sábado, 28 de janeiro de 2012

VII RODA DE LEITURA DE SÃO CRISTÓVÃO: CARNAVAL



Realizou-se na manhã de quinta, 26/1, a VII Roda de Leitura de São Cristóvão que tematizou o Carnaval. O convidado desta edição foi Jorge do Estandarte que falou dos antigos carnavais da sua juventude na quarta cidade mais antiga do Brasil e da sua experiência nas escolas de samba do Rio de Janeiro.

Revezaram-se na leitura de Eliene Marcelo, diretora do Posto de Informação do Turista; Maria Gloria, diretora da Casa do Folclore Zeca de Noberto; Rose Mary Barbosa, diretora da Biblioteca Municipal Lourival Baptista, e Thiago Fragata, diretor do Museu Histórico de Sergipe. Tendo como público aos alunos do Pró-Jovem acompanhados dos professores-oficineros Edivanilson e Ricardo o evento começou com uma leitura introdutória de Eliene Marcelo sobre a antiga brincadeira do Entrudo que originou o Carnaval. Destaque para a performance da contadora que cantou a marchinha de Lamartine Babo "O seu cabelo não nega". Rose Mary executou leitura sobre os carros alegóricos. Maria Gloria leu as memórias de Serafim Santiago, condensadas na obra "Anuário Christovense" (2009), sobre o jogo do Entrudo em São Cristóvão, quando a cidade era ainda Capital da Província de Sergipe. Finalizando, Thiago Fragata falou da peça teatral “Dracolindo: o vampiro que não queria contrair AIDS”, motivada pela importância de falar de sexo seguro para os estudantes e foliões de maneira geral. Em seguida o historiador virou ator e usou do cenário e figurino para fazer sua interpretação. 

Segue textos e imagens da VII Roda de Leitura de São Cristóvão: 

CARNAVAL DE RUA: ENTRUDO 

Maria Aparecida Urbano[1]

De origem portuguesa, vindo de regiões como a Ilha da Madeira, dos Açores e Cabo Verde, o Entrudo chegou ao Brasil com os colonizadores, sendo brincado ou jogado desde 1600. Era chamado de “jogo” e consistia numa brincadeira na qual toda a família brincava participava, juntamente com os amigos, vizinhos, empregados e escravos. 

A princípio o entrudo foi uma brincadeira grotesca, em que as pessoas se divertiam, escondendo-se, procurando jogar baldes de água em transeuntes distraídos. Usavam-se também vassouradas e pancadas de colher de pau, além de ovos, pó-de-mico, alvaiade, farinha e vermelhão que, além de molhar as pessoas, as deixavam imundas. Muito usado era o “limão-de-cheiro”, feito de fina camada de cera, em forma de limão, laranja, banana ou outra fruta. Dentro dessas frutas se colocava água-de-cheiro ou água tingida com vermelhão. Os mais malvados colocavam água suja. 

Com o passar dos anos, essa brincadeira foi se tornando mais refinada, mais elegante, principalmente pela camada mais elevada da sociedade. 

Os preparativos para a festa do Entrudo davam-se dois meses antes da Quaresma, participando dele todos os membros da família. As mulheres, principalmente as sinhás-moças, juntamente com suas escravas, se encarregavam da produção dos limões-de-cheiro. 

Aos homens era atribuída a tarefa de obter a cera para a confecção dos limões-de-cheiro, material escasso na época por causa do grande uso. Essa fabricação tão artesanal cresceu ao ponto de muitas famílias de classe média e as mais pobres conseguirem uma renda extra nesse período de festas, vendendo em suas próprias casas os limões e laranjinhas de cera, cheias de água perfumada. 

A brincadeira do Entrudo acontecia nos três dias de Carnaval por volta das quatro ou cinco horas da tarde, quando as famílias amigas se visitavam para “jogar o Entrudo” que era realizado nos salões dos sobrados ou nas amplas casas térreas. Eram travadas verdadeiras “batalhas aquáticas” de limão-de-cheiro, terminando o encontro pelas vizinhanças. 

À noite a brincadeira continuava nos teatros, nos camarotes ou entre a platéia e os camarotes. O mais interessante é que não se têm notícias se essa brincadeira era ou não acompanhada de qualquer tipo de música ou ritmo. 

