sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O legado do poeta onomástico Manoel Ferreira - I

Manoel Ferreira. Foto: Thiago Fragata, 2009.
Thiago Fragata*

No dia 30 de julho, faleceu o Sr. Manoel Ferreira Santos (1922/2015), 93 anos, em sua residência localizada no centro histórico de São Cristóvão. Compareci ao velório que aconteceu no Museu Histórico de Sergipe. Os filhos aceitaram a última homenagem desta instituição que teve o pai como seu primeiro diretor. Entre os anos de 1960 e 1970, Manoel Ferreira geriu o museu instalado no antigo Palácio Provincial.

O padre Valtervan Correia Cruz afirmou que o Poder Executivo, se tivesse a ciência dos serviços prestados por esse cidadão ao município, decretaria luto oficial por 3 dias e conclamaria toda a cidade, seus estudantes a participar do funeral.

Os oradores resenharam a trajetória e o carácter do amigo, pai, avô, poeta, homem público e religioso que foi Manoel Ferreira Santos. O homenageado trabalhou na Fábrica Sam Christovam, aliás, chegou à cidade em 1935 para ser apontador no escritório da empresa. Fez carreira política a partir do operariado e população carente. Foi deputado estadual pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro); fundador-proprietário do Restaurante Candangos, que se tornaria a principal casa de shows da cidade nos anos 1960 a 1970; a última experiência na seara política foi uma candidatura ao governo do Estado em 1980. Como deputado estadual defendeu a instalação de curso ginasial em São Cristóvão e proteção das nascentes dos rios. Em meados da década de 1990, foi eleito o presidente do Alcóolicos Anônimos (AA), secção São Cristóvão, onde realizou mais uma importante contribuição à sociedade sancristovense.

Um fato desconhecido do público que compareceu as exéquias do poeta foi o seu papel na criação da marca Quarta cidade mais antiga do Brasil, como ficaria afamada São Cristóvão a partir de 1967.

As pesquisas indicam que, até a década de 1960, esse rótulo não existia, por essa razão não era divulgado nos meios de comunicação. Ele surge com Manoel Ferreira dos Santos, então diretor do Museu Histórico de Sergipe. Naquela época, José Calasans, Freire Ribeiro, Manoel Cabral, Sebrão Sobrinho e até Jorge Amado vivenciavam a antiga cidade: uns, a trabalho; outros, como exercício literário ou passeio. Irremediavelmente, visitavam o museu e eram ciceroneados pelo poeta grandiloquente com suas recepções. Manoel Cabral, escritor e companheiro de partido de Manoel Ferreira, recomenda aos turistas: “Guarde a tarde para o Museu e Manoel Ferreira.”

Voltando ao rótulo “quarta cidade mais antiga”, tudo começou num programa de rádio por volta de 1966. Manoel Ferreira foi divulgar a festa de aniversário do Museu Histórico de Sergipe e expressou que São Cristóvão era uma das primeiras cidades do Brasil. Nem todos aceitaram, a afirmação sempre despertou/desperta querelas bairristas. A interrogação se mantinha nas recepções de turistas e autoridades, ora ventilada por um leigo, ora por um intelectual, o que desconfortava o anfitrião.

O Sr. Manoel Ferreira rememora que seu estudo sobre a História de Sergipe deu-se com os conselhos e livros de Sebrão Sobrinho. Da prosa travada com o pesquisador itabaianense, teve a seguinte ideia: submeter a espinhosa questão ao Conselho Federal de Cultura, instância do Ministério da Educação. Assim feito, o caso foi apresentado por Hélio Viana, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), na sessão plenária de 24 de agosto de 1967.

Um ofício remetido pelo Secretário-Geral do Conselho Federal de Cultura, Manoel C. Bandeira de Mello, transcrevia o excerto do parecer final que foi recebido com entusiasmo pelas autoridades sergipanas. Afirmava: “... não temos dúvida em atestar ser a cidade de São Cristóvão a quarta cidade do Brasil. Somente a antecedeu a Cidade de Salvador, a de São Sebastião do Rio de Janeiro e Filipeia de Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa.”(1) Esse importante documento, penso, exibido pelas autoridades sergipanas como a última palavra sobre o assunto (governador, vice-governador, secretario de cultura do Estado rubricaram-no), não encerra a questão. Faz-se mister saber o que precisa uma cidade para receber esse título, ou dito de outra forma, o que definia em termos coloniais a cidade.

Grosso modo, o que distinguia vila e freguesia era a assistência espiritual dispensada pela igreja católica aos colonos. A cidade possuía Casa da Câmara e Cadeia, paróquia e o reconhecimento da Coroa. Assim, deu-se com Salvador em 1548 e as primeiras cidades embora não seja possível lastrear com documentos todos os casos. Sergipe, por exemplo, ressente-se da ordem enviada por Felipe II ao governador-mor da Bahia, Cristóvão de Barros, visando a colonizar o território. São Cristóvão e João Pessoa surgiram no período da União Ibérica (1580-1640), mantinha-se estreita relação com a Espanha.

Voltando ao tema central deste artigo, o mote de São Cristóvão “quarta cidade mais antiga do Brasil”, percebo que, independentemente do respaldo concedido em 1967, o mercado do turismo sergipano consolidou a marca em campanhas publicitárias. Inconteste, ele cumpre os requisitos da boa propaganda e se encontra relacionado de forma visceral ao nome de Manoel Ferreira, o poeta onomástico. (continua)


*Artigo publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, ano XLIV, n. 12.922, 1 de agosto de 2015,p. B-6.

**Thiago Fragata é poeta e historiador. Email: thiagofragata@gmail.com

Arquivo Particular de Manoel Ferreira dos Santos, São Cristóvão. Oficio do Secretario- Geral do Conselho Federal de Cultura, Manoel C. Bandeira de Mello, ao Diretor do Museu de Sergipe, Manoel Ferreira dos Santos. N. 141, 29 de agosto de 1967. Datilografado


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