terça-feira, 13 de março de 2012

IX RODA DE LEITURA DE SÃO CRISTÓVÃO: JENNER AUGUSTO

Maria Rita apresenta poesia que Carlos Drummond de Andrade dedicou a Jenner Augusto



Na última sexta, 9/3, aconteceu no Museu Histórico de Sergipe a IX Roda de Leitura de São Cristóvão, com o tema: Jenner Augusto. Os contadores Maria Rita, Thiago Fragata, Denise Santiago, Rose Mary Barbosa e Maria Gloria revezaram-se na leitura de textos e poesias que autores consagrados como Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Stella Leonardos e Di Cavalcanti dedicaram a Jenner Augusto e sua obra. Alunos da Escola Municipal Gina Franco fizeram parte do público que presenciou também o lançamento da mostra audiovisual “Imagens de Jenner Augusto na poesia de Jorge Amado”, dirigida por Carlos Augusto Brás, com perfomance da poetisa Maria Gloria. O evento coroou a semana natalícia do Museu Histórico de Sergipe que completou 52 anos no dia 5 do corrente mês.

No salão do evento uma pequena mostra destacava o acervo especializado na obra de Jenner Augusto. A Roda de Leitura de São Cristóvão é um projeto da Secretaria Municipal de Cultura e tem o apoio da Casa do Folclore Zeca de Noberto, Ponto de Informação ao Turista, Colégio Estadual Deputado Elísio Carmelo e Museu Histórico de Sergipe.  

Segue abaixo seleção de textos, capas do acervo institucional sobre Jenner Augusto e imagens do evento.


 TEXTOS SELECIONADOS




POESIA DE JORGE AMADO DIANTE DOS QUADROS DE JENNER AUGUSTO

Para fazer um quadro assim tão belo
A receita, senhoras e senhores, vos ensino:

Alvas areias altas dunas casario antigo
O pássaro sofrê os retorcidos santos
A humildade, o orgulho, a dura consciência
O mistério das flores, do caule, da corola
O boi, o porco, a cabra, o vira-lata, o galo, a madrugada
O mar dos alagados, a fome milenar
Nordestina universal, a rútila esperança
A meninice, a tia, a noite sergipana
A brisa da Bahia, o patriarca, a puta
Fraternal, suave, doce, triste, alegre, maternal
A música do cego, o violão as cores desse céu
Dessa montanha, dessa pedra, desse chão
Desse mundo e dos olhos de Luíza
O riso dos meninos
A ausência dos meninos
O órfão indispensável, recolhido sofrimento
Em riso rebentado da infância oferecida.

Também é necessário, senhoras e senhores, ter talento
Coração sangrando, ser solidário, poço de bondade
Uns olhos fundos apertados, um choro não chorado
Ser cangaceiro e santo, ter sofrido e amado.
Como vêdes, senhoras e senhores, é muito simples
Pintar um quadro tão belo. Só é preciso
Ter vivido.

Poesia lida por MARIA GLORIA SANTOS.






JENNER AUGUSTO, ARTISTA PINTOR

Trouxeste de Sergipe
A contida paixão, a ascese, a fome, o fulcro
Da alma nativa, a agreste crispação
Da mata branca da caatinga, a alta tensão
Da palha onde os pássaros
Se picam ao latir dos estampidos
De uma nova vingança, os descaminhos
Da vingança, os paroxismos

Da herança, as consoantes da palavra honra
A fulgor azul das lâminas o grito
Vermelho dos estupros, o olho injetado e morto dos coágulos.
Reassumiste Cézanne com o pincel molhado
Na polpa dourada das mangas
E com o amarelo adstringente dos cajus
Resumiste o cubismo de taipa
Do casario a duas-águas dos velhos povoados
Do teu nordeste e da tua infância, em piedosas cores frias
Com que amenizá-los da canícula.
Súbito vomitaste Azul nos pântanos podres
Dos alagados, recriando singapuras
De lixo, erguendo hong-kongs de palafitas
Por entre os mastros dos saveiros, fazendo longes...
Nos amplos espaços do Recôncavo
Reafirmaste a luz e a cor em abstrações
Precisas, perdido de violeta paixão por crepúsculos
E auroras, dando vez ao jaguar que mora em ti
E a tudo espreita através do oco das órbitas
De caminhar entre nuvens, fulvo e elétrico
Transformando sons em cores
Na rigorosa pauta do infinito.

