segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ANEDOTÁRIO DE SÃO CRISTÓVÃO I - A FORCA

Praça São Francisco, imagem de 1920.

José Thiago da Silva Filho*

Minha curta experiência na gestão do Museu Histórico de Sergipe já rendeu além de trabalho, algumas produções acadêmicas, intervenções artísticas na comunidade, pleitos de reconhecimento e muitos causos para animar a velhice. A este respeito observo que na maioria das cidades coloniais brasileiras quatro estórias alimentam a mitologia, o folclore e o bolso de conversadores que se intitulam guias de turismo; são elas: aqui tem passagens (túneis), aqui teve forca, aqui tem botija enterrada, tem fantasmas!

Essas estórias integram um repertório de levar ao êxtase qualquer platéia senão pela veracidade do conteúdo ao menos pelo riso. Fiz destas preciosidades – ou seriam preciosismos? - objeto da palestra “O anedotário de São Cristóvão” no ano passado. Em alguma cidade colonial, talvez, uma ou outra destas fantasias ocorram; hoje sabemos dos casos de botija, por exemplo, que endossaram generalizações as mais absurdas. Vejamos o caso da forca de São Cristóvão. Todos os visitantes que na infância conheceram o prédio do Museu Histórico de Sergipe na função de Sindicato dos Trabalhadores da Industria Têxtil, entre os anos de 1949 e 1954,  perguntam pela “pedra da forca” que ficava guardada numa das salas. Assim fez no sábado, 19 de julho, o visitante José Juarez Leite, 75 anos, que estudou na Escola Operária Barão de Mauá. Pelo seu depoimento a escola era uma sala de aula em que a turma era composta por filhos de operários e as aulas eram ministradas pela professora Arasceles Rodrigues Correia. (1)

Sabemos que até os anos de 1940 havia um pedestal quadrangular próximo ao cruzeiro da Praça São Francisco. Foi aquele bloco que gerou na verve popular a suspeita da existência da forca na ex-capital. Ali ficaria o cadafalso, o lugar das execuções dos criminosos perante os representantes da justiça e do povo. Infelizmente, das possibilidades aventadas pela minha investigação nenhuma respalda os enforcamentos na praça pública. Então, qual seria mesmo a origem da base pétrea desmontada e recolhida no sobrado do antigo Palácio Provincial?

UM CATAVENTO? - Encontrei a primeira pista numa publicação de 1920, de autoria de Clodomir Silva, intitulada Álbum de Sergipe. A obra que festeja o centenário da Emancipação Política de Sergipe da Bahia (1820/1920) constitui um esforço intelectual de fôlego pois objetiva traçar um panorama histórico, político, cultural, econômico e social dos 34 municípios a época, com um alentado preâmbulo sobre o passado do Estado. Nas duas fotografias das praças (Carmo e São Francisco) vemos cataventos responsáveis pela força eólica a bombear água para servir a população.(2) Como nos dois casos os beneficiados eram especialmente os religiosos, considero possível que esta melhoria faça parte das ações desencadeadas com a chegada dos franciscanos em 1906. o que é certo afirmar é que a instalação de cataventos na cidade deu-se no início do século XX.

Durante a primeira etapa da organização do Arquivo Municipal de São Cristóvão em 2006, encontrei um documento valioso sobre o assunto. No Livro de Atos do Governo Municipal de São Cristóvão (1904 e 1930), verso da página 18, o secretário Umbelino Pereira transcreve ofícios endereçados ao Intendente de Lagarto, com cópia ao padre Possidônio Pinheiro da Rocha, daquela paróquia, datada de fevereiro ou março do ano de 1929. Lemos o conteúdo: “Sciente essa Intendencia que se acha ahi na cidade de Lagarto parte no mercado público e parte em uma igreja peças de um catavento que pertence a intendência municipal d'aqui indo parar ahi conforme informações colhidas de pessoas que sabem do cazo por empréstimo feito pelo Doutor Graccho Cardoso ao Reverendo Possidônio e actualmente temos precisão do dito chafariz venho solicitar officios de V. Sa. a fim de ser entregue pela intendencia d'ahi ou por quem esteja de posse aguardando vossa resposta afim de mandar reconduzir para aqui”.(3)

Atente que ele implora a atenção do intendente da cidade de Lagarto e do seu pároco para resolver um problema: “precisão do dito chafariz”. Fato é que até os idos de 1980, o centro histórico de São Cristóvão possuía vestígios de pelo menos 3 chafarizes, hoje ausentes da paisagem assim como os antigos cataventos que na carta citada aparecem como sinônimos.

Diante das poucas provas amealhadas, não tenho a certeza dos ex-alunos da escola do sindicato instalado no antigo sobrado, hoje Museu Histórico de Sergipe, sobre a pedra da forca. Eles ainda falam com um olhar carregado de espanto sobre o assunto que envolve assombrações do prédio, os fantasmas que arrastavam correntes pelos corredores, almas penadas. (continua)



* José Thiago da Silva Filho (ou Thiago Fragata) é historiador e poeta; especialista em História Cultural pela UFS; sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq); Diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/Secult). Email: thiagofragata@gmail.com Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIII, N. 12620, 2/8/2014, p. B-6.


FONTES DE PESQUISA

1 - Entrevista de José Juarez Leite concedida a Thiago Fragata. São Cristóvão, 19 de julho de 2014.

2 - SILVA, Clodomir. Album de Sergipe (1820/1920). Aracaju: Governo do Estado de Sergipe, 1920, p. 281 e 283.

3 - Livro de Atos do Governo Municipal de São Cristóvão (1904 e 1930). Arquivo da Prefeitura Municipal de São Cristóvão. Manuscrito.

IMAGEM: Praça São Francisco publicada no Álbum de Sergipe, de Clodomir Silva, 1920, p. 283.

Um comentário:

  1. Prezado Professor Thiago Fragata.
    Ate p final da decada de 1980 existiam o chafariz situado atras da predio da prefeitura, no fundo do quintal, destinado ao 'queima', local onde os muares ficavam apreendidos; um outro na rua almirante aminthas jorge, na esquina do beco entre as casas de seu Leite e dona Joaninha das queixadas; e um outro na 'Avenida', em plena rua, de forma circular, ao lado da barbearia de Renan e em frente a casa onde mora Marcos de Manoel Thiago.
    Quanto "a base pétrea desmontada e recolhida no sobrado do antigo Palácio Provincial", acaso esteja a se referir a situada no piso terreo, logo na entrada ao lado direito, quando de sua montagem (da qual participei) a informaçao - de Lauro Barreto entao Diretor do IPHAN em Salvador-BA - era que se tratava de resquicios, ruinas de uma antiga igreja de santo amaro das brotas. De fato aquelas peças estavam ao relento, na praça sao francisco, ate 1964. Dai a imaginaçao popular dizer escombros da força (usualmente construçao provisória, nao esculpida, ao contrario do pelourinho).
    A Escola Reunida Visconde de Mauá - 'comedor de jaba' - funcionou nesse predio até 1959, em salas terreas situada a esquerda da entrada.No ano seguinte passou a funcionar na rua das flores, em casa vizinha ao convento do carmo, bem em frente as ruinas do antigo sobrado do coronel ivo do prado.
    penso ser uma historia interessante a de 'Leleta', tia de 'Zeca Amarelo', conhecida como antiga Condessa...
    abraços


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