sexta-feira, 29 de novembro de 2013

ENTREVISTA SOBRE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO EM ARACAJU

Obra da 13 de julho é um aterro sobre o Rio Sergipe


Há 1 mês um certo jornal diário de Sergipe insistiu para que respondesse a uma entrevista sobre preservação do patrimônio cultural de Aracaju, daí enviou questões e dediquei madrugada e... não publicaram. Penso ter desagradado o editor, tudo bem não guardarei ressentimentos, também não guardarei a entrevista censurada. Disponho na integra para que saibam o que pensa este escriba sobre os crimes que acontecem na capital de Sergipe, cidade que engavetou seu Plano Diretor, é o paraíso das construtoras (da especulação imobilária), da "força da grana que ergue e destrói coisas belas" como diria o artista iconocrasta da sua própria obra Caetano Veloso.


ENTREVISTA

1) Qual a avaliação geral que o Senhor faz a respeito da manutenção de monumentos em Aracaju? São eles preservados? Como analisa sua manutenção, seja pelo poder público ou mesmo pela população?
– Não há como responder a questão sem fazer um preâmbulo, dada a sua complexidade e se tratar de uma cidade nova (158 anos), se comparada com a experiência histórica de outras cidades brasileiras, algumas coloniais. Preservar implica antes de tudo reconhecer sua importância histórica, ser patrimonializado através de  tombamento ou registro (medidas de proteção legal mais comuns) e criar atividades sistemáticas de manutenção (medidas preventivas) e/ou restaurações. Creio que atividades educativas, denominada por alguns “Educação Patrimonial”, encerra as ações que mediam, sustentam a afirmativa “patrimônio preservado”. Apontar um monumento em Aracaju é dizer “este é preservado” é possível, porém nem todos se acham cercado por tudo isso. Se a gente falar da esfera pública municipal aracajuana não se tem órgão que desempenhe tal função (preservar monumentos), existem apenas alguns monumentos tombados (reconhecidos como de valor histórico pelo Estado) estes são avaliados e passam por restaurações, dentro de condições e recursos disponíveis. Lembro que recentemente uma comissão da Sub-Secretaria de Patrimônio Cultural (SUBPAC) realizou uma destas avaliações, inclusive, noutros municípios. A Catedral Metropolitana que é tombada por decreto estadual recebeu recursos do Governo do Estado para sua restauração, por exemplo. O Conselho Estadual de Cultura, a Secretaria de Cultura do Estado são outros entes vinculados ao Estado com essa preocupação de zelo com o patrimônio. Evidente que é impossível angariar, alocar recursos para todos os monumentos que carecem de tombamento e urgente intervenção em Aracaju. Mas a pergunta é onde está o poder público de Aracaju nisso? E a população aracajuana? Estive semana passada no I Seminário Aracaju: Patrimônio Cultural e Proteção, promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Sergipe (IPHAN-SE), que assim como o Ministério Público Federal (MPF) vem intervindo com ações de preservação há alguns anos mesmo na ausência de monumento aracajuano tombado pelo Governo Federal. Infelizmente, não havia nenhum representante do poder público municipal em nenhum dos 3 grupos de trabalho que discutiram medidas de proteção federal a praças e bairros centrais da cidade. Esta ausência, creio, responde a pergunta. Quanto a população aracajuana, ela possui traços identitários que devem ser destacados, antes mesmo de ações educativas visando zelar, favorecer a apropriação dos bens culturais. Por exemplo, boa parte é procedente do interior e tem sua relação afetiva com o seu lugar de origem, visitado a cada fim de semana e feriadão. Aracaju é o lugar do trabalho, de passar a semana. Ações educativas é o que falta para despertar no aracajuano de uma forma mais efetiva o sentido da preservação do seu lindo patrimônio cultural. Patrimônio é algo que vai além do sentido usual “é tudo que é meu”, pois patrimônio no sentido a que estou me reportando e que aracajuanos e governo precisam sentir “é tudo que é nosso!”, isso deve ser mais que um slogan.



2 - Quais as principais causas da deterioração? O que contribui mais para o desgaste das peças: a falta de manutenção ou o próprio descaso da população para com esses monumentos, inclusive os danificando?

 - a) A salinidade em Aracaju me parece alta, tenho pouco estudo na área mas o fato da cidade, mesmo planejada, surgir à beira-mar, aterrando mangues e charcos, extinguindo riachos e desmontando morros e areais não contribui para preservação de seus monumentos. Mas a cidade venceu a natureza ou pensa que venceu... b) Decorrente disto temos a necessidade de intervenções regulares e permanentes em alguns monumentos que chegam à ruína completa antes disso. De qualquer forma, a natureza, o homem e o patrimônio edificado são elementos indissociáveis na paisagem aracajuana. c) Com ou sem álibi, a especulação imobiliária deve ocupar o primeiro lugar no quesito: desaparecimento do patrimônio de valor histórico. Aqui ela desrespeita  Plano Diretor e qualquer outra norma considerada. O que se vê e acontece em Aracaju nesse campo é absurdo, surreal. d) A ação criminosa de depredar é também um ato lastimável e presente em Aracaju. Portanto, um conjunto de fatores encerra a questão.



3 - Quais as consequências material e imaterial para a sociedade quando da degradação de monumentos que marcam a passagem histórica da cidade?

- A perda completa de referências da memória do lugar cria um sujeito que não consegue despertar o senso de preservação nem mesmo se reconhecer. Porque o sentimento de pertença ainda que por adoção do lugar escolhido para viver é importante ao bem-estar do ser humano. Sem isso como falar em capital de qualidade de vida ou qualquer outro termo que nos remeta a falsa promessa da modernidade. Digo modernidade porque Aracaju nasceu numa propaganda de cidade moderna que se renova num esforço de se atualizar regularmente. Daí uma certa neurose de seus gestores por renovar o discurso da modernidade a cada novidade, cada obra. O que há de nefasto nisso é que infelizmente não se admite acolher elementos do passado nos projetos, parece que o novo para ser novo precisa destruir o existente, e não lembrar através de adaptações, referências, o monumento ou lugar original. 



