sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A caminho do esquecimento? Antepassados de Ibarê Dantas*



Por Samuel Albuquerque**

Na tarde do último dia 6 de janeiro, o historiador Ibarê Dantas passou rapidamente pela Casa de Sergipe. De suas mãos, recebi o recém-publicado “Memórias de família”, livro que reconstitui a história de três gerações de sua família, estudadas a partir das experiências de quatro personagens: David Martins de Góes Fontes (1820-1904), seu bisavô paterno; Francisco Dantas Martins Fontes (1871-1924), seu avô paterno; David Dantas de Brito Fontes (1913-2001), seu pai; e Manoel Costa e Silva (1883-1967), seu avô materno.

Algumas horas após o encontro (e já em casa), iniciei a leitura, surpreendendo-me com a novidade representada pelo décimo livro de Ibarê, autor que, pela importância de sua obra, ocupa lugar de destaque na Historiografia Sergipana.

Serpenteada pelo Rio Piauí, a paisagem da Fazenda Boqueirão (no município de Riachão do Dantas), onde viveu a família de David Dantas de Brito Fontes, destaca-se na capa e convida à leitura de histórias de homens e mulheres que viveram, sobretudo, na zona rural do sudoeste de Sergipe e do nordeste sergipanizado da Bahia. Sobre os quatro ascendentes biografados, o autor sintetizou: “Nenhum deles nasceu em Riachão do Dantas, mas todos foram fazendeiros no município, aí viveram grande parte de suas vidas, constituíram família e, em seu solo, foram sepultados. De gerações diferentes, foram figuras representativas do patronato rural e tiveram alguma experiência político-administrativa” (Dantas, 2013: 14). 

Na introdução do livro, um depoimento do autor explica a trajetória de grande parte da documentação que lhe permitiu construir representações sobre seus antepassados. Vejamos: “Quando meu pai já estava doente, em fins dos anos noventa do século XX, entregou-me algumas pastas de documentos herdados de seu avô e de seu pai. Sabendo de meu interesse por ‘papel velho’, forneceu-me também seus próprios escritos, produzidos ao longo de sua vida” (Dantas, 2013: 14). E quais são esses documentos? Predominam os “escritos íntimos”, como cadernos e cadernetas com anotações variadas, livros de assentos, diários, cartas e telegramas, além de traslados de escrituras e inventários... 

Os "papéis velhos de família" foram devidamente analisados, cruzados entre si e com documentos de procedência diversa (depoimentos orais; matérias de jornais; atas de sessões de conselhos de governo, câmaras federais e municipais; mensagens e relatórios de governantes; compilações de leis etc.). O trabalho também foi enriquecido pela interlocução do autor com estudiosos que se debruçaram sobre a história de Sergipe e do Brasil, a exemplo de Josué Modesto dos Passos Subrinho, Maria da Glória Santana de Almeida, João Dantas Martins dos Reis, Arivaldo Silveira Fontes e Evaldo Cabral de Mello, Luiz Felipe de Alencastro, Luiz Antonio Tannuri, dentre outros. No mais, Ibarê se apropria de reflexões de autores como Marc Bloch, Paul Ricoeur, François Dosse e Vavy Pacheco Borges para melhor se posicionar perante o “desafio biográfico”. 

O já mencionado depoimento introdutório indicia que a análise da documentação, bem como a escrita da obra, teve início em fins da década de 1990. Seriam, dessa forma, mais de vinte anos de um silencioso e espaçado trabalho que, pacientemente, esperou pelo centenário de nascimento de David Dantas de Brito Fontes para se tornar público. 

O leitor atento observará certo desequilíbrio no volume dos capítulos da obra. O primeiro capítulo tem 41 páginas, o segundo 26, o terceiro 87 e o último 23. Questionei o autor sobre o fato e ele explicou-me que “um dos condicionantes do tamanho dos textos foi a disponibilidade de dados” sobre as figuras biografadas em cada capítulo. 

Penso que o excesso de escrúpulo do historiador que toma como objeto de estudo sua própria família (ou a si próprio, como diriam os estudiosos da "escrita de si") reprimiu a imaginação historiográfica demonstrada, por exemplo, na biografia de “Leandro Ribeiro de Siqueira Maciel (1825/1909)”. Basta comparar as narrativas sobre a infância e mocidade do referido Maciel e de David Martins de Góes Fontes, saídas da pena do mesmo autor em períodos relativamente próximos, para chegar a essa conclusão. Contudo, considero compreensível a decisão de se ater aos dados fornecidos pela documentação analisada, evitando que os leitores presumam certos “floreios” biográficos. 

