segunda-feira, 16 de novembro de 2009

RIO PARAMOPAMA: HISTÓRIA, PROBLEMAS E SOLUÇÕES*

Painel pintado nas imediações do rio Paramopama pelo Pelotão Ambiental do Colégio Estadual Padre Gaspar Lourenço (NEA), 2008.


Cleverton Costa Silva**

A historiografia sergipana aponta duas localizações iniciais de São Cristóvão antes da sua fixação definitiva, ambas em Aracaju, primeiro às margens do rio Sergipe e posteriormente às margens do rio Poxim no período entre 1590 e 1607. É ao ano de 1607 que os historiadores atribuem a fixação de São Cristóvão ao seu sítio atual, a região do Monte Una e do rio Paramopama.

Neste contexto, o Monte Una permitiu o desenvolvimento urbano nos moldes europeus, com os representantes do poder civil e religioso na parte alta, e a região comercial e popular na parte baixa. Outro forte motivo para a ocupação definitiva da região foi a existência do rio Paramopama, afluente do rio Vaza-Barris e sua temida barra, que, regido pelas marés, dificultava o acesso de invasores.

O Paramopama, neste momento, demonstrava a sua importância não apenas por dificultar a entrada de inimigos dos colonizadores, mas provia os primeiros habitantes com rica alimentação. Barleus, cartógrafo holandês, já comentava que a pesca era famosa na região e estendia-se até próximo ao mar. Em 1808, o Padre Marcos Antônio de Souza (1771-1842) também evidencia a abundância da pesca da região ao mencionar os vários mariscos que se criavam nos mangues, assim como os robalos, carapebas, piaus, tainhas e curimãs nos rios.

Tais características, fortemente atribuídas ao rio Paramopama, alimentam também uma curiosa discussão sobre a toponímia, ou seja, o significado da palavra Paramopama. São duas as versões conhecidas para o nome do rio: uma de Teodoro Sampaio (1885-1937), que interpreta a palavra como “o mar embravecido”, talvez se referindo às violentas cheias ainda hoje presenciadas pela comunidade; a outra versão é de Armindo Guaraná (1848-1924), que decompõe a palavra em pirá (peixe) e mapoam (iludir), resultando em algo como “o peixe enganou”, interpretação mais difícil de compreender. Embora discordassem entre si do significado, ambos apontaram o termo como de raiz indígena.

Na primeira metade do séc. XIX, o movimento comercial e de serviços era maciço no rio Paramopama, especialmente nos portos São Francisco, da Banca e das Salinas, entre outros, ratificando o papel vital da parte baixa da cidade. Porém, em 17 de março de 1855, São Cristóvão deixa de ser Capital de Sergipe por decisão do Presidente da Província, Inácio Barbosa, influenciado pelos interesses de políticos e empreendedores da cultura canavieira no vale da Cotinguiba, como era conhecida a bacia do Rio Sergipe.

Segundo Inácio Barbosa, São Cristóvão não possuía estrutura portuária, e o rio Paramopama não permitia a entrada de grandes embarcações. Assim, pela necessidade de Sergipe se lançar no mercado internacional e devido às limitações de navegabilidade do Paramopama, inicialmente essenciais na formação e organização do território sergipano, o rio foi apontado como o entrave maior para a permanência de São Cristóvão como Capital.

Desprovida do prestígio de ser Capital de Sergipe, São Cristóvão inicia o século XX com o testemunho de fé de Serafim Sant’iago, que publica o Anuário Cristovense (1910) onde, evocando a memória dos mais antigos, relata o achado da Imagem do Senhor dos Passos nas águas do Paramopama, fato que originou a secular procissão.

Na década de 1910, São Cristóvão retoma o seu desenvolvimento e inicia-se na era fabril, que até a década de 1970 impulsionou a economia local, garantiu o sustento de várias famílias e influenciou o crescimento da cidade. O rio Paramopama teve importância primária para a instalação desta atividade, pois pelo rio escoava para a Fábrica Sam Christóvam a lenha para os fornos e o algodão através de canoas de tolda e saveiros. Do rio, a fábrica ainda extraía energia elétrica e utilizava a água do manancial da Prata no processo produtivo.

Com o fechamento das fábricas Sam Christóvam e São Gonçalo, o desemprego assolou a cidade, foi um segundo ciclo de decadência. Para muitas famílias, viver do rio era a única opção, o rico estuário do rio Paramopama acolhia mais filhos, além dos pescadores e marisqueiras já organizados na Colônia Z2. Hoje, a população de São Cristóvão busca trabalho empregando-se no serviço público e nas empresas de comércio e serviços de Aracaju, alimentando também esperanças no desenvolvimento do turismo e no retorno das indústrias para o município.

É impossível pensar a prosperidade de São Cristóvão sem ligá-la ao rio Paramopama. Apesar de seus aproximados 18km de extensão, o rio teve papel ativo em todas as fases pela qual a cidade passou. Como recurso natural, o Paramopama foi rica fonte de alimentação, saciava a sede da população através de fontes como as da Bica, da Prata, São Gonçalo, da Vila, entre outras.

