quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Manoel D’Almeida Filho: 100 anos do maior cordelista de Sergipe*


Manoel D'Almeida Filho


Antônio Wanderley de M. Corrêa**

Manoel D’Almeida Filho nasceu em Alagoa Grande/PB em 13 de outubro de 1914, filho dos agricultores Josefa Pastora da Conceição e Manoel Joaquim D’Almeida. Somente aos oito anos, o pequeno Manoel conheceu a cidade. Provavelmente em um dia de feira, quando encantou-se com algum folheteiro, declamando ou cantando versos em meio a uma pequena multidão de curiosos e aficionados pelas novidades fantásticas da Literatura de Cordel.

Naquele momento, no início dos anos 1920, ao ter o primeiro contato com folhetos de Cordel, procurou alfabetizar-se com os mesmos. Aliás, os folhetos de Cordel vendidos nas feiras, mercados, praças e estações ferroviárias, foram por muitas décadas do século 20, as cartilhas de alfabetização autodidata de milhões de sertanejos nordestinos.

Já na adolescência, Manoel versava as histórias de Trancoso contadas por seu pai.

Em 1936, com 22 anos, trabalhando como operário em João Pessoa/PB, publicou o seu primeiro folheto inspirado em um caso polêmico ocorrido na época no interior do seu estado natal: “A Menina que Nasceu Pintada, com Unhas de Pontas e Sobrancelhas Raspadas”. [Vilma Mota Quintela. “Manoel D’Almeida Filho”. www.casaruibarbosa.gov.br/cordel].

O sucesso do primeiro poema animou o jovem Manoel que, resolveu dedicar-se inteiramente à poesia popular e ao ofício de editor e vendedor dos livretos de Cordel. Assim, passou a escrever febrilmente e a editar folhetos (imprimindo em papel barato em pequenas tipografias manuais) e vende-los em feiras do interior da Paraíba e de Pernambuco.

Como folheteiro ambulante, teve contato com violeiros e cantadores sertanejos, dos quais buscou inspiração para suas obras escritas e, por algum tempo, tornou-se também um deles. Mas foi como poeta de bancada que edificou sua monumental obra literária.

Naquelas andanças, conheceu em Recife/PE o grande editor João Martins de Athayde, que comprou os direitos de publicação da obra do ‘Pai do Cordel’ Leandro Gomes de Barros.

Em 1940, Manoel D’Almeida (com 26 anos) foi morar em Aracaju, fixando residência definitiva [Depoimento do próprio poeta gravado em vídeo em 1993, citado por Quintela].

Durante cinco décadas, vendeu folhetos de Cordel no Mercado Antônio Franco. Sua banca ficava na parte externa, no lado defronte ao Mercado Thales Ferraz. Na maior parte da sua longa estadia em Aracaju, residiu no Bairro 18 do Forte [Depoimento de Joelson Cabral a este autor em 09 set. 2014. Joelson é proprietário da Banca do Cordel “João Firmino Cabral” situada no Mercado Antônio Franco].

Nos anos 1950, tornou-se respeitado e famoso pela sua obra que crescia em quantidade e principalmente em qualidade. Pelo menos entre os cordelistas, editores e leitores daquele gênero literário. Sim, porque infelizmente a grande maioria dos poetas cordelistas são completamente desconhecidos ou desprezados pela chamada “grande mídia”, pela crítica literária e pelo grosso da população brasileira.

O ano de 1955 foi marcante para o nosso poeta. Ele começou a publicar as suas obras pela Editora Prelúdio de São Paulo, atual Luzeiro, que é a maior editora de folhetos de Cordel do Brasil. Além de autor, Manoel tornou-se selecionador e revisor de textos da editora paulistana até os anos 1990. Pela Prelúdio/Luzeiro, o cordelista de Alagoa Grande publicou cerca de 200 títulos. A maioria de romances de amor e sofrimento, romances de encantamento, aventuras sertanejas e histórias envolvendo o cangaço.

Ainda em 1955, junto com Rodolfo Coelho Cavalcante, organizou em Salvador/BA o Primeiro Congresso de Trovadores e Violeiros do Brasil.

Para o cordelista Marco Haurélio, Manoel D’Almeida “reivindicou para o cordel um espaço na literatura brasileira combatendo os estudiosos que viam no gênero apenas poesia parafolclórica” [Literatura de cordel: do sertão à sala de aula. Marco Haurélio. São Paulo: Paulus, 2013. p. 100].