Para mim, quando o vi (quadro soberbo!)
Pintaste peteleca (sem sabê-lo...)
A jovem e pequenina puta negra
Que aos estudantes sempre dá primeiro
Não só porque é por eles adorada
Como porque em geral não tem dinheiro
E que nas noites de Salvador
Vive alegre, volátil e sem medo
E que, se bem notardes, quando passa
Tem um aro de luz sobre os cabelos

Meu irmão Jenner Augusto
Pintor do que mais sabem e mais aprendem
Cheio de inexprimível piedade
Pelo homem, esse bicho tão pequeno,
Pinta-me uma cidade
Onde se viva em paz, se sofra menos
Uma branca cidade
Sempre crepuscular e em tons serenos
Onde eu possa iludir-me
Sobre o amor, sobre a dor e sobre o tempo
E morrer e me esvaindo
No doce balbucio das estrelas.


Poesia lida por THIAGO FRAGATA.







LOUVAÇÃO A JENNER AUGUSTO

Jenner, do gênio da cor,
Coração pintor de gentes
E paisagens, face ingente
Com que sóbrio desassombro
Ergues das luzes e sombras
Faceis de altiva vivência!
Teu cavalo pasta
Sonho.
Teu casario transcende.
Teus coroinhas processionam
Num coro de almas ingênuas
E tua Kátia impressiona
Na meninice serena.
Teus alagados se alargam
Por sobre um lago de lágrimas.
Uns de azuis - claros noturnos
Alegros, outros - vermelhos
E explodem céus - que avermelham
E negrejam - no ar incêndio
Doido e doído.

E soltas nuvens
Branquibrancas, de ouro, fumo,
E se espraiam, sem alarde.
E das violetas à tarde.
E cada quadro amanheces
Dessa visão inviolada
Que há nos ínvios teus
Tão de alma.
E nos alumbras - que cresces.

Poesia lida por DENIZE SANTIAGO. 





 


ALAGADOS

Casebres à flor d´água
Balançam
No silêncio
O sonho de viver
O sonho de morrer.

Jenner Augusto sob o céu de chumbo
Sob o céu violeta
Lê o horóscopo das criaturas
Que nos alagados
Morrem sem viver.

Poesia lida por MARIA RITA SANTOS.



Di Cavalcanti escreveu:

“Vejo em Jenner Augusto a permanência de um lirismo brasileiro que faz bem à gente. É um pintor de originalidade técnica sem se separar da natureza, que nele guarda toda a poesia”.



“Vi tuas pinturas. Tuas casas e ruas possuem expressão quase humana e parecem contar histórias. Na minha opinião, hoje, no Brasil, ninguém pinta marinhas e céus mais belos que os teus. Vivo repetindo que sou pintor frustrado. Se me perguntassem com quem eu gostaria de pintar, responderia sem hesitação: como Jenner Augusto”.

Leitura realizada por ROSE MARY BARBOSA.


IMAGENS DO EVENTO:
 








Maria Gloria na mostra audiovisual "Imagens de Jenner Augusto na poesia de Jorge Amado"
 Rose Barbosa eclipsada nas leituras de Érico Veríssimo e Di Cavalcanti
 Maria Rita fez leitura de Drummond
 Maria Gloria apresenta telas famosas de Jenner Augusto

 Thiago Fragata na leitura de Vinicius de Morais
 Denize Santiago apresenta "Louvação a Jenner Augusto", de Stella Leonardos
 Maria Glória repete sua intervenção a pedidos da platéia
 Denize Santiago apresenta texto de Stella Leonardos
 Rose Barbosa faz leitura de Di CAvalcanti
 Platéia atenta a leitura dos textos selecionados 

 
 Alunos da Escola Municipal Gina Franco, acompanhados da Prof. Deise Barroso, participaram do evento

  
ACERVO MHS - MOSTRA JENNER












REFERÊNCIAS DA PESQUISA

FERNANDES, Zeca; BRITTO, Mário. Jenner Augusto: vida e obra. Aracaju: Gráfica Santa Marta, 2012, p. 62 e 94.
FONTE: FURRER, Bruno. Jenner. São Paulo: Gráfica Brunner Ltda, 1980, p. 12 e 13.


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