sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

ENTREVISTA VEICULADA NA REVISTA IMPRESSÕES

Thiago Fragata recebe "Troféu Cidade Histórica" das mãos do jornalista Carlos Cardoso



Foto: Gladston Barroso



Integra da entrevista concedida para Ramon Diego, editor da Revista Impressões, no dia 20 de dezembro de 2011:


Ele é historiador, poeta e Diretor do Museu Histórico de Sergipe; especialista em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe, sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e conquistou prêmio no “Concurso Nacional de Redação para Professores” promovido pela Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida, em 2003. Fui seu aluno, no Centro de Excelência Manoel Messias Feitosa, em 2006 e 2007. Encontrei Thiago Fragata nas redes sociais e fiz algumas perguntinhas, as respostas se acham destacadas na Revista Impressões abaixo, vale conferir.


REVISTA IMPRESSÕES - Você recebeu no último sábado, 17/12, o troféu Cidade Histórica, numa solenidade concorrida em que o Museu Histórico de Sergipe que você preside foi a única instituição cultural lembrada. Se não tiver enganado, este é o terceiro galardão que recebeste no último semestre do ano corrente. Bem, só é reconhecido quem tem serviços prestados. Dessa forma, pergunto a que se deve cada uma destas homenagens?


Sim, o troféu Cidade Histórica foi a terceira comenda recebida este ano. Sua indicação homenageia minha gestão enquanto diretor do Museu Histórico de Sergipe, instituição vinculada a Secretaria de Estado da Cultura que assumir em novembro de 2009.


Em 27 de setembro recebi uma outra honraria, do Grupo Cultural Peneirou Xerém. O Peneirou Xerém é um grupo de dança junino popular e respeitado em Aracaju que instituiu, em 2005, a comenda “Melhores do Ano” para homenagear entidades e pessoas que se destacaram no cenário cultural sergipano. Creio que eles descobriram meu nome por conta da repercussão da Comenda Mérito Ordem do Mérito Aperipê, recebida no dia 8 de julho. Essa terceira homenagem foi motivada pela minha atuação a coordenação da Comissão Pró-candidatura da Praça São Francisco a Patrimônio da Humanidade, entre 2008 e 2010, sem esquecer que sou co-autor do dossiê de inscrição da referida praça para o seleto grupo de bens chancelados pela UNESCO em todo o mundo.



REVISTA IMPRESSÕES - Presenciei o senhor atuando como professor de História, em Nossa Senhora da Glória, em 2007 e 2008, você mesclava ensino com arte, teatro e poesia. Era maravilhoso. Hoje o senhor é diretor do Museu Histórico de Sergipe e parece-me não é apenas mais um diretor de museu, com o birô distante do público e preocupado apenas em atender a burocracia. Você é versátil, inquieto e criativo, então pergunto: como é pensada a sua gestão, qual a meta a ser atingida?


Diferente dos setores ligado ao turismo não considero museu casa de visita de turista somente, que assim deveria funcionar em razão deste setor. Aqui em Sergipe a falta de bom senso, às vezes com o escarcéu da imprensa, propala a idéia de que museu deve funcionar a semana, fins de semana e feriados, todos os dias do ano, 24 horas! Na contramão disso, penso o museu de três formas: a) casa de visita: de turista, estudantes, pesquisadores, moradores da cidade, etc. Lembrando que nosso maior público é de estudantes do ensino médio das escolas públicas. b) casa de pesquisa: um lugar que as pessoas possam não apenas vê os objetos mas pesquisar sobre eles (o que significa ir além dos verbetes). Neste sentido, trabalhamos para abrir próximo ano uma sala de pesquisa a partir do acervo, das centenas de livros e documentos raros, também de imagens. O trabalho é árduo e depende do processo de inventariamento que se acha em andamento, é moroso pois a prioridade de toda equipe é o guiamento. Lembrando que o fluxo de visitas aumentou desde agosto de 2010, quando houve a conquista do título de Patrimônio da Humanidade pela Praça São Francisco, onde se localiza o Museu Histórico de Sergipe. c) Casa comunitária: lugar de efetivação de projetos e ações que possam atrair a comunidade de São Cristóvão tanto para conhecer o Museu Histórico de Sergipe quanto para participar de projetos, cursos, recitais, musicais, mostras de filmes. Considero o Círculo dos Ogãs um exemplo.


REVISTA IMPRESSÕES - De fato, assistir há algumas matérias da TV sobre museu fechado em feriados. O que o senhor tem a dizer sobre isso?


Já falei que para alguns setores, inclusive para a imprensa sergipana, a visão divulgada segue a tônica de ser um absurdo o museu se achar fechado em pleno feriado, ou seja, aqui museu não pode fechar no feriado. O que tenho a dizer sobre o fato. Em Sergipe, é unanimidade, o caso que envolve o turismo é permeado de senso comum. É mais ou menos assim: feriadão e a taxa de ocupação dos hotéis aracajuanos são de 80% ou 100% então o museu tem que funcionar, está é a concepção “museu como bazar de hotel”. Outro senso comum tacanho é o de “museu como urgência 24 horas”, funciona da seguinte forma: grupo de turista chega 8 horas da manhã ou 17 horas, aparece alguém para bradar é um absurdo o museu fechado etc, qualquer hora que isso ocorra é chamar a imprensa e pronto tá no ar o reclamo com o aceno geral. É preciso dizer, e não tenho medo, que museu é uma instituição cultural e assim tem horário de funcionamento definido e divulgado. Quem deseja visitá-lo tem que se informar antes acerca dos horários, dos dias e feriados que funciona, se meio ou expediente inteiro. Não é assim em todo canto, porque aqui se pensa diferente? Em Ouro Preto, por exemplo, os museus funcionam de 12:00 às 17:00 hs, ou seja meio-expediente. Não se pense que anseio por estabelecer meio-expediente mas em fixar calendário de funcionamento em 2012, mas qualquer mudança terá que passar pela anuência da Coordenadoria dos Museus, departamento da Secretaria de Estado da Cultura.



