domingo, 6 de agosto de 2017

MESTRE RINDÚ - HOMENAGEM PÓSTUMA

Foto dos Anais do  Seminário Nacional de Políticas Públicas para das Culturas Populares
em Brasília, 2005.
 


2016... O último sábado, 5 do mês do folclore, silenciou José Gonçalo dos Santos, 75 anos, mais conhecido como Mestre Rindú. Ele nasceu no Apicum Merém, em 18 de setembro de 1940. Sua voz gultural não mais comandará a percusão da Caceteira, o bendito da Chegança, grupos que se moviam encantados pela sua pantomima. Os estudiosos dos ritos folclóricos creditavam à herança familiar o fator determinante do conceito e da sua preservação. A Caceteira estava na vida dele desde criança. Lembremos o seu depoimento: “comecei muito cedo, tinha lá por uns 8 anos. Todo mundo da minha família brincava caceteira. Zé Filomeno, meu avô e minha avó Antonia, meu pai Gino Alfredo dos Santos e minha mãe Maria Noêmia dos Santos. Era tudo na brincadeira uma animação danada. Ai a gente ia vendo, aprendendo e daí a uns tempo tava dançando a Caceteira e outras coisas mais. Dentro dela, tou até hoje.”(1)

Conheci o Mestre Rindú no ano de 2005, quando trabalhei na Secretaria Municipal de Cultura, na condição de Diretor Cultural, gestão do saudoso prefeito Zeziho da Everest (2005/2006). No ano seguinte, integramos a comitiva sergipana que participou do Seminário Nacional de Políticas Públicas para das Culturas Populares, em Brasília. Guardo com carinho uma foto sua vestido de Capitão da Chegança que ilustrou publicação do evento. (2)

Passaram-se 10 anos e o Mestre Rindú não parou os ensaios e as apresentações da Caceteira e da Chegança, mesmo com dificuldades financeiras, desfalque de brincantes, etc. Em praticamente todos os eventos culturais do Estado seu grupo foi presença indispensável.

Folcloristas como Luiz Antônio Barreto e Aglaé Fontes pesquisaram e publicaram obras dedicadas ao assunto. Aliás, Aglaé Fontes, na condição de Secretaria de Cultura de São Cristóvão da gestão de Alex Rocha (2008/2012), publicou a obra “Mestre Rindú”. (3)

Das homenagens grangeadas por José Gonçalo dos Santos, um simples pescador que se fez Mestre Rindú numa jornada memorável pela cultura popular, vale destacar:
  • Medalha Mestre Candunga, outorgada pela Prefeitura Municipal de Laranjeiras, no Encontro Cultural de Laranjeiras, 2011;
  • Medalha Mérito Cultural Tobias Barreto, outorgada pelo Governo do Estado de Sergipe, no ano de 2015.

E pertinente lembrar que até a década de 1980 haviam mais de uma caceteira na cidade, nomes como Zeca de Noberto, Dona Biu, João de Cota, comandaram esta brincadeira. Mas durante os últimos 20 anos, o Mestre Rindú tornou-se o ícone absoluto da Caceteira. A caceteira é uma manifestação folclórica do período junino, exclusiva de São Cristóvão. Entoando cantigas do cancioneiro popular, homens e mulheres compõem o cortejo animado por zabumbas, ganzás e cuícas. O nome caceteira lembra o processo artesanal de sova do couro dos instrumentos de percussão e o próprio batuque “à base de cacetes”.

De acordo com a tradição, todos os anos, no dia 31 de maio, a Caceteira percorre as ruas do centro histórico numa batucada que festeja a chegada do mês junino. A meia-noite, o repique dos sinos das igrejas centenárias é louvado com emoção: “o sino do Carmo abalou, abalou, deixa abalar”, diz o refrão. (4)

O Mestre Rindú que abalou a vida cultural de São Cristóvão, seguiu para o plano espiritual, no domingo, (6/8) após missa de corpo presente, canto do bendito da Chegança e últimas homenagens de autoridades, parentes, amigos e admiradores. Doravante, no mês dedicado ao folclore, os brincantes terão um motivo a mais para pular: preservar a memória do Mestre Rindú.


Relíquias do Mestre Rindú. Foto: Thiago Fragata, 2017.



*Historiador e poeta. Email: thiagofragata@gmail.com
Texto publicado no jornal Tribuna Sergipe Del Rey. São Cristóvão, set. 2016.
REFERÊNCIAS
1 - Entrevista do Mestre Rindú para Aglaé Fontes, concedida a Aglaé d'Ávila Fontes em 2012.
2 - Seminário Nacional de Políticas Públicas para das Culturas Populares. 2a. Edição. Brasília: Governo Federal/MinC, 2016, p. 10.
3 - FONTES, Aglaé d'Ávila. Mestre Rindú - José Gonçalo Santos. São Cristóvão: PMSC/FUNPATRI, 2012.
4 - FRAGATA, Thiago. Mestres do Folk: Mestre Rindú, 10 de agosto de 2007,



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