Esse entusiasmo geral que chegou a contagiar até nossos imperadores, não impediu que o Entrudo sofresse perseguições. Como uma brincadeira grotesca, provocou por diversas vezes brigas, desabonando o nome do Brasil perante os estrangeiros que nos visitavam, vindo a ser proibido por causa disso. 

Apesar da proibição, o “jogo do Entrudo” perdurou por muitos anos, só começando a declinar com o surgimento dos desfiles das sociedades carnavalescas. 

Mas como o Carnaval é eterno, provavelmente nada é esquecido completamente. Ainda nos dias de hoje encontramos esse velho costume entre as crianças e jovens que brincam com bisnagas plásticas cheias de água, que nem sempre é água limpa, espirrando nas pessoas que passam. 

ENTRUDO EM SÃO CRISTÓVÃO 

Serafim Santiago[2] 

Estas festas que outrora se chamavam Entrudo, hoje tem o nome de Carnaval, época do prazer, que não podia deixar de ter também os seus dias consagrados. A Mitologia criou uma boa porção de deuses, especializando Momo, o deus da sátira e do riso, que, desprezando todas as desgraças e tristezas, veio se confundir em meio da bacanal encarnada nesse outro deus – Baco – que representa o vinho, a loucura fantástica, enfim. As festividades obscenas de Roma, as saturnais, festas de uma torpeza inominável, consagradas ao culto de Saturno, deixaram no mundo romano as mais asquerosas tradições porque emblemavam o cúmulo da fraqueza humana, as paixões mais vergonhosas e instintos mais aproximados da bestialidade. Quanto ao Entrudo, este estúpido divertimento ali usado por longos anos, sua origem vem da falsidade, traição e emboscadas. Contudo, os cristovenses tornavam-se loucos com tal divertimento, por não ser ali conhecido o Carnaval, este que o povo atualmente abraça cegamente para esquecer as contrariedades da vida, procurar nos “evoés e você me conhece?” o esquecimento dos atrasos comerciais, dos abalos morais, etc. Em São Cristóvão o atraente divertimento do Entrudo no Domingo Gordo ou Quinquagésima, há longos anos passados, chegou sua influência até o Palácio Presidencial. Tivemos na antiga cidade, um Presidente tão influído, que no referido Domingo do Entrudo, recebia os amigos e correligionários com a mesma franqueza e amabilidade do costume, usando com toda a sinceridade, a falsidade que exige o falso e traidor divertimento, mandando agarrar os amigos e visitantes, vestidos decentemente, e mergulhava numa grande bacia cheia d’água bem perfumada que se achava oculta. Esta narração ouvi repetidas vezes pelo meu velho amigo Apolinário José Moura. De muitas mortes até ainda hoje me recorda, todas as conseqüências do mal entendido divertimento, assim como muitas desconfianças de amizades de famílias cristovenses. Até o ano de 1912, não era usado o carnaval em São Cristóvão, sendo que no referido ano, este festejo foi feito ali com verdadeiro esmero e grande entusiasmo. Como em tempo remoto era muito respeitada a religião do Calvário, o estúpido divertimento (o Entrudo) só terminava por completo, às 8 horas da noite de terça-feira de Entrudo, quando ouvia-se dobrar o sonoro e grande sino de São Francisco, anunciando aos fiéis a entrada da quaresma no dia seguinte (Quarta-feira de Cinzas). 

CARROS ALEGÓRICOS

Maria Aparecida Urbano[3] 
Não se contentando somente com o divertimento dos salões, as famílias queriam ir às ruas para acompanhar os festejos carnavalescos. Para tanto foi criado um desfile de carros alegóricos levando pessoas fantasiadas. A princípio foi chamado de “Passeata” ou Promenade e mais tarde “Préstito”, que saía no sábado de Carnaval, com grande participação do público, incluindo até os membros da família Real e da Corte. 

Os carros alegóricos são uma reminiscência dos carrus navalis, que traziam Dionísio para as ilhas gregas, quando da celebração das festas dionisíacas. Durante o Renascimento os carros receberam o nome de “triunfos”, homenageando os heróis, reis e pessoas importantes. A eles se associavam as batalhas de bolinhas feitas de massa de farinha colorida (era uma espécie de confete da época). Para brincar nessas batalhas, era necessário o uso de máscaras feitas de tela de arame para proteção do rosto. As festas eram acompanhadas de músicas, executadas por trombetas (instrumentos que eram usados durante as batalhas do Império Romano). 