4 - O que pode e deve ser feito para que essa memória se mantenha conservada?

- Planejamento e efetivação de práticas educativas nas escolas que não se esgotem nas visitas a lugares e palestras acadêmicas mas envolvam atores da sociedade, praças, mercado, comunidades de pescadores, terreiros, etc. Sei que o desafio maior é sempre trabalhar com os adultos, os que não estão nos bancos escolares mas influenciam a forma de estar e apreender o mundo, a cidade. Sou entusiasta das intervenções artísticas nos bairros, praças, comercio, instituições públicas, etc. A arte pode muito contribuir. Em Aracaju o desafio está dentro e fora da escola.

5 - De que modo pode cada cidadão contribuir para a sua preservação?
- O mundo que percebemos nasce dos sentidos, a vontade de intervir e gerenciar esse mundo é uma opção voluntária, consciente ou do instinto de humanidade. Não consigo dividir homem e natureza porque vivemos numa grande dependência desta, então preservar o patrimônio edificado e natural é uma tarefa que cabe a nós, seres humanos, cidadãos. Se cada um reproduzir em suas ações e discursos, valores como respeito, cidadania, preservação e sustentabilidade; estiver disposto a marcar sua reprovação perante atos de ameaça e/ou destruição do patrimônio cultural aracajuano, ainda que este seja perpetrado até mesmo pelas instâncias de poder, será um agente de preservação.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Círculo dos Ogãs receberá prêmio Abdias do Nascimento

O Círculo dos Ogãs foi selecionado para receber prêmio Abdias do Nascimento 2013, na Assembléia Legislativa, próximo dia 29/11, a partir das 14:30Hs, por indicação da Deputada Conceição Vieira. O premio destacará iniciativas afro-sergipanas que tenham uma ressonância com toda a sociedade.

HISTÓRICO DO EVENTO



Thiago Fragata idealizou o evento Círculo dos Ogãs

Um evento para discutir questões étnico-raciais no centro histórico de São Cristóvão, ex-capital que nos tempos coloniais fez do catolicismo e da burocracia administrativa as instituições hegemônicas, assim foi concebido o Círculo dos Ogãs por Thiago Fragata, diretor do Museu Histórico de Sergipe. Ele afirma "idealizei o evento em 2010, na euforia de transformar a Praça São Francisco em cenário de todas as religiões, especialmente, as religiões de matriz africana".
Cartaz do IV Círculo dos Ogãs. Arte: Rafael Oliva/SECULT

Na sua primeira edição (2010), com o tema "Africanidade e resistência em São Cristóvão", o evento reuniu representação dos terreiros locais para palestras, exposições, missa ecumênica e ato público na Praça São Francisco. Este ano o Museu Histórico de Sergipe e a Secretaria Estadual de Cultura (SECULT) foram agentes realizadores, com o apoio da Prefeitura Municipal de São Cristóvão e Casa do IPHAN. 
Cartaz II Círculo dos Ogãs. Arte: Mentefertil

Em 2011 a ong Sociedade para o Avanço Humano e Desenvolvimento Ecosófico (SAHUDE) assumiu a maior parte das demandas para realização do evento, dividindo com o Museu Histórico de Sergipe/SECULT sua realização. Definido o tema "Matrizes da religiosidade brasileira" firmou-se parceria com o Núcleo de Graduação em Ciências da Religião (Departamento de Ciências Sociais/UFS), Prefeitura Municipal de São Cristóvão e Casa do IPHAN.

Cartaz III Círculo dos Ogãs. Arte: Gladston Barroso.
 
Dada a magnitude do evento e as dificuldades, a partir da terceira edição (2011), a ong Sociedade para o Avanço Humano e Desenvolvimento Ecosófico (SAHUDE) assumiu a realização do evento. A ong SAHUDE conseguiu via parceria com Secretaria de Estado da Cultura (SECULT), Ong Ação e Cidadania João Bebe-Água (ACIJOBA), Prefeitura Municipal de São Cristóvão e Casa do IPHAN, o apoio necessário para realização das palestras, exposições, mostras de video, roda de leitura e apresentações culturais. O Museu Histórico de Sergipe consolidou-se enquanto sede do evento.

O III Círculo dos Ogãs apresentou o tema "Africanidade na cidade", expondo e discutindo elementos do patrimônio cultural dos centros urbanos que nos remete a herança africana. Exemplo: samba, hip-hop, capoeira, etc.


Cartaz IV Círculo dos Ogãs. Arte: Gladston Barroso.
No corrente ano, O IV Círculo dos Ogãs foi dedicado a "Lei 10.639/2003: uma década de experiências". Suas atividades foram divididas em 3 módulos (I - 25 de setembro; II - 27 de outubro; III - 19, 20 e 22 de novembro). Realizado com a Associação Cultural Amigos do Museu Histórico de Sergipe - criada em setembro de 2012 - , teve como parceiros a Casa do IPHAN, a Secretaria de Estado da Cultura (SECULT), a ACIJOBA, a UNEGRO/SE, o Núcleo da Diversidade Cultural (NEDIC/SEED-SE), o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB/UFS) e a Diretoria Regional de Educação (DRE 8/SEED-SE).
Show Kleber Melo e Futuros Ogãs, 20/11/2013.

Conferência Lei 10.639/2003, com Prof Robson Anselmo, 19/11/2013

BALANÇO DAS ATIVIDADES
De acordo com Viviane Lima, Presidente da ong SAHUDE "Como dado objetivo, o evento Círculo dos Ogãs realizou em apenas 4 (quatro) edições, um conjunto de atividades que revela o merecimento do prêmio Abdias do Nascimento".