Suas obras mais famosas são: Vicente o Rei dos Ladrões, Josafá e Marieta, A Luta de Zé do Caixão com o Diabo, A Briga de São Pedro com Jesus por Causa do Inverno, Rufino o Rei do Barulho, Padre Cícero o Santo do Juazeiro, Jesus Cristo e o Mestre dos Mestres, A Mulher que Enganou o Diabo, Os Três Conselhos da Sorte, Gabriela, Jesus e o Homem do Surrão Misterioso, A Troca das Esposas e Os Cabras de Lampião. Este último, considerado a sua obra prima, foi publicado em primeira edição em 1965, contendo 652 estrofes de seis versos. Na apresentação do folheto, a Editora Luzeiro afirma que “indubitavelmente, é a melhor biografia em versos sobre o famoso cangaceiro”.

Manoel D’Almeida é autor do mais longo poema em versos de Cordel já escrito: “O Direito de Nascer”, com 719 estrofes. Aliais, em número de versos, a sua obra é a mais extensa da poesia popular brasileira.

Foi fundador da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, sendo o patrono da cadeira 20.

Na biografia do poeta no folheto “A Briga de São Pedro com Jesus ...”, a Luzeiro afirma sem arrodeio que ele é “considerado o maior poeta da literatura de cordel de todos os tempos”. E em todos os folhetos de sua autoria, aquela editora argumenta: “seu renome se deve, não à quantidade de suas obras, mas à qualidade, pois são sempre muito inspiradas e caracterizadas pela correção da linguagem (...) luta pela atualização e correção da literatura de cordel”. Afirma ainda que “(em Aracaju) exerce salutar influência sobre um grupo de bons poetas da região”.

Em sua “salutar influência” sobre jovens interessados em versarem poesia de Cordel, destacou-se um garoto itabaianense de 17 anos: João Firmino Cabral que, em medos dos anos 1950, lhe pedira para vender folhetos no interior. Manoel lhe entregou uma mala com 400 exemplares. O garoto Firmino foi para Itabaiana e outras cidades do agreste sergipano e vendeu tudo rapidamente. Dalí em diante, começava uma grande e duradoura amizade entre o já consagrado poeta paraibano e o garoto. Em uma de minhas conversas com este, o mesmo me falou emocionado: -Ele foi um mestre e um pai para mim! [Depoimento de João Firmino Cabral ao autor em meados de 2006]. Firmino tornar-se-ia seu discípulo mais devotado e, com o passar do tempo, outro grande nome, verdadeiro ícone do cordelismo sergipano.

Os fatos aqui expostos demonstram que Manoel D’Almeida Filho não foi somente um grande poeta, folheteiro, editor, selecionador de textos de editora e fazedor de discípulos. Foi também um militante e articulador. Lutou por quase toda a vida pelo reconhecimento da Literatura de Cordel por seus contemporâneos. Por este conjunto monumental, pela enorme qualidade criativa de sua obra, pelo seu poder de articulação e de arregimentação e a por sua luta deliberada e obstinada em colocar a Literatura de Cordel em destaque no cenário cultural brasileiro, o fizeram maior nome do cordelismo de Sergipe, quiçá do Brasil.

Durante a grave crise econômica do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, quando a Luzeiro passava por momentos críticos, o velho poeta, com quase 80 anos de idade escreveu uma carta emocionada ao seu compadre e proprietário daquela editora Arlindo Pinto de Souza, receando o fim da Luzeiro e da própria Literatura de Cordel [Marco Haurélio. Breve Histórico da Literatura de Cordel. São Paulo: Claridade, 2010. p. 80]. Nascido em 1914, teve o seu centenário pouco comemorado.

Nosso cordelista maior faleceu em Aracaju de enfisema pulmonar no dia oito de junho de 1995. Segundo Marco Haurélio “seu desaparecimento (...), deixou uma lacuna impossível de ser preenchida”.

Meu otimismo inveterado e alguns fatos subsequentes me levam a pensar diferente. Manoel D’Almeida teve sucessor à altura. Com a morte dele, João Firmino Cabral agigantou-se com a sua obra também monumental. E hoje, assistimos com enorme satisfação o trabalho de aguerridos cordelistas, moços e outros não tão moços assim, produzindo em qualidade e em quantidade, divulgando o Cordel em eventos, nos meios de comunicação, nas redes sociais, nas escolas e em outros espaços. Bem como o revigoramento da Luzeiro e o surgimento de outras editoras especializadas no gênero, a exemplo da Tupynanquim de Fortaleza/CE e da Coqueiro de Recife/PE.

Como acontece por quase todo o Brasil, na terra adotiva de Manoel D’Almeida Filho, o Cordel vive um bom momento. E dias melhores virão. O trabalho desbravador de alguns poucos abnegados trouxe seus frutos.


* artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 8 de novembro de 2014.
** Licenciado em História pela UFS, professor das redes pública estadual (SEED) e municipal de Aracaju (Semed), coautor de livros didáticos regionais e cordelista.

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