sábado, 6 de junho de 2015

A SOMBRA DA PEDRA: ENIGMA NO RIO VAZA-BARRIS – III*

Gradil importado, da Casa do Barão de Estância, chegou via Porto das Pedreiras. Foto - Samuel Albuquerque 2013



Thiago Fragata**

Tenho refletido a respeito de uma ruína submersa na Barra da cidade de São Cristóvão (confluência dos rios Vaza-barris e Paramopama), que os pescadores batizaram de “Sombra da Pedra” e gestaram uma mitologia ribeirinha. Já falei do mero gigante, um magnífico exemplar da megafauna marinha, ele virou estória de pescador. Também especulei a possibilidade de haver, no referido lugar, ruínas do antigo “Fortim de Sergipe Del Rey”, registrado por Matheus van den Broeck e Frei Manuel Calado, cronistas do século XVII. As pesquisas nos arquivos contribuíram com as lucubrações e levaram-me à outra perspectiva...

RUÍNA DA ATALAIA DO VAZA-BARRIS

No ano de 1855, quando São Cristóvão perdeu a condição de capital por uma decisão do Governador Inácio Joaquim Barbosa, o Porto das Pedreiras era um dos mais movimentados da região. Não dependia da cheia das marés para embarque ou desembarque de mercadorias, superava, assim, o Porto São Francisco (do mercado) e o Porto do Carmo (atual Porto da Banca), ambos do rio Paramopama. O Porto das Pedreiras ficava no Vaza-barris há pouca distância da Barra da cidade e da Sombra da Pedra, era amplo, e o inconveniente era a distância da sede: 8km. Havia, ainda, o Porto do Sítio Gameleira, em relação ao qual, em 1835, João Simões dos Reis, Secretário da Câmara, avaliava: “onde vão ancorar as embarcações sumacas que comerciam desta cidade comarca para a cidade da Bahia assim como o do Povoado de Itaporanga deste município.”(1)

Não falarei sobre motivos da Mudança da Capital, esse não é o objeto de investigação, lembro somente ser um mal-entendido o pretexto da “falta de porto”, que alguns professores repetem. Não foi por falta de um porto, como já disse: a ex-capital tinha mais de um. Havia a carência de um porto bem localizado, de fácil comunicação com a Bacia do Cotinguiba: região que concentrava a maior produção de cana-de-açúcar e que, sobretudo, não dependia das marés. Insisto no assunto Porto das Pedreiras, tanto pela sua proximidade da Sombra da Pedra quanto por se tratar de um importante entreposto comercial até as primeiras décadas do século XX. É bom frisar que não me refiro ao atual e inexpressivo cais a que chamam de Porto das Pedreiras.

Pertinente destacar que a movimentação não era somente de mercadorias, faz-se necessário desvelar o deslocamento dos viajantes, os roteiros terrestres e marítimos. O médico Francisco Sabino Coelho de Sampaio, por exemplo, deixou o relato de uma viagem de São Cristóvão à capital, Aracaju, realizada em meados do século XIX: “A 26 de outubro de 1858, à noite, sahi de S. Christóvão com a minha Família para o Aracaju, embarcando-me no porto de São Francisco. Cheguei ao porto Santa Maria às 10 horas da manhã do dia 27; sahiu-se às 6 horas da tarde, passou-se a noite na beira da Costa, e embarcamo-nos ahi às 8 horas da manhã do dia 28, e chegamos ao Aracaju às 11 horas do mesmo dia com três horas de viagem.” Em resumo, foram 2 dias de viagem de um percurso de 5 léguas. (2)

Entre os séculos XIX e XX, a maior representante da navegação costeira, ou de cabotagem, foi a empresa Lioyd Brasileiro. Portos da Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Rio de Janeiro recebiam embarcações das Companhias: Pernambucana, Esperança Marítima, Navegação Costeira, Espírito-Santense, Lioyd Brasileiro, dentre outras.(3) Além do transporte de pessoas, transportavam-se cargas. Dessa forma, empresas estabelecidas na então Capital Federal negociavam com empresas situadas em capitais do Nordeste.

Em Sergipe do início do século XX, a movimentação de embarcações dava-se pela Barra de Aracaju (Rio Cotinguiba e/ou Sergipe), Barra de Estância (Rio Real) e Barra de São Cristóvão (Rio Vaza-barris). Nessa época, a Barra de São Cristóvão expressava o mais acanhado movimento portuário, também um antigo ponto de contrabando (a tradicional sonegação de impostos). Burlava-se o fisco: isso era facilitado pela localização privilegiada. É oportuno lembrar a extinta estrada que ligava essa região à capital sergipana através do Povoado Caípe. Assim como essa via terrestre, o antigo Porto das Pedreiras não mais existe. Para esclarecimento, vejamos o que diz um estudo corográfico, publicado em 1897, sobre o referido porto: “É largo e profundo, oferecendo um ancoradouro seguro aos navios que ahi vão carregar. Há ahi um grande trapiche da Companhia do Lloyd, antiga bahiana.”(4) Naquele ano, encerrou o contrato entre a Associação Sergipana e a União, referente ao serviço de um rebocador que transportava cargas entre as barras de Estância, Cotinguiba e São Cristóvão.(5) Trapiche, segundo o dicionário, é um “armazém de mercadorias junto ao cais.”(6) O mencionado trapiche das Pedreiras era gerenciando pela Casa Comercial Jucundino e Cia., localizada na Rua Aurora, em 1907.(7)

