quinta-feira, 22 de agosto de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (X)*

Antigo Matadouro Municipal, bairro Apicum-Merem, São Cristóvão. Foto: Samuel Albuquerque, 2013




Samuel Albuquerque**

O primeiro trecho da estrada oitocentista que ligava as cidades de São Cristóvão e Laranjeiras corresponde, basicamente, aos 5 quilômetros percorridos entre a Ponte Santa Cruz, no trevo de São Cristóvão, e a ponte sobre o Rio Comprido, vencendo 1,2 quilômetros da Avenida Irineu Neris e 3,8 quilômetros da SE-466.

A rodovia estadual SE-466, cuja denominação homenageia o político José Correia Santos Neto (Zezinho da Everest), é popularmente conhecida como Estrada de Rita Cacete, uma referência ao povoado por ela cortado em seu quilômetro 5. Vale mencionar que, logo após Rita Cacete, a rodovia perde o seu pavimento e segue em péssimas condições até a BR-101, perfazendo um total de 9,1 quilômetros.

Naturalmente, outras estradas para ela convergem ao longo do seu percurso. Esse é o caso das vias (sem pavimento, diga-se) que conduzem às seguintes localidades: Arame (quilômetro 0,9 – lado direito), Saco (quilômetro 1,8 – lado esquerdo), Gameleiro (quilômetro 2,2 – lado esquerdo) e Aningas (quilômetros 2,9 e 3,6 – lado direito). Além disso, ao lado direito da estrada, arrastam-se os desusados trilhos da Viação Leste Brasileiro, em grande medida ocultados pelo mato.

Da ponte sobre o Paramopama à ponte sobre o Rio Comprido, alguns elementos da paisagem são dignos de nota. Imediatamente após a Ponte Santa Cruz, desviando o nosso olhar para a Avenida Felix Pereira (à direita), avistamos as instalações da antiga Empresa Industrial São Cristóvão, fábrica de tecidos que, a partir da década de 1910, deu novo impulso à economia do município.

Nas memórias de Serafim Santiago, encontramos importantes referências à “colossal fábrica de tecidos à margem direita do rio Paramopama”, que, “sob a direção de abastados capitalistas que se associaram com a firma Andrade Chaves e Cia.”, “teve o assentamento da primeira pedra no dia 14 de agosto de 1912 e a inauguração a 4 de fevereiro de 1914” (Santiago, 2009, p. 117-118). O memorialista traduziu e registrou o sentimento dos cristovenses ante a inauguração daquela fábrica, fato que representava a interrupção da “decadência paulatina da pitoresca cidade e da apatia que dominava os seus habitantes” (Santiago, 2009, p. 118).

Inspirado em matérias veiculadas pela imprensa da época, Santiago registrou que, graças a inauguração da fábrica, “o cristovense já não descrê de si, nem se sentirá amesquinhado em face dos filhos da outra parte, porque se transformou graças ao milagre da indústria, neste gigante do presente – o operário”. E continua: “No seio de sua própria cidade, sem se afastar do remanso de suas ilusões e afetos, [o cristovense] encontra o trabalho que traz o conforto, regeneração e bem estar.” (Santiago, 2009, p. 119). Compreendemos, assim, o efeito causado pela “chegada do progresso” na autoestima da população de São Cristóvão. Destituída da condição de capital de Sergipe desde 1855 e tendo passado por um franco processo de decadência, a chegada da fábrica e da ferrovia representavam a ressurreição para uma sociedade moribunda.

Em 1923, quase dez anos após sua inauguração, a fábrica foi visitada pelo presidente do Estado. Segundo Serafim Santiago, Graccho Cardoso teria ficado impressionado com o que viu, atento ao fato de a empresa “dá trabalho diário a 297 mulheres e 104 homens, afora empregos outros, e tem a funcionar 250 teares, que dão o rendimento de 3:640,606 metros de fazendas.” (Santiago, 2009, p. 135).

Desde 2010, a sede da antiga fábrica abriga a Intergriffe’s São Cristóvão Indústria e Comércio de Confecções Ltda, do Grupo Intergriffe’s Nordeste. A análise das fotografias veiculados, em 1920, no “Álbum de Sergipe” indica que a estrutura básica do conjunto arquitetônico foi mantida. Contudo, uma série de intervenções descaracterizou o harmônico conjunto de prédios do início do século XX. Ainda assim, ele se destaca na paisagem da entrada da cidade e chama atenção por sua monumentalidade.

Seguindo pela Avenida Irineu Neris, depois de percorrer cerca de 800 metros desde a Ponte Santa Cruz, deparamo-nos com a fachada e as ruínas do antigo Matadouro Municipal, ao lado direito da via e defronte a Creche Ezilde Serra Pinheiro.

Conforme os registros sobre sua fachada, o prédio foi “reconstruído” na administração do prefeito José Pereira Dantas, na primeira metade da década de 1940. Diante dele, somos tentados a idealizar o restauro da monumental fachada e a reconstrução do seu interior. No mais, caso não fosse interessante reestabelecer um matadouro na localidade, poder-se-ia conferir usos ao prédio que atendessem possíveis demandas de instituições de ensino estabelecidas naquela avenida do bairro Apicum-Merem, como o Colégio Estadual Pe. Gaspar Lourenço e a Escola Estadual Luiz Guimarães.

Um problema ao qual já havíamos feito menção em artigo anterior voltou a roubar nossa atenção. Cerca de 200 metros após as ruínas do matadouro, passa sob a rodovia um córrego bastante poluído, indo ao encontro das águas do Rio Miranda. A imagem é deprimente. São dezenas de canos que, partindo das casas que avançam sobre o curso d’água, despejam esgoto doméstico diretamente no córrego. Essa é uma das principais máculas no entorno da cidade que é guardiã de um patrimônio da humanidade. (continua)



*Publicado no JORNAL DA CIDADE, Aracaju, 18 e 19 ago. 2013, caderno B, p. 6.
** Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br

Sequência de fontes/bibliografia utilizadas:
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 74, 117-120, 134, 135, 176 e 335.
SILVA, Clodomir de Souza. Album de Sergipe, 1820-1920. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1920. p. 280.
BASE CARTOGRÁFICA dos Municípios Litorâneos de Sergipe. [Aracaju]: PRODETUR-NE II/Ministério do Turismo, 2004 [ortofotocartas 691-778, 691-783, 684-778, 684-783];
ATLAS DIGITAL sobre recursos hídricos de Sergipe. Versão 2012-9. Aracaju: SRH/SEMARH/Governo de Sergipe, 2012. 1 DVD (camada Infraestrutura e subcamadas Rodovia Estadual e Rodovia Federal, dentre outras);
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].

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