quarta-feira, 7 de agosto de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (VIII)*

Ponte Velha ou Ponte Santa Cruz sobre o Paramopama, em São Cristóvão/SE, déc. 1940 (Acervo IPHAN)


Samuel Albuquerque**
 
Antes de deixar para trás o Engenho Rio Comprido e seguir viagem pela estrada oitocentista que ligava as cidades de São Cristóvão e Laranjeiras, algumas considerações...

Sem o socorro da Arqueologia Histórica, a reconstituição do trajeto entre a Igreja Nossa Senhora da Vitória e o início da estrada para às Laranjeiras foi possível graças aos registros legados por Serafim Santiago, em seu “Anuário Cristovense”. Os 500 metros do referido trajeto, descritos no primeiro artigo desta série, passavam pelas antigas Praça da Matriz, Rua de São Francisco, Ladeira de São Francisco, Praça do Mercado, Rua da Feira Velha e Ponte Santa Cruz. Grosso modo, o mesmo trajeto pode ser feito passando pelas atuais Praça Getúlio Vargas, Travessa Municipal, Ladeira do Açougue, Rua Marechal Deodoro, Travessa Dr. Carlos Menezes e Rua Dr. Graccho Cardoso. Habitualmente, só é possível percorrê-lo a pé, considerando o estreitamento da Ladeira do Açougue próximo a linha férrea e o sentido do trânsito de automóveis nas vias da Cidade Baixa.

Desde o ponto de partida, registra-se um “mundo de coisas” dignas de nota, a começar pelo lastimável estado de conservação da antiga sede da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, na ponta noroeste da Praça Getúlio Vargas, esquina com a Travessa Municipal (antiga Rua de São Francisco). Também denominado Palácio Governador Dr. Augusto do Prado Franco, o prédio foi construído entre 1932 e 1951, substituindo o “elegante e moderno” sobrado que pertenceu ao comerciante português Antônio Fernandes de Souza (Santiago, 2009, p. 275).

A íngreme e sinuosa Ladeira do Açougue (antiga Ladeira de São Francisco) é uma das vias mais inspiradoras de São Cristóvão. Há séculos ela une as ditas cidades alta e baixa e dela se tem uma ampla tomada da malha urbana, que se dilata para noroeste e norte. No sentido horário, avistamos os tanques que, substituindo os antigos ternos de salinas, servem à prática da aquicultura no bairro Apicum-Merem (antigos apicuns nas baixas do Sítio Merem). Em seguida, a ocupação desordenada do Alto da Divinéia (antigo Sítio Merem de Cima) e do Morro da Favela (com sua agigantada imagem do Senhor dos Passos) prende nossa atenção.

A Ladeira do Açougue foi recentemente socorrida pelo Programa Monumenta do IPHAN/Ministério da Cultura. A obra de requalificação foi concluída em julho de 2012 e algumas práticas populares têm conferido um colorido especial àquela artéria. As donas de casa que por ali residem costumam esticar seus varais nas bordas da ladeira. O sol ajuda a secar rapidamente e o vento movimenta as toalhas de cama e mesa que, com seus múltiplos tons, enchem de vida a paisagem.

As memórias de Serafim Santiago sugerem que, até princípios do século XX, a Ladeira do Açougue era menos sinuosa e bifurcava-se em sua base, dando acesso às ruas que levavam ao Porto São Francisco e a Praça do Mercado (atuais ruas Porto São Francisco e Marechal Deodoro). A instalação da ferrovia, contudo, provocou drásticas mudanças na paisagem da cidade. Uma delas pode ter sido a mutilação da secular ladeira, em princípios da década de 1910.

Para além do barulho e do grande movimento da zona comercial, a mutável Cidade Baixa reserva algumas surpresas aos olhares mais atentos. Na Rua Marechal Deodoro, ao lado direito do Mercado Municipal Lauro Rocha de Andrade e separados por uma viela, estão dois interessantes prédios da primeira metade do século passado. O primeiro deles, segundo depoimentos colhidos pelo historiador Thiago Fragata, pertenceu ao comerciante de origem italiana Baltazar Mandarino, que ali inaugurou uma loja de tecidos. Posteriormente, o prédio foi alugado a outros empreendedores locais, que diversificaram as atividades comerciais do estabelecimento. O segundo prédio é o antigo Talho de Carne Verde, inaugurado em 1931 e que, possivelmente, substituiu a primitiva Casa do Açougue, arruinada em princípios do século XX (Santiago, 2009, p. 108). Nos dois casos, restauro e funcionalidade se fazem urgentes.

