terça-feira, 13 de agosto de 2013

De São Cristóvão ao Rio Comprido (IX)*

Vista aérea de São Cristóvão e do estuário do Rio Miranda, onde deságua o Paramopama (Marco Galvão, 2007)


Samuel Albuquerque**


Os testemunhos legados por Serafim Santiago nos levam a refletir sobre um problema ambiental que se acentua cada vez mais em São Cristóvão: a degradação dos rios.

Ao concluir que o arruinamento da Ponte Santa Cruz, em princípios do século XX, era resultado da parca vigilância sobre práticas irregulares de pesca, o memorialista registrou que “pessoas do povo faziam pescarias às horas mortas da noite, por baixo das arcadas [da ponte], de onde colhiam peixes moradores nas fendas ou buracos feitos por estas criaturas nas pedras que serviam de base da referida construção”. Os populares empregavam instrumentos de ferro “a fim de extrair dos mencionados buracos o produto do seu mal entendido trabalho, sem lhe advertir a consciência o mal que estavam praticando” (Santiago, 2009, p. 109).

Partindo da observação de Santiago, concluímos que, em menos de um século, a população cristovense conseguiu transformar o rio sob a ponte Santa Cruz em um esgoto a céu aberto. Dificilmente, um observador atento ao estado do Paramopama cogitaria a possibilidade de saborear frutos que, por ventura, dele saíssem, tamanha a má impressão causada pelo lançamento de lixo e esgoto domésticos nesse curso d’água.

Segundo o historiador Thiago Fragata “o valor histórico dispensado à cidade [de São Cristóvão] é inversamente proporcional ao conhecimento da sua geografia, dos seus povoados, mesmo para os sancristovenses” (Fragata, 2007, p. 6). Plenamente de acordo, abrirei parênteses para tratar de uma questão, no mínimo, nebulosa.

O curso d’água que passa sob a Ponte Santa Cruz e que, historicamente, foi identificado como Rio Paramopama é, na verdade, um tributário do Rio Miranda e, indiretamente, do Vaza-Barris. O Miranda nasce à noroeste de São Cristóvão, nas imediações do povoado Aningas, e segue no sentido sudeste, percorrendo cerca de 12 quilômetros até desaguar no Vaza-Barris.

As águas do Paramopama e de outros afluentes vão ao encontro do Rio Miranda na chamada Barra da Cidade de São Cristóvão, estuário que pode ser apreciado do alto da Ladeira do Porto da Banca, à sombra do Convento do Carmo (início da rua denominada, oficialmente, como Francisco Oliveira Silva). Em terra firme, o Miranda é o rio que passa sob a rodovia estadual SE-466 (1,4 quilômetros após o seu início), pouco antes do povoado Colônia Miranda.

Como cheguei a tais conclusões? Analisando ortofotocartas da “Base cartográfica dos municípios litorâneos de Sergipe” e mapas do “Atlas digital sobre recursos hídricos de Sergipe”, materiais que podem ser consultados junto a Superintendência de Estudos e Pesquisas da Secretaria de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão (SUPES - SEPLAG/SE) e a Superintendência de Recursos Hídricos (vinculada à Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos – SEMARH/SE). Esses documentos divergem do que foi divulgado por autores como o padre Inácio Antonio Dormundo (em 1826), Manuel dos Passos de Oliveira Telles (em 1903), Clodomir de Souza Silva (1920), Serafim Santiago (em 1920) e Maria Thetis Nunes (em 1978 e 2000), dentre outros. Aliás, de acordo com os mapas da Superintendência de Recursos Hídricos, o Rio Paramopama não é aquele que corta a Cidade Baixa de São Cristóvão e sim aquele identificado pelos cristovenses como Rio Miranda.

Por respeito à tradição, julgo ser melhor continuar identificando o curso d’água que corta a Cidade Baixa como Paramopama, tendo, porém, a consciência de que ele é um afluente do Rio Miranda, sendo esse um dos principais tributários da margem esquerda do Vaza-Barris. (Continua)



*Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, 11 e 12 ago. 2013, caderno A, p. 7.
**Samuel Albuquerque - Professor da UFS e presidente do IHGSE. Email: samuel@ihgse.org.br


Bibliografia:
SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Christovão. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p. 109.
FRAGATA, Thiago. Quantos povoados tem São Cristóvão?. Jornal da Cidade, Aracaju, Caderno B, p. 6, 27 de fevereiro 2007.
BASE CARTOGRÁFICA dos Municípios Litorâneos de Sergipe. [Aracaju]: PRODETUR-NE II/Ministério do Turismo, 2004 [ortofotocartas 691-778, 691-783, 684-778, 684-783].
ATLAS DIGITAL sobre recursos hídricos de Sergipe. Versão 2012-9. Aracaju: SRH/SEMARH/Governo de Sergipe, 2012. 1 DVD (camada Infraestrutura e subcamadas Rodovia Estadual e Rodovia Federal, camada Hidrografia e subcamada Bacia Hidrográfica do Vaza-Barris).
DORMUNDO, Ignacio Antonio. Noticia topographica da Provincia de Sergipe, redigida no anno de 1826... In: NUNES, Maria Thetis. Sergipe provincial I: 1820-1840. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000. p. 372-373 (baseada em transcrição de M. A. Galvão, preservada na Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional).
TELLES, M. P. Oliveira. Sergipenses (Escriptos Diversos). Aracaju: Typografia d’O Estado de Sergipe, 1903. p. 108.
SILVA, Clodomir de Souza. Album de Sergipe, 1820-1920. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1920. p. 61, 62, 280.
NUNES, Maria Thetis. Sergipe provincial I: 1820-1840. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000. p. 141.
FRAGATA, Thiago. Onde nasce o Paramopama? (I). Jornal da Cidade, Aracaju, 31 out. 2008. Caderno B, p. 6, Opinião.
_____. Onde nasce o Paramopama? (II). Jornal da Cidade, Aracaju, 8 nov. 2008. Caderno B, p. 6, Opinião.
ANEXO I da Proposição de Inscrição da Praça São Francisco em São Cristóvão/SE na Lista do Patrimônio Mundial. [Aracaju]: Governo de Sergipe/Prefeitura de São Cristóvão/IPHAN, [2010].

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