sábado, 13 de julho de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (V)*

Felisbelo Firmo de Oliveira Freire, déc. 1910 (Acervo do IHGSE, I-722) 

Samuel Albuquerque**

Para além dos testemunhos de Luiz Álvares dos Santos e Serafim Santiago, que há tempos circulam entre estudiosos do passado sergipano, documentos preservados em acervos de instituições como o Arquivo Público Estadual de Sergipe, o Arquivo Geral do Judiciário de Sergipe, o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, o Arquivo Público do Estado da Bahia, o Arquivo Nacional e a Biblioteca Nacional podem revelar dados importantes sobre José Guilherme da Silveira Telles, o senhor do engenho Rio Comprido.

No Arquivo Geral do Judiciário, por exemplo, não localizei testamento ou inventário post-mortem de José Guilherme, mas compulsei documentos que lançam luzes sobre suas relações familiares. O inventário de sua mãe, Joana Narcisa da Silveira, relaciona os irmãos legítimos que ele possuía em 1853. Eram: dona Ana Maurícia da Silveira Fontes (senhora do Engenho São Francisco, em Nossa Senhora do Socorro, e esposa do capitão-mor Joaquim Martins Fontes, político de prestígio desde as lutas pela emancipação do Brasil), o coronel e comandante superior Barnabé Francisco Telles (senhor do Engenho Dira, em São Cristóvão, e esposo de Rosa de São José Sobral), dona Maria Jesuína de Andrade (esposa do tenente coronel Manoel Joaquim de Andrade) e dona Clara Júlia da Silveira Garcez (senhora do Engenho Comandaroba, em Laranjeiras, esposa do magistrado Manoel de Freitas César Garcez e mãe do jovem Martinho César da Silveira Garcez, futuro presidente de Sergipe e senador nos primórdios da República). A ausência de Eugenio José Telles, pai de José Guilherme, entre os herdeiros de Joana Narcisa, indica que o mesmo havia falecido antes de sua consorte.

Pelo que consta no referido inventário, coube a José Guilherme um modesto quinhão da legítima materna. Escravos e terras no Engenho Tabua de Baixo estavam entre os bens a ele legados, que equivaliam a 3.811$232 (três contos, oitocentos e onze mil, duzentos e trinta e dois réis). No mais, presumimos que as relações familiares do senhor do Rio Comprido tenham ampliado seu campo de influência na sociedade sergipana. Graças, certamente, ao prestígio pessoal e familiar, ele ocupou cargos importantes, mesmo que interinamente. O inventário post-mortem da afortunada viúva Maria Joaquina da Conceição Dias do Carmo, registra que, no ano de 1853, o tenente coronel também exercia a função de juiz municipal e de órfãos da Comarca de São Cristóvão.

Outro interessante inventário, esse de 1856, relaciona José Guilherme entre os herdeiros do tenente coronel Luis Francisco Freire, “por cabeça de sua mulher Dona Ana Profiria Freire Telles”. Assim, o senhor do Rio Comprido era casado com uma das filhas do finado patriarca dos engenhos Roma, Belém e Jerusalém, em Itaporanga d’Ajuda. Tinha como sogra a viúva Adriana Francisca Freire e como cunhados o tenente coronel Alexandre Freire do Prado (proprietário do Engenho Carvão, em Divina Pastora, e esposo de Maria Etelvina de Oliveira, com quem teria Alexandre de Oliveira Freire, médico e intendente de Aracaju na década de 1910), o major Felisberto de Oliveira Freire (futuro Barão de Laranjeiras e senhor do Engenho Belém, em Itaporanga d’Ajuda), Carolina Freire do Prado Pinho (esposa do médico Antonio Joaquim Moreira de Pinho) e Domecília Freire do Prado Botelho (esposa do médico Pedro Antonio de Oliveira Botelho e senhora do Engenho Roma, em Itaporanga d’Ajuda).

O médico, historiador e político Felisbelo Firmo de Oliveira Freire (1858-1916), neto de Luis Francisco Freire, era sobrinho da esposa de José Guilherme, dona Ana Profiria Freire Telles. Na verdade, o pai de Felisbelo (seu homônimo, diga-se) era, conforme registros da Paróquia Nossa Senhora d’Ajuda, filho natural de certa Ignez das Virgens, que residia na vila de Itaporanga. O genitor Luis Francisco, embora ocultado nos registros paroquiais, reconheceu sua linhagem bastarda, assumindo o papel de provedor e transmitindo-lhes o seu sobrenome.

