domingo, 3 de maio de 2015

A SOMBRA DA PEDRA: ENIGMA DO RIO VAZA-BARRIS - II*

Brasão de Sergipe Holandes
Thiago Fragata**
Dedicado ao arqueólogo Ademir Ribeiro Junior


Na primeira metade do século XVII, o Brasil tornou-se alvo de disputa entre holandeses e espanhóis. Por uma lógica dinástica, a colônia portuguesa (Brasil) esteve sob o regime de Felipe II, Rei da Espanha, entre 1580 e 1640, como também a metrópole (Portugal) e demais territórios ultramarinos.

Em nome da vitalidade da economia, a Holanda, ex-colônia hispânica, resolveu afrontar o imperialismo filipino. Por 30 anos (1624/1654), na mais ferrenha obsessão, os batavos tentaram conquistar Salvador, capital do Brasil. Interessada no êxito desses que invadiram terras brasileiras, a empresa Companhia das Índias Ocidentais indicou Maurício de Nassau ao cargo de Governador do território ambicionado. Uma voz coeva resumiu a questão com a sentença: “Há muito, a ciência da geografia dividiu o Brasil em capitanias do norte e do sul. A divisão recente é, porém, o que distingue em Brasil Espanhol e Brasil Holandês”.(1)

Não é fácil pesquisar a respeito do assunto, buscar indícios materiais, perceber heranças. O reconhecimento da Praça São Francisco, localizada no centro histórico de São Cristóvão/SE, como legado proveniente da aplicação do antigo código urbano filipino constitui a mais recente perspectiva. Essa Praça foi chancelada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO em 2010... E o leitor me pergunta: o que esse período relacionado à presença holandesa e/ou hispânica tem a ver com a Sombra da Pedra? Como esse contexto ajuda a pensar a formação rochosa localizada na confluência dos rios Paramopama e Vaza-barris, na entrada da antiga capital de Sergipe d'El Rey?

UM FORTE MILITAR
Muita gente acredita que a ocupação holandesa restringiu-se a Pernambuco. Na verdade, a área dominada ampliou-se e chegou a corresponder aos Estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão. A conquista de Sergipe tinha o objetivo de enfraquecer a economia baiana e favorecer a tomada de Salvador, capital do Brasil. Os holandeses invadiram o território com o propósito de arrebanhar gado, destruir, “queimar engenhos de açúcar e casas de moradia”, conforme anotou em seu diário o soldado Cuthbert Pudsey.(2) Assim, o período de oito anos da refrega que corresponde à presença holandesa na Capitania de Sergipe D'El Rey (1637/1645) legou marcas e um universo mítico à espera de pesquisas.

No tempo dos flamengos é um clássico sobre a experiência dos holandeses no Nordeste brasileiro. Nele, José Antônio Gonsalves de Mello (1916/2002) informa que “as marcas que a ocupação holandesa do norte deixou no Brasil são das que dificilmente desapareceram não só do corpo como da consciência - e do inconsciente - de um povo”.(3) A ex-capital sergipana não fugiu a essa regra: atribuir aos holandeses patente de terem construído monumentos e/ou qualquer ruína anônima era prática recorrente e estendeu-se até o final do século XX. O exemplo mais estapafúrdio encontrei no livro São Cristóvão: 400 anos de História, de 1990; ele credita aos holandeses a construção da igreja do Amparo dos Homens Pardos no século XVIII(?). O absurdo tem raízes antológicas. Senão vejamos...

Desconsiderando a incompatibilidade religiosa uma vez que os holandeses eram protestantes calvinistas em sua maioria, os memorialistas Joaquim de Oliveira (1820/1872) e Antônio Travassos (1804/1872) imputaram aos invasores a construção de igrejas católicas!? Travassos afirma que “edificaram os holandeses naquela cidade não só a igreja Matriz, como também os conventos e ordens terceiras do Carmo e São Francisco e a Igreja de Misericórdia.” Até mesmo o brasão de Sergipe holandes foi esculpida na porta da Igreja Matriz.(4) Observa-se que Serafim Santiago (1859/1932) repete o caso no seu Annuario Christovense e rememora a expressão “Matriz dos holandeses” ao falar da igreja dedicada à padroeira da cidade. (5)

E se atentarmos para “o inconsciente do povo”, como ressaltou José Antônio Gonsalves de Mello, incluído o conjunto das lendas de São Cristóvão, encontraremos os holandeses. A lenda de Rita Cacete, coletada por Severiano Cardoso em 1904, ocorre no “tempo dos holandeses”.(6) Segundo Clodomir Silva (1892/1932), o afundamento do sino encantado no antigo Porto das Pedreiras pelos jesuítas teve como estopim a invasão dos holandeses.(7)

No Povoado  Pedreiras, encerro a digressão e volto ao ponto central: a Sombra da Pedra, localizada nesse povoado. Esse rochedo está submerso no ponto em que o rio Paramopama encontra o seu afluente, o rio Vaza-barris.