1 culto ecumênico
1 mapeamento dos terreiros de São Cristóvão

2 rodas de capoeira (regional e angola)
2 espetáculos de dança afro
2 círculos da Paz na Praça São Francisco
3 rodas de leituras temáticas
3 shows
4 exposições temporárias
18 palestras 
Fonte: BLOG SAHUDE

A Corporação: uma crítica a quem Pratica o lucro sem escrúpulos

capa

  Cleverton Costa Silva 
Acadêmico de Direito/UFS

Pode-se dizer que A Corporação é um documentário notável e que diz a que veio: dar um choque de realidade nas pessoas iludidas pela desfaçatez conveniente das corporações, que divulgam uma boa imagem, mas escondem as mazelas provocadas pela sua busca sem escrúpulos pelos lucros, à moda Rubens Ricúpero, ex-Ministro da Fazenda brasileiro, que disse não ter escrúpulos, e que seria capaz de faturar em cima do que faz de bom, e esconder o que é ruim, como captado, em off, certa vez num estúdio jornalístico da Rede Globo (DINES, 2013).
 
Com foco central nas grandes organizações capitalistas, que conhecemos nas aulas de geografia como multinacionais e holdings, o documentário revela um panorama complexo e apresenta as corporações na visão de intelectuais, ativistas das mais diversas causas socioambientais, analistas de mercado e também representantes das próprias corporações. Ou seja, todos os lados são ouvidos e se mostram honestos nas suas análises.
 
Dentre os entrevistados, figuram Noam Chomsky, professor de filosofia e literatura no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o famoso MIT; Michael Moore, o polêmico diretor de Fahrenheit 11/9, que explora pontos de vista muito incômodos sobre o combate ao terrorismo para os governantes estadunidenses; e a ativista Vandana Shiva, indiana de renome mundial atuante feminista pelas causas ambientais e a mobilização feminina.
 
As mais de duas horas e 25 minutos de vídeo, apresentadas inicialmente de uma forma mais leve e convidativa, ficam cada vez mais densas em análise e terminam com uma mensagem mais otimista, de que nem tudo está perdido. Quem assiste ao documentário comprometido em conhecer a fundo o tema pode assistir a toda a produção sem maiores problemas com o tempo de duração.
 
O tema é, de fato, instigante e aborda em conjunto as origens das corporações estadunidenses, a gênese da ideia de pessoa jurídica no ordenamento jurídico estadunidense, o perigo da irresponsabilidade do mercado financeiro, a estratégia geopolítica imperialista das corporações, as relações com governos despóticos, a corrupção dos governos em nome do lobby empresarial, como no caso do uso do Posilac pela Monsanto na Flórida e toda a luta nos tribunais que expôs as vísceras do grupo Fox, do jornalista Rupert Murdock, comparado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim (2013) com Roberto Marinho, das organizações Globo aqui no Brasil. Os problemas ambientais são tocados de forma intermitente e envolvem biotecnologia, poluição, uso e abuso de recursos naturais como a água, entre outros.
 
Embora o documentário cause certo mal estar pela exposição de um tema tão polêmico, ele termina apontando uma saída viável: a de que a população está nas ruas protestando contra os movimentos de privatização, contra patentes ilegais como a do nim, revertida por parlamentares verdes europeus e movimentos de agricultores. E que por consequência algumas corporações pensam em adotar atitudes mais corretas diante da sociedade.
 
Outro ponto, talvez o mais marcante, fica por conta do paradoxo apontado por Michael Moore, de que seus documentários são uma crítica ao sistema capitalista, e às próprias corporações. Porém, de forma acrítica, grandes distribuidoras vendem os seus documentários. Não importa serem coerentes, o que importa é ter o lucro. Deve-se lembrar que Moore é realizador de Tiros em Columbine e Fahrenheit 11/9 (PORTAL DE CINEMA, 2013).
 
Quem só assistiu ao documentário recentemente, embora tenha certa noção dos movimentos ativistas e suas causas socioambientais, políticas, econômicas e outras bandeiras em nível mundial, reconhecerá nA Corporação uma das principais fontes que alimentam as causas dos manifestantes contra o capitalismo e o imperialismo. O Avaaz, grupo social que atua em inúmeras causas globais, muito bem articulado na internet, por exemplo, coleta assinaturas constantemente para integrar documentos formais com demandas à ONU, OMC, contra a Monsanto, contra o cerceamento da liberdade na internet, entre outras causas (AVAAZ.ORG, 2013). Muitas delas mostradas de forma indireta no documentário.
 
É uma tarefa difícil criticar algum aspecto negativo do documentário A Corporação. Talvez se possa apontar apenas a longa duração do filme, que o incapacita de ser aceito por todos os públicos. Como está longe do objetivo do documentário ser algo agradável, A Corporação fica ainda mais denso na hora final, onde os toques de humor já nem são notados como na hora inicial.
 
Nos aspectos positivos, pode-se dizer que A Corporação é uma aula de politização e uma terapia de desintoxicação contra os impulsos consumistas que dominam as pessoas e alimentam a usura das corporações. E o maior mérito é ouvir todos os lados, os capitalistas e os consumidores, todos concentrados num grande esforço de reflexão sobre o tema proposto. Nota-se nA Corporação que o documentário não tem a intenção de ser imparcial, mas ele não deixa de contemplar todos os lados na discussão. Quem assiste ao documentário não vai se arrepender.

Ficha Técnica:
Título Original: The Corporation.
Origem: Canadá, 2004.

Duração: 2:25:42
Direção: Jennifer Abbott e Mark Achbar.
Roteiro: Joel Bakan e Harold Crooks.
Produção: Mark Achbar e Bart Simpson.
Fotografia: Mark Achbar, Rolf Cutts, Jeff Koffman e Kirk Tougas.
Edição: Jennifer Abbott.
Música: Leonard J. Paul.