No passado, as matas e mangues que protegem o rio Paramopama forneceram muita lenha e madeira, seja para a construção naval, edificações ou uso cotidiano. Atualmente, embora não haja uma demanda tão grande de consumo de lenha e madeira, a extração desordenada destes recursos contribui bastante com a degradação ambiental no Paramopama. Somam-se a isto graves problemas ambientais na zona urbana e rural abrangidas pelo rio, a exemplo da poluição por agrotóxicos, retirada de areia, lixo e esgotos sem tratamento.

Desde o século XIX, o crescimento desordenado da cidade atingiu em cheio o rio Paramopama, que teve as suas margens ocupadas por residências de habitantes da parte baixa da cidade, fazendo a população ficar ainda mais vulnerável às enchentes.

O QUE FAZER PELO RIO PARAMOPAMA?

O direito ao ambiente sadio e ecologicamente equilibrado para as presentes e futuras gerações é garantido pela Constituição Federal de 1988, em seu Art. 225. Porém, para usufruir deste direito, cada cidadão deve pensar e agir em função do bem-estar coletivo, principalmente revendo os seus hábitos como indivíduo e discutindo com a sociedade as melhores alternativas para as nossas comunidades.

O rio Paramopama, patrimônio essencial para a origem e o desenvolvimento da sociedade sergipana, não pode sofrer desprezo e degradação, pois qualquer agressão ao rio Paramopama e todo o seu ecossitema associado se voltará contra os pescadores, marisqueiras, comerciantes e cada cidadão sancristovense. Assim, a sociedade de São Cristóvão deve ser sábia ao pensar e enérgica ao agir.

Neste contexto, cada ser humano é um educador. Os professores devem ser sensíveis para aprender com seus alunos e pais de alunos, mas também prepará-los para a cidadania, estimulando a participação em processos de decisão e reivindicação. Outro desafio é trazer a realidade do rio Paramopama e seus diversos personagens para a sala de aula, buscando o apoio de estudiosos e pessoas ribeirinhas ou que tiram sustento e convivem com o rio para permitir que a discussão e o empoderamento das comunidades encontrem a escola como um dos seus lugares cativos.

Por fim, é dever de todos nós pressionar o poder público para trabalhar pela conservação do rio Paramopama, buscando a sustentabilidade, mas também sensibilizar, protestar e apoiar ações e mudanças de atitude em prol do Paramopama, assim como lutar pela prosperidade econômica e o bem-estar socioambiental em nosso município. Neste sentido, iniciativas como a construção de Agendas 21 escolares e municipal, assim como a aprovação do Plano Diretor e o engajamento da população na obtenção do título de Patrimônio da Humanidade para São Cristóvão podem ser frentes muito importantes para se alcançar a sustentabilidade nesta querida cidade.


* Texto-base da palestra proferida por Cleverton Costa na 5a. edição do Projeto São Cristóvão: conhecendo nossa História, dia 14 de novembro de 2009.
** Técnico em Turismo e Tecnólogo em Gestão de Turismo pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe – IFS (antigo CEFET); pós-graduando em Didática e Metodologia do Ensino Superior na Faculdade São Luis de França; integrante da Comissão Pró-candidatura da Praça São Francisco a Patrimônio da Humanidade; Membro do Coletivo Jovem de Meio Ambiente de Sergipe. E-mail: clevertonsilva@gmail.com

REFERÊNCIAS DE PESQUISA

FRAGATA, Thiago. Procissão dos Passos em São Cristóvão/SE. Senhor dos Passos em todos os passos. Aracaju: J. Andrade; Banco do Nordeste, 2006. p. 21-5.
GRUPO DE RESTAURAÇÃO E RENOVAÇÃO ARQUITETÔNICA E URBANA. Plano urbanístico de São Cristóvão – vol. 2. Salvador: UFBA, 1980.
NUNES, Maria T. Aspectos históricos da Cidade de São Cristóvão. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, nº 32, p. 129-33, 1993-1999.
SAINT-ADOLFE, J. C. R. Dicionário da província de Sergipe. Francisco José Alves; Itamar Freitas (orgs.). São Cristóvão: UFS/ Fund. Oviêdo Teixeira, 2001.
SANTOS, Everton M. de O. Degradação ambiental na bacia do Rio Paramopama no município de São Cristóvão em Sergipe (BRASIL). 60 p. Monografia (Especialização) - Núcleo de Estudos e Pós-Graduação em Recursos Naturais – NEREN/DEA – Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2007.
SILVA, Cleverton C. Águas fluviais e o ecoturismo em Sergipe: possibilidades no rio Paramopama, em São Cristóvão. 125p. (Monografia CEFET/CTH), 2008.
SILVA, José L. O surgimento da indústria e do operário têxtil em São Cristóvão: (1912-1935). (Monografia) Universidade Federal de Sergipe, 2002.
SOUZA, Marcos A. Memória sobre a Capitania de Sergipe – ano de 1808. Aracaju: 2005.

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