terça-feira, 6 de novembro de 2007

90 anos do Saci Pererê - Entrevista

"Lobatiano de Sergipe" concedeu entrevista para Tatiana Notaro, do Jornal do Commercio (edição de 31/10/2007), em alusão aos 90 anos da estréia do Saci na literatura brasileira. Confira:
TATIANA NOTARO - Qual era a ligação de Lobato com o folclore?
THIAGO FRAGATA -
Em meados do século XIX, o inglês William John Thoms fixou a expressão folk-lore para designar os saberes populares, criando assim um vasto campo de pesquisa a partir do variado acervo do conhecimento popular. Esse variado acervo compreende seres fantásticos, expressões lingüísticas, culinária, danças, estórias, artesanato, etc. O folclore na sua amplitude foi matéria-prima da produção literária de Monteiro Lobato, além das obras estrangeiras a respeito do tema, ele conhecia as contribuições de autores como Pereira da Costa, Melo Morais Filho, Sílvio Romero e João Ribeiro. Depois de escutar os caboclos da sua fazenda no Buquira, passou a desenvolver o tema nas páginas da Revista do Brasil, em 1916. Nacionalista, em 1917 ele questionava a atenção que instituições culturais como o Liceu de Artes e Ofícios concedia aos duendes e seres fantásticos do mundo europeu, sugerindo a incorporação de elementos da mitologia brasílica. Depois de realizar enquête no Jornal O Estado de São Paulo que possibilitou a ele juntar informações de várias partes sobre o negrinho peralta que guinchava pelas matas, Lobato organizou concurso de artes plásticas favoreceu a fixação de uma imagem do Saci. Com esse farto material publica seu primeiro livro ainda em 1917, intitulado Saci-Pererê: resultado de um inquérito. Nesse primeiro momento constatamos o contato dele com o lendário Saci e seu tino de folclorista.

Tanto na obras para adultos, quanto na série do Sítio do Picapau Amarelo, sua criatividade literária iria transformar essa matéria-prima, o folclore, ressignificando-a com nuances inventadas pelo escritor; para citar um exemplo, a cuca um temível animal do amazonas ganha voz e caldeirão de bruxa européia. A relação de Lobato com o folclore era intensa, os “causos” do Tio Barnabé e Anastácia, os ditos populares, o uso das estórias como lição de moral, o arrebatamento e adaptações do Minotauro, Hércules e outros seres da mitologia grega, enfim o aspecto lúdico que caracteriza boa parte do conjunto de sua obra infantil revela sua relação com o folclore.

TATIANA NOTARO - O saci é uma personagem que teve origem no imaginário indígena. Como ele chegou a integrar o imaginário geral?
THIAGO FRAGATA -
A idéia de que o Saci está relacionada ao imaginário indígena aparece nos estudos de Luis da Camara Cascudo, especialmente na Geografia dos Mitos Brasileiro, em 1947. Importante destacar suas observações: de que saci, a palavra, é de origem tupi-guarani e nomeia algumas aves da região sul variando para Matinta-Perera, inclusive. Apesar de inferir uma semelhança com o negrinho a partir do fato de algumas dessas aves conseguirem enganar sua localização com canto, de pousar numa perna só, é impossível localizar o Saci numa ave, aliás, essa impossibilidade se repete com o Uirapuru, ave fantástica da região amazônica. Camara Cascudo observa que o Saci pássaro povoa o imaginário das populações da Argentina ao México. Interessante é que a presença do Saci negrinho de uma perna só, de carapuça vermelha e mágica, que azedava leite, fazia nós na crina dos cavalos e além de outras diabruras surgiu no sudeste e sul (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul), no final do século XVIII. No norte suas características serão notadas em outro mito, a Caipora. Apesar da sua origem indígena ou africana declarada, a influencia portuguesa é maior do podemos pensar, principalmente seus hábitos e poderes que se repetem nos seres mitológicos europeus. Alceu Maynard Araújo declara num estudo de 1948 que esse negrinho era o “mito-síntese de três raças”. Os trabalhos acadêmicos, as músicas e mesmo as estórias da Turma do Pererê, criação do artista Ziraldo, substanciam o imaginário geral a respeito do Saci.

TATIANA NOTARO - Qual a origem do nome "saci"?
THIAGO FRAGATA -
Apesar dos antigos cronistas do Brasil colonial não terem registrado a presença do Saci, a palavra é de origem tupi-guarani, desdobramento de Çaa Cy Pererég.
TATIANA NOTARO - Por qual motivo o senhor escolheu ser um estudioso da obra lobatiana?
THIAGO FRAGATA -
A obra de Lobato sempre atraiu minha atenção. Já conhecia alguns livros infantis e o Sítio do Picapau Amarelo na televisão. Em 2002 herdei as Obras Completas de Monteiro Lobato, composta de 44 volumes organizados pelo Edgar Cavalheiro. Lembro que a coleção é dividida em literatura geral (para adultos), infantil e traduções. A valiosa herança pertenceu ao meu avô paterno, Manoel Políbio da Silva, falecido naquele ano. Devo a ele o gosto pela literatura por isso batizei minha biblioteca com o seu nome. Desde então comecei leitura sistemática dos livros, reli desconstruindo os textos e cartas, busquei seus críticos, biógrafos e especialistas. Resultado da empreitada: comecei a escrever uma trilogia sobre sua importância em alguns campos do conhecimento. Falarei do primeiro porque já foi publicado, um artigo intitulado “Monteiro Lobato, o folclorista”, justamente para mostrar a contribuição dele nessa área tomando o caso do Saci como mote. Esse trabalho se acha disponível no site (http://thiagofragata.blogspot.com/2007/08/monteiro-lobato-o-folclorista.html)