Provavelmente, era na avó Ignez que os desafetos políticos de Felisbelo buscavam inspiração para afirmar, por exemplo, que sua “ascendência vai entroncar na nobre árvore genealógica das senzalas do Engenho Belém” (Dantas, 2009, p. 238). Teria a avó Inez passado de cativa a amásia do avô Luis Francisco? Quem sabe um biógrafo à altura do nosso primeiro historiador possa, dentre outras coisas, relacionar a história familiar com a militância de Felisbelo nos movimentos abolicionista e republicano.

O parentesco enviesado com Felisbelo Freire parece ter beneficiado José Guilherme, ao menos é o que sugere a carta-denúncia publicada no noticiário da edição de 26 de maio de 1890 do “Pequeno Jornal”. Gritando contra as “imoralidades do governador”, a primeira denúncia arrolada é a de que “O dr. Felisbelo Freire comprou ao tenente-coronel José Guilherme da Silveira Telles um terreno de tabuleiro avaliado em inventário por 800$000 [oitocentos mil réis], pela quantia de cinco contos e quinhentos mil réis (5:500$000)”. O terreno em questão denominava-se Pintos, que hoje corresponde à Colônia Pintos, na periferia norte de São Cristóvão.

A referência às características geomorfológicas do terreno, localizado em uma região de tabuleiros costeiros, indicia que o mesmo não era adequado ao fim pretendido pelo governo (o de uma colônia agrícola). Quanto à sua supervalorização, constatamos que fraudes administrativas em benefício de parentes são práticas antigas, capazes de macular, inclusive, a memória de um “republicano histórico”. (Continua).



*Publicado no Jornal da Cidade. Aracaju, 13 jul. 2013, caderno B, p. 6.
 **Samuel Albuquerque é Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br

Bibliografia
INVENTÁRIO post-mortem de Joanna Narciza da Silveira. São Cristóvão, 1853. Arquivo Geral do Judiciário, Fundo São Cristóvão/Cartório do 1º Ofício, caixa 11, número geral 24.
GUARANÁ, Manoel Armindo Cordeiro. Dicionário bio-bibliográphico sergipano. Rio de Janeiro: Pongetti & C, 1925. p. 8, 152, 224-226.
INVENTÁRIO post-mortem de Maria Joaquina da Conceição Dias do Carmo. São Cristóvão, 1853. Arquivo Geral do Judiciário, Fundo São Cristóvão/Cartório do 1º Ofício, caixa 11, número geral 24.
INVENTÁRIO post-mortem de Luis Francisco Freire. São Cristóvão, 1856. Arquivo Geral do Judiciário, Fundo São Cristóvão/Cartório do 1º Ofício, caixa 12, número geral 25.
REGISTRO DO CASAMENTO de Fellisbelo Firmo de Oliveira Freire com Rosa Benta de Araújo Mello. Itaporanga d’Ajuda, 1857. In: Livro de registro de casamentos – 1845/1877, número 579. p. 82 (anverso). Arquivo da Igreja Matriz da Paróquia de Nossa Senhora d’Ajuda, Itaporanga/SE;
FREIRE, Felisbello Firmo de Oliveira. Os caracteres clinicos da cirrhose hypertrophica são sufficientes para classifical-a como uma moléstia distincta da cirrhose atrophica?. Bahia: Imprensa Economica, 1881 (Tese apresentada à Faculdade de Medicina da Bahia).
MACIEL, Leandro [Ribeiro de Siqueira]. Resposta ao pé da Letra. Gazeta de Sergipe, 20 nov. 1890. In: DANTAS, Ibarê. Leandro Ribeiro de Siqueira Maciel (1825/1909). O patriarca do Serra Negra e a política oitocentista em Sergipe. Aracaju: Criação, 2009. p. 238.
NOTICIÁRIO: Sergipe. Pequeno Jornal, Salvador, 26 maio 1890, p. 01.

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