REFERÊNCIAS

AMORIM, Paulo H. Roberto Marinho e Nascimento Brito enterram o JB. Disponível em: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/07/22/roberto-marinho-e-nascimento-brito-enterraram-o-jb/, acesso em: 07/08/2013, 22:25.
AVAAZ.ORG. Quem somos. Disponível em: http://www.avaaz.org/po/about.php, acesso em: 07/08/2013, 22:41.
CHOMSKY, Noam. Chomsky se solidariza com Occupy Wall Street. Disponível em: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/chomsky-se-solidariza-com-o-ocupa-wall-street.html, acesso em: 07/08/2013, 22:00.
DINES, Alberto. Denuncismo e escandalismo já não colam. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/news/showNews/iq021020021.htm, acesso em: 07/08/2013, 22:16.
PORTAL DE CINEMA. A corporação. Disponível em: http://www.portaldecinema.com.br/Filmes/a_corporacao.htm, acesso em: 26/7/2013, 22:35.
______. Michael Moore. Disponível em: http://www.adorocinema.com/personalidades/personalidade-12457/filmografia/, acesso em: 07/08/2013, 22:31.
WIKIPÉDIA. George W. Bush. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/George_W._Bush, acesso em: 07/08/2013, 21:34.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Paramopama não é mais o rio da minha aldeia?*

Destaque rio? e cidade de São Cristovão. Foto: Marco Galvão 2006


Thiago Fragata*

E se te falassem que o Rio São Francisco, na verdade, é o Rio Amazonas? Guardadas as devidas proporções, caro leitor, foi este o meu espanto ao descobrir num artigo de Samuel Albuquerque, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, publicado neste respeitado diário (11 e 12/8/2013) com o título “De São Cristóvão ao Rio Comprido” que o Rio Paramopama é o Rio Miranda. Disposto a contribuir no esclarecimento do nebuloso caso, amealhei estudos e consultei pesquisadores que fizeram do principal rio da ex-capital o tema de suas produções acadêmicas.

A corografia (estudo descritivo dos lugares) e a potomografia (estudo dos rios) são áreas do saber geográfico que muito progrediram em razão dos avanços tecnológicos do século XX. Nos séculos anteriores, as missões exploratórias cumpriram a chamada “fase heróica”, enfrentando rios e mares desconhecidos, orientadas pelas estrelas ou astrolábio; palmilhando sertões, pântanos, florestas portando bússola ou apenas auscultando o chão e os sinais da natureza; adaptando-se ao meio e sua fauna exótica e perigosa, por vezes responsável pelo desaparecimento de missões aventureiras. O sobrenatural, o desconhecido, a falta de aparato tecnológico ou interpretação bíblica geraram uma série de lendas miraculosas, estórias fantasiosas difíceis de fazer as crianças do nosso tempo creditarem um mínimo de fundamento. Crer no inferno como uma realidade possível do continente americano, que o rio São Francisco nascia entre o Chile e  Peru, constituem bons exemplos. A propósito, Justiniano de Melo e Silva, no seu enigmático livro “Nova luz sobre o passado” (1906) , chega a desvelar Sergipe como um lugar de passagem para o inferno.¹ 

Mas voltando à questão em pauta acerca do rio que há séculos se conhece como Paramopama, mas que Samuel Albuquerque apresenta como sendo o Miranda, transcrevemos passagem do artigo do ilustrado pesquisador para depois analisar as provas que estribam sua tese.

O curso d’água que passa sob a Ponte Santa Cruz e que, historicamente, foi identificado como Rio Paramopama é, na verdade, um tributário do Rio Miranda e, indiretamente, do Vaza-Barris. O Miranda nasce à noroeste de São Cristóvão, nas imediações do povoado Aningas, e segue no sentido sudeste, percorrendo cerca de 12 quilômetros até desaguar no Vaza-Barris [...] As águas do Paramopama e de outros afluentes vão ao encontro do Rio Miranda na chamada Barra da Cidade de São Cristóvão, estuário que pode ser apreciado do alto da Ladeira do Porto da Banca, à sombra do Convento do Carmo. Em terra firme, o Miranda é o rio que passa sob a rodovia estadual SE-466 (1,4 quilômetros após o seu início), pouco antes do povoado Colônia Miranda. (…) o Rio Paramopama não é aquele que corta a Cidade Baixa de São Cristóvão e sim aquele identificado pelos cristovenses como Rio Miranda”.

Vejamos o que diz Samuel Albuquerque sobre o fundamento da tese: Como cheguei a tais conclusões? Analisando ortofotocartas da “Base cartográfica dos municípios litorâneos de Sergipe” e mapas do “Atlas digital sobre recursos hídricos de Sergipe”, materiais que podem ser consultados junto a Superintendência de Estudos e Pesquisas da Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (SUPES - SEPLAG/SE) e a Superintendência de Recursos Hídricos (vinculada à Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos - SEMARH/SE)”.²

Cleverton Costa Silva e Everton Manoel de Oliveira Santos são grandes conhecedores do Rio Paramopama, assim como eu, eles não apenas pesquisaram mas percorreram da sua nascente, no povoado Jurubeba, até o encontro com o Vaza-Barris.³ Palmilhar o curso do rio era uma prática antiga dos corografistas, é certo que nem todos cumpriram essa árdua tarefa. Já publiquei os desencontros de informações dos antigos pesquisadores quanto ao local exato do nascimento do Rio Paramopama.(4) Interessante é que a tecnologia do séculos XX e XXI, o georreferenciamento, a leitura de fotos de satélite, que poderiam resolver a questão podem também levar ao erro. Foi isso ou a tecnologia estará corrigindo Manuel Ayres de Casal (Corografia Brasílica - 1817), Inácio Antonio Dormundo (Notícia Topográfica da Província de Sergipe, 1826), Manuel dos Passos de Oliveira Telles (Sergipenses, 1903), Clodomir de Souza Silva (Album de Sergipe, 1920), Serafim Santiago (Anuário Cristovense, 1920) e Maria Thetis Nunes (História de Sergipe a partir de 1820, 1978)?