No Rio de Janeiro, em 1855, foi criada a Sociedade das Sumidades Carnavalescas pelo romancista José de Alencar, junto com uma comissão, trazendo da Europa a idéia dos desfiles de carros alegóricos, para que as “moças de família” pudessem também brincar na rua. 

O primeiro préstito dessa sociedade deu-se em 1856, com absoluto sucesso. Tomavam parte do desfile estudantes, jornalistas, homens de letras, altos funcionários do comércio.

As sociedades carnavalescas foram se desenvolvendo a tal ponto que no Carnaval de 1896 desfilaram pela cidade do Rio várias delas, entre as quais, os Fenianos, os Democráticos, o Grupo Promptos, os Girondinos e os Tenentes do Diabo. Eram sempre acompanhadas de inúmeros carros alegóricos. Quando uma sociedade, como, por exemplo, os Fenianos, apresentavam vinte ou mais carros, as demais, por sua vez, não ficavam atrás. As famílias atiravam flores das janelas de suas casas e ofereciam coroas de louro como homenagem e premiação às sociedades que mais as agradavam. 

As sociedades disputavam entre si o reconhecimento do público no sentido de luxo, criatividade e grandiosidade. A manutenção das sociedades carnavalescas provinha do jogo de roleta e carteado, realizado durante o ano em suas sedes. A partir de 1915 dá-se o início do processo de decadência dessas sociedades, em virtude de a polícia carioca fazer uma forte campanha contra o jogo e a prostituição. Entretanto, muitas delas subsistiram e subsistem ainda com grandes dificuldades. 

Em São Paulo, os primeiros carros alegóricos de que se tem notícias nasceram nos desfiles do centro da cidade entre as ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro. Mais tarde, na Avenida Paulista, foram realizados também corsos, onde, além dos automóveis e pequenas caminhonetes muito bem ornamentados, havia ainda carros alegóricos, tornando-se mesmo motivo de atração. 

Desde o primeiro Carnaval ocorrido no bairro do Brás em 1906, a animação carnavalesca era muito grande. Pelas avenidas Celso Garcia e Rangel Pestana, desfilavam carros alegóricos, charretes, automóveis enfeitados, caminhonetes e caminhões. 

Dessa mesma forma, outros bairros, como a Lapa, Água Branca, Belém, Penha e Vila Maltide, foram criando os seus desfiles, cuja maior atração eram os carros alegóricos. A Lapa, por exemplo, foi o bairro pioneiro em apresentação de carros alegóricos montados sobre carroceria de caminhão. Em todos esses bairros houve épocas de glórias para tão deslumbrante desfile. As alegorias eram geralmente feitas por clubes sociais, sendo até criados concursos e premiações para os melhores carros alegóricos de cada bairro.

Nas primeiras décadas do século XX, eles serviam para levar os foliões e suas famílias para se divertirem. Com o crescimento exorbitante e rápido da cidade e dos bairros, esses desfiles com carros alegóricos acabaram desaparecendo, ressurgindo, porém, décadas mais tarde de maneira diferente. Nessas últimas décadas do século XX, eles passaram a enfeitar e complementar os enredos dos desfiles das Escolas de Samba, sendo somente motivo de admiração e não de participação do povo em geral. 

Pode-se dizer que, desde o início dos séculos até hoje, o maior espetáculo que é exibido no Carnaval em todo o mundo são os carros alegóricos.

GALERIA DE IMAGENS
Jorge do Estandarte faz depoimento sobre sua vida de carnavalesco


Panorâmica da Roda

Rose Mary faz leitura dos carros alegóricos


Maria Gloria faz leitura do antigo Entrudo de São Cristóvão


Eliene Marcelo faz leitura da origem do Entrudo



Eliene Marcelo interpreta marchina "O seu cabelo não nega", de Lamartine Babo

Thiago Fragata interpreta "Dracolindo: o vampiro que não queria contrair AIDS"


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário sobre essa matéria.