segunda-feira, 14 de abril de 2014

A TÚNICA (II)*

Antonio Dias Coelho e Mello (1822-1904), Barão da Estância, déc. 1880 (Acervo do IHGSE)



Samuel Albuquerque**

Na semana passada, iniciei um ensaio de crítica histórica, questionando a origem de uma túnica oitocentista apresentada na exposição temporária “Nos passos do Senhor dos Passos”, aberta ao público no último dia 8 de março, no Museu de Arte Sacra de São Cristóvão. Baseado na historiografia sergipana e na memorialística cristovense, demonstrei a fragilidade da hipótese que relaciona a doação daquela peça ao nome de João Gomes de Melo, o Barão de Maruim (1809-1890).

Considero provável que uma “armadilha da memória” tenha vinculado ao nome do mais afamado barão sergipano uma ação que, possivelmente, está ligada ao já mencionado Barão da Estância, político cujo nome é pouco lembrado pela historiografia e não batiza ruas ou avenidas importantes em Aracaju ou São Cristóvão.

O Barão da Estância, além de residir no município (o seu Engenho Escurial, localizado na ribeira do Vaza-Barris, ficava à cerca de duas léguas da sede municipal) e possuir casa em São Cristóvão (ocupada por sua família, principalmente, em datas assinaladas do calendário católico) era um dos membros mais ativos da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, grupo diretamente envolvido nas celebrações ao Senhor dos Passos.

Rememorando os meados da década de 1870, o “Annuario Christovense” destaca o Barão da Estância entre os terceiros de Nossa Senhora do Carmo ao descrever, por exemplo, a Procissão do Depósito (também conhecida como da Transladação ou do Encerro), realizada na noite do segundo sábado da Quaresma, durante os atos votivos ao Senhor dos Passos. Segundo Serafim Santiago,

“(...) Via-se ao pé da charola, aguardando o momento da sahida, o Presidente da Provincia com seu estado-maior, Barão da Estancia, Commendador Sebastião Gaspar de Almeida Botto, Coronel Jozé Guilherme da Silveira Telles, Coronel Domingos Dias Coêlho Mello, Dr Silvio Anacleto de Souza Bastos, Dr Simões de Mello e muitissimos outros abastados proprietarios do Vasa-barris, antigos devotos da respeitavel Imagem do Senhor dos Passos” (Santiago, 2009, p. 182).

Ao tratar da igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, templo que abriga a imagem do Senhor dos Passos, a anuário registra: “Este antigo Templo foi ultimamente retocado as espensas do Exmo Sen “Barão da Estancia no anno de 1898, cumprindo elle um voto antigo que havia feito ao mesmo Bom Jesus dos Passos, fasendo na conclusão da obra, celebrar-se uma pompoza festa, comparecendo n’aquella Cidade, a convite do mesmo senhor “Barão da Estancia, o Exmo Senr. Governador do Estado Dr Daniel Campos e sua comitiva, a musica do Corpo de Policia, grande multidão de pessôas desta Capital, Itaporanga, Larangeiras e das mais vizinhas” (Santiago, 2009, p. 73).

O célebre jurista Gumersindo Bessa (1859-1913), nos “retalhos” (textos esparsos veiculados pela imprensa sergipana) que foram reunidos e publicados, postumamente, na obra “Pela imprensa e pelo fôro” (1916), deixou seu testemunho sobre o papel de destaque ocupado pelo Barão da Estância nos atos em homenagem ao Senhor dos Passos. Referindo-se à Procissão do Depósito realizada no segundo sábado da Quaresma do ano de 1886, registrou Bessa:

Vi ao pé da charola, numa posição indescriptivel de fidalgo e penitente, um velho esguio, alto, aprumado, moreno, barba branca cerrada e curta, cabelleira rebelde, trajado com elegancia e modestia, silencioso, immovel, aguardando a sahida da procissão naquelle posto, para que ninguem lhe roubasse o goso depôr aos hombros um dos varaes do andor. (...) No mesmo instante entram na igreja o Manuel Góes, presidente da provincia, o Rastelli, juiz de direito da comarca, e o Oséas, secretario do governo.
E, vão entrando e vão dizendo:
– Sr. ‘Senador’, – diz o Góes.
– ‘Sr. Barão’, diz o Rastelli.
– ‘Meu chefe’, diz o Oséas.
Então o vulto immovel falou. Palavra imprecisa, hesitante, acanhada; mas com tal timbre de dignidade e affirmação de si, que se sentia uma alma nobre alli dentro e um homem incapaz de uma falsidade.
Isto passou.
O velho Barão da Estância descança em Deus, abençoado pelos que tiveram o prazer de ser seus amigos(Bessa, 1916, p. 74-75).

Em concordância com os registros legados por Serafim Santiago e Gumersindo Bessa, estão o texto de memórias de Aurélia Dias Rollemberg (1863-1952), filha do Barão da Estância e de dona Lourença de Almeida Dias Mello (1848-1890); e o testamento do próprio Barão da Estância, aberto em 1904, em sua casa de residência na cidade de São Cristóvão. Daremos voz a esses testemunhos no terceiro e último artigo desta série. (Continua)

*Artigo publicado Jornal da Cidade. Aracaju, 13 e 14/4/2014 (caderno B, página 5).
**Samuel Albuquerque é Professor da UFS e presidente do IHGSE. E-mail: samuel@ihgse.org.br

FONTES UTILIZADAS:
BESSA, Gumersindo. “Pela imprensa e pelo fôro”. Aracaju: Imprensa Popular, 1916.
SANTIAGO, Serafim. “Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão”. São Cristóvão: Editora UFS, 2009.

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