Apesar de Samuel Albuquerque amenizar o problema identificado na sua criteriosa pesquisa, julgando melhor respeitarmos a tradição, espero que os técnicos que produziram a “Base cartográfica dos municípios litorâneos de Sergipe” e os mapas do “Atlas digital sobre recursos hídricos de Sergipe”, possam revisar a questão sob pena de perpetuar a dúvida. Doravante, uma interrogação precederá qualquer afirmativa sobre o Rio Paramopama... De certa forma, o caso reprisa a confusão que em 1925 envolveu Elias Montalvão, Manoel dos Passos e Clodomir Silva a respeito do nome do rio que banha Aracaju, se Cotinguiba ou Sergipe.(5)

* Publicado no Jornal da Cidade. Aracaju, n. 12363, 22 e 23 de setembro de 2013, p. A-7.
** Thiago Fragata é especialista em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe, sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (HGSE), membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR) e diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT). Email: thiagofragata@gmail.com 

FONTES PESQUISADAS
1 - ALBUQUERQUE, Samuel. De São Cristóvão ao Rio Comprido. Jornal da Cidade. Aracaju,  11 e 12/8/2013, p. 7.
2 - FONTES, Arivaldo Silveira. Nova luz sobre o passado. Figuras e fatos de Sergipe. Porto Alegre: Ed. CFP/SENAI, 1992, p. 45.
3 - SANTOS, Everton Manoel de Oliveira. Degradação ambiental na bacia do Rio Paramopama no município de São Cristóvão em Sergipe (Brasil). São Cristóvão, 2007. Monografia (Especialização em Geologia Sedimentar e Ambiental Aplicada a Ambientes Antigos e Recentes), Universidade Federal de Sergipe. SILVA, Cleverton Costa. Águas fluviais e o ecoturismo em Sergipe: possibilidades no rio Paramopama, em São Cristóvão. São Cristóvão, 2008. Monografia (Curso Gestão em Turismo) Centro Federal de Educação Tecnológica de Sergipe.
4 - FRAGATA, Thiago. Onde nasce o rio Paramopama (I e II). Jornal da Cidade. Aracaju, 31/10 e 8/11/2008, p. 6B.
5 - MONTALVÃO, Elias. Qual o rio que banha a cidade. Revista do IHGSE, Aracaju, vol 6, n. 10, 1925, p. 31-35. TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Parecer n. 1: palavras a proposito da memória de Elias Montalvão. Revista do IHGSE, Aracaju, vol 6, n. 10, 1925, p. 37-39. SILVA, Clodomir. Parecer n. 2: o Cotinguiba.  Revista do IHGSE, Aracaju, vol 6, n. 10, 1925, p. 41-81.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

LANÇAMENTO DO IV CÍRCULO DOS OGÃS - Lei 10639/2003: uma década de experiências



O Instituto Brasileiro de Museus propôs para a VII Primavera dos Museus o tema "Museus, memória e cultura afro-brasileira". O Museu Histórico de Sergipe, vinculado a Secretaria de Estado da Cultura, fará um dia de programação (25 de setembro) em parceria com a ong Sociedade para o Avanço Humano e Desenvolvimento Ecosófico (SAHUDE), Associação Cultural Amigos do Museu Histórico de Sergipe (ACAMHS), UNEGRO/SE, Casa do IPHAN, NEDIC/SEED e NEAB/UFS.

PROGRAMAÇÃO - QUARTA - 25 DE SETEMBRO
LOCAL: MUSEU HISTÓRICO DE SERGIPE

RODA DE LEITURA
9Hs - Uma roda de leitura para discentes irá refletir o tema “combatendo racismo”, em pauta os 50 anos do discurso de Martin Luther King e a poesia engajada de João Sapateiro, Luiz Melo, Solano Trindade, Castro Alves, Éle Semog e José Carlos Limeira.

EXPOSIÇÃO
11Hs - Será lançada a exposição temporária “Sob um céu azul um mundo caótico e injusto”, de Nelsino Pastor. Curadoria de Nivaldo Oliveira.

MESA REDONDA IV CÍRCULO DOS OGÃS - MÓDULO 1
14Hs - Os palestrantes Sônia Oliveira Santos, Andrey Roosewelt Chagas Lemos, Maria Batista Lima e Marcos Vinicius Melo dos Anjos compartilharão com professores e universitários sugestões e práticas baseadas na Lei 10.639/2003. Este momento representa o primeiro módulo do IV Círculo dos Ogãs "Lei 10639/2003: uma década de experiências". Outros dois módulos acontecerão em outubro (26/10) e novembro (20/11), totalizando carga horária 15Hs. A participação nos 3 momentos garante certificado e a inscrição é gratuita.

INSCRIÇÃO: Os interessados em participar do IV Círculo dos Ogãs deverá enviar nome, instituição e telefone para email: museuhsergipe@gmail.com

sábado, 14 de setembro de 2013

CURTA-SE EM SÃO CRISTÓVÃO




A 4ª Mostra Informativa de Cinema Digital Iberoamericano, do XIII CURTA-SE, será exibida na Casa do IPHAN, próxima sexta (20/9), a partir de 16 horas. Dica para chegar: Casa do IPHAN fica localizada no centro histórico de São Cristóvão, na Praça São Francisco, Patrimônio da Humanidade. 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA - Classificação: 16 anos

Hotel Palace: André Aragão,2013, 25´, Documentário, Aracaju/SE. Classificação: 10 anos.
Nove e Meia: Filipe Ferreira, 2012, 19´, Drama, Porto Alegre/RS. Classificação: 10 anos.
 
Porno Star: Nelson Mendoza & Yashim Bahamonde, 2011, 19´, Ficção, Peru/Espanha. Classificação: 16 anos.
 