As histórias de família reconstituídas por Ibarê são, sobretudo, histórias dos homens da família. É possível que, para além de uma opção do autor, a narrativa tenha sofrido os influxos dos registros perscrutados, nos quais a vozes que se manifestam são vozes masculinas. Ainda assim, penso que, explorando a mesma documentação, um(a) historiador(a) das mulheres daria outros contornos às representações construídas sobre Mariana Dantas Martins Fontes (1867-1947), Thereza Ferreira de Britto Dantas (1893-1924) e Miralda Costa Fontes (1917-2008) – respectivamente, tia avó, avó e mãe do autor. Mas isso é papo de historiador das mulheres. A proposta de Ibarê foi cumprida.

O historiador das memórias familiares dá espaço ao conhecido historiador da política sergipana, sobretudo no terceiro capítulo, ao tratar dos conflitos entre pessedistas e udenistas em Riachão do Dantas, a partir de meados da década de 1940. Interpelei o autor sobre a experiência de tratar de história política quando as figuras envolvidas estão intimamente ligadas a ele. Sua resposta revela muito da concepção de História que cultiva. “Considero que uma das tarefas do historiador é a busca da verdade e, se necessário, desmistificar versões fantasiosas. É certo que na prática, toda obra de história é uma construção e uma representação, mas deve ser baseada em fontes e sem ignorar os fatos nem deturpá-los”, registrou.

A lupa de estudiosos da história de Sergipe poderá flagrar no livro referências que criam conexões com outros tantos mortos quase soterrados pelo esquecimento. Há, por exemplo, na página 21, uma referência a Serafim Álvares d'Almeida Rocha, um desafeto do trisavô paterno do autor. Imediatamente, concluí tratar-se do major Seraphim Álvares d'Almeida Rocha (1794-1870), senhor do Engenho Buraco (depois Usina São Carlos), em Itaporanga d'Ajuda. Lourença de Almeida Dias Mello (1848-1890), segunda consorte do Barão da Estância, Antonio Dias Coelho e Mello (1822-1904), era filha do major Seraphim e de Ana Joaquina de Menezes Sobral. Ele está sepultado na Capela do Senhor do Bomfim da Fazenda Dira (antigo engenho de mesmo nome, localizado no noroeste do município de Itaporanga d'Ajuda), que hoje pertence ao empresário José Augusto Vieira. Também flagramos referências a “lugares de memória” desaparecidos ou em vias de desaparecimento, como as capelas de antigos engenhos que jazem esquecidas na zona rural de municípios de passado açucareiro. Nesse sentido, ao tratar da primeira consorte do seu bisavô paterno, a rica senhora Thereza Maria de Jesus (1819-1855), o autor registra que ela foi sepultada na "capela próxima ao Poxim” (Dantas, 2013: 28). Trata-se, muito provavelmente, da Capela de Nossa Senhora da Conceição do antigo Engenho Poxim, hoje Assentamento Rosa Luxemburgo II, no sudoeste do município de São Cristóvão, às margens do Poxim Açu (principal braço do Rio Poxim).

Estudando a “disposição” dos seus bisavós paternos “em encaminhar os filhos para os estudos”, Ibarê revela dados importantes sobre as práticas educativas próprias da aristocracia brasileira da segunda metade do século XIX e, nesse sentido, descreve interessantes aspectos da "educação doméstica" voltada, sobretudo, para meninos (Dantas, 2013: 54-55). Os estudiosos da História da Educação sabem quão raros são os registros sobre esse tema.

Interessante é, também, o relato sobre o funcionamento do resistente Engenho Salgado, a partir da página 186. Digo resistente por considerar o fato que, na década de 1940, quando ele ainda estava em pleno funcionamento, muitos dos históricos engenhos da Cotinguiba e do Vaza-Barris estarem de fogo morto. E, no Salgado, chama a atenção a figura da avó materna do autor, que bem encarna o modelo de sinhá dona difundido do Gilberto Freyre: senhoras ativas e que ocupavam um papel importantíssimo na administração do lar patriarcal. Em Sergipe, esse modelo parece ter sido bastante difuso. Quase não encontramos aquelas sinhás gordas e inúteis, que, quando muito, supervisionavam o trabalho das escravas domésticas.

As experiências dos antepassados de Ibarê demonstram como os proprietários rurais de Sergipe, notadamente os do agreste do Estado, lidaram com transformações de ordem política, econômica e social, como o processo de abolição da escravidão, os conflitos entre partidos políticos, os deslocamentos e a carência de mão de obra, a crise da produção açucareira, o surto algodoeiro e a difusão da pecuária e da citricultura, as secas, as epidemias etc.

O livro de Ibarê Dantas é, enfim, uma novidade no campo da Historiografia Sergipana. O autor colocou a História a serviço da Memória, produzindo narrativas desenvoltas, porém rigorosamente orientadas por referenciais teórico-metodológicos próprios dos historiadores de ofício. Iniciativas aproximadas, porém de natureza distinta, sobrevivem na memorialística sergipana, destacadamente no legado de autores como Gilberto e Genolino Amado, Orlando Vieira Dantas, Aurélia Dias Rollemberg e, recentemente, Ana Maria Fonseca Medina.