Além das pequenas sumacas e botes, ao Porto das Pedreiras, aportavam vapores e patachos nacionais, conforme detalham as planilhas de entrada e saída de embarcações em Sergipe, contidas nos relatórios do Governo de Olímpio Campos (1898/1902). Foram 30 embarcações em 1898 e 37 no ano seguinte. Ali, acontecia o embarque e o desembarque de cargas: açúcar, algodão, etc. Os familiares de Antonio Dias Coelho e Melo (1822/1904), o Barão de Estância, informam que o material importado da Inglaterra para reforma da casa de veraneio, em 1887, localizada no Povoado Pau d'Arco, Itaporanga, inclusive o gradis que ornamentam portas e janelas, chegou pelo Porto das Pedreiras.(8)

No intento de monitorar a entrada e a saída de navios na Barra de São Cristóvão, por conta de fiscalizar as cargas e de prevenir acidentes, a Capitania dos Portos, na gestão de Cyro Câmara, tomou providências. No dia 8 de dezembro de 1908, inaugurou-se festivamente a “Atalaia de Sam Christovam, situada na bocca do Rio Vasa-barris.”(9) Atalaia não é farol, trata-se de uma pequena guarita construída num ponto estratégico para observar/fiscalizar embarcações. Não se sabe a exata localização dessa atalaia, nem quando foi desativada. Consta que sua estrutura foi assentada sobre rochedos, que supostamente seriam os que compõem a Sombra da Pedra
 
Iniciei esta série comparando a antiga São Cristóvão a uma esfinge que lança enigmas aos aventureiros pesquisadores. Se a comunidade acadêmica, os arqueólogos, especialmente, encamparem a aventura até as paragens da Sombra da Pedra, com certeza, experimentarão maiores riscos do que passei nos arquivos, bibliotecas e sebos, de onde juntei dados desconexos e produzi esta síntese.

José Calasans Brandão da Silva (1915/2001) revolucionou a interpretação da Guerra de Canudos na década de 1950 ao propor compreensão dela excetuando o clássico Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha. Hoje, essa ousadia nem é considerada... Neste ano de centenário desse eminente canudólogo, historiador e folclorista, compartilho suas palavras sinceras que estimularam o meu tirocínio: “Este trabalho inicial deve ser julgado com benevolência. Quem trilha caminho novo, ainda não percorrido por outros, enfrenta dificuldades sem conta, equívocos, incorre em omissões, que não raro se transformam em lamentáveis esquecimentos, senão mesmo clamorosas injustiças. (...) Agradeço, porém, com o mesmo interesse com que peço indulgência, as luzes dos que possam e queiram melhorar o conteúdo desta tarefa.” (10) (fim).

*Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIV, n. 12860, 17 e 18 de maio de 2015, p. A-7.
**Thiago Fragata: poeta e historiador, sócio do IHGSE, professor da SEED/SE, membro do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq) e do Grupo de Pesquisa Sergipe Oitocentista (SEO/CNPq). Email: thiagofragata@gmail.com

NOTAS DA PESQUISA:
1 - APES, Aracaju. Ofício de João Simões, Secretário da Câmara, ao Vice-Presidente da Província. 30 de dezembro de 1835. CM1 - 21, doc. 209.
2 - SOBRINHO, Sebrão. Laudas da História do Aracaju. 2a. ed. Aracaju: Gráfica J. Andrade, 2005, 289.
3 - LISBOA, l. Da Silva. Chorographia do Estado de Sergipe. Aracaju: Imprensa Official, 1897, p. 57.
4 - Idem, p. 149.
5 - Jornal de Notícias. Aracaju, ano II, n. 468, 18 de outubro de 1897, p. 2.
6 - BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: FAE, 1986, p. 1142.
7 - Correio de Aracaju. 10 de fevereiro de 1907, p. 4.
8 - Entrevista com Samuel Barros de Medeiros Albuquerque, Aracaju. 24 de abril de 2015.
9 - Folha de Sergipe. Aracaju, XVIII, N. 162, 10 de dezembro de 1908, p. 2.
10 - SILVA, José Calasans Brandão da. Aracaju e outros temas sergipanos. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013.
CRÉDITO DA IMAGEM: Janela da Casa de Veraneio do Barão de Estância, seu gradil foi importado da Inglaterra e chegou via Porto das Pedreiras. Foto: Samuel Albuqueque, 2013.

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