“O Vaza-barris é um rio criador de lendas e de crendices”, registrou Manoel dos Passos de Oliveira Telles numa lauda de Sergipenses, 1902. Na oportunidade, o autor desvelou o Poço Azul e o Poço Encantado do Vaza-barris.(8) Enquanto lenda ou topônimo, não há referência da sombra da pedra anterior ao século XX. Todavia, citado por Clodomir Silva, um fato histórico do período holandês, ocorrido nos idos de 1641, chama a atenção: o desembarque do Capitão Andreas no Porto das Pedreiras, de onde retomou a capital de Sergipe e organizou resistência. (9)

Outro fato merece pesquisa arqueológica, especificamente, da arqueologia subaquática: a localização de um forte militar que, segundo o cronista Frei Manuel Calado (1584/1654), os holandeses construiram na capital de Sergipe D'El Rey. Transcrevo da sua obra O Valeroso Lucideno, de 1649: “Depois de tréguas publicadas edificaram à falsa fé os holandeses uma fortaleza na cidade de São Cristóvão”. Matheus van den Broeck, combatente holandes, também documenta a existência do “fortim de Sergipe”.(10)

Pensando bem, a Sombra da Pedra se acha num local estratégico vigiando o Paramopama. Seriam essas formações rochosas que chamamos Sombra da Pedra as ruínas de um antigo forte? Disse formações rochosas porque, em seu depoimento, o senhor Gabriel Cupertino Santos, 57 anos, que é proprietário de redes, assegurou que “a Sombra da Pedra não é constituída de apenas uma rocha, forma um aglomerado com outras pedras que os pescadores batizaram com nomes característicos: a Pedra da Siriíba, Pedra do Camarão, Trempe e outras”.(11) Escutando o senhor Gabriel, vislumbrei uma possível explicação a respeito do nome do Povoado Pedreiras... A perspectiva de haver o forte militar é que anima a nossa investigação. “A nossa História - disse Eduardo Prado - é cheia de emocionantes episódios, de dúvidas que despertam e prendem a curiosidade, de lendas poéticas que seduzem e de problemas cuja solução desafia a sagacidade do estudioso.” (12). continua



*Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 3 e 4/5/2015, p. A-7.
**Thiago Fragata é poeta e historiador, sócio do IHGSE, professor da SEED/SE, membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq) e do Grupo de Pesquisa Sergipe Oitocentista (SEO/CNPq). Email: thiagofragata@gmail.com     

NOTAS DA PESQUISA:
1 - CALADO, Manuel. O Valeroso Lucideno (1649). In: ALVES, Francisco José (Org.) Fontes para História de Sergipe Colonial – séc. XVI-XVIII. São Cristóvão: Editora UFS, 2012, p. 25-26.
2 - O Diário de uma Estada no Brasil (1629/1640), de Cuthbert Pudsey, foi publicado em 2000. Ver: ALVES, Francisco José. 1637 – a invasão de São Cristóvão pelos flamengos. Sergipe Mais. Aracaju, ano IV, n. 51, 2003, p. 32-33.
3 - MELLO, José Antônio Gonsalves de. No tempo dos flamengos. Recife: Massangana, 1987, p. 14.
4 - TRAVASSOS, Antônio José da Silva. Apontamentos históricos e topográficos sobre a Província de Sergipe. Aracaju: Secretaria de Estado da Cultura, 2004, p. 32. (1a. Edição 1875)
5 -  SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense. São Cristóvão: EDUFS, 2009, p. 62-63, 117.
6 - CARDOSO, Severiano. Lendas Sergipanas - Rita Cacete. O Estado de Sergipe. Aracaju, 13/3/1904.
7 - SILVA, Clodomir. Album de Sergipe (1820-1920). Aracaju: Governo do Estado de Sergipe, 1920, p. 62.
8 - TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Sergipenses – escriptos diversos. 2 ed. São Cristóvão: Ed. UFS; Aracaju: IHGSE, 2013, p. 30-37.
9 - SILVA, Clodomir. Obra citada.
10 - ALVES,  Francisco José. Pistas para a arqueologia de Sergipe Colonial. Sergipe Mais. Aracaju, ano IV, n. 53, nov. 2003, p. 14-15.
11 - Entrevista com Gabriel Cupertino Santos. São Cristóvão, 21 de março 2015.
12 - PRADO, Eduardo. A História do Brasil (1906). In: LAET, Carlos de; BARRETO, Fausto. Antologia Nacional. 35 ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1958, p. 88.
Crédito da imagem: Brasão de Sergipe como possessão holandesa.

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