Para além do seu indiscutível valor historiográfico, o novo rebento de Ibarê pode ser compreendido como um bem acabado exemplar da “escrita de si”, considerando que o autoconhecimento motivou o estudo dos seus antepassados. Nesse sentido, o autor registrou indagações que o inspiraram: “Quem foram nossos antepassados, como viveram, que lições nos deixaram?” (Dantas, 2013: 13).

Não houve e, ao que tudo indica, não haverá lançamento oficial do livro. O autor explicou-me que “o livro é produto de uma edição particular [...], com uma tiragem de 300 exemplares, [...] para distribuir gratuitamente entre parentes e amigos”. Acrescentou, ainda: “no dia 29.12.2013, quando celebramos os cem anos de nascimento de David Dantas, os filhos, os descendentes e agregados que se incorporaram à família reuniram-se. Nesse ambiente distribuí o livro a todos, como minha contribuição à memória da família. A receptividade foi muito calorosa e emocionante, inclusive para o velho autor”.

O sentido que deu origem ao livro parece ter sido compreendido e encontrado fertilíssimo terreno. Ao menos é o que indica o prefácio escrito por Silvia Góis Dantas, filha de Ibarê e Beatriz Góis Dantas. Segundo a publicitária, o livro lhe revelou a “existência de seres humanos em seus percursos esquecidos e ignorados”, ancestrais que passou a melhor conhecer e neles se reconhecer. Pelas mãos do pai historiador, a memória da família “tornou-se ‘mais palpável’” e “fatos, histórias, acontecimentos da vida de cada um [dos biografados] tornaram-se referências da existência da família” (Dantas, 2013: 10).

Ao final da leitura nos sentimos um pouco riachãoenses, hóspedes de David Dantas e dona Miralda, no Boqueirão, visitas de seu Menezinho e dona Iazita, no Salgado. Aliás, no antigo Engenho Salgado nasceram dois intelectuais que, na atualidade, dão vida a ideia de sergipanidade baseada nos talentos da pequena província. Os irmãos Ibarê (1939...) e Francisco Dantas (1941...), o primeiro no campo da Historiografia e o segundo no campo da Literatura, estimulam-nos a inflar o peito e falar do orgulho de ser sergipano.

Com letra trêmula (destoando da força de sua escrita) o autor registrou na dedicatória que me fez: “Ao prezado Samuel Albuquerque, / lembranças de entes queridos / a caminho do esquecimento / Ibarê / Aracaju, 29-12-2013”. Voltei à primeira página após concluir a leitura do livro e, sem conter o riso, notei certa ironia do velho historiador. A obra pereniza a história de seus antepassados e, ao contrário do que registrou, desvia-os do caminho do esquecimento.

De fato, os homens e, também, mulheres que habitaram as casas-grandes do Salobro, do Boqueirão e do Salgado foram retirados do repouso merecido para reviverem em páginas que, certamente, serão lidas e comentadas não somente por seus descendentes. Nesse caso, diria Paul Ricoeur, a ameaça do esquecimento definitivo, do apagamento dos rastros, foi imobilizada ou, no mínimo, retardada, pelo perscrutador das memórias familiares.

Ao historiador Ibarê Dantas (cujo nome de origem tupi significa madeira dura e resistente), renovamos os nossos votos de vida longa e fôlego para continuar nos surpreendendo com trabalhos que tanto nos ajudam a compreender o passado sergipano e brasileiro.


* Resenha publicada no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 31 jan. /1º fev. 2014, caderno B, p. 6.

** professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). Email: samuel@ihgse.org.br


BIBLIOGRAFIA CITADA:

DANTAS, Ibarê. “Memórias de família”: o percurso de quatro fazendeiros. Aracaju: Criação, 2013. 269 p.

DANTAS, Ibarê. “Leandro Ribeiro de Siqueira Maciel (1825/1909)”. O patriarca do Serra Negra e a política oitocentista em Sergipe. Aracaju: Criação, 2009.

FREYRE, Gilberto. “Sobrados e mucambos”: decadencia do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano (Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil II). 2ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1951 (Coleção Documentos Brasileiros, 66).

AMADO, Gilberto. “História da minha infância”. Rio de Janeiro: José Olympio, 1954.

AMADO, Genolino. “Um menino sergipano”: memórias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1977 (Vera Cruz, 243).

DANTAS, Orlando Vieira Dantas. “Vida patriarcal de Sergipe”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980 (Coleção Estudos Brasileiros, v. 47).

ROLLEMBERG, Aurélia Dias. O documento. In: ALBUQUERQUE, Samuel Barros de Medeiros. “Memórias de Dona Sinhá”. Aracaju: Typografia Editorial, 2005. p. 47-123.

MEDINA, Ana Maria Fonseca. “Trilhando memórias”. Aracaju: Sercore, 2013.

RICOEUR, Paul. “A memória, a história, o esquecimento”. Campinas: Unicamp, 2010.