El revés: Gonzalo Perdomo, 2011, 8´, Ficção, Peru/Espanha. Classificação: Livre
 
Awara nane Putane: Sergio de Carvalho, 2012, 22´58´´, Animação, Rio Branco/AC. Classificação: 10 anos
 
Engole ou Cospervilha?: Marão, David Mussel, Pedro Eboli, Fernanda Valverde, Jonas Brandão, Giuliana Danza, Gabriel Bitar e Zé Alexandre, 2013, 8´, Animação, Rio de Janeiro /RJ. Classificação: 16 anos.
 
Confete: Jo Serfaty & Mariana Kaufman, 2012, 15´, Documentário, Rio de Janeiro/RJ. Classificação:Livre
 
O tamanho do mundo:Marcos Souza, 2013, 15´, Ficção, Curitiba/PR. Classificação: Livre
 
El año passado em Mardelplá: Santiago Korovsky y Celeste Contratti, 2013, 4´, Ficção, Buenos Aires- Argentina.

domingo, 1 de setembro de 2013

Leitores patrocinam Viagem Rasa, livro de poesias de Ramon Diego



O que podemos pensar de um livro que teve sua publicação patrocinada pelos futuros leitores? Existe um anseio pela sua leitura, diria fome...Ramon Diego lançou Viagem Rasa, na Câmara Municipal de N. Sra. da Gloria, no dia 24 de agosto, depois de uma vitoriosa campanha no facebook. Simples assim, disse que gostaria de lançar livro de poesias, anunciou conta bancária para depósito e usou novas redes sociais.

Segue discurso proferido pelo jovem e competente poeta que é membro-fundador da Academia Gloriense de Letras (AGL) na noite festiva da literatura.

Boa noite!

O grande problema de um texto, quando feito é o desencantamento da letra que o estrutura, é a lembrança do que poderia ter sido projetado na palavra e que, neste exato momento, não pode ser mais. Por isso faço este esforço de escrita, por isso tento encimentar cada palavra na tentativa de não engolir duas ou três que, posteriormente, façam falta as minhas idéias.

Aviso, de antemão, que não irei dizer sobre o que trata o meu livro, pois carece o mundo de mais mistério às coisas que lhe permitem e, traduzir a poesia em palavras de raso diálogo é justamente o que não pretendo.

Por esses e outras razões me desafiarei a falar sobre o que não pretendo com este livro. Não pretendo ser a venda de um exemplar com interesses estritamente mercadológicos nem encher a barriga das traças nas estantes das academias, livrarias e bibliotecas, prefiro antes ser a marca barata onde escorre a poesia como o orvalho da conversa despretensiosa.

Não pretendo ser raso como o cisco no olho dos que interpretam o óbvio, prefiro antes ser o incômodo raso causado por este. Tampouco pretendo mergulhar os pés na fonte morna desse discurso e dela sair ileso sem uma mancha que me traia. Prefiro ser os pés sujos que encorpam a idéia do leitor, que ao poucos se posiciona, do que alimentar a letra que me aniquila.

Embora não pretenda tanto, o que não pretendo, como viram, é muita coisa, afinal, o que podemos nós, na vida, não fazer senão não pretender?

Peço desculpas pelas feridas que se abrem nesse texto, mas é que a sabatina dos anos e o incômodo causado nas obviedades das coisas me assumem e perpassam também a minha poesia.
Falo isto, pois a nossa vida tem se dividido em óbvio e ócio, este último censurado, caindo ao fundo no som da frase, pois a poesia não é o óbvio do povo, não vivemos mais no século XVII e a sombra da racionalidade é um passado que nos atormenta, como uma dor de dente.

Então, por qual motivo me dou ao “desfrute” de fazer esta viagem pelas palavras? Talvez por que eu não pretenda ser um soldado da matéria, tampouco cantar as coisas do mundo.

O que quero é cantar minhas coisas, minhas cores, a poesia é a minha consciência do mundo, de forma tão clara como não há consciência nas coisas ou nos fatos, assim como também não há nas coisas por si só, poesia alguma.

A poesia existe no homem com a coisa, no contato da palavra com o mundo, afinal, como diria Alberto Caeiro, grande heterônimo de Pessoa, que mistério há nas coisas senão haver quem pense no mistério?

Por fim, gostaria de agradecer afetuosamente, a cada leitor, que me fez vivo, a cada internauta que, através de suas postagens, me compartilhou e me exerceu, afiançando assim a minha poesia.

Gostaria de agradecer principalmente aos servidores públicos de Nossa Senhora da Glória e o seu Sindicato, o SINDISERVE pela sensibilidade política na democratização destas palavras, que embora se dispersem feito arroz de festa, encorpam essa poética, que ao tempo em que é construída, me ultrapassa de súbito, uma poética do homem na coisa, do homem no tempo, uma poética do homem no mundo.

Obrigado! 

sábado, 31 de agosto de 2013

SUBPAC e DRE 8 realizam curso de formação para professores

Renantique lotou o Museu Histórico de Sergipe

“Patrimônio Cultural e Ações Educativas” esse foi o tema do curso de formação continuada para professores do Ensino Básico da rede estadual de ensino realizado pela diretoria regional de Educação (DRE 08), da secretaria de Estado da Educação em parceria com a Subsecretaria de Patrimônio Histórico e Cultural (Subpac) e com o IPHAN. O curso teve início na manhã de sexta-feira, 23, e terá a duração de 80h, divididas em seis dias de atividades interdisciplinares, com conclusão no próximo mês de novembro.

O objetivo do curso de formação é capacitar os professores da rede pública de ensino quanto aos aspectos práticos e teóricos da Educação Patrimonial, bem como facilitar a conscientização da comunidade para a preservação de patrimônio material e imaterial. O primeiro dia de atividades foi realizado na cidade histórica de São Cristovão, onde fica localizada a Praça São Francisco, patrimônio da humanidade. As atividades começaram com a abertura do subsecretário de Patrimônio do Estado, Professor Luis Alberto, seguida pela palestra da professora Beatriz Góis Dantas, mestre em Antropologia, com o tema “O conceito antropológico de Patrimônio Cultural”.

