sergipana do final do século XIX até as primeiras décadas do século XX.

Entrudo no Rio de Janeiro. Aquarela de Augustus Earle, c.1822

O QUE ELE CITA DO CARNAVAL QUE ENVOLVE O PRÉDIO DO MHS?


Até a Mudança da Capital, de São Cristóvão para Aracaju, fato ocorrido em 17 de março de 1855, o sobrado onde funciona o Museu Histórico de Sergipe serviu de Palácio Provincial, ostentando inclusive o brasão imperial, por aproximadamente 30 anos (1825/1855). Houve um Presidente da Província, denominação para Governador a época, que realizou a brincadeira do entrudo nas dependências do Palácio Provincial. Nome do Governador? Silencia o velho Apolinário José Moura de quem Serafim Santiago ouviu o fato pitoresco.

Museu Histórico de Sergipe, antigo Palácio Provincial de Sergipe. Foto: Marcelle Cristinne (ASCOM/SECULT)

ENTRUDO NO ANTIGO PAÇO DE SERGIPE SEGUNDO SERAFIM SANTIAGO (1859/1932)

“Estas festas que outrora se chamavam Entrudo, hoje tem o nome de Carnaval, época do prazer, que não podia deixar de ter também os seus dias consagrados. A Mitologia criou uma boa porção de deuses, especializando Momo, o deus da sátira e do riso, que, desprezando todas as desgraças e tristezas, veio se confundir em meio ao bacanal encarnada nesse outro deus – Baco – que representa o vinho, a loucura fantástica, enfim. As festividades obscenas de Roma, as saturnais, festas de uma torpeza inominável, consagradas ao culto de Saturno, deixaram no mundo romano as mais asquerosas tradições porque emblemavam o cúmulo da fraqueza humana, as paixões mais vergonhosas e instintos mais aproximados da bestialidade. Quanto ao entrudo, este estúpido divertimento ali usado por longos anos, sua origem vem da falsidade, traição e emboscadas. Com tudo, os cristovenses tornavam-se loucos com tal divertimento, por não ali conhecido o Carnaval, este que o povo atualmente abraça cegamente para esquecer as contrariedades da vida, procura “evoés e você me conhece?” o esquecimento dos atrasos comerciais, dos abalos morais, etc. Em São Cristóvão o atraente divertimento do Entrudo no Domingo Gordo ou Quinquagésima, há longos anos passados, chegou sua influência até o Palácio Presidencial. Tivemos na antiga cidade, um Presidente tão influído, que no referido Domingo do Entrudo, recebia os amigos e correligionários com a mesma franqueza e amabilidade do costume, usando com toda a sinceridade, a falsidade que exige o falso e traidor divertimento, mandando agarrar os amigos e visitantes, vestidos decentemente, e mergulhavam numa grande bacia cheia de água bem perfumada que se achava oculta. Esta narração ouvi repetidas vezes pelo meu velho amigo Apolinário José Moura. De muitas mortes até ainda hoje me recorda, todas as conseqüências do mal entendido divertimento, assim como muitas desconfianças de amizades de famílias cristovenses. Até o ano de 1912, não era usado o carnaval em São Cristóvão, sendo que no referido ano, este festejo foi feito ali com verdadeiro esmero e grande entusiasmo. Como em tempo remoto era muito respeitada a religião do Calvário, o estúpido divertimento (o entrudo) só terminava por completo, às 8 horas da noite de terça-feira de entrudo, quando ouvia-se dobrar o sonoro e grande sino de São Francisco, anunciando aos fiéis a entrada da quaresma no dia seguinte (quarta-feira de Cinzas)”.  

*Thiago Fragata é poeta e historiador, diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT). Email: thiagofragata@cultura.se.gov.br
 
FONTES DA PESQUISA
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora da UFS, 2009, p. 177-178. 
Sobre ENTRUDO
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carnaval_do_Brasil

Ilha Grande: descobrindo outro patrimônio em São Cristóvão - I

Ilha Grande. Foto: Danielle Pereira, 2014
Por Thiago Fragata*

No último sábado (22/2) estive na Ilha Grande que fica em São Cristóvão, Sergipe. Ilha? Sim, uma ilha. Ou seja, apesar de toda a beleza da arquitetura secular localizada no centro histórico, a ex-capital possui ilhas, sendo a Ilha Grande a única que concentra um comunidade de moradores. Quase não achamos informações na internet sobre este recanto paradisíaco, única matéria disponível fala da implantação da energia elétrica em dezembro de 2009.