TATIANA NOTARO - Em qual obra Lobato cita pela primeira vez o saci? Qual a data de publicação dessa obra?
THIAGO FRAGATA -
No seu primeiro livro Saci: resultado de um inquérito, publicado em 1917. Este foi o verdadeiro marco zero da indústria editorial brasileira, pois foi editado às expensas do autor, reuniu depoimentos veiculados no jornal O Estado de São Paulo, naquele ano, e das gravuras que personificaram o Saci no já citado concurso de artes plásticas.
TATIANA NOTARO - Como é o Saci no imaginário lobatiano?
THIAGO FRAGATA -
É o negrinho risonho, sempre alegre apesar de ter somente uma perna. Que tem uma touca mágica com poderes de deixá-lo invisível. Faz peraltices, fuma cachimbo. Na sua condição de escritor de livros infantis, Lobato adiciona elementos que satisfaçam seu público e tenham significo moralizador, esta é uma das marcas da sua literatura carente de análise.
TATIANA NOTARO - O senhor acredita que Monteiro Lobato tenha sido o grande responsável pela popularização do saci?
THIAGO FRAGATA -
Tenho plena convicção que ele chamou atenção do Brasil para esse mito em 1916 e 1917, e num segundo momento popularizou a medida em que inseriu como personagem do Sítio do Picapau Amarelo. Publicou O Saci, em 1921, para crianças. Essa popularidade ganharia relevo com os folcloristas, com a interpretação dos artistas plásticos, desenhistas, compositores e, por último, através das adaptações do sítio encantado para a televisão.
TATIANA NOTARO - Como é o saci "original"?
THIAGO FRAGATA -
Não existe consenso em meio aos relatos compulsados pelo Monteiro Lobato em 1917 sobre o ser fantástico, da mesma forma que não existe consenso entre os ornitologistas sobre qual a ave seria o Saci original.
TATIANA NOTARO - Quais outras personagens folclóricas ganharam vida nas obras de Lobato?
THIAGO FRAGATA -
Além do Saci e de outros elementos do nosso folclore, como a vitória-régia, o Uirapuru, a Caipora, a Mula sem-cabeça, o Lobisomem, a Iara, Lobato arrebata para as estórias do Sitio do Picapau Amarelo uma boa parte dos seres da mitologia grega.
TATIANA NOTARO - O que o senhor destacaria de mais curioso nesse estudo de Lobato a respeito do saci?
THIAGO FRAGATA -
Seu pioneirismo, sem dúvida. Importante perceber que houve uma preocupação metodológica, etnográfica, na pesquisa organizada para personificar o Saci que os caboclos de São Paulo e Minas Gerais acreditavam povoar os campos.
TATIANA NOTARO - O que o senhor destacaria como principal peculiaridade da obra lobatiana?
THIAGO FRAGATA -
Monteiro Lobato foi um homem de pensamento, escrita e ação; sua obra compreende essas três esferas. Aí destaco sua peculiaridade. Esse grande brasileiro, um tanto conservador, é verdade, mal compreendido também, pensou o Brasil, apontou soluções, escreveu para adultos, revolucionou o mercado editorial brasileiro, formou gerações, ainda forma, através da sua obra infantil. Da atualidade de sua obra, lembro frase proferida nos tempos de embates a favor do petróleo e contra a truculência de Getúlio Vargas, no Estado Novo: “uma bala não acaba com uma boa idéia, o que acaba com uma boa idéia é uma idéia melhor”.
Thiago Fragata é licenciado em História e pós-graduando em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) e co-autor da Proposição de Inscrição de São Cristóvão a Patrimônio da Humanidade. E-mail: thiagofragata@gmail.com

5 comentários:

  1. Congratulações pela entrevista e em especial pela iniciativa de tornar-se um "emissor" de conteúdos de valor histórico no ciberespaço.

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  2. Aluizio Alves Filho17 de novembro de 2007 05:53

    Como lobatiano que sou não podeia deixar de dar os parabéns ao Thiago pela lúcida entrevista e pelo oportuno estudo sobre o folclore de Monteiro Lobato que está realizando.

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  3. Parabéns pela entrevista. Abraço lobatiano.Márcio Malta (Nico) http://www.mundoemrabisco.com

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  4. Muito bom seu site! Está de parabéns! Continue com o excelente trabalho!

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  5. ler todo o blog, muito bom

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