Seguindo pela Rua Marechal Deodoro e tomando, em seu último trecho, a Travessa Dr. Carlos Menezes, alcança-se a Praça Dr. Lauro de Freitas, onde está o combalido Terminal de Integração Prefeito Gileno Barreto (antiga Estação Rodoviária Erundino Prado Filho), e o início da Rua Dr. Graccho Cardoso (antiga Rua da Feira Velha), que segue no sentido norte até a Ponte Santa Cruz. Nesse trecho, chama nossa atenção a antiga Estação Ferroviária de São Cristóvão, por trás do terminal de ônibus; o nicho e a ponte Santa Cruz, ao final da Rua Graccho Cardoso.

Cerca de 100 metros antes da Ponte Santa Cruz, a Rua Dr. Graccho Cardoso é cortada pelo córrego (com feições de canal sanitário) que no passado era conhecido como Riacho Cachorro, um modesto afluente do Paramopama notado e descrito por Clodomir Silva, em seu “Álbum de Sergipe” (Silva, 1920, p. 280).

O nicho conhecido como Santa Cruz da Ponte é um bem que singulariza a paisagem da Cidade Baixa. Preservado por moradores da Rua Dr. Graccho Cardoso, ele existe, ao menos, desde a década de 1880. Contudo, registros fotográficos do acervo do IPHAN/SE indicam que a singela casa de orações foi reedificada, ainda mais próximo à ponte e ao Paramopama, em meados do século XX.

Serafim Santiago, ao descrever os festejos religiosos do mês mariano em São Cristóvão, registrou: “começavam, logo no dia 25 de abril, as novenas de Santa Cruz, com grande animação em toda a Cidade e seus lugares vizinhos, principalmente as que com a festa se celebram no nicho que fica a direita da ponte de pedra ao sair da cidade, no fim da rua denominada ‘Feira Velha’”. Informou, ainda, que “naquela pequena casa de orações, em alguns anos até Sermão foi proferido pelo conhecido orador sacro vigário Barroso, havendo nas noites de novena, conforme o gosto dos mordomos ou novenários, fogos de artifícios, esplendida iluminação e leilão” (Santiago, 2009, p. 232 e 233).

Quanto à “ponte de pedra e cal na saída da cidade”, a mesma que ao final da Rua Dr. Graccho Cardoso passa sobre o Paramopama, sabemos ter sido reedificada ainda na primeira metade do século XIX, durante a “administração esclarecida” do presidente Manuel Clemente Cavalcanti de Albuquerque (1798-1826). Conforme Maria Thetis Nunes, “conhecendo o quanto o progresso econômico sergipano estava na dependência de estradas para o escoamento da produção agrícola, especialmente a açucareira, [o presidente] planificou e construiu algumas, e também pontes, reedificando a que cruzava o rio Paramopama” (Nunes, 2000, p. 141).

Outra restauração importante na Ponte Santa Cruz foi realizada, ao que tudo indica, nas primeiras décadas do século XX. Segundo Serafim Santiago, a ponte, “formada com duas arcadas e tendo dois assentos laterais apropriados ao descanso dos viajantes”, teria sido acudida pelo intendente Fausto Francisco dos Santos, “que procurou bons pedreiros, mandou preparar argamassa com azeite de peixe e meteu mãos a obra na referida ponte, que já se achava em princípio de ruína” (Santiago, 2009, p. 109). Atualmente, a beleza da antiquíssima ponte é ocultada pelo avanço de ocupações irregulares nas margens do Paramopama. Rio e ponte estão espremidos entre prédios residenciais e comerciais da caótica Cidade Baixa. (Continua)



*Samuel Albuquerque é professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br
**Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 3 ago. 2013, caderno B, p. 6.

Bibliografia:
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense... São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 77-79, 108, 109, 117, 232, 233, 275, 317, 328, 329 e 335.
SILVA, Clodomir de Souza. Coronel José de Faro. In: _____. Album de Sergipe, 1820-1920. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1920. p. 280.
NUNES, Maria Thetis. Sergipe provincial I: 1820-1840. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000. p. 141.
BASE CARTOGRÁFICA dos Municípios Litorâneos de Sergipe. [Aracaju]: PRODETUR-NE II/Ministério do Turismo, 2004 [ortofotocarta 691-778];
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].















































































































































































































































































































































































































































































































































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