É possível chegar até a Ilha Grande seguindo o curso do Rio Paramopama que nasce na cidade a cerca de 17 KM, inclusive margeia o centro histórico. Afluente do Rio Vaza-Barris, o encontro dos rios acontece no povoado Pedreiras. O porto das Pedreiras tem referencias históricas importantes, infelizmente desconhecida dos moradores. Cito exemplos: 1) No período da invasão holandesa em Sergipe (1637/1645), ocorreu no Porto das Pedreiras o desembarque das tropas holandesas do Capitão Andreas (SILVA, 1925, p. 62). 2) Este porto era único da antiga Capital que não dependia do movimento das marés para o desembarque dos produtos, era largo, profundo e seguro, fato destacado no âmbito das razões para mudar a capital em 1855 isto que ele se achava distante do centro histórico; por reunir as condições ideais de um porto é que nele foi instalado um trapiche da Companhia Lyod (FREIRE, 1902, p. 96), que empreendeu cabotagem no litoral nordestino até primeiras décadas do século XX. Hoje apenas um improvisado atracadouro de madeira feito pelos ribeirinhos indica o local do antigo porto.

Realizamos a travessia do atracadouro das Pedreiras a Ilha Grande em 10 minutos, numa embarcação motorizada. Quando o barco, deslizando o espelho d'água, permitiu descortinar os manguezais apareceu uma capela e as poucas moradias e casas de veraneio. No frontão do santuário o ano 1933 chama a atenção dos visitantes. Pequenos atracadouros foram construídos ao longo da chegada da Ilha, no mesmo local onde banhistas marcam presença diariamente, maioria crianças.

O banho de rio e sempre uma brincadeira que leva todos a infância. E sobre isso a reflexão é demorada porque os moradores da Ilha Grande não se preocupam com as crianças brincando na água. O ritual começa nos primeiros banhos, quando os genitores e/ou tios ensinam a criança a boiar e a nadar. Daí em diante, os banhos são diários e pode se repetir por vezes durante um mesmo dia sem troca da roupa que seca/molha alternadamente no contato direto com a pele. Fato, quem se preocupa com as crianças dentro d'água são os visitantes...
Rosana Eduardo e Thiago Fragata entrevistam poeta Hélio dos Santos. Foto: Danielle Pereira 2014

Encontrei um banhista fugindo a esta regra, Hélio dos Santos, aposentado, 69 anos. Ele passou sua infância e juventude na Ilha Grande, ali estavam suas lembranças, amigos e parentes. Mesmo que morando em Fortaleza/CE, há 35 anos, anualmente ele retorna ao lugar, banha-se, visita a capela inspiradora de poesias e serestas. Na ilha ele é o menestrel que anima as noites enluaradas com seus versos dedilhados na viola, coro e palmas dos companheiros(as).

Pertinente lembrar que a vida é ribeirinha. O rio é a maior parte da paisagem e também da vida dos habitantes da Ilha Grande. Na infância, nadar é uma brincadeira que pode ser mesclada com pega-pega, esconde-esconde, etc. Mas outra lúdica observada a beira do rio é a brincadeira de barquinhos. Estes são construídos pelos jovens e seguem os mesmos princípios da arte naval dos barcos maiores, razão pela qual os ventos que rufam em seus panos não fazem naufragar. Detalhe, a corrida de canoas acontece em duas modalidades (adulto, infantil), em momentos distintos do calendário.

(continua)

Thiago Fragata é historiador e poeta. Email: thiagofragata@gmail.com

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Concurso Literário Ofenísia Soares Freire



O Governo de Sergipe, através das Secretarias de Estado da Educação (SEED) e Cultura (Secult) e Educação (SEED), e em parceria com o Banco do Estado de Sergipe (Banese), promove o Concurso Literário Ofenísia Soares Freire, uma ação que tende a revelar talentos, mediante a promoção da reflexão e da pesquisa de estudantes e professores do ensino médio da rede estadual de ensino.

Através da seletiva, serão premiados os melhores trabalhos em formato de redação e artigo, com base no tema ‘Centenário da professora Ofenísia Soares Freire’. No processo, alunos poderão concorrer com redações, enquanto os professores inscritos, com artigos científicos.

Os candidatos deverão se inscrever em sua respectiva escola, no período de 08 de janeiro de 2014 a 14 de fevereiro de 2014, conforme regulamento disponível no site www.seed.se.gov.br. O vencedor da primeira colocação, tanto para alunos quanto para professores, receberá o prêmio de R$ 2.500, enquanto que o segundo colocado será agraciado com R$ 1.500. O terceiro colocado, por sua vez, contará com o incentivo de R$1.000. Os trabalhos escolhidos pela Comissão Julgadora Central serão premiados pela no dia 17 de março de 2014.

Ofenísia Freire

Concurso Literário Ofenísia Soares Freire enfatiza a importância da professora para a história de Sergipe. Sua atuação como professora, escritora, militante política e intelectual lhe concedeu status de reverência e admiração dos sergipanos. Devido à relevância dessa personalidade, e sendo este o ano de seu centenário, uma série de ações em sua homenagem serão realizadas pelo poder público estadual.