quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Contradições do povo da praça*


Pedro Carvalho de Oliveira**

Se um bem cultural é uma representação das expressões que distinguem, caracterizam e identificam particularidades de um povo, é imprescindível que este povo esteja consciente da importância de preservar este bem patrimonial para que sua essência se mantenha viva, permitindo assim, que as próximas gerações apreciem e dêem continuidade a ele.

Uma vez que o patrimônio cultural possui todas estas qualidades, nada mais justo do que o povo ser o elemento chave para a configuração de um interesse acerca de sua preservação, sendo a iniciativa e a vontade popular de grande importância.

A Praça São Francisco e o seu entorno de edificações, localizados no Centro Histórico de São Cristóvão, é um conjunto de bens patrimoniais que demonstram com clareza uma parte significativa da identidade do povo sergipano e de sua história.

Desde 2004, concorre ao título de patrimônio cultural da humanidade, tendo todo este processo sido iniciado ainda em 2007, quando uma equipe da UNESCO compareceu ao local, aceitando a pré-candidatura da praça. Para que a praça consiga o título, é necessário que algumas medidas sejam tomadas visando o que alguns critérios fundamentais para a escolha exigem, estando entre elas os cuidados com a cidade – saneamento básico, cuidados ambientais, etc. -, a importância cultural e a participação da população no interesse da preservação. Nada mais justo, uma vez que não se pode conceber a idéia de patrimônio cultural sem a participação e o interesse do povo.

Mas como anda a opinião do povo de São Cristóvão acerca desta situação? Muito otimista, no âmbito geral, segundo o que pôde ser observado numa pesquisa de opinião realizada no dia 04 de Julho deste ano, para o projeto “A Praça São Francisco é do Povo”, orientado pelo professor Claudefranklin Monteiro Santos, da qual participei junto a outros colegas do curso de História da Universidade Federal de Sergipe. Porém, a opinião confusa e contraditória de algumas das pessoas – moradores do centro histórico de São Cristóvão – que foram entrevistadas por nós sobre este assunto deve ser levada em conta para compreendermos a visão destes como um todo.

A auto-estima de boa parte do povo de São Cristóvão se encontra muito baixa, como já fora constada em artigo aqui publicado pelo colega Felipe Paiva. A idéia de que a eleição da praça pode ser algo conquistado não parece algo concebível para uma parcela dos moradores do centro histórico, principalmente pelo fato de eles ainda pensarem São Cristóvão como uma cidade do menor estado do país, e que não sai da sombra da capital Aracaju – local para onde a maioria dos moradores da cidade vai a trabalho.

Não se trata, obviamente, de uma opinião geral, mas do pensamento de um fragmento da população entrevistada e que me despertou curiosidade pela seguinte razão: embora esta parcela do povo são-cristovense esteja com sua auto-estima abalada quanto a considerar a possibilidade de um notório feito para a cidade, integrando-se a uma lista mundial e de proporções gigantescas que é a dos Patrimônios da Humanidade, elas possuem um sentimento de orgulho muito grande para com a cidade, muitos, inclusive, em razão de uma consciência histórica, entendem que a importância de São Cristóvão para o enredo do Brasil não é algo pequeno. Esta consciência revela o interesse do povo quanto ao conteúdo histórico da cidade, e mesmo que alguns deles digam que somente sentem orgulho da cidade por terem nascido lá, isso nos revela que a baixa auto-estima desta parte do povo não é capaz de abalar a firmeza com a qual dizem que se orgulham de serem são-cristovenses.

É interessante observarmos que muito do que ficamos sabendo – a equipe de pesquisa da qual participei – a respeito desta falta de confiança por parte destes específicos moradores do centro de São Cristóvão se deu distante dos questionamentos padrões dos formulários que recebemos e que deveriam ser preenchidos com a opinião do povo. Muitas destas pessoas, após as perguntas, nos revelavam esta incerteza pessimista como se estivessem desabafando algo, dando a impressão de que tiravam do peito algo pesado. As conversas informais que tivemos com o povo da cidade nos permitiu conhecer o quanto este povo desejava que o título fosse conquistado pela praça, mesmo isto estando aos olhos deles como um sonho distante. Os olhos que apontavam para Sergipe, segundo alguns deles, só enxergavam Aracaju. Ainda assim, em todo momento estes moradores específicos nos mostravam um conhecimento formidável quanto ao aparato patrimonial da cidade, de sua notória carga histórica e, até mesmo, de um conhecimento nem um pouco superficial quanto à candidatura da praça. Mesmo com este certo pessimismo, estas pessoas não admitiam que se falasse mal de São Cristóvão, e na gigantesca maioria dos casos, quando perguntavam se sentiam orgulho da cidade, respondiam com um “Sim!” imediato e seguro, justificando que ou a cidade tinha importância demais para não se sentir orgulho ou simplesmente por terem nascido lá.

Embora contraditória e bastante confusa, a opinião desses são-cristovenses nos permite concluir alguns pontos. Por exemplo, podemos saber que este orgulho do povo pode sim ultrapassar a baixa auto-estima, transbordando numa movimentação que daria um passo significativo na participação popular quanto à candidatura da praça. Podemos ver também que este pessimismo não se mostra tão rigoroso quanto o orgulho das pessoas, podendo ser facilmente desmantelado no primeiro sinal de que São Cristóvão poderá, desta vez, alcançar um feito há muito merecido, feito este que a cidade poderá partilhar com seus elementos mais importantes: seus habitantes. Talvez a ida de alguns universitários, guiados por um projeto que deverá revelar ao povo o quão próxima esta conquista pode estar, possa ter sido mais uma forma de o povo perceber que São Cristóvão é mais importante do que alguns podem pensar.


* Artigo publicado no JORNAL DO DIA. Aracaju, ano V, n. 1392, 4 de setembro de 2009, p. 4.
** Graduando em História da Universidade Federal de Sergipe (Projeto “A Praça São Francisco é do Povo” – DHI/UFS)

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