segunda-feira, 29 de julho de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (VII)*

Mausoléu da família Freire na Fazenda Belém, em Itaporanga/SE. Fotografia de Samuel Albuquerque, 2013



 Samuel Albuquerque**

Testemunhos distintos indicam que o Rio Comprido se tornou residência efetiva da família Silveira Telles, somente, em princípios da década de 1860. Até então, o aquinhoado tenente coronel José Guilherme se dividia entre esse engenho e o Tabua de Baixo, localizado na margem direita do Poxim-Mirim, distante cerca de quatro léguas de São Cristóvão, no sentido norte.

Através do processo de habilitação para herança movido em benefício dos herdeiros do comandante superior Barnabé Francisco Telles em 1857, tomamos conhecimento que o Tabua de Baixo passou a José Guilherme por herança de seus pais, Eugênio José Telles e Maria Narcisa da Silveira. Alguns anos depois, contudo, o proprietário anunciava a intenção de vender “o seu Engenho Tabua de Baixo, com todos os seus bons terrenos, livre e desembargado, com excelente casa de morar ultimamente feita, engenho, cachaçaria, senzalas, tudo no melhor estado, com grande plantação de canas, mandiocas, pastos limpos e cercados das melhores madeiras, com bois mansos, 35 cavalos de roda, 25 escravos, 4 carroças americanas, 5 carros ferrados, tudo por preço razoável e recebe parte a vista e parte em pagamentos módicos. Quem quiser contratar se dirija ao mesmo engenho do anunciante” (Correio Sergipense, 10 out. 1860, p. 4). Como o anúncio não circulou por muito tempo, é provável que algum interessado logo tenha fechado negócio.

Seguindo o exemplo de Henrique Luis de Araújo Maciel, primitivo senhor do Rio Comprido, José Guilherme fez daquele engenho uma espécie de quartel do Partido Liberal nos arrabaldes de São Cristóvão. Era para lá que, em circunstâncias adversas, os líderes daquela agremiação “davam em pernas”, refugiavam-se e articulavam reações. Não raras eram as acusações de que os liberais fabricarem atas eleitorais “dentro dos engenhos e à borda dos rios” (Correio Sergipense, 1º dez. 1852, p. 2-4).

À época do domínio dos Silveira Telles, cresceu o número de casebres que, nas bordas do engenho Rio Comprido, originaram os povoados Miranda (atual Colônia Miranda ou, simplesmente, Colônia) e Pedrinhas (atual Rita Cacete). Tratando de processos similares, Maria Thetis Nunes destacou que, desde as décadas de 20 e 30 do século XIX, existia em Sergipe uma “numerosa população livre, em sua maioria composta de mestiços e negros, vivendo essa gente, principalmente, na periferia das propriedades açucareiras ou nos núcleos urbanos situados em sua órbita” (Nunes, 2000, p. 25).

Em princípios do século XX, quando a sede do município possuía 824 fogos (habitações), figuravam entre os mais robustos povoados de São Cristóvão: Miranda/Rio Comprido, com 184 fogos; Robalo, com 153 fogos; Cardoso, com 120 fogos; Pedrinhas/Caraíbas, com 117 fogos; e Pedreiras, com 111 fogos. Muitos desses núcleos, como já mencionamos, surgiram como apêndices ou no entorno das sedes de engenhos, prova disso é que, sob a denominação de “povoados do município de São Cristóvão”, foram relacionadas antigas unidades açucareiras da região, como o Itaperoá (75 fogos), o Quindongá (50 fogos), o Roma (50 fogos), o Escurial (75 fogos), dentre outras (Valladão, 1915, p. 110-111).

Graças, certamente, à demanda dessas pequenas povoações (notadamente Miranda e Pedrinhas), em princípios da década de 1880 foi nomeada uma professora primária para o Rio Comprido. A edição de 13 de maio de 1882 do Eco Liberal informa que, dez dias antes, havia sido nomeada a professora Leolinda da Silveira Telles (Echo Liberal, 13 maio 1882, p. 2). Como indica o seu sobrenome, a educadora era descendente de José Guilherme e, provavelmente, uma egressa da Escola Normal feminina de Aracaju, criada em 1877.

É quase certo que Leolinda tenha prestado concurso público pouco antes de sua nomeação, conforme sugere a edição de 5 de junho de 1880 do Jornal de Sergipe, ao informar que, em 1º de maio de 1880, o presidente da província determinou ao diretor da instrução pública que mandasse “pôr em concurso as cadeiras do sexo feminino dos povoados Curralinho, Rio Comprido, Colégio, Caititu, Mata, Saco do Rio Real, Mussuca, Pedra Mole, Santa Rosa e Samba, com prazo de trinta dias” (Jornal de Sergipe, 5 jun. 1880, p. 2).

Pai ou avô da professora Leolinda, o coronel reformado José Guilherme deixou de frequentar as páginas dos jornais sergipanos e cariocas em princípios da década de 1880, quando, ao que tudo indica, passou a uma vida mais recolhida, administrando seus bens e, interinamente, assumindo a função de juiz municipal e de órfãos de São Cristóvão.

Não localizei necrológio ou nota que faça menção ao seu passamento e, da mesma forma, não tive sucesso no rastreio de testamento ou inventário post-mortem de José Guilherme. Presumo, contudo, que tenha falecido em fins da década de 1880 ou em princípios da década seguinte e que tenha sido sepultado às margens do Vaza-Barris, na extinta capela do também extinto Engenho Roma, onde foram sepultados vários membros da família de sua esposa.

Fica a certeza de que os senhores do Rio Comprido, notadamente o capitão-mor das ordenanças Henrique Luís de Araújo Maciel e coronel José Guilherme da Silveira Telles, estão à espera de competentes biógrafos que, dispostos a sacudir o “pó dos arquivos”, estudem de forma mais sistemática as trajetórias desses aristocratas de alta patente, que em muito influíram na história de Sergipe e do Baixo Vaza-Barris. (continua)




*Publicado no Jornal da Cidade. Aracaju, 28/7/2013, p. 7.
**Samuel Albuquerque é professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br

BIBLIOGRAFIA:
HABILITAÇÃO para herança, movida pelo major Serafim Alvares d’Almeida Rocha em benefício dos herdeiros do comandante superior Barnabé Francisco Telles, 1857. Arquivo Geral do Judiciário, Fundo São Cristóvão/Cartório do 1º Ofício, caixa 12, número geral 25.
CORREIO Sergipense, edições de: 10 out. 1860 (p. 4); 1º dez. 1852 (p. 2-4).
NUNES, Maria Thetis. Sergipe provincial I: 1820-1840. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000. p. 25 e 173.
ECHO Liberal, 13 maio 1882, p. 2.
FREITAS, Anamaria Gonçalves Bueno de. Vestidas de azul e branco. São Cristóvão: GEPHE/NPGED, 2003.
JORNAL de Sergipe, 5 jun. 1880, p. 2.
VALLADÃO, Manuel P. de Oliveira. Mensagem dirigida á Assembléa Legislativa de Sergipe em 7 de Setembro de 1915. Aracaju: O Estado de Sergipe, 1915. p. 110-111.
 

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