Após as palestras os professores acompanharam um recital de poesias com os poetas e historiadores, Thiago Fragata e Maria da Glória, que na ocasião emocionaram os presentes com diversas poesias, entre elas a de Ferreira Gullar “Quando dois e dois são quatro”. As atividades continuaram com a visita guiada ao Museu de Arte Sacra e ao Museu Histórico de Sergipe. 

Maria Gloria fez recital com Thiago Fragata


Para o diretor da DRE 08, Gaspeu Fontes, a sua diretoria é estratégica para as ações de patrimônio, pois abrange os municípios que abrigam as cidades consideradas mais importantes para o patrimônio histórico cultural de Sergipe, que é Laranjeiras e São Cristovão. “Nós tomamos a iniciativa de realizar esse curso, pois não poderíamos contar com profissionais melhores que os professores para estarem multiplicando a importância da preservação dos patrimônios históricos e culturais dessas cidades históricas”, afirmou o diretor.

Fontes destacou ainda a grande procura dos profissionais pela capacitação, “abrimos o curso para 70 profissionais, mas tivemos que ampliar as inscrições, pois mais de cento e dez professores solicitaram a matrícula, atribuo a grade procura à qualidade técnica dos profissionais que trouxemos para compor esse curso, a professora Beatriz Góis é unanimidade no que diz respeito ao patrimônio, o professor Luiz Alberto também, então estamos satisfeitos com os resultados alcançados”, destacou o professor Gaspeu Fontes, diretor da DRE 08.

Durante a tarde os professores acompanharam o projeto “Patrimônio em Concerto”, realizado pela secretaria de Estado da Casa Civil, por meio da SUBPAC em parceria com a SERGÁS. O concerto foi realizado pelo grupo de música medieval e renascentista Renantique no Museu Histórico de Sergipe. Já no final da tarde os professores puderam acompanhar um cortejo de grupos folclóricos da cidade de São Cristovão.

Para a professora Beatriz Góis, ”iniciativas como essa são louváveis, pois os professores são os melhores atores sociais para proteger e difundir a importância de preservação do Patrimônio, principalmente da forma como está se dispondo o curso com a parte teórica e prática da conservação de patrimônio material e imaterial”, analisou a professora. O curso terá continuidade nas cidades de Laranjeiras, Aracaju e Porto da Folha, todas as cidades importantes berços da História e Cultura do Estado de Sergipe, com palestras e apresentações culturais. A próxima aula será no dia 27 de setembro na cidade de Laranjeiras. 


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (última parte)*

Augusto Leal Garcez, São Cristóvão/SE . Foto: Samuel Albuquerque, 2013


Samuel Albuquerque**

À medida que a periferia de São Cristóvão vai ficando para trás e, deixando a longa Avenida Irineu Neris, seguimos pela Estrada de Rita Cacete, a paisagem se torna mais agradável, graças, sobretudo, a natureza que se reestabelece na vasta planície.

Coqueirais do lado direito, brejos e mangues do lado esquerdo da estrada “desanuviam” o nosso olhar, que se surpreende com a mansidão e a estreiteza do Rio Miranda. Seu curso encontra e passa sob o asfalto no quilômetro 1,4 da rodovia e em nada lembra o majestoso tributário do Vaza-Barris que se avista do alto da Ladeira do Porto da Banca, em São Cristóvão. Felizmente, suas águas parecem estar livres da poluição que encontrará mais adiante, quando alcançam a Barra da Cidade.

Em seguida passamos pelo povoado Colônia Miranda, lugar de pessoas simples e muito receptivas. O que notabiliza a paisagem do lugar é o “falso histórico” da igreja e casa da Paróquia Menino Deus, localizadas no largo que é acessado através da via que encontra a SE-466 em seu quilômetro 2,1 (lado direito).

A paróquia foi desmembrada da de Nossa Senhora da Vitória há poucos anos e as edificações que constituem sua sede também são recentes. Contudo, quem as projetou teve como referência a arquitetura religiosa de estilo colonial. O projeto foi executado com certo capricho, botando abaixo o secular nicho que ali existia. Nesse sentido, Serafim Santiago informa que, em fins do século XIX, nos meses de maio, eram realizadas missas solenes nos “nichos dos lugares seguintes: Miranda, Rita Cacete ou Pedrinhas, Pedreiras, Ilha Grande e outros.” (Santiago, 2009, p. 233).

Da Colônia Miranda à Fazenda Rio Comprido chegamos, como se diz, “em um pulo”. Na verdade, um pulo relativamente amplo, de aproximadamente 1,5 quilômetros. Nesse meio tempo, o que mais chama nossa atenção é a extensa planície do Rio Comprido, tomada por verdes pastos e coqueirais.

Na sede da fazenda, somos muito bem recebidos pelo casal Augusto Leal Garcez e Antonieta Cardoso Fontes Garcez, seus atuais proprietários. Uma recepção calorosa e convidativa ao retorno.

Em 1910, quando a fazenda foi adquirida por Álvaro Sobral Garcez, pai do atual proprietário, as atividades açucareiras já haviam dado espaço à pecuária.  Do antigo engenho restou parte da antiga fábrica de açúcar e das senzalas, que hoje servem, respectivamente, de curral e residências de trabalhadores. A “casa de vivenda” passou por sucessivas reformas e foi completamente desfigurada.

A suinocultura é a principal atividade econômica da propriedade, mas por lá também se produz coco e cana de açúcar. As águas do Rio Comprido mantiveram sua boa qualidade e contribuem para o abastecimento da cidade de São Cristóvão. No geral, restou uma pálida lembrança do faustoso engenho de outrora. Mas, ainda assim, somos surpreendidos pelos vestígios do passado sergipano que ali jazem.