REVISTA IMPRESSÕES - Você coordenou a Comissão Pró-candidatura da Praça São Francisco a Patrimônio da Humanidade de forma brilhante, usando inclusive as novas tecnologias, contribuindo assim para a chancela concedida pela UNESCO em agosto de 2010. Todos esperam São Cristóvão se transformar em pólo turístico, isso ainda não aconteceu. Diante desta constatação pergunto: falta muito para que o título de Patrimônio da Humanidade possa ser revertido em turismo e benefícios para São Cristóvão?


Primeiro quero esclarecer que não sou advogado de defesa da cidade, nem gestor/prefeito, como alguns pensam, ou mesmo dono da Praça (risos).


Entendo a pressa, o pessimismo, São Cristóvão viveu um período conturbado entre 2006 e 2008. A cidade chegou a experimentou 5 prefeitos em um ano e o desarranjo político gerou miséria, dívidas e desencantamento. De forma que muitos acreditavam que a chancela da UNESCO conquistada representa a chegada de caminhões cheios de dólares para resolver os problemas da cidade, a solução de tudo. Os pessimistas se dividem, uns pensam: se conseguimos é porque não é lá grande coisa; outros: nem o título internacional consegue acabar com os problemas


Este ano visitei Ouro Preto (julho) e Salvador (setembro), chamei o passeio de Patrimônios da Humanidade Brasileiro. A capital de Minas Gerais recebeu o merecido título da UNESCO há 30 anos. O que anotei é que boa parte dos ouropretenses venderam suas residências para comerciantes e donos de pousadas, muita gente vive no interior ou na periferia; a obra de esgotamento sanitário no centro histórico se acha em andamento; museus funcionam meio expediente (12 às 17 hs). Os empregos gerados estão no comercio ou na cozinha e quarto dos hotéis. Será esta a Ouro Preto, pólo turístico, sonhada nas três décadas? Voltando para realidade de Sergipe é preciso fazer a mesma pergunta: que São Cristóvão, pólo de turismo, queremos? O fato da tal morosidade no progresso favorece a reflexão, sei que para alguns a discussão soa pessimista mas se o turismo figura como “fonte limpa de desenvolvimento, industria sem-chaminé”, a cautela pede um fórum público de discussão pois o turismo predatório, o turismo que gera lixo, o turismo sexual existe em outros lugares declarados Patrimônio da Humanidade.


Pra mim, a fase da propaganda e da campanha acabou. Chegou a hora de refletir, de planejar, dos gestores se apropriarem do “selo de qualidade ou honraria Patrimônio da Humanidade” e pleitear benefícios, dividendos, melhorias para Sergipe. O título Patrimônio da Humanidade é uma chave que pode abrir as portas do turismo internacional para Sergipe, mas é preciso estudar as portas, planejar e se preparar para as novidades existentes além da maçaneta.


REVISTA IMPRESSÕES - Você além de Historiador é poeta. Parece que tanto na produção acadêmica/científica quanto na poética/artística o tema São Cristóvão, sua cidade natal, é preponderante se não for o único. É isso mesmo ou existe um grande mal entendido?

Primeiro como poeta, depois como historiador, São Cristóvão foi, continua a ser o principal objeto do meu trabalho. Para mim não há nada de constrangedor em afirmar isso. O que não gosto é quando tomam o conjunto da minhas obras (textos e ações) como coisa de bairrista. Há toda uma carga de menosprezo, especialmente, por uma certa comunidade acadêmica que insiste numa tal imparcialidade e distanciamento do objeto de pesquisa que nunca aceitei, como não aceito a dita especialização do conhecimento. Com isso indico que não tenho São Cristóvão como objeto único da minha reflexão. Já disse que sou um pesquisador de gavetas, tenho uma para cada tema do meu universo de interesse, assim já publique sobre Guerra de Canudos, Serra de Itabaiana, Monteiro Lobato, Livros e Literatura, além da poesia. Para mim sou apenas um agente cultural de São Cristóvão e o que faço é trabalho engajado. E se aceito a pecha de bairrista é porque concordo com um sentido para o termo bairrista: cidadão que morando num lugar desenvolve relação afetiva, por isso conhece, procura conhecer e quer esse lugar cada vez melhor porque ali se acha a família e seus amigos. Enfim, considero-me apenas um cidadão engajado e apaixonado. Mas a paixão não significa declarar menosprezo a outros lugares, como Aracaju, Laranjeiras, Glória, Canindé, etc é assim que muitos entendem o que venha ser um bairrista. Sou um sergipano otimista.


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