domingo, 30 de junho de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (III)*

Lápide do Capitão-Mor Henrique Luis de Araújo Maciel. Foto: Acervo do IPHAN



Samuel Albuquerque**

Ibarê Dantas, com muito acerto, caracterizou o Engenho Rio Comprido como “um verdadeiro quartel” (Dantas, 2009, p. 40). Sua representação converge com outras mais remotas, a exemplo daquela difundida por Felisbelo Freire ao tratar da fuga do camandante das armas Manuel da Silva Daltro para a “fortaleza” do Rio Comprido.

Diante da sublevação de suas tropas na noite de 1º de novembro de 1824, Daltro “foge para o Rio Comprido (...) e, com o concurso de Henrique Maciel, (...) projeta depor o governo civil no dia 8, e para isso convoca as forças de Itaporanga, à guarda do brigadeiro Domingos Dias Coelho e Mello, as de Laranjeiras, do Rosário, a propósito de um movimento revolucionário republicano, que era preciso sufocar” (Freire, 1891, p. 271 e 272). Sabemos, contudo, que os planos de Daltro e Maciel não surtiram os efeitos esperados e que o camandante das armas viu-se obrigado a pedir desligamento de suas funções, alegando problemas de saúde.

Maria Thetis Nunes editou um ofício dirigido pelo “Capitão-mor do Terço das Ordenanças da cidade de São Cristóvão e dono dos Engenhos Desterro e São José, Henrique Luis de Araújo Maciel”, ao “comandante das Armas da Pronvíncia de Sergipe”, Manuel da Silva Daltro. O documento, localizado pela historiadora no Arquivo Nacional, é revelador da mentalidade de Henrique Luis, um monarquista convicto, temeroso da influência que o secretário Antonio Pereira Rebouças (1798-1880), identificado como republicano e abolicionista, exercia sobre o presidente da província Manuel Fernandes da Silveira (1757-1829). Além disso, demonstrou ser um homem cônscio de sua fidalgia e do lugar de destaque que, por direito, cabia aos aristocratas (Nunes, 1978, 89-90).

Quanto ao segundo engenho mencionado por Nunes, trata-se, certamente, do Engenho São José da Lombada, em Santo Amaro das Brotas. O já citado “Livro de Matrícula dos Engenhos da Capitania da Bahia...”, em suas notas 119 e 243, faz menção ao Lombada, que em princípios do século XIX pertencia a Henrique Luis de Araújo Maciel e, cerca de dez anos depois, já pertencia a Maria Rosa de Araújo e Mello. Infelizmente, não localizei dados que possam confirmar o parentesco entre esses dois proprietários.

Dialogando com estudos do linhagista Ricardo Teles Araújo, Ibarê Dantas destacou vínculos familiares e políticos que aproximaram Henrique Luis dos Dias Coelho, família cujo domínio e influência se espalhavam por toda a zona açucareira da província. Contudo, é muito provável que Antonio Dias Coelho e Mello (1822-1904), futuro Barão da Estância, não tenha conhecido o viúvo de sua tia Francisca, pois Henrique Luis faleceu quando o mesmo contava pouco mais de sete anos.

Baseado, ainda, nos trabalhos de Araújo, Ibarê Dantas informa que a segunda consorte e, certamente, herdeira de Henrique Luis, a senhora Vitorina de Jesus Maria (filha de João Gonçalves Franco e Ana Teresa de Jesus, do Engenho Serra Negra, em Rosário do Catete), contraiu segundas núpcias com o coronel José Rodrigues Dantas e Mello (1790-1852), ex-cunhado, aliado político e colega de Henrique Luis no Conselho do Governo da província (Dantas, 2009, p. 453).

Temos, então, um quebra-cabeça a ser montado, pois, antes de Ibarê, Orlando Vieira Dantas, baseado em dados colhidos com o engenheiro Carlos Cabral Andrade, registrou que o mencionado coronel José Rodrigues foi casado com dona Ana Joaquina de São José e que o mesmo seria irmão do brigadeiro Domingos Dias Coelho e Mello (1782-1874), futuro Barão de Itaporanga, e tio do já mencionado Antonio Dias Coelho e Mello, futuro Barão da Estância (Dantas, 1985, p. 140). Acredito que, após enviuvar da mencionada Ana Joaquina, o  coronel José Rodrigues tenha desposado a também viúva Vitorina de Jesus Maria, que contava pouco mais de trinta anos e, possivelmente, havia herdado o Engenho Rio Comprido do seu primeiro esposo.

Por sua vez, a memória do capitão Henrique Luis encontrou seu último refúgio em um espaço para o qual os holofotes das políticas públicas de preservação dos bens culturais têm se voltado, principalmente após a inscrição da Praça São Francisco na Lista do Patrimônio Mundial pela UNESCO, em 2010.

No Museu de Arte Sacra de São Cristóvão, diante do arco cruzeiro da antiga Capela da Ordem Terceira de São Francisco, entre os altares de Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora do Amparo, está a lápide com a seguinte epígrafe: “Aqui jaz Henrique Luis de Araújo Maciel, capitão-mor efetivo, cavaleiro professo na Ordem de Cristo, nascido em 24 de junho de 1760 e falecido a 26 de setembro de 1829”.

Do teto do altar-mor, a Rainha dos Anjos, pintura atribuída a José Teófilo de Jesus, parece velar o sono do senhor do Rio Comprido. As seculares imagens do Crucificado e, nos nichos, de São Francisco Xavier, São Francisco de Assis e São Gonçalo do Amarante completam o cenário. (Continua)



*Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju, 30 jun./1º jul. 2013, caderno B, p. 7.
**Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br

Sequência de fontes/bibliografia utilizadas:
DANTAS, Ibarê. Leandro Ribeiro de Siqueira Maciel (1825/1909). O patriarca do Serra Negra e a política oitocentista em Sergipe. Aracaju: Criação, 2009. p. 40, 43-46 e 453.
FREIRE, Felisbello Firmo de Oliveira. Historia de Sergipe (1575-1855). Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1891. p. 271 e 272.
NUNES, Maria Thetis. História de Sergipe, a partir de 1820. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: INL, 1978. p. 88-90.
SOUTELO, Luiz Fernando Ribeiro. Livro de Matrícula dos Engenhos da Capitania da Bahia para pagamento dos Dízimos Reais administrados pela Junta da Real Fazenda. Aracaju, 198_ (transcrição de registros produzidos entre 1807 e 1820, em documento de título similar, localizado na Seção Histórica do Arquivo Público da Bahia).
DANTAS, Orlando Vieira Dantas. Vida patriarcal de Sergipe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980 (Coleção Estudos Brasileiros, v. 47). p. 140.
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].

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