A mata densa, no cume de um outeiro ao norte da sede da fazenda, esconde as ruínas do que foi, segundo os relatos, um majestoso templo jesuítico. Trata-se da lendária Capela Nossa Senhora do Desterro.

O senhor Augusto está sempre disposto a conduzir os visitantes ao local, de onde se tem uma vista impagável e os olhos alcançam a cidade de São Cristóvão, o estuário do Vaza-Barris e, na outra margem desse rio, a sede da Fazenda Colégio (Itaporanga d’Ajuda), que abriga o antigo colégio jesuíta e a vistosa capela que, no século XIX, era consagrada à Nossa Senhora da Graça.

Inspirado, o cicerone dá voz às lendas que envolvem boa parte dos templos jesuíticos. Túneis subterrâneos que seguiam até as bordas do Rio Comprido, tesouros escondidos e outras estórias preservadas em um dos recantos do Brasil por onde os inacianos passaram e deixaram seu legado.

Ao observar o que restou da capela, difícil é não recordar a descrição feita por Serafim Santiago de outro memorável templo jesuítico daquele município. A capela erguida no “retiro majestoso e poético” que era a colina de São Gonçalo, bem próximo à cidade de São Cristóvão, foi assim descrita: “(...) uma ruína única, onde as aroeiras crescendo vorazes por entre as fendas da sólida argamassa dividem as paredes e arcadas em ímpios lascoes (...). Vagarosamente suas amarrações se vão afrouxando à força vegetativa mais poderosa, pois por entre suas urdiduras esponta, alastrando-se e dilatando, esgalhos nutridos e fortes, o mato inclemente e vicioso” (Santiago, 2009, p. 75). Registrando suas memórias na década de 1920, Santiago arrematou a questão ao registrar que, “no alto do Desterro”, estavam as ruínas de outra capela jesuítica “nas mesmas condições de S. Gonçalo em São Cristóvão” (Santiago, 2009, p. 135).

O caso do Rio Comprido explica uma questão que intriga alguns estudiosos da arquitetura do açúcar no Brasil. Refiro-me a longa distância entre a capela e a casa-grande em alguns engenhos. Ocorre que, quando as propriedades rurais que haviam pertencido a ordens religiosas eram adquiridas pelos “empreendedores do açúcar”, esses optavam por “descer” para os terraços próximos às margens dos rios, onde erguiam novas sedes para suas propriedades.

Vizinho próximo ao Rio Comprido, o Itaperoá também contava com uma capela erguida, imponente, sobre uma colina, enquanto a sede do engenho ficava no terraço próximo a uma agigantada várzea tomada pelos canaviais e cortada por ribeiros que seguiam ao encontro do Vaza-Barris. A regra era: mira-se, ao longe, a casa de Deus e guarda-se, bem de perto, o ouro branco dos engenhos.

De São Cristóvão ao Rio Comprido, mantive contato com um bem de valor imensurável. Por isso não poderia encerrar essa série de artigos sem registrar os meus agradecimentos aos cristovenses (naturais ou adotivos) que encontrei pelo caminho e que, generosamente, partilharam comigo suas memórias e saberes, enriquecendo-me enquanto historiador e ser humano. Dessa forma, sou grato aos funcionários do Museu de Arte Sacra de São Cristóvão, na pessoa da pedagoga Denize Santiago da Silva; aos colegas da Casa do IPHAN em São Cristóvão, na pessoa da professora Kleckstane Farias e Silva Lucena; aos colaboradores da Paróquia Nossa Senhora da Vitória, nas pessoas de Luiz Alexsandro de Assis e Alexnaldo dos Santos Nere; aos moradores do povoado Colônia Miranda, na família do estudante de engenharia Samuel dos Santos Silveira; aos moradores da fazenda Rio Comprido, na pessoa do proprietário Augusto Leal Garcez; ao historiador Thiago Fragata, diretor do Museu Histórico de Sergipe, amigo e interlocutor; e ao tecnólogo em Gestão de Turismo Cleverton Costa Silva. Finalmente, agradeço aos professores Marilene Araújo de Barros (minha mãe), Magno Francisco de Jesus Santos e Ane Luise da Silva Mecenas Santos. Eles estiveram comigo nas idas e vindas a São Cristóvão e, além de agradáveis, foram pacientes companheiros de viagem.

Aos leitores do JORNAL DA CIDADE, agradeço e registro uma pausa em nossa viagem, antes de retomá-la e seguir rumo a outros engenhos, povoados, vilas e cidades do Sergipe oitocentista.

***

Foi com pesar que, no último dia 10 de agosto, recebi a notícia do falecimento do senhor Augusto Leal Garcez, proprietário da Fazenda Rio Comprido. Ao longo dos últimos meses havíamos estreitado contato e nossas conversas (mesmo por telefone) se tornaram frequentes. Pretendia encaminhar ao meu interlocutor um volume encadernado reunindo todos os artigos desta série, o que não será mais possível. Legarei, então, a oferta aos seus herdeiros, pessoas que saberão zelar pela memória de um homem de bem, um digno sergipano e cristovense do Rio Comprido.



*Publicado do JORNAL DA CIDADE, Aracaju, 25 e 26 ago. 2013, caderno B, p. 7.
**Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br

BIBLIOGRAFIA:
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 135 e 233.
GARCEZ, Augusto Leal. Depoimento concedido ao autor. Fazenda Rio Comprido, São Cristóvão-SE, 4 maio 2013.
BASE CARTOGRÁFICA dos Municípios Litorâneos de Sergipe. [Aracaju]: PRODETUR-NE II/Ministério do Turismo, 2004 [ortofotocartas 691-778, 691-783, 684-778, 684-783];
ATLAS DIGITAL sobre recursos hídricos de Sergipe. Versão 2012-9. Aracaju: SRH/SEMARH/Governo de Sergipe, 2012. 1 DVD (camada Infraestrutura e subcamadas Rodovia Estadual e Rodovia Federal, dentre outras);
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].